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Daddy Issues

Dizer que alguém tem “Daddy Issues” é uma maneira um pouco depreciativa de aludir a um desejo muito compreensível:

– Ter um pai que é forte e sábio, que é sensato e gentil.

Talvez com alguns defeitos, mas sempre justo e, principalmente, sempre do nosso lado.

É muito compreensível querer ter alguém assim nas nossas vidas, especialmente em momentos difíceis.

Na primeira infância somos particularmente indefesos e necessitamos de protecção.

Somos frágeis e não conseguimos entender o mundo. À nossa volta tudo é novo e fora do nosso controle.

A “fome” de um pai é – nas circunstâncias – totalmente natural.

Um homem adulto, como facilmente se pode compreender, é impressionante para uma criança pequena.

Parece que sabe tudo: a capital da Nova Zelândia, como conduzir um carro, como dizer algumas palavras numa língua estrangeira, como descascar um abacate.

Vai para a cama misteriosamente tarde e levantam-se antes de nós.

Na piscina podemos colocar os braços ao redor do seu pescoço e descansar nas suas costas.

Ele leva-nos nos seus ombros e ajudam-nos a tocar o tecto. É muito além de surpreendente – quando se tem 4 anos…

É muito compreensível desejar ter um pai forte e sábio, sensato e gentil.

O paradoxo dos “daddy issues” é que aqueles que os têm são  (quase sempre) pessoas que não tiveram pais muito bons quando eram pequenos.

Talvez o pai fosse forte, mas em última análise, cruel, intimidador ou desinteressado.

Talvez ele estivesse mais interessado noutro irmão ou no seu trabalho.

Talvez ele estivesse mais afastado, saísse de casa depois de um divórcio ou tenha morrido jovem.

O anseio adulto por um pai não é o resultado de ter tido um bom pai na infância, mas uma consequência de sentimentos de abandono.

O anseio por um pai pode inclinar-nos para alguns padrões de comportamento complicados.

Por mais maduros e cépticos que possamos ser na maioria das áreas, em relação à ideia de protecção masculina permanecemos um pouco como a criança pequena que nós fomos, pois não nos foi permitido amadurecer nessa área.

Secretamente ansiamos por um homem que possa cumprir o papel que ficou por desempenhar.

Ele vai tomar conta de nós. Ele vai tomar decisões, vai ser forte e certeiro, e fazer os nossos problemas desaparecerem.

Ele vai ficar com raiva e agressivo com quem nos faz mal; Ele terá orgulho em nós e amar-nos como nós somos.

A nossa necessidade faz com que procuremos um pai nas amizades, no trabalho e, não menos importante, na política.

O anseio por um pai pode inclinar-nos para alguns padrões de comportamento complicados.

O perigo é que esses “pais” podem, no final, prejudicar gravemente a nossa confiança, pois ninguém tem o poder de apaziguar o tipo de anseios que trazemos.

Eles podem saber muito bem o que queremos e, ingenuamente ou cinicamente prometer preencher essas necessidades, mas gradualmente (por vezes demasiado tarde) percebemos que eles têm mil defeitos, como todos nós.

Podemos perceber que eles não têm uma atitude assim tão nobre. Que os nossos inimigos não se foram.

Que eles não nos podem ajudar. Que não há de facto dinheiro suficiente no mundo para fazer o que prometeram. E que – na verdade – eles realmente não nos amam.

A fantasia da figura “pai” da idade adulta não é de facto um bom pai por uma razão:

– Verdadeiramente, os bons seres humanos sabem que não são tão poderosos e estão felizes em admitir o facto de forma clara e honesta, logo que estamos prontos para receber a notícia – o que acontece normalmente quando temos cerca de doze anos de idade e conscientes de novos poderes e capacidades.

Um bom pai (além dessa idade) não finge ser todo-poderoso.

Confessa que não pode resolver todos os nossos problemas e não pode magicamente salvar-nos de uma infinidade de perigos, não importa o quanto eles o desejem.

