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Casamento: Casei Com a Pessoa Errada?

“Não há nada de errado em se ter casado com a pessoa errada” – Alain de Botton

Alain de Botton analisa a questão do casamento a partir de uma perspectiva politicamente incorrecta, mas muito lúcida:

“Ninguém é perfeito. O problema é que, antes do casamento, raramente entramos na nossa própria complexidade.

O casamento acaba por ser uma espécie de aposta esperançosa feita por duas pessoas – que ainda não sabem bem quem são nem em quem se converterão -, que se unem tendo em vista um futuro que são incapazes de conceber e tiveram o cuidado de evitar investigar.”

De acordo com este pensamento, José Abadi refere que:

“Todos os relacionamentos implicam um risco, que tem a ver com o imponderável e o imprevisível.

Não existe um ideal, vivemos a aceitar as imperfeições recíprocas para nos aproximarmos da felicidade possível.”

 

O problema é que, antes do casamento, raramente entramos na nossa própria complexidade.

 

A ideia da cara-metade é um estereótipo do passado?

Ao longo do tempo, a ideia de casamento estava ligada a questões mais racionais do que sentimentais.

Mas o casamento da “razão” foi perdendo para o casamento com base em sentimentos, refere Botton.

A boa notícia é que não importa se damos conta de que casámos com a pessoa errada.

Não devemos abandonar essa pessoa, mas a ideia romântica sobre a qual a compreensão ocidental do casamento se tem baseado nos últimos 250 anos:

-Existe um ser perfeito que pode satisfazer todas as nossas necessidades e todos os nossos desejos.

Séculos atrás, um casal formava uma família e o amor não era o objectivo fundamental desse vínculo.

Actualmente as famílias assentam no amor – ou, pelo menos, tentam. No entanto, o amor é problemático porque não está garantido.

O erro é acreditar na existência da pessoa certa, explica o psicanalista Any Krieger. “É um erro esperar que o outro preencha as nossas faltas”.

 

“É um erro esperar que o outro preencha as nossas faltas”.

 

“Não há nada mais importante do que aceitar e admitir a complexidade de quem somos.

Temos aspectos negativos e positivos, temos luzes e temos sombras.

Temos traços do nosso carácter que resolvemos de maneira saudável e temos conflitos que continuam a aprisionar-nos.

Aprender a aceitar a imperfeição e até mesmo transformar essa falha em algo simpático e atraente é uma das chaves para o amor.”

Pelo contrário, o outro sinaliza essa falta, mostra a nossa incompletude, refere Krieger.

Outra forma de desmistificar o amor ideal é proposta por Arthur Aron, psicólogo americano que refere que com uma conversa profunda, íntima e sincera, com base num teste padronizado de 36 perguntas, duas pessoas podem terminar juntas.

Durante o processo de averiguação da eficácia do teste de Aron, dois participantes acabaram por casar.

A primeira das 36 perguntas é simples:

“Se eu pudesse convidar qualquer pessoa para uma refeição, quem convidaria?”.

A última pergunta aponta para um nível muito mais profundo de entendimento e intimidade:

“Compartilhe um problema pessoal e peça ao seu interlocutor para lhe dizer como ele ou ela teria agido para resolvê-lo. Pergunte-lhe também como ele acha que você se sente em relação ao problema que você partilhou. ”

De Botton sugere que nos primeiros encontros escondemos muito do que somos:

Numa sociedade mais sábia e consciente de si mesma do que a nossa, uma pergunta comum num dos primeiros encontros seria: ‘E tu, que problemas tens?’

 

Podemos ser só amigos? Pedro Martins Psicoterapeuta

Não Podemos Ser Só Amigos?

Uma das coisas mais docemente amarga de ouvir; dita carinhosamente no final de uma longa e divertida noite, é a proposta de que devemos, afinal, permanecer “apenas bons amigos”.

Tomamos a proposta para uma amizade como sinónimo de uma ofensa, porque a nossa cultura romântica tem continuamente, e desde tenra idade, deixado uma coisa muito clara para nós:

O amor é o propósito da nossa existência; a amizade é o insignificante prémio de consolação.

Deveríamos reflectir um pouco sobre alguns aspectos relacionados com o amor:

– o comportamento, o nível de satisfação e o estado de espírito dos próprios amantes.

Se fôssemos julgar o amor, principalmente, pelos impactos, pela quantidade de lágrimas, pelas enormes frustrações, pela crueldade das ofensas que se desdobram em seu nome, não continuaríamos a avaliá-lo da mesma forma, e, poderíamos até confundi-lo com um transtorno mental.

 

A amizade é o insignificante prémio de consolação.

 

As cenas que tipicamente se desenrolam entre os amantes dificilmente seriam imagináveis ​​noutras relações.

Honramos aqueles que amamos com o nosso pior humor, com as acusações mais injustas e com os insultos mais malignos.

É para os nossos amantes que dirigimos a culpa por tudo o que deu errado nas nossas vidas.

Esperamos que eles saibam tudo o que queremos dizer sem nos preocuparmos em explicar.

