Categoria: <span>Psicologia Clínica</span>

Adoecer Mentalmente. Pedro Martins Psicólogo Clínico Psicoterapeuta

Adoecer Mentalmente

Adoecer Mentalmente: Durante bastante tempo podemos conseguir lidar suficientemente bem com as coisas.

Conseguimos ir trabalhar todas as manhãs, falamos das coisas agradáveis das nossas vidas aos amigos e divertimo-nos durante um jantar.

Não somos completamente equilibrados, mas há poucas maneiras de saber que as coisas são igualmente difíceis para as outras pessoas, e o que temos direito de esperar em termos de contentamento e paz de espírito.

Provavelmente, dizemos a nós próprios para deixarmos de ser auto complacentes e redobrarmos os nossos esforços para nos sentirmos bem, e nos valorizarmos através das nossas realizações.

Presumivelmente, somos especialistas mundiais em não sentir compaixão por nós próprios.

Nós podemos passar décadas nisto.

Não é raro que as condições mentais mais graves permaneçam sem diagnóstico durante muito tempo.

Simplesmente não notamos que por baixo da superfície estamos mentalmente doentes: cronicamente ansiosos, com uma enorme autoaversão e muito perto do desespero e de uma raiva avassaladora.

Isto também acaba, simplesmente, por ser sentido como normal.

Até que um dia, expectavelmente, algo desencadeia um colapso.

Pode ser uma crise no trabalho, uma inversão nos nossos planos de carreira ou um erro que cometemos.

Pode ser uma desilusão amorosa, alguém que nos deixa, ou uma percepção de que estamos profundamente insatisfeitos com um parceiro com quem pensávamos ficar.

Sentimo-nos misteriosamente exaustos e tristes, a ponto de já não conseguirmos enfrentar nada, nem mesmo uma refeição em família ou uma conversa com um amigo.

Podemos ser atingidos por uma ansiedade incontrolável em torno dos desafios diários, como falar com os nossos colegas de trabalho ou ir a uma loja.

Ficamos atolados numa sensação de desgraça e de catástrofe iminente.

Estamos mentalmente doentes e, com sorte, saberemos erguer imediatamente a bandeira branca e rendermo-nos

 

A nossa doença está a tentar chamar à atenção para os nossos problemas, mas só o pode fazer de forma desarticulada, apresentando sintomas grosseiros e vagos. Diz-nos que estamos preocupados e tristes, mas não nos pode dizer com o quê e porquê.

 

Não há nada de vergonhoso ou raro no nosso estado; adoecemos, como tantos outros antes de nós.

Não é preciso agravar a nossa doença com um sentimento de vergonha.

Isto é o que acontece aos humanos perante as condições dolorosas, alarmantes e sempre incertas da existência.

A recuperação pode começar no momento em que se admite que já não se tem a menor ideia de como lidar com a doença.

As raízes da crise remontam, quase de certeza, a um tempo distante.

As coisas não terão estado bem em certas áreas durante muito tempo, possivelmente, desde sempre.

Provavelmente, passámos por graves insuficiências nos primeiros tempos.

Disseram-nos e fizeram-nos coisas que nunca deveriam ter ocorrido, e momentos de tranquilidade e cuidado que foram desafortunadamente perdidos.

Para além disto, a vida adulta terá apresentado dificuldades para as quais não estávamos bem equipados para suportar.

 A nossa doença está a tentar chamar à atenção para os nossos problemas, mas só o pode fazer de forma desarticulada, apresentando sintomas grosseiros e vagos.

Diz-nos que estamos preocupados e tristes, mas não nos pode dizer com o quê e porquê.

Esse será o trabalho de investigação do paciente, ao longo de meses ou anos, provavelmente, na companhia de um psicoterapeuta.

A doença contém a cura, mas tem de ser explorada e a sua desarticulação original tem de ser interpretada.

Algo do nosso passado clama por ser reconhecido – e não nos deixará em paz até que lhe tenhamos dado o devido valor.

Em certos momentos pode parecer-nos uma sentença de morte, mas é-nos dada, através da crise, uma oportunidade para finalmente ousarmos ouvir o que a nossa dor nos tenta dizer, e de recomeçarmos as nossas vidas numa base mais compassiva e realista.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de: Falling mentally ill – Alain de Botton

Déjà Vu - Pedro Martins Psicólogo Clínico Psicoterapeuta

Déjà Vu

Já vos sucedeu terem um “déjà vu”?

É aquela sensação obscura duma situação já conhecida.

Estamos num restaurante e algo ocorre exactamente como recordamos.

O mundo move-se como um bailado que coreografámos, mas a sequência não pode basear-se numa experiência do passado porque nunca entrámos neste restaurante antes.

Então, o que é que se passa?

Infelizmente, não há uma explicação única para o “déjà vu”.

A experiência é curta e ocorre sem avisar, tornando quase impossível um cientista registá-la e estudá-la.

Os cientistas só podem esperar que isso lhes aconteça a eles, o que pode demorar anos.

Não tem manifestações físicas e, nos estudos, é descrita pelo sujeito como uma sensação ou um sentimento.

Dada esta falta de provas sólidas, tem havido imensa especulação ao longo dos anos.

Desde que Émile Boirac introduziu o “déjà vu” como um termo francês que significa “já visto”, mais de 40 teorias tentam explicar este fenómeno.

Mas, os recentes progressos na neuro-imagiologia e na psicologia cognitiva reduzem o campo das hipóteses.

Vejamos três das teorias mais predominantes hoje, usando o mesmo cenário do restaurante para cada uma.

 

Teoria do Processamento Dual

Precisamos de uma ação.

Estamos no restaurante; o empregado escorrega e deixa cair a bandeja.

À medida que a cena ocorre, os nossos hemisférios cerebrais processam um turbilhão de informações:

Os braços agitados do empregado, o seu grito, o cheiro da comida.

Em milissegundos, estas informações entram por várias vias e são processadas num único momento.

Na maior parte das vezes, tudo é registado em sincronia.

 

Émile Boirac introduziu o “déjà vu” como um termo francês que significa “já visto”

 

Porém, esta teoria afirma que um “déjà vu” ocorre quando há uma leve demora nas informações de uma dessas vias.

A diferença nos tempos de chegada leva o cérebro a interpretar a última informação como um acontecimento em separado.

Quando se inscreve sobre o momento já registado, sentimos que já aconteceu antes porque, em certo sentido, aconteceu.

 

Teoria do Holograma

Esta teoria trata de uma confusão do passado em vez de um erro do presente.

Vamos imaginar a toalha de mesa do restaurante.

Quando observamos os quadrados da toalha, uma memória distante emerge da profundeza do cérebro.

Segundo esta teoria, isto acontece porque as memórias são guardadas sob a forma de hologramas.

Nos hologramas, basta um fragmento para vermos a imagem completa.

O cérebro identificou a toalha com uma do nosso passado, talvez da casa da nossa avó.