O bom pai decepciona-nos logo que somos fortes o suficiente para suportar a realidade.

Por amor, eles desfazem a ideia de que poderia haver um pai perfeito e ideal. Eles tentam o melhor que podem para nos ajudar a crescer.

Secretamente ansiamos por um homem que possa cumprir o papel que ficou por desempenhar.

Se encontrarmos alguém que tem “daddy issues”, a tentação é dizer-lhes para “crescer”, gozar com eles e – em particular – brincar com a figura “daddy” com a qual se podem ter identificado.

Esta não é uma estratégia muito sábia nem muito amável.

Simplesmente tende a enraizar a devoção – porque, sempre que somos atacados, naturalmente, sentimos mais do que nunca a necessidade de protecção de um pai idealizado.

O que realmente precisamos para ultrapassar os “daddy issues” é algo mais parecido com as acções de um pai genuinamente bom:

– Alguém que verdadeiramente reconhece o nosso sofrimento e os nossos medos, que profundamente quer o que é melhor para nós e não é relutante em dizer isso.

Mas que ao mesmo tempo – por amor – quer ajudar-nos a aceitar um mundo confuso e decepcionante.

Um homem que – por amor – nos encorajará a sermos independentes e, especificamente a não fantasiar que qualquer um, por mais imponente que seja, pode fazer o impossível.

Os bons paizinhos nos permitem suportar a verdade de que, no final, não existem “daddys”.

Traduzido e adaptado por Pedro Martins
a partir de Alain de Botton

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Psicoterapia vs. Fast-Therapy

Psicoterapia versus Fast-Therapy

Como terapeuta sou procurado por pessoas que têm um problema concreto para resolver, outras que se encontram num sofrimento agudo, mas também sou contactado por muitas que não estão satisfeitas com a forma como a vida corre.

São pessoas que tendo condições para ter uma vida melhor, não conseguem usufruir das relações afectivas, do estatuto profissional conquistado ou da situação financeira desafogada. Neste caso procuram na psicoterapia ajuda para compreender o seu mal-estar, o que está “errado” com elas.

Também há quem procure na terapia uma forma rápida de livrar-se do mal-estar. Na versão fast-therapy, não há muito espaço para questionar nem para compreender. Desejam libertar-se com a maior rapidez e de preferência, sem reflexão, daquilo que as faz sofrer.

Bastam cinco minutos para enumerarmos várias contrariedades, receios e angústias que ultrapassámos. Coisas que precisaram de tempo. Coisas que fazem da vida, aquilo que ela é, e, de nós, aquilo que somos.

O meu pai guardava com algum zelo uma bola de futebol que trazia da sua adolescência, até que um dia, muito menos zeloso, entre chutos e cabeçadas, cheguei a casa sem ela. Não me disse grande coisa, mas a tristeza nos olhos dele perdurou em mim uma eternidade. A culpa desmesurada que sentia ultrapassava a dimensão do que uma criança deve sentir numa situação daquelas. Provavelmente, a culpa não vinha só da perda da bola, mas era a parte mais visível.

Se pensarmos porque nos sentimos culpados mais facilmente ultrapassamos os sentimentos de culpa. Quando deixamos de nos interrogar estamos a paralisar o processo contínuo de crescimento, e a perder a oportunidade de retocar aspectos da nossa personalidade.

Aquela bola não volta mais, mas poder olhar para o meu pai sem me sentir culpado, poder jogar com ele com outra bola, – que não substitui a antiga, mas que está investida do mesmo afecto -, permite que o “jogo” possa continuar. Após um trambolhão, levantarmo-nos e voltar-mos ao jogo, é tudo o precisamos.

 

masturbação

Masturbação (?)

Recentemente, em casa de uns amigos, passou-se o seguinte:

O filho deles andava aos saltos de um lado para o outro, mas a mão, raramente se desprendia dos calções.

Não estará com vontade de fazer chichi, alguém perguntou. Descontraidamente, o pai respondeu, “está entretido…”

A manipulação dos órgãos genitais está associada à masturbação, mas para ser considerada masturbação falta o essencial, a fantasia.