É aos seus pequenos erros e mal-entendidos que respondemos com indignação e raiva.

E, em comparação, é na amizade, um estado supostamente inferior, cuja alusão no final de um encontro nos esmaga, que mostramos as nossas maiores e nobres virtudes.

Na amizade somos pacientes, encorajadores, tolerantes, divertidos e, acima de tudo, gentis.

Esperamos um pouco menos e, portanto, temos uma capacidade enorme de perdoar.

Não presumimos que seremos completamente compreendidos e, assim, aceitamos as falhas de uma forma mais leve e humana.

 

Paradoxalmente são os amigos que nos oferecem o verdadeiro caminho para os prazeres que o romantismo associa ao amor.

 

Não imaginamos que os nossos amigos devam admirar-nos sem reservas e apoiar-nos em qualquer coisa que façamos.

E, por isso, esforçamo-nos e comportamo-nos, agradando a nós mesmos e aos nossos amigos ao longo da vida.

Nós somos, na companhia de nossos amigos, os nossos melhores Eus.

Paradoxalmente é a amizade que nos oferece o verdadeiro caminho para os prazeres que o romantismo associa ao amor.

O facto de isto soar surpreendente é reflexo do quanto limitada a nossa visão quotidiana de amizade se tornou.

Mas a verdadeira amizade é algo mais profundo e digno de regozijo:

– É um espaço no qual duas pessoas podem ter uma noção das vulnerabilidades uma da outra;

– Apreciar as loucuras um do outro sem recriminação;

– Tranquilizar-se mutuamente quanto ao seu valor e acolher as tristezas e as tragédias da existência com delicadeza e carinho.

Colectiva e culturalmente, cometemos um grande erro que acaba por nos deixar mais solitários e mais decepcionados do que seria necessário.

Num mundo melhor, o nosso objectivo principal não deveria ser encontrar um amante especial que substitua todos os outros humanos, mas colocar a nossa inteligência e energia em descobrir e cultivar um círculo de amigos verdadeiros.

No final de uma noite, quem sabe diríamos, a prováveis futuros companheiros, com um sorriso envergonhado, que os convidámos para entrar – sabendo que isso seria uma rejeição dolorosa – ‘Sinto muito, não poderíamos ser apenas… amantes?

Ter noção das dificuldades dá confiança. Pedro Martins Psicoterapeuta

Ter Noção das Dificuldades dá Confiança

Uma das maiores fontes de desespero é a crença de que as coisas deveriam ter sido mais fáceis do que, na verdade, acabaram por ser.

Não desistimos somente porque as coisas são difíceis, mas porque não esperávamos que fossem assim.

O grande esforço implicado é interpretado como uma prova humilhadora de que não temos o talento necessário para concretizarmos os nossos desejos.

Tornamo-nos submissos e tímidos e acabamos por nos render, porque sentimos que uma luta tão grande só existe para nós.

Parece que para os outros é tudo mais fácil.

A capacidade de permanecer confiante depende, em grande medida, de se internalizar a narrativa correcta sobre as dificuldades que, provavelmente vamos encontrar.

E, no entanto, infelizmente, as narrativas que temos à mão são – por diversas razões – profundamente enganadoras.

Estamos cercados de histórias de sucesso que conspiram para fazer com que o êxito pareça mais fácil do que de facto é.

Portanto, acaba por involuntariamente destruir a nossa confiança diante dos nossos obstáculos.

 

Parece que para os outros é tudo mais fácil. Mas não é.

 

Algumas das explicações para o predomínio de narrativas optimistas são benignas.

Se disséssemos a uma criança o que lhe está reservado – momentos de solidão, relações instáveis, empregos insatisfatórios, etc., – ela poderia atemorizar-se e desistir.

Preferimos ler-lhe as aventuras do coelhinho “Miffy e os seus amigos”.

De outro ângulo, as razões para o silêncio em torno das dificuldades são um pouco mais egoístas:

– Procurar impressionar as pessoas.

O artista aclamado ou o empresário de sucesso esforça-se para disfarçar a energia implicada, e fazer com que seu trabalho pareça simples, natural e óbvio.

Sem sabermos detalhadamente o que implica desenvolver um projecto, não nos podemos posicionar correctamente em relação às nossas derrotas.

Como não sabemos o suficiente sobre o percurso espinhoso daqueles que admiramos, não perdoamos a forma trágica como correram as nossas primeiras tentativas.

Certas sociedades têm sido mais sábias do que as nossas em evidenciar a nobreza implicada nos esforços.

A confiança não é a crença de que não vamos encontrar obstáculos.

É o reconhecimento de que as dificuldades são uma parte inevitável de todos os projectos importantes.

É necessário que as pessoas saibam que a ansiedade, a dor e o desapontamento estão presentes nas vidas bem-sucedidas.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de Alain de Botton

Comprrender as coisas de forma racional versus emocional. Pedro Martins Psicólogo Clínico

Compreender as coisas de forma Racional vs. Emocional

É necessário distinguir entre saber algo sobre nós mesmos de forma racional e emocional

Conhecer a nossa própria mente é, na melhor das hipóteses, difícil.