Mas, em vez de nos lembrarmos que a vimos em casa da avó, o cérebro foi buscar uma antiga memória sem a identificar.

Isso deixa-nos presos à familiaridade mas não à recordação.

Embora nunca tenhamos estado neste restaurante, vimos aquela toalha mas não conseguimos identificá-la.

 

Teoria da Atenção Dividida

A última teoria é a atenção dividida e afirma que o “déjà vu” ocorre quando o cérebro, subliminarmente, assume um ambiente, embora estejamos distraídos com um determinado objeto.

Quando a atenção regressa, é como se já lá tivéssemos estado antes.

Por exemplo, concentrámo-nos num garfo, e não observámos a toalha nem o empregado a deixar cair a bandeja.

Embora o cérebro estivesse a registar tudo na nossa visão periférica, estava a fazer isso para além duma atenção consciente.

Quando, por fim, nos distanciamos do garfo, pensamos que já lá tínhamos estado — e tínhamos — só que não estávamos a prestar atenção.

 

O “déjà vu” não tem manifestações físicas e é descrita pelo sujeito como uma sensação ou um sentimento.

 

Embora estas três teorias partilhem a característica comum do “déjà vu”, nenhuma delas se propõe ser a origem conclusiva do fenómeno.

Mas, enquanto aguardamos que os investigadores e inventores apareçam com novas formas de captar este momento esquivo, podemos estudar esse momento por nós mesmos.

Afinal, muitos estudos do “déjà vu” baseiam-se em relatos diretos, assim, porque não pode ser um dos nossos?

Quando tiverem um “déjà vu”, pensem nele durante algum tempo.

Estiveram distraídos?

Há algures um objeto conhecido?

O vosso cérebro está a agir lentamente?

Ou será outra coisa qualquer?

 

Michael Molina – TED-Ed lessons

Adaptação de Pedro martins a partir da tradução de Margarida Ferreira e revisão de Mafalda Ferreira

A Defesa Psíquica - Pedro Martins - Psicólogo Clínico Psicoterapeuta

A Defesa Psíquica

O processo defensivo, ou simplesmente defesa, é um processo de adaptação à realidade social; processo que – pelo seu excesso, persistência ou invariabilidade – se torna patogénico.

É importante sublinhar que os mecanismos de defesa do Eu têm uma função adaptativa.

A neurose é portanto uma doença de adaptação: sofrimento condicionado pelo emprego excessivo, não descriminado e inflexível das “defesas”.

Anna Freud, em 1946, faz uma lista dos mecanismos de defesa descritos na obra do seu pai:

– Recalcamento

– Regressão

– Formação reactiva

– Isolamento

– Anulação retroactica

– Projecção

– Introjecção

– Inflexão sobre si próprio

– Transformação no contrário

– Sublimação.

 

Estes são os diferentes tipos de resistências que o Eu opõe às necessidades instintivas, para as adaptar às exigências da realidade social ou da sua interiorização (Supereu).

Por medo do castigo, ou por culpabilidade, o indivíduo defende-se dos seus próprios impulsos, comportando-se pois, dentro de certa medida, como um inimigo de si próprio.

Resiste à satisfação imediata e directa – ao princípio do prazer – para melhor se adaptar à lei social: obedecendo assim, ao princípio da realidade.

A socialização exige portanto uma luta contra a vida instintiva, limitando-a no seu exercício e condicionando-a a certos padrões.

É o preço da civilização, o acesso à cultura; mas também o caminho para a neurose. Donde, a dificuldade em atingir um salutar equilíbrio entre a satisfação individual e a concórdia social.

O conflito, aberto ou interiorizado, é permanente e insolúvel; das suas proporções, orientação e compromissos resultará a saúde, o crime ou a doença.

 

Os mecanismos de defesa contra as pulsões surgem para controlar a ansiedade.

 

Os enumerados “mecanismos de defesa do Eu”, defendem, então, o indivíduo da sua impulsividade inata e biológica, dos seus instintos primários e não facilmente domáveis, da sua natureza animal – para o adaptar à realidade da ordem social, para o contemporizar com a cultura que o envolve.

São processos de adaptação das necessidades instintivas e individuais às necessidades civilizacionais e gregárias; utilizadas pelo Eu que coordena a vida de relação.

A designação de defesa presta-se, no entanto, a um certo mal-entendido: porquanto o indivíduo, quando utiliza as defesas, não se defende propriamente; mas ataca-se (pelo menos de certo modo), limitando-se.

Melhor seria falar-se em mecanismos de resistência do Eu: o Eu, representante da realidade, resiste a aceitar e ceder à pulsão e seus objectivos.

É certo que, numa perspectiva de benefícios futuros, o indivíduo se protege: resistindo à satisfação directa e imediata do instinto.

Ainda que à custa de um sofrimento momentâneo – evita o desprezar secundário, decorrente do castigo ou da culpabilidade, e propõe-se um prazer adiado, mas mais seguro, porque de acordo com as normas vigentes.

Por outro lado, também, o Eu defende-se do sentimento de medo ou de angústia ou ansiedade, que o aflorar das pulsões inaceitáveis (pelos outros ou pelo Supereu) necessariamente acarreta.

E é assim mesmo que os mecanismos de defesa – contra as pulsões – surgem: para controlar a ansiedade.

 

Os “mecanismos de defesa do Eu” defendem o indivíduo da sua impulsividade inata e biológica, dos seus instintos primários para o adaptar à realidade da ordem social.

 

Até aqui referimo-nos aos mecanismos de defesa dirigidos contra os instintos.

Mas o Eu utiliza outras defesas: o evitamento das situações ansiógenas (de perigo real ou imaginário) – mecanismo de defesa típico da fobia – e a negação (ou denegação) por porção inquietante ou desagradável da realidade – processo defensivo da perversão e da psicose.

Processos dirigidos contra o contacto ou a percepção da realidade operam pela fuga ou pelo desinvestimento; ambos condicionando uma retracção da expansão do Eu.

Umas e outras – defesas contra as pulsões e defesas contra a realidade – limitam a extensão e profundidade da vida relacional, facilitando a adaptação em certas circunstâncias, mas sendo sempre potencialmente patogénicas e frequentemente patológicas (sinal de sintoma de debilidade do Eu para enfrentar a pressão dos instintos ou das dificuldades do real).

Reconhece-se o carácter patológico quando funcionam de forma monótona, estereotipada, anacrónica e desadaptada; sistemática, predominante ou quase única (um indicador de saúde mental é a utilização fluida de diversos mecanismos de defesa).

 

“A defesa psíquica” – Coimbra de Matos

(Por se tratar de uma transcrição quase integral do artigo, optei por não colocar aspas)

Quão bons foram os seus pais?Pedro Martins Psicoterapeuta / Psicólogo Clínico

Quão bons foram os seus pais?

Estranhamente, parece que nenhum ser humano pode crescer realmente saudável, a não ser que tenha sido amado muito profundamente por alguém (pais) durante os primeiros anos da sua vida.