A masturbação com um verdadeiro significado sexual é praticada em segredo, às escondidas e não no meio da sala onde todas as pessoas podem ver.

Os pais apercebem-se do que está acontecer e, felizmente, a maioria faz vista grossa à exploração que a criança faz do corpo.

Naturalmente, descobre que há partes mais agradáveis que outras.

Provavelmente, passa mais despercebido, mas é habitual encontrar-se crianças entretidas com o lóbulo da orelha ou a fazer caracóis com o cabelo.

Destituir de qualquer tipo de significado a manipulação dos genitais é cair no oposto.

Esta exploração passageira do corpo liga-se com emoções e fantasias vagas que prepara a sexualidade adulta.

Nos adultos a vida sexual infantil está reprimida, esquecida, sendo que muitos ficam angustiados com esta fase dos seus filhos, e são excessivamente severos em relação a este comportamento.

É importante que os pais/educadores possam entender e aceitar esta fase como fazendo parte do desenvolvimento, e preparação para uma vida sexual adulta e satisfatória.

Um entristecido adeus à infância. Pedro Martins Psicoterapeuta - Psicoterapia

Um Entristecido Adeus à Infância

Crescer é abdicar dos sonhos de infância e aceitar o nosso passado com todas as imperfeições que possa ter tido. É viver entre um entristecido adeus à infância – ou seja, a si mesmo e aos objectos do passado – e à superação gradual, ansiosa e esperançada, de muitas barreiras até à entrada no desconhecido mundo da vida adulta.

 

Na adolescência dá-se um corte com as ligações da infância e com a dependência dos pais.

 

O jovem estabelece novos vínculos e adquire capacidade para novas experiências afectivas e sexuais. Desidealiza as figuras parentais e procura novos modelos exteriores.

Na adolescência – onde se vivenciam estados afectivos de luto e paixão – dá-se um corte com as ligações da infância e com a dependência dos pais.

Para além da mudança de objecto de amor, há também mudança de objectivos.

Os interesses deixam de ser quase exclusivamente narcísicos (característicos da infância) para passarem a ser sociais.

O desejo de parar o tempo, a mudança, pode ser considerada uma excepção, que se deve, essencialmente, a uma incapacidade de enfrentar o novo.

No desenvolvimento normal, em contraposição à tendência de manutenção do estado original de fusão, há um impulso à diferenciação e individuação que visa a aquisição e estabelecimento da identidade.

Impossibilitado da fazer a “passagem”, o jovem em desenvolvimento fica amarrado às coisas conhecidas e controláveis (próprias do universo infantil) que produzem um sentimento de segurança.

 

No desenvolvimento normal prevalece a expectativa de uma independência com realizações pessoais e prazeres por satisfazer.

 

Aqueles que não podem desfrutar das coisas transitórias da vida (como acontece na evolução), perder umas para se ganhar outras, são os que na sua história pessoal sentiram as mudanças de forma catastrófica, ao ponto de predominarem os sentimentos de angústia e vivências de perda.

Perante o choque entre forças progressivas e regressivas prevalece a expectativa de uma independência com realizações pessoais e prazeres por satisfazer ao abrigo de uma genitalidade crescente e desejante como impulso para a independência e liberdade.

O desejo que a criança tem de ocupar o lugar do adulto (o lugar entre os adultos) pode finalmente ser realizado, elaborando os sentimentos de perda e deixando-se capturar e fascinar pelos encantos do novo.

sidade-infantil-Pedro Martins Psicoterapeuta - Psicoterapia

Obesidade Infantil

Uma atitude de superprotecção das crianças pode conduzir à ansiedade e, consequentemente, à obesidade pelo consumo de alimentos como procura de segurança, avançou hoje um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).

Os resultados preliminares de um estudo desenvolvido por investigadores da FMUP indicam que as crianças, “sobretudo as meninas”, que sejam educadas por pais superprotectores e “demasiado zelosos, podem ser mais propensas ao desenvolvimento da obesidade”.