É, até, extraordinariamente difícil compreender coisas básicas sobre nós e o que está por trás delas.

Coisas que condicionam as nossas vidas, e, das quais, esperamos um dia libertar-nos.

Em certos momentos é, verdadeiramente desanimador, concluir que saber uma coisa sobre nós, ter consciência dela, não é suficiente para que ela se altere.

Uma compreensão racional do passado, apesar de correcta, por si só não é suficiente para nos libertar.

Podemos, por exemplo, saber do ponto de vista racional de que somos tímidos junto de figuras de autoridade porque o nosso pai era uma figura fria e distante, e que não nos apoiava nem dava o amor que precisávamos.

Conseguir chegar até esta conclusão pode ser o trabalho demorado e, tendo chegado, poderíamos esperar que os nossos problemas com a timidez e a autoridade diminuíssem.

Mas, na nossa mente, infelizmente, as coisas não são assim tão simples.

Uma compreensão racional do passado, apesar de correcta, por si só não é suficiente para nos libertar.

Para isso, temos de olhar de forma aprofundada o que se passou connosco e o que suportámos.

Precisamos dar mais um passo e compreender as coisas do ponto de vista emocional.

Teremos que contactar com um conjunto de episódios do passado, nos quais os problemas com os nossos pais e as questões da autoridade se originaram.

Temos de permitir recordar certos momentos que devido à sua intensidade foram remetidos para longe na nossa memória.

É preciso encontrar, contactar e escutar emocionalmente partes nossas.

Não basta saber que tivemos um relacionamento difícil com o nosso pai, é preciso contactar com os sentimentos associados à situação.

Sabemos que pensar racionalmente é importante – mas, por si só, dentro do processo terapêutico, não é suficiente para resolver os nossos problemas psicológicos.

Há uma diferença fundamental entre reconhecer que éramos tímidos enquanto crianças e vivenciar o que era sentir-se intimidado, ignorado e com receio de ser rejeitado ou ridicularizado.

É diferente saber, de uma maneira abstracta, que a nossa mãe não esteve muito focada em nós quando éramos pequenos e re-conectarmos com o que sentíamos quando tentávamos partilhar algumas das nossas necessidades com ela e não conseguíamos.

A psicoterapia permite reviver certos sentimentos. Só quando estamos em contacto com os sentimentos é que podemos corrigi-los com a ajuda das nossas capacidades – agora mais maduras – e, assim, abordar os problemas reais na nossa vida actual.

É preciso encontrar, contactar e escutar partes nossas – talvez pela primeira vez – para que possam ser ao mesmo tempo tranquilizadas e revigoradas.

É com base neste tipo de conhecimento emocional arduamente conquistado, e não no seu tipo racional, que podemos encontrar uma forma de resolver os nossos problemas internos.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de “Knowing things intellectually vs. knowing them emotionally”

Porque-escolhemos-pessoas-problemáticas-para-amar-Pedro-Martins-Psicoterapeuta

Por que Escolhemos Pessoas Problemáticas para Amar?

O que nos leva a escolher pessoas difíceis para amar?

Em teoria, somos livres para escolher o tipo de pessoa que amamos.

Não nos impuseram uma pessoa. Ninguém combinou o casamento por nós como acontecia no passado.

Mas, na realidade, a nossa escolha é muito menos livre do que imaginamos.

Poderosas restrições sobre quem podemos amar e sentir-nos verdadeiramente atraídos vêm de um lugar para o qual, talvez, não nos ocorra olhar: as nossas infâncias.

A nossa história psicológica predispõe-nos fortemente para amar certos tipos de pessoas.

Nós amamos ao longo de sulcos formados na infância. Procuramos pessoas que, de muitas maneiras, recriam os sentimentos de amor de quando éramos pequenos.

O problema é que o amor que absorvemos na infância provavelmente, não é só composto de generosidade, ternura e bondade.

É provável que o amor estivesse entrelaçado com certos aspectos dolorosos:

– Um sentimento de não se ser suficientemente bom; um amor por um pai que era frágil ou estava deprimido; uma sensação de que não era possível ser vulnerável junto dos pais.

Isso predispõe-nos a procurar na vida adulta parceiros que não sejam necessariamente gentis connosco, mas que – mais importante – nos proporcionem um sentimento familiar.

O que pode ser visto como uma coisa subtil, mas da maior importância.

Podemos ser obrigados a desviar o olhar de possíveis candidatos porque eles não satisfazem o anseio pelas complexidades que associamos ao amor.

Podemos descrever alguém como “pouco sexy” ou “aborrecido” quando na verdade queremos dizer: é improvável que me faça sofrer da maneira que preciso sofrer para sentir que esse amor é real.

É comum aconselhar as pessoas que são atraídas por candidatos complicados a deixá-los e encontrar alguém mais saudável.

Isso é teoricamente tentador mas ao mesmo tempo, praticamente impossível.Não podemos alterar magicamente as fontes de atracção.

Em vez de procurar mudar o tipo de pessoas pelas quais somos atraídos, pode ser mais sensato ajustar a forma como reagimos e nos comportamos com as pessoas complicadas para as quais o nosso passado nos empurra.