Mas ainda estamos a aprender o que o amor dos pais pode realmente envolver. Então, quão bons foram os seus pais?

Aqui estão oito princípios de boa paternidade que podem ser usados para os avaliar.

 

1 – Sintonia

Os pais afectuosos descem ao nível da criança – às vezes literalmente, quando se dirigem a ela – para ver o mundo através dos seus olhos.

Eles compreendem que uma criança muito nova não se pode encaixar facilmente nas exigências externas e que, nos primeiros tempos, deve ser-lhe dada prioridade e colocada no centro das coisas, não para a “mimar”, mas para lhe dar uma oportunidade de crescer.

 

2 – Pequenas Coisas

Os pais afectuosos compreendem que a vida dos seus filhos gira em torno de particularidades que são, por qualquer medida adulta, muito pequenas.

As crianças de tenra idade sentir-se-ão enormemente felizes porque podem pôr as mãos numa massa qualquer ou ter a oportunidade de “espetar” uma colher numa tigela de ervilhas com energia ou dizer ‘bah’ muito alto.

E sentir-se-ão extremamente tristes porque o coelho de estimação perdeu um dos seus botões ou uma página do livro seu favorito rasgou-se.

O progenitor suficientemente bom sente que tem recursos suficientes dentro de si para não criticar a criança que está a fazer um grande alarido com o chamado ‘nada’.

Seguirá a criança na sua excitação com uma poça de água e na sua dor por causa de uma meia desconfortável.

 

Os bons progenitores sabem que aqueles que acabam por se apegar com segurança e capazes de tolerar a ausência são aqueles a quem originalmente foi permitido ter tanta dependência e ligação quanto necessário.

 

Compreende que a capacidade futura da criança ser atenciosa para com as outras pessoas e de lidar com desastres genuínos estará criticamente dependente de ela ter recebido por parte dos pais a sua grande cota de simpatia por uma série de tristezas adequadas à idade.

 

3 – Perdão

Os pais afectuosos saberão dar a melhor interpretação possível a um comportamento que possa parecer infeliz e desagradável para os outros:

a criança pequena não é ‘um desordeiro’, mas é claro que ficou muito perturbada com o nascimento do irmão. Não é ‘anti-social’, mas sente-se bem num pequeno círculo de pessoas conhecidas e especialmente reconfortantes.

A capacidade dos pais para dar explicações gentis e criativas continuará a moldar o funcionamento da própria consciência da criança; aprenderá a arte do perdão a si mesma. Não terá de se torturar pelos seus erros.

Não sofrerá as devastações da auto-aversão, nem, quando estragar tudo, será tentada a tirar a sua própria vida.

 

4 – Fases Estranhas

O progenitor afectuoso sentir-se-á suficientemente saudável para permitir que um filho seja esquisito durante algum tempo, sabendo que o chamado esquisito faz parte do desenvolvimento normal.

Não se sentirá nervoso por a criança ter decidido fingir que é um animal ou que quer comer apenas alimentos de cor vermelha ou ter um amigo imaginário a viver numa árvore do jardim.

O adulto terá fé no surgimento da sanidade – e na sabedoria de explorar uma série de opções possíveis antes de optar pela sensatez.

Será capaz de permanecer calmo diante de algumas birras e obsessões intensas, não precisará de desligar a irreverência a cada passo, será paciente em torno da infelicidade e não se deixará abater pelo mau humor do adolescente.

Os pais não atribuirão etiquetas à criança que a possam fixar num papel que estava apenas a experimentar.

 

A recompensa dos pais por todo o seu trabalho nunca será directa; chegará ao fim de muitos anos, observando que o seu filho se tornou ele próprio um bom pai.

 

Terão o cuidado de dizer a uma criança que ela é “a zangada”, “o filósofozinho”, “o sabichão” ou mesmo “a gentil”: isso permitirá à criança o luxo de escolher a sua própria identidade.

 

5 – Apegado

Os bons pais sabem que as crianças podem muito bem apegar-se por muito tempo, e nunca olharão para esta necessidade natural de tranquilidade em termos pejorativos.

Não dirão à criança para se animar e ser um “homenzinho” ou uma “jovem senhora” para sentirem-se orgulhosos.

Sabem que aqueles que acabam por se apegar com segurança e capazes de tolerar a ausência são aqueles a quem originalmente foi permitido ter tanta dependência e ligação quanto necessário.

 

6 – Perfeição

Um bom pai não se apresentará como sendo hollywoodesco, distante ou uma pessoa inalcançável, uma figura que a criança possa ser tentada a idealizar e a contemplar de longe.

Os bons pais saberão estar presentes e mostrar-se pessoas comuns na sua casa; dignos talvez, mas também, por vezes, inquinados, esquecidos, tolos e desejosos de tempo livre sem os filhos.

O bom pai saberá que os pais têm peculiaridades e defeitos para levar a criança a reconciliar-se com a sua própria humanidade – e também, eventualmente, sair de casa e seguir em frente com a sua própria vida.

 

7 – Bondade

Um bom pai saberá como fazer parecer ser monótono. Compreenderá que o que a criança precisa principalmente é de uma fonte de calma fiável, e não de fogos-de-artifício e excitação (tem o suficiente disso dentro da sua própria mente).

 

Os bons pais compreendem que deve ser dada prioridade à criança, não para a “mimar”, mas para lhe dar uma oportunidade de crescer.

 

Deve estar lá, no mesmo lugar, a dizer mais ou menos as mesmas coisas, durante décadas.

Deve ter o cuidado de ser previsível e de editar os seus estados de espírito inesperados, a criança não precisa de uma imagem completa de cada perturbação e tentação que percorre a mente dos seus cuidadores.

Os pais aceitam que ‘mamã’ ou ‘papá’ são papéis, não representações completas; deveria ser um privilégio das crianças não terem de conhecer os seus pais em todos os pormenores.

 

8 – Amor não-correspondido

Os bons pais não estão à procura de uma relação equilibrada. Ficam felizes por dar de forma unilateral. Não precisam que as crianças lhe perguntem como foi o seu dia ou o que pensa das novas medidas do governo.

Sabem que uma criança deve poder tomar um progenitor substancialmente por garantido.

A recompensa dos pais por todo o seu trabalho nunca será directa; chegará ao fim de muitos anos, observando que o seu filho se tornou ele próprio um bom pai.

Dito de forma simples: o amor é o comportamento atencioso, terno e extremamente paciente demonstrado por um adulto durante muitos anos em relação a uma criança que não pode deixar de estar largamente fora de controlo, confusa, frustrada e desconcertada – para que, com o tempo, possa tornar-se num adulto capaz de tomar o seu lugar na sociedade sem demasiada perda de espontaneidade, sem demasiado terror e com uma confiança básica nas suas próprias capacidades e possibilidades de realização.