De acordo com os investigadores, a atitude superprotectora dos pais leva a que as crianças tenham a imagem de um “mundo ameaçador”, sentindo ansiedade e tendo, consequentemente, “um aumento de cortisol, a hormona do stress”.

Os casos, classificados como “vinculação insegura” pelos especialistas, poderão ter “efeitos menos positivos” no desenvolvimento das crianças, levando-as a uma procura de segurança através de “conforto em actos básicos”, como a comida ou o bem-estar emocional junto de alguém.

“Os dados sugerem que, quando existe vinculação insegura, os rapazes tendem a exteriorizar o comportamento, tornando-se agressivos, por exemplo, mas as meninas parecem internalizar as emoções, comendo”, explicou Inês Pinto, estudante do programa Doutoral em Metabolismo da FMUP e investigadora principal do estudo.

A investigadora adiantou que os níveis elevados de stress sentidos pelas meninas leva a que não consigam ter sucesso quando sujeitas a dietas, visto que a comida é “a forma de obterem uma sensação de conforto e segurança”.

De acordo com a investigadora, os pais devem procurar ajuda para as meninas que tenham excesso de peso e uma personalidade introvertida, especialmente nos casos em que a alteração da dieta não surte qualquer efeito, mencionando ainda que os profissionais envolvidos terão que estar alerta para um possível “sofrimento não visível, que tem de ser observado por um especialista em saúde mental”.

O estudo foi orientado pelo director do Departamento de Neurociências Clínicas e Saúde Mental da FMUP, Rui Coelho, e por Conceição Calhau, professora e investigadora na área do Metabolismo.

anorexia-nervosa. Pedro Martins Psicoterapeuta - Psicoterapia

Anorexia Nervosa

 História

O conhecimento da anorexia nervosa remonta às referências encontradas em Hipócrates, Galeno, e sobre Teresa de Ávila e as suas práticas com a rama de oliveira para induzir o vómito.

A história da Anorexia Nervosa começa na Europa Medieval com os casos de Anorexia Mística, sendo paradigmático, o de Santa Catarina de Siena.

As opiniões dividem-se entre os que pensam que a anorexia mística não é a mesma doença que actualmente é designada por anorexia mental (Caroline Bynum) e aqueles que encontram muitas semelhanças entre ambas (Rudolph Bell).

Apesar das reconhecidas diferenças a anorexia antiga pode ser melhor compreendida à luz da anorexia moderna.

A partir do Sec. XVII e XVIII a curiosidade científica de alguns médicos no estudo das “Mulheres Santas” que nada ingeriam, fizeram com que dessem ao fenómeno o nome de “Inedia Prodigiosa” e “Anorexia Mirabilis”.

Mas os primeiros olhares verdadeiramente científicos ocorrem em 1668 por Thomas Hobbes, ao observar uma jovem que não comia há 6 meses e à qual não atribuiu nenhum milagre mas considerou tratar-se de uma doença.

No seguimento, aparecem os nomes de Cotton Mathes (1633-1728), Erasmus Darwin (1731-1802) e Allrecht Von Halla (1708-1777).

Na história da anorexia nervosa há 2 descrições científicas que servem de marco.

Uma é a de Morton no Sec. XVII e a outra a de Lasègue e Gull no final do Sec. XIX. Já no Sec. XX a doença era atribuída ao mau funcionamento da hipófise fazendo com que fosse estabelecida uma confusão com a “doença de Sheehan” ou “doença de Simmonds”, e foi desta forma compreendida até à definição actual.

No entanto, aquela que é considerada a 1ª descrição de carácter científico duma situação idêntica à Anorexia Nervosa foi feita em 1698 num tratado de Tisiologia pelo médico Inglês Morton.

Louis-Victor Marcé (1859), descreveu pela primeira vez a anorexia mental.

Mas é a Gull e a Lasègue (1868), que são atribuídas as definições modernas de Anorexia Mental. Gull, em 1873 apresenta 3 casos clínicos de uma doença que intitulou de “Anorexia Histérica”.