Tendemos a procurar na vida adulta parceiros que nos proporcionam um sentimento familiar.

Os nossos problemas são frequentemente gerados porque continuamos a responder às pessoas que nos atraem da maneira que aprendemos a nos comportar enquanto crianças em torno dos nossos modelos.

Por exemplo, talvez os nossos pais ficassem furiosos com frequência e começassem a gritar.

Como os amávamos, reagíamos sentindo que quando estavam enfurecidos, devia ser por nossa culpa. Dessa forma, fomos ficando tímidos e submissos.

Agora, se um parceiro (por quem estamos magneticamente atraídos) se cruza connosco, respondemos como crianças esmagadas e com a testa franzida:

– Sentimos que a culpa é nossa, que somos merecedores de críticas, e assim vamos desenvolvendo ressentimentos.

Talvez nos sintamos atraídos por alguém com um pavio curto – que por sua vez nos faz explodir.

Ou, caso os nossos pais fosse muito vulneráveis e ficassem magoados com facilidade, acabamos por encontrar um parceiro também ele um pouco frágil e que exige que cuidemos dele.

Mas depois ficamos frustrados com a fraqueza dele – andamos em bicos de pés e tentamos encorajá-los e tranquilizá-los (como fizemos quando éramos pequenos), mas ao mesmo tempo, condenamos essa pessoa por não ser merecedora do que fazemos por ela.

“Não podemos mudar os nossos modelos de atracção, mas podemos mudar de um padrão de resposta infantil para um mais adulto.”

Provavelmente, não podemos mudar os nossos modelos de atracção.

Mas, em vez de procurar reprogramar radicalmente os nossos instintos, podemos tentar aprender a reagir a candidatos desejáveis, não como fazíamos quando éramos crianças, mas de uma maneira mais madura e construtiva, própria de um adulto racional.

É possível mudarmos de um padrão de resposta “infantil” para um mais adulto em relação às dificuldades pelas quais somos atraídos.

É possível que estejamos com alguém com um conjunto particularmente complicado de questões que desencadeiam os nossos desejos e os nossos movimentos defensivos infantis.

A resposta não é terminar o relacionamento, mas passa por nos empenharmos em lidar com os desafios que nos colocam, e fazer uso do conhecimento que não dispúnhamos quando estávamos com as figuras de amor da nossa infância.

Não temos muita responsabilidade nas nossas escolhas, mas somos responsáveis por nos comportarmos de maneira mais consciente em torno das áreas menos maduras do nosso parceiro.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de: “Why We’re Compelled to Love Difficult People” – Alain de Botton

mundo moderno

Como o Mundo Moderno nos está Afectar

O mundo moderno tem muitas coisas maravilhosas (a odontologia é boa, os carros são confiáveis, podemos facilmente entrar em contacto a partir do México com a nossa avó na Escócia) – mas também é poderosa e tragicamente capaz de causar um alto nível de ansiedade e estados depressivos.

Existem seis características particulares da modernidade que têm um efeito psicologicamente perturbador. Cada uma tem uma cura potencial, que só pode ser colocada em acção colectivamente quando conhecermos mais sobre o problema em questão.

 

  1. Meritocracia:

As nossas sociedades dizem-nos que todas as pessoas são “livres de fazer”, caso tenham talento e energia. A desvantagem dessa ideia, ostensivamente libertadora e apaixonante, é que qualquer insucesso sentido não é, como no passado, um acidente ou infortúnio, mas um sinal claro de falta de talento ou preguiça. Se aqueles que estão no topo merecem todo o seu sucesso, então aqueles que estão no fundo, certamente, devem merecer todo o seu fracasso. Uma sociedade que pensa em si mesma como meritocrática em vez de olhar para os que falharam como desafortunados, rotula-os de perdedores.

A cura é uma crença forte e culturalmente apoiada em duas grandes ideias: a sorte, que diz que o sucesso não depende apenas do talento e do esforço; e a tragédia, que diz que as pessoas boas e decentes podem falhar, e merecem compaixão em vez de desprezo.

 

  1. Individualismo:

Uma sociedade individualista prega que o indivíduo e suas realizações são “tudo” e que todos são capazes de ter um destino especial. Não é a comunidade que importa; A união, o grupo, é para os desesperançados. Ser “comum” é considerado uma maldição. Como resultado a maioria de nós acabará, estatisticamente falando, associada ao fracasso.

A cura passa pelo culto da boa vida trivial – e apreciar os prazeres simples do quotidiano.

 

  1. Secularismo:

As sociedades seculares não acreditam em qualquer coisa que seja maior ou superior a elas mesmas. As religiões costumavam ter o papel de manter os nossos caminhos insignificantes e batalhas internas em perspectiva. Mas agora não há nada para admirar ou relativizar nos seres humanos, cujos triunfos e percalços acabam por ser um tudo ou um nada.

A cura envolveria a utilização regular de fontes de transcendência para gerar uma perspectiva benigna e relativizada sobre as nossas mágoas: a música, as estrelas à noite, os vastos desertos ou os oceanos tornar-nos-iam mais humildes.