Deveria ser uma questão de consternação global que, apesar dos nossos grandes avanços, ainda estamos apenas no alvorecer de saber como assegurar que todos tenhamos a infância amorosa que merecemos.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

A partir de: “ A test to Judge how good your parents were – Alain de Botton

Aprender a usar a Raiva - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Aprender a usar a Raiva

Há muitas razões para acreditar que um dos principais problemas no mundo de hoje é o excesso de raiva.

Mas pode ser bastante mais realista, ainda que estranho, insistir precisamente no oposto.

Qualquer que seja a impressão gerada por uma multidão de enfurecidos, o problema muito mais comum mas invisível (por natureza) é a tendência contrária.

Ou seja, uma incapacidade generalizada das pessoas de se zangar. Uma inépcia em conseguirem queixar-se com eficácia.

Engole-se a frustração e a amargura.

A consequência de não permitir que nenhuma das nossas dores legítimas seja expressa, é o surgimento de sinais (subterrâneos) de depressão.

Por cada pessoa que grita demasiado alto, há pelo menos vinte que perderam (injustamente) a sua voz.

Não estamos aqui a falar de uma raiva delirante que não leva a lado nenhum.

Não se trata de reabilitar a barbárie, trata-se de defender a capacidade de falar, de se manifestar – com dignidade e equilíbrio – para corrigir algo que não está bem, e oferecer àqueles que nos rodeiam outra perspectiva.

O problema é que dizemos a nós próprios – nos relacionamentos ou no trabalho – que os outros devem ter as suas boas razões para se comportarem da forma que se comportam; que devemos ser amáveis e bons e que seria uma afronta aos esforços dos outros manifestarmo-nos sobre um problema que, certamente, nem sequer compreendemos inteiramente.

Temos tendência para carregar a nossa modéstia desde a infância.

É uma excepção permitir que uma criança manifeste a sua frustração. Grande parte dos pais não está disposta a isso. Alguns pais estão mais interessados em ter um “bom menino”.

 

No trabalho, uma preocupação inabalável com a gentileza, a polidez e a deferência pode acabar por proporcionar as condições perfeitas para ser um pau para toda a obra.

 

Desde o primeiro momento, eles fazem saber à criança que ser “travesso” não tem graça e que esta não é uma família onde as crianças podem fazer o que bem lhes apetece com os adultos.

Birras, queixinhas e acesso de raiva não são bem aceites.

Isto certamente garante a obediência a curto prazo, mas paradoxalmente, o bom comportamento imposto inicialmente (contranatura) é geralmente um precursor de várias dificuldades.

Entre elas a dificuldade em respeitar as hierarquias e a figuras de autoridade, e um enorme mal-estar mental na idade adulta.

Sentir-se suficientemente amado para poder zangar-se e responder mal (dentro de certos limites) às figuras parentais pertence à saúde mental.

Pais verdadeiramente maduros têm regras e permitem que os seus filhos (por vezes) as quebrem.

Caso contrário, dá-se uma espécie de morte interior, resultado de ter tido de ser muito bonzinho cedo demais e de se resignar ao ponto de vista do outro sem mostrar a sua perspectiva, uma autodefesa.

Nos relacionamentos, isto pode significar uma tendência para embarcar numa viagem durante muitos anos, não em termos de abuso (embora também isso), mas de aceitar pequenas humilhações, que são uma espécie de dado adquirido nas pessoas que não conseguem mostrar o seu desagrado.

No trabalho, uma preocupação inabalável com a gentileza, a polidez e a deferência pode acabar por proporcionar as condições perfeitas para ser um pau para toda a obra.

Deveríamos – por vezes – reaprender a arte negligenciada de sermos educadamente chatos.

O objectivo é protestar com firmeza, mas de forma controlado: “desculpe-me, mas você está a destruir o que sobrou da minha vida; sinto muito, mas você está arruinar as minhas possibilidades de ser feliz; Peço desculpa, mas chega, não vou permitir que continue…”

 

A consequência de não permitir a expressão da raiva, que nenhuma das nossas dores legítimas seja expressa, é o surgimento de sinais (subterrâneos) de depressão.

 

Pensamos muito em ir de férias e experimentar novas actividades. Há muito entusiasmo em aprender outras línguas e em experimentar pratos estrangeiros.

Mas o verdadeiro exotismo e aventura podem estar mais perto de casa: na esfera emocional, e na coragem e originalidade necessárias para dar um impulso à raiva contida.

Já temos os discursos escritos nas nossas cabeças. É provável que haja um cônjuge, um pai, um colega ou um filho que não tenha ouvido o suficiente de nós durante demasiado tempo – e seria um benefício incalculável para o nosso bem-estar emocional e físico ter uma palavra a dizer.

Os tímidos imaginam sempre que a raiva pode destruir tudo o que é bom.

Esquecem – porque a sua infância os encorajou a fazê-lo – que a expressão raiva também pode ser profundamente libertador e fonte de mudanças.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de Alain de Botton “Learning how to be angry”

Por que precisamos sentir-nos escutados - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Por que precisamos sentir-nos escutados?

Um dos nossos desejos mais profundos – talvez mais profundo do que nos apercebemos – é sermos escutados e que as outras pessoas reconheçam alguns dos nossos sentimentos.

Queremos que – em momentos-chave – o nosso sofrimento seja compreendido, as ansiedades notadas e a nossa tristeza legitimada.

Não queremos que os outros concordem necessariamente com todos os nossos sentimentos, mas desejamos que, pelo menos, os validem.

 

Quando estamos furiosos, queremos que a outra pessoa diga:

Vejo que chegaste ao teu limite. Imagino que neste momento queiras desaparecer.

Quando estamos tristes, queremos que alguém diga:

Sei que estás em baixo e compreendo porque estás assim.

E quando já não aguentamos mais nada, queremos que alguém diga empaticamente:

Tem sido demasiado para ti; reconheço-o facilmente; claro que sim.

 

Parece absurdamente simples, e, de certa forma é. E, no entanto, tão pouco deste néctar emocional do reconhecimento recebemos de facto, ou presenteamos uns aos outros.

O hábito dos nossos sentimentos não serem devidamente escutados e reconhecidos começa na infância.

Os pais, mesmo os mais amorosos, escorregam frequentemente neste domínio.

Não é que teoricamente não se preocupem intensamente com os seus filhos, mas que não estimem que o verdadeiro cuidado envolve reflectir regularmente o estado de espírito das crianças – em vez de afastar subtilmente esses estados de espírito ou negar que eles existem.

Aqui estão algumas trocas típicas entre pais e filhos em que não se dá esse reconhecimento:

Criança: Estou a sentir-me triste.

Pai: Não sejas tonto, não pode ser, estamos de férias.

 

Criança: Estou realmente preocupada.

Pai: Querida, isso é ridículo, não há nada a recear aqui.

 

Criança: Quem me dera que nunca mais houvesse escola.

Pai: Não sejas tão tonto. Despacha-te que temos de sair de casa às oito.