Mais tarde publicou os três casos num artigo intitulado “Anorexia Nervosa”. A sua correcção no nome da doença deveu-se a facto de ter encontrado a mesma patologia num homem.

Nesse mesmo ano Lasègue, (fica-lhe a honra de ser considerado o primeiro) pertencente ao círculo de Charcot, publica um artigo sobre a “Anorexia Histérica”.

Louis-Victor Marcé (1859), descreveu pela primeira vez a anorexia mental.

Foi no entanto em 1873 por Lasègue e em 1874 por Gull que fica definida como um síndroma.

Gull o criador do termo anorexia nervosa que é utilizado nos países de língua inglesa, Alemanha e Rússia.

Laségue designou a patologia como sendo inicialmente anorexia histérica e depois anorexia mental, termo usado em França e Itália.

In : “CONTRIBUTO À COMPREENSÃO DA ANOREXIA MENTAL FEMININA A PARTIR DO PROCESSO DE SEPARAÇÃO-INDIVIDUAÇÃO”
Pedro Martins
anorexia distorção imagem corporal

Anorexia Nervosa – Caracterização

Caracterização da anorexia nervosa

A anorexia nervosa é caracterizada por uma atitude rígida, obsessiva e distorcida face ao peso, alimentação e gordura corporal.

Normalmente tem início na puberdade e na adolescência e é causa de morbilidade e mortalidade.

A tríade sintomática associada à anorexia mental é o emagrecimento, a anorexia (perda ou diminuição acentuada do apetite) e a amenorreia.

Os primeiros sinais da doença podem resultar de uma experiência de separação física ou psicológica da mãe.

Por exemplo, passar para uma escola mais distante, umas férias longe dos pais, ou começar a namorar/interessar-se por alguém e ser rejeitada.

O percurso da anoréxica na doença começa por norma com uma dieta auto-imposta (só 25% das anoréxicas que começam a fazer dieta tem excesso de peso) muito pobre onde se excluem os alimentos mais gordurosos e calóricos com o objectivo de perder 3/4 kg para diminuir certas partes do corpo e pode terminar numa mais radical ou mesmo total.

A perda inicial de peso é sentida como uma vitória, que vai trazer uma força adicional para a perseguição de um corpo cada vez mais magro.

Perder peso é sentido como um sinal de auto-controlo e de disciplina.

À medida que emagrece aumenta o medo do ganho ponderal ao ponto de não admitir que o peso fique estacionário, pois tem muito medo de ficar obesa em poucos dias.

Engordar é visto como um fracasso.

De forma inversa perder peso é sentido como um sinal de auto-controlo e de disciplina.

A anoréxica faz uma verificação diária da perda progressiva do peso.

Cada vez que o peso diminui, mesmo que apenas alguns gramas, é sentido como uma vitória na caminhada para o peso ideal.

Quando aumenta alguns gramas fica muito angustiada e em pânico.

A contagem obsessiva das calorias ingeridas e dos alimentos está sempre presente e parece contrastar com apetência para cozinhar para os familiares.

O exercício físico diário é quase obrigatório, em último caso pode resumir-se a caminhar a pé.

Os transtornos das condutas alimentares ocupam uma posição de cruzamento entre a infância e a idade adulta como ilustra a sua ocorrência electiva na adolescência, entre o psíquico e o somático, entre o individual e o social.

Este cruzamento ilustra a provável ligação entre esta patologia e os processos de mudança como por exemplo a puberdade e a autonomia.

Há uma impossibilidade de expressão através da representação psíquica que vai obrigar a recorrer a uma expressão actuada no corpo.

A anorexia nervosa pode ser considerada a expressão do bloqueio do desenvolvimento feminino.

As questões da adolescência – identidade, dependência, imagem corporal, o ideal – são as mesmas que se encontram na anorexia nervosa, a diferença está na forma como são elaboradas.