 

  1. Romantismo:

A filosofia do romantismo diz-nos que para cada um de nós há uma pessoa muito especial que nos pode tornar completamente felizes. No entanto, de uma maneira geral, temos que nos contentar com relacionamentos aceitáveis com alguém que é muito agradável em várias coisas e muito difícil noutras. Parece um desastre – em comparação com as nossas grandes expectativas.

A cura passa por perceber que não errámos: fomos encorajados a acreditar num sonho muito improvável. Em vez disso, devemos construir as nossas ambições em torno da amizade e do amor fraternal.

 

  1. Os média:

Os meios de comunicação têm um prestígio enorme e um lugar gigantesco nas nossas vidas – mas rotineiramente orientam a nossa atenção para as coisas que assustam, preocupam e irritam, ao mesmo tempo que nos retiram o poder de termos uma acção pessoal efectiva sobre essas coisas. Normalmente foca os lados menos bons da natureza humana, e deixa por mostrar a existência de boas intenções, responsabilidade e decência.

A cura passaria por notícias que se concentrassem em apresentar soluções ao invés de gerar indignação; despertar uma consciencialização para problemas sistémicos ao invés de enfatizar os bodes expiatórios e os monstros emblemáticos – e isso nos lembraria, frequentemente, que as notícias sobre as quais precisamos focar-nos veem das nossas próprias vidas e experiências directas.

 

  1. Aperfeiçoamento:

As sociedades modernas enfatizam que depende de nós sermos profundamente felizes, sanos e realizados. Como resultado, acabamos a detestar-nos, sentir-nos fracos e que estamos a desperdiçar a vida.

Uma cura seria uma cultura que promove permanentemente a ideia de que a perfeição não está ao nosso alcance – que esta, do ponto de vista mental, ligeiramente (e por vezes muito) tristonho é uma parte inescapável da condição humana e do que precisamos, acima de tudo, são bons amigos com quem podemos estar e conversar honestamente sobre nossos verdadeiros medos e vulnerabilidades.

As causas do sofrimento psicológico no nosso mundo são – actualmente – muito maiores e mais activas do que as curas que necessitamos. Nós merecemos muita pena pelo preço que pagamos por termos nascido nos tempos modernos. Mas, mais esperançosamente, as curas estão disponíveis de forma individual e colectiva, se reconhecermos, com clareza suficiente, as fontes das nossas verdadeiras ansiedades e tristezas.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de “How the modern world makes us mentally ill” – Alain de Botton

pais filhos

Porque os bons pais têm filhos mal comportados

Pais / Filhos

Imagine dois tipos muito diferentes de famílias, cada uma na sua própria mesa de jantar numa noite habitual.

Na Família 1: As crianças são muito bem comportadas: dizem que a comida é muito boa, falam sobre o que aconteceu na escola, ouvem os pais com atenção e no fim terminam os trabalhos de casa.

Na Família 2: É bastante diferente. Chamam nomes à mãe, resmungam e gozam quando o pai diz algo; fazem um comentário ligeiramente indecente que revela uma falta de vergonha sobre os seus corpos; Se os pais perguntam se já fizeram os trabalhos de casa, dizem que a escola é uma porcaria viram costas e batem a porta.

Parece que tudo vai muito bem na Família 1 e muito mal na Família 2. Mas se olharmos para dentro da mente da criança, podemos ter uma imagem muito diferente.

Na Família 1, os chamados bons filhos têm dentro de si toda uma série de emoções que retêm longe da vista, não porque queiram, mas porque sentem que não podem ser tolerados como realmente são. Sentem que não podem deixar os seus pais ver que estão com raiva ou entediados, porque parece que os pais não têm recursos internos para lidar com a realidade deles; Devem reprimir as suas partes mais corporais, mais rudes e mais voláteis. Qualquer crítica a um adulto é (imaginam) tão devastadora que não pode ser proferida.

Na Família 2, os chamados filhos mal comportados sabe que as coisas são sólidas. Eles sentem que podem dizer que a mãe é uma idiota, porque nos seus corações sabem que ela os ama e que eles a amam e que um ataque de raiva não destruirá isso. Eles sabem que o pai não se desintegrará ou se vingará por ser gozado. O ambiente é quente e forte o suficiente para absorver a agressão, a raiva, a troça ou o desapontamento da criança.

No final, temos um resultado inesperado: o bom filho está com problemas na vida adulta, tipicamente relacionados com concordância excessiva, rigidez, falta de criatividade e uma consciência insuportavelmente pesada que pode levar a pensamentos suicidas. E a criança impertinente caminha saudavelmente para a maturidade, onde se encontra a espontaneidade, a resiliência, a tolerância ao fracasso e o sentimento de auto-aceitação.