 

Amamos tanto os nossos filhos, que não queremos imaginar que eles possam estar tristes ou preocupados, perdidos ou a passar um momento terrivelmente difícil na escola

 

Como as coisas poderiam ser diferentes, e a criança teria uma oportunidade de crescer de outra forma, se tais diálogos fossem ligeiramente afinados: se, por exemplo, os pais dissessem:

 

‘É realmente esquisito como podemos ficar tristes nos momentos mais estranhos, como nas férias…’

Ou: ‘Vejo que estás assustado: aquele vento lá fora está realmente muito forte…’

Ou: ‘Deve ser horrível começar a manhã logo com duas aulas de matemática, particularmente depois de um fim-de-semana tão agradável…’

 

Há uma razão pela qual não reconhecemos as coisas como poderíamos: o medo.

Os sentimentos que afastamos são todos, de uma forma ou de outra, emocionalmente inconvenientes, perturbadores ou aborrecidos:

Amamos tanto os nossos filhos, que não queremos imaginar que eles possam estar tristes ou preocupados, perdidos ou a passar um momento terrivelmente difícil na escola.

Além disso, podemos pensar que ao reconhecer um sentimento difícil, o tornará muito pior do que é. Isso significará fomentá-lo indevidamente ou ceder inteiramente a ele.

Receamos que, se dermos um pouco de espelhamento imparcial aos nossos filhos, possamos estar a encorajá-los a tornarem-se depressivos, cronicamente tímidos ou inteiramente resistentes à autoridade.

Mas é exactamente o oposto. Uma vez escutados, os nossos filhos não se afundam nos sentimentos que os assolam, mas libertam-se deles.

A pessoa zangada fica menos enfurecida quando a dimensão da sua frustração é reconhecida.

A criança rebelde cresce mais, e fica mais inclinada a cumprir e aceitar as normas quando os seus sentimentos de querer incendiar a escola, partir os óculos ao director e fugir para uma ilha deserta tiverem sido escutados e identificados.

Os sentimentos tornam-se menos fortes assim que lhes é dado espaço para se expressarem. Tornamo-nos “bullies” quando ninguém nos ouve, e nunca porque nos ouviram em demasia.

 

Um dos nossos desejos mais profundos é sermos escutados e que as outras pessoas reconheçam alguns dos nossos sentimentos

 

O problema dos sentimentos não reconhecidos não acaba – infelizmente – com a infância. Os casais passam rotineiramente pelo mesmo. Por exemplo:

 

Parceiro 1: Às vezes sinto que não me ouves…

Parceiro 2: Só podes estar a brincar comigo; eu dedico-me tanto a esta relação. 

 

Parceiro 1: Estou preocupado com a possibilidade de ser despedido

Parceiro 2: Isso não é possível, trabalhas tanto.

 

O caminho para um divórcio litigioso ou para um caso extraconjugal começa a traçar-se.

 

A boa notícia é que é possível melhorar bastante as coisas com muito pouco esforço.

Basta, simplesmente, aprendermos a mudar a forma como habitualmente respondemos às afirmações daqueles que nos interessam.

Só precisamos reconhecer os seus sentimentos, mesmo os potencialmente embaraçosos, durante alguns momentos, usando certas frases mágicas:

 

Eu vejo que tu precisas muito de…

Tu deves estar a sentir-te tão…

Compreendo perfeitamente que…

 

Tais frases podem mudar o curso das vidas. A pessoa que precisa que os seus sentimentos sejam reconhecidos quase nunca usará isso como licença para aumentar a sua angústia ou culpa.

As leis da psicologia ditam que uma crise começa imediatamente a desvanecer uma vez que um simples espelhamento sem julgamento tenha tido lugar.

 

A pessoa zangada fica menos enfurecida quando a dimensão da sua frustração é escutada e reconhecida

 

Não precisamos de ser escutados por todos. Podemos suportar muitos sentimentos não reconhecidos quando determinadas pessoas – algumas delas na nossa infância, e idealmente uma delas no nosso “quarto” e no nosso círculo de amizades – de vez em quando nos escuta e nos faz voltar para nós.

Aquele que reclama, a pessoa movida por um desejo rígido de que todos os outros a ouçam, evidencia as consequências assustadoras de nunca ter sido ouvida quando isso era importante.

Quase não há limite para o que podemos estar dispostos a fazer por aqueles que nos prestam a imensa honra, psicologicamente redentora, de ocasionalmente nos escutarem, reconhecendo o que realmente estamos a sentir, por estranho, melancólico ou inconveniente que possa ser.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de: Why We Need to Feel Heard – Alain de Botton

Porque as pessoas são más. Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Por que é que as pessoas são más?

Por que é que as pessoas são más? Maldade – origem e reprodução

Algumas crianças não são muito simpáticas para os seus irmãos e irmãs, nem para os seus colegas de turma na escola.

Chamam-lhes nomes, implicam com eles ou tentam estragar-lhes o recreio.

Podem fingir ser suas amigas e depois dizer coisas muito pouco simpáticas nas suas costas.

Parece que tudo o que querem é que as outras pessoas se sintam pequenas e estúpidas.

Pode ser realmente perturbador e assustador estar do lado de quem recebe este tipo de intimidação.

Mas porque é que as pessoas são más?

Porque é que uma pessoa quer fazer outra pessoa sentir-se miserável?

A resposta é muito surpreendente: é porque elas se sentem pequenas e miseráveis dentro de si mesmas.

Não se sabe ao olhar para elas — elas podem parecer fortes e confiantes e muito satisfeitas consigo próprias. Podem parecer rir-se muito — talvez rirem-se de nós.

Mas se pensarmos nisso, ninguém que seja realmente feliz quereria fazer outra pessoa infeliz.

As pessoas que são realmente fortes e confiantes são quase sempre gentis e amáveis para com os outros.

Se alguém é mau e um agressor é porque em casa, ou no passado, alguma coisa ou alguém a assustou.

Provavelmente nunca saberemos os detalhes, mas podemos imaginar.

 

As pessoas são más porque se sentem pequenas e miseráveis dentro de si mesmas.

 

Talvez tenham um irmão mais velho que se mete com elas. Ou a mãe esteja sempre a mandar nelas. Talvez os pais gritem um com o outro.

Dentro das suas cabeças, estas pessoas que parecem tão corajosas e destemidas, na verdade sentem-se tristes e preocupadas.

Estão demasiado assustadas para deixar alguém ver como se sentem realmente fracas, por isso tentam fazer-se sentir melhor, fazendo outra pessoa sofrer.

Aqueles que foram feridos, ferem os outros.

Compreender isto não resolve imediatamente o problema se alguém estiver a ser mau para nós, mas pode ajudar um pouco.

Pode ajudar-nos a lembrar que não merecemos ser mal tratados, que não é algo que tenhamos feito e que não há nada de errado connosco.

A melhor maneira de compreender um intimidador ou uma pessoa má é colocar-mo-nos na sua posição.

Pensemos numa altura em que não tenhamos sido muito simpáticos para alguém.