A anorexia nervosa pode ser considerada a expressão do bloqueio do desenvolvimento feminino, com fixação a uma imagem idealizada do corpo infantil, recusa do corpo sexuado, alicerçada numa relação simbiótica com a mãe e negação da feminilidade.

Se por um lado é a expressão de dificuldades e sofrimento psíquico, por outro, também representa uma tentativa de reorganização, re-adaptação e por isso, uma forma de auto-terapia.

O corpo magro é fácil de alcançar por qualquer rapariga, criando-se assim uma organização defensiva compensatória perante uma insatisfação interna.

As adolescentes com anorexia nervosa procuram uma nova oportunidade de serem compreendidas e que algumas coisas possam agora ser elaboradas, mas que ao mesmo tempo pode trazer desfechos fatais.

Não se pode anular uma situação existencial sem pôr em perigo a própria existência.

A partir do momento em que na anoréxica os processos defensivos do Eu forçam ao retraimento extremo, não muda mais nada e o sujeito agarra-se deuma forma quase delirante à ideia de imortalidade, que em casos extremos pode mesmo levar à morte.

Como manifestações fisiológicas da doença as anoréxicas apresentam:

amenorreia, enfraquecimento e queda do cabelo, lanugo, cianose das extremidades, magreza, caquexia ou emaciação, desidratação com possíveis sinais de choque, atraso no início ou interrupção do desenvolvimento pubertário, pele seca e descamativa, perda de pêlo axilar e púbico, cabelo seco e quebradiço, hipotermia, bradipneia, bradicardia, hipotensão, edemas periféricos e osteoporose.

In : “CONTRIBUTO À COMPREENSÃO DA ANOREXIA MENTAL FEMININA A PARTIR DO PROCESSO DE SEPARAÇÃO-INDIVIDUAÇÃO” – Pedro Martins

A Síndrome do Burnout. Pedro Martins Psicoterapeuta - Psicoterapia

A Síndrome do Burnout

Burnout – “Oito em cada dez portugueses estão exaustos e querem mudar de emprego”: eis o título de uma notícia do PÚBLICO, na semana passada, onde se divulgava o resultado de um inquérito.

Esta forma de exaustão é global, é uma epidemia, e foi baptizada em língua inglesa com um nome cuja tradução ainda não foi fixada com rigor nas línguas latinas: burn-out.

Diz-se que o pai do conceito é Graham Greene, que o utilizou como título de um romance, de 1960, A Burnt-out Case (a ortografia do termo inglês tinha, então, um t final).

O burnout é uma doença da civilização, exclusivamente ligada aos aspectos que caracterizam a organização contemporânea do trabalho.

Distingue-se, pois, da depressão, que não precisa do contexto laboral para se revelar.

Esta doença do bom cidadão trabalhador, que sofre um “incêndio” metafórico (como sugere a palavra inglesa) apresenta os seguintes sintomas:

fadiga até ao limite do esgotamento, ansiedade, incapacidade de controlar o stress, despersonalização e impotência.

Esta doença do “too much” é reveladora de um demónio – o demónio do trabalho – que retira o mais precioso dos nossos bens: o tempo.

E a palavra “demónio” justifica-se plenamente porque os estudiosos desta doença social dizem que ela tem um equivalente na acédia medieval – esse mal de que sofriam os monges na Idade Média e que os fazia perder a fé no sistema divino.

O burnout é uma doença da civilização, exclusivamente ligada aos aspectos que caracterizam a organização contemporânea do trabalho.

Por conseguinte, o burnout é para as empresas o que a acédia foi para a Igreja.

Em média, o tempo de trabalho é hoje superior ao que vigorava no século XIX.

Todas as utopias que prometiam uma sociedade do lazer e viam no progresso tecnológico um meio que nos libertaria do trabalho foram desmentidas.

Pior do que isso: a evolução e multiplicação dos utensílios, em vez de serem factores de libertação, dilataram o tempo de trabalho e elevaram à máxima potência a lógica económica que se realiza na corrida pelo aumento da produção e do lucro.

Evidentemente, isso só foi possível pondo em prática métodos de gestão que submetem, controlam, pressionam, induzem a uma competição que quebra solidariedades e criam delatores.