O que chamamos de maldade é na verdade uma exploração inicial da autenticidade e da independência. Tendo sido crianças impertinentes, podemos ser mais criativos porque podemos experimentar ideias que não necessitam imediatamente de aprovação; podemos cometer um erro, meter-nos numa embrulhada ou parecer ridículos e não será um desastre. As coisas podem ser reparadas ou aperfeiçoadas. A nossa sexualidade é aceitável para nós e, portanto, não precisamos sentir-nos excessivamente embaraçados ao apresentá-la a um parceiro. Podemos ouvir críticas a nós mesmos e conseguir lidar com o que é verdade e rejeitar o que é maldade.

Devemos aprender a ver crianças malcriadas, algumas cenas caóticas e levantar de voz ocasionais como pertencentes à sanidade, em vez da delinquência – e, ao mesmo tempo, a temer pessoas que não causam qualquer problema.

E, se tivermos momentos ocasionais de felicidade e bem-estar, devemos sentir-nos especialmente agradecidos pelo facto de ter havido, certamente alguém, num passado distante, que optou por olhar com os olhos do amor para algum comportamento profundamente desproporcionado e desagradável da nossa parte.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

A partir de Why good parents have naughty children – Alain de Botton

A crítica Pedro Martins Psicoterapeuta

A Crítica – entre o desagradável e o insuportável

A crítica nunca é fácil.

Lidar com o facto de os outros nos considerarem ridículos, feios, desagradáveis ou incompetentes é um dos aspectos mais desafiadores de qualquer vida.

No entanto, o impacto da crítica é extremamente variável – e depende, em última análise, de um detalhe um pouco inesperado: o tipo de infância que tivemos.

O facto de a crítica ser experimentada como meramente desagradável ou completamente catastrófica depende do que aconteceu connosco há muitos anos com os nossos cuidadores.

O que se entende por uma “infância má” é aqui, simplesmente, uma questão de amor.

Uma criança chega ao mundo com uma capacidade muito limitada para lidar consigo própria.

É a tolerância, o entusiasmo e o perdão do outro que gradualmente nos acomoda à existência.

A forma dos nossos cuidadores nos olharem torna-se na forma como nos vemos.

É por sermos amados pelos outros que adquirimos o dom de olhar com simpatia para nós próprios.

Simplesmente, não está na nossa incumbência acreditar em nós mesmos por conta própria.

Estamos totalmente dependentes de um sentimento interior de termos sido valorizados de forma indirecta por outra pessoa, como uma protecção contra a subsequente negligência do mundo.

Nós não precisamos ser amados por muitos.

Nós não precisamos ser amados por muitos, um bastará, e doze anos podem ser suficientes (idealmente dezasseis).

No entanto, sem esse amor, a contínua admiração de milhões nunca será capaz de nos convencer de que somos bons.

Mas com esse amor, o desdém de milhões é indiferente.

As infâncias más têm a triste tendência:

— De nos levar a procurar situações em que existe uma possibilidade teórica de recebermos uma aprovação excepcional (o que também significa, um alto risco de encontrar uma enorme desaprovação) e por isso fazemos esforços desmesurados na tentativa de sermos famosos e visivelmente bem-sucedidos.

Mas é claro que o mundo em geral nunca dará emocionalmente a confirmação incondicional desejada.

Existirão sempre os discordantes, críticos e pessoas igualmente afectadas pelo seu próprio passado para poderem ser gentis com os outros.

E é para essas vozes que aqueles que tiveram infâncias complicadas se vão direccionar, por mais entusiástica que a multidão possa ser.

Ao longo do caminho podemos constatar que o principal indicador de ser um bom pai é quando um filho, simplesmente, não tem interesse em ser admirado por um grande número de desconhecidos.

Nós não ouvimos todos a mesma coisa quando somos criticados.

Alguns de nós, os sortudos, ouvimos apenas a mensagem superficial do aqui e agora: que nosso trabalho ficou abaixo das expectativas, que devemos esforçar-nos mais nas nossas funções, que o nosso livro, filme ou música não é brilhante. Isso é suportável.

Mas os mais feridos entre nós ouvem muito mais.

A crítica leva-os directamente para a ferida primitiva.

Um ataque no presente entrelaça-se com os ataques do passado e cresce desmesuradamente e de forma incontrolável na sua intensidade. O chefe ou colega pouco amável torna-se o pai que nos decepcionou.

Tudo é questionado. Não só achamos que fizemos um mau trabalho, como somos uma miséria, pois foi assim que nos sentimos naquela época, na nossa mente infantil, frágil e indefesa.

Saber mais sobre a nossa infância proporciona-nos uma via fundamental de defesa contra os efeitos da crítica.

Isso significa que podemos estar atentos, quando nos sentimos atacados e despoletamos a desnecessária auto-depreciação.

Podemos aprender a separar o veredicto de hoje do veredicto emocional que trazemos connosco e que constantemente procuramos confirmar através de eventos do dia-a-dia.

Podemos aprender que, por mais tristes que sejam os ataques que enfrentamos, eles não são nada comparados com a verdadeira tragédia e causa efectiva da nossa tristeza: que as coisas não correram bem naquela época.

Saber mais sobre a nossa infância proporciona-nos uma via fundamental de defesa contra os efeitos da crítica.