A maioria das pessoas é um pouco má para alguém em algum momento, ou pode até ter querido ser um bocadinho horrível, mesmo que nada venham a fazer ou a dizer.

Não é mau ou errado, é apenas a vida.

Agora pensemos porque é que fomos maus para essa pessoa — é quase sempre porque algo mais nos estava a incomodar, que não sabíamos como corrigir.

 

Alain de Botton, Big ideas for curious minds

 

Por que é tão difícil parar de consumir álcool e drogas Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Por que é tão difícil parar de consumir álcool e drogas?

Estar sobre o efeito de drogas pode permitir o aparecimento de partes de si que estão escondidas.

 

Os programas de tratamento de dependências têm uma taxa de insucesso alarmante, frequentemente atribuída aos poderosos efeitos químicos das drogas e do álcool.

No entanto, muitos consumidores nunca se tornam viciados – mesmo após um consumo prolongado.

Uma das razões pelas quais algumas pessoas recaem repetidamente é que, para elas, estar sobre o efeito de drogas permite-lhes expressar sentimentos que estão fora da consciência quando estão sóbrios.

Este aspecto é frequentemente negligenciado nos programas de tratamento: na sua luta para estarem sóbrios os toxicodependentes não só sentem falta de estarem “pedrados”, como também da forma como a substância facilita que partes despojadas do “eu” se possam exprimir.

 

O que são Partes Despojadas do Eu?

À medida que a nossa identidade se desenvolve, tendemos a sentir-nos mais confortáveis na expressão de certas partes de nós próprios-emoções e menos confortáveis com outras.

Na nossa cultura a expressão da agressividade é favorecida aos homens; já a vulnerabilidade não é muito bem vista.

Isto não significa que os homens não se sintam vulneráveis, mas não tomam muita consciência disso.

Uma pessoa criada numa família em que a agressividade não é bem aceite pode ter a tendência de negar sentimentos de zanga e de raiva, e comportar-se como se nada a atingisse.

O que acontece aos sentimentos que estamos relutantes em reconhecer?

Bem, eles não desaparecem simplesmente; ficam fora da consciência e muitas vezes não sabemos que eles continuam lá. Estas são as partes despojadas do Eu.

 

Estar sobre o efeito de drogas permite a expressão das partes despojadas do Eu

As drogas e o álcool podem libertar as nossas inibições, permitindo-nos expressar partes de nós próprios; sentimentos que normalmente escondemos.

 

Estar sobre o efeito de drogas facilita a expressão de sentimentos

 

Pense no cliché do homem macho que depois de uma “noite de copos” fica com os olhos em lágrimas, abraça o seu melhor amigo e diz-lhe o quanto gosta dele.

Neste cenário, a bebida permite a expressão de sentimentos que normalmente residem fora da consciência.

A pesquisa sobre o uso médico de várias drogas como a Ketamina, o LSD e o MDMA procura saber como estas drogas permitem o acesso a partes da personalidade que, de outra forma, estariam “sequestradas”.

Quando estes medicamentos são administrados num contexto terapêutico, ajudam as pessoas a compreender e a integrar partes do seu Eu que, de outra forma, seriam despojadas.

 

Beatriz

Beatriz é uma médica de sucesso que dedica muitas horas a tratar os seus pacientes.

Em casa, é a “pessoa de referência” para a sua família alargada; sempre que os seus familiares têm alguma dificuldade é a ela que recorrem para obter conselhos.

Quando está sóbria, Beatriz orgulha-se do seu importante papel na família, embora deseje secretamente ficar sozinha a ler um bom livro.

Quando bebe, Beatriz já não tem de assumir o papel da “forte”. À noite costuma ligar aos amigos e fica ao telefone com eles durante horas.

Diz-lhes como se sente sozinha e que não há ninguém que se preocupe e olhe por ela.

Quando está embriagada, Beatriz é capaz de expressar o seu anseio e desejo de ser cuidada.

Quando bebe consegue chorar por sentir-se sozinha, e pode sentir pena de ter crescido numa família onde era a mais velha de seis irmãos, e onde a mãe não chegava para todos.

 

O consumo de substâncias pode libertar as nossas inibições, permitindo-nos expressar partes de nós próprios

 

Sóbria, ela não tem acesso a esses sentimentos. Quando dizem a Beatriz sobre o que se conversou quando estava bêbeda, ela não se lembra.

 

Miguel

Miguel é um profissional de sucesso a trabalhar numa das empresas mais competitivas do seu ramo.

Ele está numa relação de “começa-acaba” com a sua namorada Joana.

Quando Miguel está sóbrio expressa com frequência o seu amor por Joana.

Embora esteja consciente da sua insatisfação em relação à entrega emocional da namorada, ele não se queixa.

Devido ao medo de ser abandonado, evita começar uma discussão.

A discórdia na casa dos pais de Miguel acabou por levar à dissolução do casamento.

Quando Miguel está sobre o efeito de uma combinação de álcool e marijuana, consegue facilmente expressar o seu descontentamento com a relação.

De volta ao medo de perder a Joana, ele desconsidera as partes zangadas e insatisfeitas de si mesmo.

Ele é incapaz de expressar as suas legítimas preocupações quando está sóbrio, uma altura em que seria mais capaz de ter uma discussão construtiva.

 

Para onde vamos a partir daqui

Apesar das repetidas tentativas de parar de consumir, Beatriz e Miguel caem frequentemente no mesmo.

Na terapia tentam “aprender” a tolerar sentimentos desconfortáveis.

Em vez de rejeitarem estas partes de si mesmos como sendo apenas “confusas”, têm de perceber que os seus sentimentos são legítimos – de facto, são aspectos muito importantes de quem eles são.

Se conseguirem encontrar uma forma de expressar as partes escondidas e despojadas de si próprios quando estão sóbrios, poderão mais facilmente sustentar a sobriedade.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

A partir de: Why Drugs and Alcohol Can Be So Hard to Quit – David Braucher

As Mães são Sempre as Culpadas? Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

As Mães São Sempre as Culpadas?

“As Mães São Sempre as Culpadas”. Mito ou realidade?

O que é que o mito da mãe esquizofrenogénica nos impede de tentar compreender?

 

Nenhum relato da história da psiquiatria do século XX está completo sem uma discussão sobre a “mãe esquizofrenogénica”, uma invenção sinistra da saída da imaginação dos psiquiatras misóginos.

A “mãe esquizofrenogénica”, como referem, foi considerada a única responsável pela génese do sofrimento rotulado como “esquizofrenia” nos seus filhos.

Como Allan F. Mirsky e colegas observaram num artigo sobre as Irmãs Genain, “Os anos 50 foram a era em que o conceito de ‘mãe esquizofrenogénica’ foi amplamente aceite.

No livro “Mística Feminina”, Betty Friedan referiu:

“De repente, descobriu-se que a mãe podia ser responsabilizada por quase tudo.