Veja-se, aliás, como o apelo governamental à delação – algo que outrora seria considerado abjecto – se começa a generalizar.

O burnout consiste em ultrapassar o limiar da resistência a uma adaptação violenta, coerciva, que, no limite, exige dos empregados que eles sejam “empreendedores” e, até, que os artistas se inclinem perante os códigos e as prerrogativas das indústria culturais.

Adaptação e flexibilidade são os nomes da actual ideologia do trabalho e da produção.

A descoberta desta doença chamada burnout deve-se muito a um médico americano (nascido na Alemanha em 1926), chamado Herbert J.

Freudenberger, que a diagnosticou em si mesmo.Ao tratar de toxicómanos numa clínica de Nova Iorque, ele descobriu a certa altura que estava mais doente do que eles.

O burnout consiste em ultrapassar o limiar da resistência a uma adaptação violenta e coerciva.

Esta situação é a regra em que vivemos: os hospitais estão cheios de médicos doentes; as escolas estão cheias de professores que temem mais as aulas e a avaliação a que estão submetidos do que os alunos que eles ensinam e avaliam; os guardas das prisões estão tão encarcerados como os detidos que eles vigiam. Não há exterior ao tempo de trabalho.

E, imersos em tudo isto, aqueles que dizem combater o capitalismo, ou pelo menos as suas lógicas mais nefastas, não fazem senão exaltar o trabalho e fixar as formas de vida que ele implica.

O axioma de Carl Schmitt, segundo o qual o nosso inimigo se assemelha a nós, encontra aqui uma bela confirmação.

António Guerreiro

in Ípsilon (21.03.2014)

Psicologização. Psi quê? Importa-se de repetir? Pedro Martins Psicoterapeuta - Psicoterapia

Psicologização. Psi quê? Importa-se de repetir?

Em virtude do aumento da presença da psicologia e dos psicólogos na vida quotidiana, começou a ouvir-se falar de psicologizar; psicologizante; psicologização.

Em meu entender, esse termo, nos exemplos em que era usado, referia-se a uma atitude passiva e permissiva dos pais/educadores em relação ao comportamento das crianças e dos adolescentes.

“Agora fazem tudo o que querem”; “Psicologia para aqui, psicologia para ali, não sei onde isto vai parar”;

“Agora não se pode tocar nas criancinhas”; “No meu tempo levavam umas palmadas e acabava-se logo com as parvoíces”; “são uns delinquentes, deixam-nos fazer tudo”.

A propósito da psicologização, ocorreu-me uma “conversa” que o Dr. João dos Santos teve com João Sousa Monteiro:

«Uma mãe desejava falar-me e trazia o filho de 8 ou 9 anos. O miúdo queria assistir à conversa.

Era uma família de elevado nível social e cultural, e tinham conversas muito intelectuais com os filhos.

A mãe queria conversar comigo porque tinha um problema qualquer com o miúdo, e o miúdo dizia que também queria assistir à conversa, que não queria ficar de fora.

Eu disse-lhe: “Não não, tu agora esperas aí porque eu preciso falar com a tua mãe, ela tem umas coisas para me dizer que não quer que tu oiças, portanto esperas aí fora”.

E o miúdo disse-me assim: “mas eu posso ouvir tudo, porque eu até sei o que é o superego”.

E eu disse-lhe: “tu não sabes nada o que é o superego, o superego não é nada disso que tu imaginas, é isto que eu te vou mostrar”.

Agarrei-o por um braço e disse-lhe: “se tu não vais já lá para fora, levas dois estalos e então ficas logo a saber o que é o superego».

“Agora fazem tudo o que querem, não se pode tocar nas criancinhas”

É inimaginável que um psicólogo exerça algum tipo de violência sobre um paciente/criança.

Aqui não se trata de violência mas de relocalização no espaço – cada um deve ter o seu lugar.

É bastante tranquilizador para a criança que já tem capacidade de distinguir os espaços, saber qual é o seu e qual é o do outro.