E assim podemos dirigir a nossa atenção para onde é realmente precisa; longe das críticas actuais e apontada para aquele pai da nossa infância, pouco convencido do nosso valor.

Podemos perdoar-nos por sermos, neste caso, inocentes, fatalmente sensíveis e, em essência, mentalmente afectados.

Não podemos parar os ataques do mundo, mas podemos – através da exploração das nossas histórias – mudar o que significam para nós.

Também podemos e devemos dar uma segunda oportunidade: voltar atrás e corrigir o veredicto original do mundo.

Podemos tomar medidas para nos expormos ao olhar de amigos ou, idealmente, de um bom terapeuta que possa ser um espelho mais benigno e ensinar-nos o que deveriam ter-nos ensinado desde o início:

Como todos os humanos, quaisquer que sejam as nossas falhas, merecemos estar aqui. Este é o nosso lugar.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de “Criticism when you’ve had a bad childhood” – Alain de Botton

verdadeiro e falso self

O Verdadeiro e o Falso Self

O Verdadeiro e o Falso Self

Uma das explicações mais surpreendentes e impactantes, sobre o porquê de nós como adultos, podermos ter problemas psicológicos, está ligada ao facto de nos nossos primeiros anos nos ter sido negada a possibilidade de sermos plenamente nós mesmos.

Ou seja, não foi permitido sermos obstinados e difíceis; não pudemos ser suficientemente exigentes, agressivos, intolerantes e egoístas como precisávamos ser.

Como os nossos cuidadores estavam demasiado preocupados ou afectados com algo, foi naturalmente necessário ajustarmo-nos a eles, sentindo que era preciso agir de acordo para sermos aceites e amados.

Um desenvolvimento saudável requer que possamos experimentar o incomensurável luxo de um período em que não precisamos de nos preocupar com os sentimentos e opiniões daqueles que cuidam de nós.

Fomos “obrigados” a ser Falso Self antes de termos tido a possibilidade de nos sentirmos verdadeiramente vivos – Self Verdadeiro.

E, como resultado, muitos anos depois, sem entendermos muito bem como, corremos o risco de nos sentirmos pouco consistentes, frágeis internamente, e, de alguma forma, relativamente ausentes.

A teoria do Verdadeiro e Falso Self resulta do trabalho de um dos maiores pensadores do século XX, o pedopsiquiatra e psicanalista inglês Donald Winnicott.

Numa série de trabalhos dos anos sessenta e com base em observações cuidadas dos seus pacientes (adultos e crianças), Winnicott desenvolveu a tese de que um desenvolvimento saudável requer que, invariavelmente, possamos experimentar o incomensurável luxo de um período em que não precisamos de nos preocupar com os sentimentos e opiniões daqueles que cuidam de nós.

Podemos ser inteiramente e, sem qualquer sentimento de culpa, o nosso Verdadeiro Self, porque aqueles que nos rodeiam – durante um período – adaptam-se inteiramente às nossas necessidades e desejos, por mais inconvenientes e difíceis que estes possam ser.

O verdadeiro Eu do bebé, na formulação de Winnicott, é, por natureza, associal e amoral. Não está muito interessado nos sentimentos dos outros.

O bebé grita quando precisa – mesmo a meio da noite ou num comboio cheio de passageiros.

Pode ser agressivo, mordendo e – aos olhos de um apreciador simpatizante das boas maneiras ou apreciador da higiene – chocante e um pouco nojento. Expressa-se onde e como quer.

Pode ser doce, é claro, mas nos seus próprios termos, e não para atrair ou regatear o amor.

Se uma pessoa tem sensação de se sentir autêntico como adulto, então deve ter desfrutado o imenso privilégio emocional de ter sido verdadeiro à sua maneira: exigir das pessoas a seu belo prazer, pontapear quando está com raiva, gritar quando está cansada, morder quando se sente irritada.

O verdadeiro Eu da criança deve ter a possibilidade de fantasiar destruir os pais quando está em fúria – e depois testemunhar que o pai sobreviveu; o que garante à criança um sentido vital e imensamente reconfortante de que não é de facto omnipotente, e que o mundo não colapsa perante os seus desejos destrutivos.

Quando as coisas correm bem, de forma gradual e voluntária, a criança desenvolve um Falso Selfcapacidade de se comportar de acordo com as exigências da realidade externa.

Isto é o que permite que uma criança se submeta às regras da escola, se torne adulto e tenha uma vida profissional.

Quando nos foi dada a possibilidade de ser Verdadeiro Self, não precisamos de nos insurgir e manifestar as nossas necessidades constantemente.

Podemos seguir as regras porque, durante algum tempo, conseguimos ignorá-las inteiramente.

Infelizmente, muitos de nós não tivemos o começo ideal.

Talvez a nossa mãe estivesse deprimida e o pai frequentemente irritado, talvez houvesse um irmão mais velho ou mais novo a viver uma crise e exigisse toda a atenção.

O resultado foi termos aprendido a cumprir cedo demais, e assim, tornado obedientes às custas da nossa autenticidade.

Nos relacionamentos podemos ser polidos e norteados para as necessidades dos nossos parceiros, mas não somos capazes de amar adequadamente.