Em todos os casos de crianças perturbadas, mas também de adultos alcoólicos, suicidas, esquizofrénicos, psicopatas, neuróticos; na homossexualidade masculina, impotência;  promiscuidade feminina, frigidez; asma, e em todas as perturbações dos americanos, poderia ser encontrada uma mãe…

Claramente, algo estava ‘errado’ com as mulheres americanas.”

Este culpar da mãe é frequente na literatura psiquiátrica de meados do século, como escreveu a psicóloga Stella Chess em 1965:

“O procedimento padrão é assumir que o problema da criança é reactivo (à relação com a mãe) ao contacto materno num relacionamento individual.

Situações particulares que se encaixam nestas especulações são citadas como típicas dos sentimentos da criança e das atitudes da mãe, e são tomadas como prova da universalidade da tese das atitudes maternas nocivas.”

Ou como John Neill, MD, observou uma geração depois:

“Tornou-se prática comum acreditar que as mães eram a causa da psicose dos seus filhos.”

Mas será que os psiquiatras realmente “culparam a mãe” com exclusão de todas as outras causas? De onde veio essa noção?

 

O conceito de mãe esquizofrenogénica não era suficiente para explicar a génese da esquizofrenia

 

Como na maioria dos mitos, o mito do foco da psiquiatria na mãe esquizofrenogénica tem um fundo de verdade.

Num artigo de 1948, a psiquiatra alemã Frieda Fromm-Reichmann escreveu:

“O esquizofrénico é dolorosamente desconfiado e ressentido com as outras pessoas, devido à severa manipulação e rejeição que encontrou nas pessoas importantes da sua infância e juventude, como regra, principalmente uma mãe esquizofrenogénica.”

A Dra. Fromm-Reichmann era uma psicanalista famosa pela sua compaixão e habilidade em manejar até os casos mais complicados, aparentemente intratáveis ​​de “esquizofrenia” com psicoterapia intensiva e sem medicação.

É importante referir que as observações acima foram retiradas dum artigo que nem sequer se referia directamente à etiologia da esquizofrenia, mas era dedicado quase exclusivamente à dinâmica da relação terapeuta-paciente.

A análise dos escritos dos colegas de orientação psicanalítica da Dra. Fromm-Reichmann nos anos 50 e 60 revela que desde o início eles entenderam perfeitamente que o conceito de mãe esquizofrenogénica não era suficiente para explicar a génese da esquizofrenia e que essa condição era provavelmente o resultado de famílias perturbadas, e não apenas de mães perturbadas.

Por exemplo, Trude Tietze (1949), escreveu sobre o papel do pai:

“Pouco se sabe sobre os pais de crianças esquizofrénicas. Nenhuma investigação sistemática ao pai foi realizada em conexão com o presente estudo.

No entanto foram entrevistados oito pais e a impressão era de que eles também tinham muitos problemas de personalidade. Pareciam pessoas perfeccionistas e obsessivas, tão doentes quanto as esposas.”

Da mesma forma, os psiquiatras Ruth e Theodore Lidz escreveram:

“Nos nossos dados, é visível que as influências paternas são tão nocivas quanto as maternas.”

As suas descobertas foram replicadas nos estudos de Clardy,  Nuffield, Wahl, entre outros, que confirmaram o papel de todos os membros da família.

 

É realmente um exagero sugerir que consequências terríveis podem ocorrer quando esse relacionamento corre mal?

 

O psiquiatra DD Jackson achou que a esquizofrenia deveria ser estudada como uma “doença de origem familiar que envolve um ciclo complicado de vetores que vão muito para além do que pode ser conotado pelo termo ‘mãe esquizofrenogénica’.

Lidz e seus colegas concordaram, observando:

“Uma vez que os nossos estudos estavam a pôr a descoberto sérias dificuldades em quase todas as áreas nessas famílias, preferimos equilibrar o assunto, direccionando a atenção para a situação total ao invés do foco na mãe.”

De qualquer forma, a relação mãe-filho é sem dúvida o relacionamento humano mais importante que existe.

É realmente um exagero sugerir que consequências terríveis podem ocorrer quando esse relacionamento corre mal?

O artigo de Tietze, acima, discute o caso clínico de uma jovem mulher com esquizofrenia cuja mãe estava obcecada em impedir a filha de se masturbar.

Essa mulher cheirava as mãos da filha durante o dia para verificar se ela se tinha masturbado, e efectuou duas mutilações cirúrgicas no clitóris da criança; uma quando tinha um ano e outra quando ela tinha dois.

Essa mesma mãe inspeccionava a vulva da sua filha todas as noites e batia-lhe se julgasse que os lábios da vulva estavam “irritados”.

Será que as acções desta mãe tiveram algo a ver com os problemas que a filha apresentou mais tarde? Com toda a certeza.

Mas reconhecer o papel do trauma infligido pela mãe a uma determinada pessoa não é o mesmo que culpar a mãe por toda a “doença mental”.

A questão é meramente académica? Não.

Olhemos a resposta do psicólogo L. Alan Sroufe a um artigo publicado no New York Times em 2012.

 

É visível que as influências paternas são tão nocivas quanto as maternas

 

O artigo discutiu o estudo de 2009 do MTA por Brooks e colegas nos quais 600 crianças com o rótulo de diagnóstico “TDAH” (Perturbação de hiperatividade com défice de atenção) foram seguidos por oito anos, e que não encontraram benefícios a longo prazo da medicação para essa perturbação em nenhuma das vinte e quatro variáveis ​​de resultado.

Dr. Sroufe concluiu:

“A ilusão de que os problemas de comportamento das crianças podem ser curados com drogas impede-nos como sociedade de procurar as soluções mais complexas e necessárias.

As drogas deixam toda gente – políticos, cientistas, professores e pais – livres de responsabilidades. Todos, excepto as crianças, claro.

Nem todos viram as coisas dessa maneira.

Numa resposta à opinião do Dr. Sroufe a autora Judith Warner acusou-o de querer fazer “uma viagem de volta a uma época… em que se acreditava que as crianças com doenças psiquiátricas eram vítimas de ‘mães esquizofrenogênicas tóxicas'”.

Mas nem o estudo do MTA nem o artigo do Dr. Sroufe fizeram menção às “mães esquizofrenogénicas”.

Esta tempestade num copo de água acaba por nos afastar da questão principal:

Um amplo estudo desenvolvido ao longo de vários anos não encontrou benefícios a longo prazo para o uso de poderosas drogas (dadas a milhões de crianças) que provocam alterações no cérebro.

Essas foram as conclusões que merecem uma discussão séria – e não evocações de “mães esquizofrenogénicas”.

Mais recentemente, surgiu um artigo no Washington Post descrevendo um pouco da história da Chestnut Lodge, a instituição privada no Maryland onde a Dra. Fromm-Reichmann realizou o seu trabalho inovador.