Mas mais importante que isso, é a criança sentir que quando entra em espaços alheios (apesar de muito desejados), existe alguém que lhe põe um limite e a impede de pisar certos terrenos.

Actualmente, as crianças são vistas de forma muito diferente e a psicologia deu o seu contributo ao emprestar uma maior compreensão deste “ser complexo”.

Daí resultaram, como resultam sempre, várias interpretações e respectivas aplicações. A psicologização parece ser uma delas.

Ataques de Pânico - a experiência do desamparo. Pedro Martins Psicoterapeuta - Psicoterapia

Ataques de Pânico – A Experiência do desamparo

Os ataques de pânico constituem a marca e a prova de que o aparelho psíquico descobriu a sua precariedade fundamental enquanto tal.

Através do ataque de pânico, o sujeito busca, de alguma forma tornar apreensível no plano psíquico a experiência inominável do desamparo.

As experiências repetidas do “estar morrendo” que se instalam no pânico parecem constituir uma tentativa de obter um certo domínio sobre o que escapa às possibilidades de simbolização.

Ter ataques repetidos de pânico constitui uma tentativa, por assim dizer, de controlar o momento de abandono por parte do outro suposto protector e fiador do mundo.

A experiência de desintegração psíquica acompanha a ameaça do seu desaparecimento.

O sujeito em pânico considera que a presença concreta do outro fiador da estabilidade do seu mundo é uma condição indispensável para a sua própria sobrevivência.

Se há algo de mortal no pânico é essa sorte de ataque contra si mesmo como expressão de apelo – mas também de revolta e desespero – diante do outro protector que abandona.

Um ataque de pânico constitui, assim, um grito desesperado, um pedido de ajuda e uma expressão de revolta dirigidos a este fiador superpotente de quem o sujeito espera protecção e amor.

A crise de pânico dirige-se, portanto, ao “Outro” ainda que este não possa ser objectivado em alguém delimitável:

– A crise constitui um pedido de amor, um reconhecimento, um apelo ao sujeito para não ser abandonado, sem ajuda, ao seu próprio desamparo.

Os ataques de pânico constituem um grito desesperado, um pedido de ajuda.

As vertigens e as sensações de estar em queda livre (de estar caindo sem parar), tão frequentes nos ataques de pânico, parecem manifestar corporalmente a vivência de abandono pelo objecto protector, fiador da estabilidade do mundo.

Realmente não há garantia para nada, ninguém me pode proteger contra o possível.

Até ao início das crises, a questão do desamparo não se colocara de facto.

Quando, subitamente, o individuo se vê confrontado com ela, a ilusão desaba mas nada consegue ser colocado no seu lugar.

Não há nenhuma possibilidade de subjectivação da falta de garantias pois essa “descoberta” terrível é feita toda de uma vez.

Restam apenas o desespero e o esforço desatinado para “fazer alguma coisa”: a confluência dessas duas tendências materializa-se no pânico.

O abandono tão temido pelo indivíduo acometido por ataques de pânico tem contornos bastante específicos.

Primeiro, apresenta-se como algo concreto: a ameaça de separação de uma pessoa em particular, da perda de uma situação estável, o medo de que mudanças venham a interferir de modo catastrófico na sua vida habitual ou na sua saúde.

Eles [ataques de pânico], começam frequentemente (…) após um evento que confirma ao sujeito o carácter incerto, imprevisível e potencialmente ameaçador do mundo.

Assim, a morte de um ente próximo, uma doença grave na família, a separação de um ser amado são situações relatadas de modo quase rotineiro aos que cuidam de pessoas sofrendo de ataques de pânico como tendo desencadeado os ataques.

A perda real de um próximo constitui para esses sujeitos a mais abominável concretização dos seus fantasmas de abandono e de impotência ante um mundo excessivamente perigoso.

Eles constatam: “Então a situação de desamparo é mesmo possível!” e ficam desesperados.

In Pânico e Desamparo

Mário Eduardo C. Pereira

 
 
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