No trabalho, podemos ser cumpridores, mas pouco criativos e originais.

Nestas circunstâncias, e esta é a sua genialidade, a psicoterapia oferece-nos uma segunda oportunidade.

Nas mãos de um bom terapeuta é-nos permitido a regredir até ao momento em que começámos a ser Falso Self.

Na sala do psicoterapeuta, contidos em segurança pela sua circunspeção, podemos aprender – mais uma vez – a sermos autênticos.

Podemos ser excessivos, difíceis, despreocupados, egoístas, agressivos, chocantes e irascíveis.

O terapeuta irá aceitar-nos – e, assim, ajudar-nos a experimentar uma nova sensação de vitalidade, que deveria ter lá estado desde o princípio.

A exigência de ser Falso Self, nunca desaparece, mas torna-se mais suportável, porque regularmente nos permitem, na privacidade da sala do terapeuta, uma vez por semana ou mais, ser Verdadeiro Self.

Winnicott era extremamente calmo e generoso com os seus pacientes quando eles estavam a tentar reviver o seu Verdadeiro Self.

Um deles partiu o seu jarrão favorito, outro roubou-lhe dinheiro e um terceiro insultava-o sessão após a sessão.

Mas Winnicott era imperturbável, sabendo que isso fazia parte de uma jornada de regresso à saúde, longe da fadiga mortal que aflige esses pacientes.

Podemos agradecer a Winnicott por nos recordar que o prazer e o sentimento de autenticidade devem passar por estágios de egoísmo e por certo tipo de comportamentos. Simplesmente, não existe outra forma.

Nós temos que ser autênticos antes de podermos ser vantajosamente, um pouco “falsos” – e se nunca tivemos permissão, então a nossa ansiedade, a nossa depressão vão dar nota de que precisamos dar um passo atrás, e a terapia está lá para isso.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de: “The True and the False Self” – Alain de Botton

falar alto e bom som

Falar alto e bom som

Por vezes pode parecer terrivelmente claro que, simplesmente, ninguém liga, ninguém se importa. Mal dão conta da nossa presença, dificilmente se aproximam para ouvir o que temos a dizer, não apanham nenhuma das nossas deixas – e, estão extremamente absorvidos com os seus próprios projetos e preocupações do dia-a-dia.

Com base em tais evidências, é fácil para nós cairmos numa conclusão perigosamente condenadora e muito dolorosa sobre nossa situação: estamos profundamente sozinhos – muito longe de qualquer possibilidade de conexão ou compreensão.

Mas a verdade pode ser ao mesmo tempo bastante mais simples e mais esperançosa.

De uma maneira geral estamos bastante disponíveis para ajudar quando percebemos que é urgente fazê-lo, mas também estamos distraídos e ocupados com nossas vidas para conseguirmos ​ aperceber-nos que se passa algo com as pessoas que nos são próximas, a menos que o problema seja apresentado de forma menos intrincada e mais clara.

Então, mas só então, entramos em acção e fazemos uso de todas as nossas capacidades e determinação de lidar com o sofrimento das outras pessoas. Por outras palavras, respondemos bem aos berros, mas terrivelmente com o subentendido.

A questão toma outra proporção nos casos trágicos em que alguém que conhecemos põe termo à sua própria vida. Estamos certos de que se tivéssemos sabido que se sentiam tão desesperados, teríamos feito qualquer coisa para ajudar. Ao mesmo tempo, também sabemos que não fazemos muitas perguntas, não olhamos muito de perto para certos sinais, e certamente, damos a impressão de estarmos constantemente ocupados. Acabamos a sentir-nos, obviamente, destroçados.

Ganharíamos muito se tivéssemos em conta certos factos sobre a natureza humana sem rancor ou surpresa quando estamos mais frágeis e desesperados. A aparente indiferença dos outros é verdadeiramente aparente. Precisamos aprender a falar de modo que se oiça – até que se oiça.

Infelizmente, tendemos a não ter confiança para fazê-lo precisamente quando é mais necessário, devido a um constrangimento primitivo que se apodera de nós quanto estamos frágeis, como se cada ser humano tivesse que passar pela vida contando apenas consigo. Parte da tragédia de estar desesperado é sentirmos que o nosso sofrimento é ilegítimo.

No entanto, nunca devemos esquecer-nos que, seja qual for a indiferença que possamos sentir, estamos rodeados de pessoas que quando vêem alguém em perigo, se atiram ao mar para o salvar. Se sabemos de forma clara que alguém (mesmo apenas um conhecido) está a precisar muito de nós, provavelmente deixamos tudo e corremos para ajudar.

Mas, ao mesmo tempo, somos incapazes de ler mentes e interpretar indirectas. Da próxima vez que estivermos em dificuldades, devemos lembrar-nos de que não devemos sentir-nos diminuídos por pedir ajuda, sabendo que a maioria das pessoas que nos rodeiam responderá à nossa dor uma vez que a ouçam. Precisamos lembrar-nos de falar alto e bom som.

 

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de Alain de Botton

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