 

Reconhecer o papel do trauma infligido pela mãe a uma determinada pessoa não é o mesmo que culpar as mães por toda a “doença mental

 

O artigo foi bastante sobranceiro:

“À medida que a compreensão das causas biológicas e químicas das doenças mentais crescia, a ligação de Chestnut Lodge à psicanálise freudiana passou a parecer datado. Poderia realmente ser tratada uma psicose debilitante – e ocasionalmente perigosa – falando sobre a mãe? ”

Além do facto de que a psicoterapia não poder ser reduzida a “falar sobre a mãe”, ainda não há evidências confiáveis ​​de uma causa química ou biológica da esquizofrenia ou de qualquer outro “distúrbio funcional” comummente tratado com drogas.

Enquanto isso, desde o tempo que Fromm-Reichmann desenvolveu o seu trabalho, uma montanha de evidências se tem acumulado, conectando a esquizofrenia ao abuso sexual, abuso físico, abuso emocional, e uma grande variedade de outras categorias de experiências adversas na infância.

A correlação entre experiências adversas na infância e esquizofrenia é robusta e confiável.

Ele atravessa fronteiras nacionais, estratos sociais e etnias. Foi verificado repetidamente em estudos longitudinais, estudos transversais, e em estudos de casos.

Os autores do abuso podem ser pais, padrastos, avós, tios, irmãos mais velhos, primos, não parentes – e sim, às vezes mães.

Estes estudos também demonstraram que não existe um estilo de parentalidade especificamente ” esquizofrenogénico “.

Pelo contrário, qualquer uma das várias influências tóxicas (algumas em grande parte fora do controle dos pais, como doenças infantis ou morte de um dos pais) pode fazer com que o equilíbrio se incline para a esquizofrenia ou qualquer outra “doença mental”.

Por exemplo, um estudo descobriu que entre 45% e 60% dos pacientes diagnosticados com esquizofrenia foram sujeitos a abuso sexual na infância.

 

A ilusão de que os problemas de comportamento das crianças podem ser curados com drogas impede-nos como sociedade de procurar outras soluções

 

E, como o leitor sem dúvida já sabe, a grande maioria dos abusos sexuais na infância é perpetrada por homens, não por mulheres.

Esta é uma descoberta que deve ser recebida com alarme, e não como piada sobre “culpar a mãe”.

Mas também deve ser recebido com esperança, já que o abuso sexual infantil e outras experiências adversas na infância são problemas sobre os quais podemos agir.

O verdadeiro mito da mãe esquizofrenogénica é a ideia de que os psiquiatras sempre difundiram a ideia de que as mães são as únicas responsáveis ​​pela esquizofrenia nos seus filhos.

E esse mito tem sido usado por muito tempo como um espantalho para desviar a atenção da discussão séria sobre o papel do abuso e do trauma na génese da esquizofrenia e de outros tipos de sofrimento mental, e para promover explicações biológicas e intervenções farmacológicas para essas condições.

É hora de acabar com esse mito de uma vez para sempre.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de “The Real Myth of the Schizophrenogenic Mother” – Patrick Hahn

Procrastinação: dificuldade em gerir tempo ou emoções? Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Procrastinação: dificuldade em gerir tempo ou emoções?

A investigação tem procurado esclarecer se a procrastinação é uma dificuldade em gerir o tempo ou em lidar com as emoções.

Tim Pychyl, de Carleton University, no Canadá, e a sua colaboradora Fuschia Sirois, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, propuseram que a procrastinação é uma dificuldade em lidar com as emoções, e não o tempo.

Adiamos uma tarefa porque ela faz-nos sentir mal – talvez seja chata, complicada ou estamos com medo de não a conseguirmos fazer bem, ou seja, do fracasso – e para nos sentirmos melhor (nesse momento) começamos a fazer outra coisa.

Uma das primeiras investigações a relacionar as emoções com a procrastinação foi publicada em 2001 por pesquisadores da Case Western Reserve University, no Ohio.

Ao pedirem às pessoas que lessem histórias tristes (tarefa) induziram-lhes sentimentos negativos.

Posteriormente, verificaram que isso aumentava a sua tendência para procrastinar,

Isso levou os participantes a distraíram-se com quebra-cabeças ou a jogar videojogos em vez de se prepararem para o teste de inteligência que estava incluído na investigação e do qual foram previamente informados.

Estudos subsequentes da mesma equipa mostraram que os sentimentos negativos só aumentam a procrastinação se estiverem disponíveis actividades agradáveis para se distraírem, e apenas se as pessoas acreditarem que podem mudar o seu humor.

Em investigações onde os sujeitos não contemplavam possibilidade de alterar o seu humor, não se verificou um adiamento da tarefa.

 

A tendência a procrastinar está associada à dificuldade em lidar com as emoções

 

A teoria da regulação emocional da procrastinação faz sentido de forma intuitiva.

A perspectiva da procrastinação como regulador emocional ajuda a explicar alguns novos e estranhos fenómenos, como a moda de assistir a vídeos de gatinhos, que tiveram milhões de visualizações no YouTube.

Uma pesquisa envolvendo milhares de pessoas, efectuada por Jessica Myrick, da Universidade de Indiana, confirmou a procrastinação como um motivo comum para ver os vídeos de gatos e que vê-los levou a uma melhoria do humor.

A pesquisa de Myrick também destacou outro aspecto emocional associado à procrastinação – a culpa.

Muitos dos inquiridos sentiam-se culpados depois de verem os vídeos dos gatos.

Isso mostra como a procrastinação é uma estratégia de regulação emocional ineficaz.

Embora possa trazer alívio a curto prazo, ela apenas adia os problemas para mais tarde.

Em certos casos, ao retardar o trabalho as pessoas começam a sentir mais stress, culpa e frustração.

Talvez não cause admiração que a pesquisa de Fuschia Sirois tenha mostrado que a procrastinação sistemática está associada a uma série de consequências na saúde física e mental, incluindo ansiedade, depressão, infecções e doenças cardiovasculares.

Sirois acredita que a procrastinação tem estas consequências adversas através de duas vias:

  1. a) – É stressante continuar a adiar tarefas importantes e não cumprir os objectivos
  2. b) – A procrastinação geralmente retarda comportamentos saudáveis, tais como fazer exercício físico ou consultar um médico.

Ao longo do tempo, o stress elevado e a ausência de comportamentos saudáveis teem um efeito negativo na saúde.

Isto significa que superar a procrastinação pode ter um impacto positivo na vida das pessoas.

A pesquisa de Sirois sugere que “diminuir a tendência de procrastinar sistematicamente em 1 ponto [numa escala de 5 pontos de procrastinação] significaria (potencialmente) que o seu risco de ter problemas de saúde cardíaca se reduziria em 63%”.

 

A procrastinação é uma estratégia de regulação emocional ineficaz

 

Outro dado importante das pesquisas indica que aqueles que procrastinam mais tendem a ter uma inflexibilidade psicológica:

– definida como o domínio rígido de certas reacções psicológicas sobre os valores pessoais na orientação das acções.

O estudo de Nikolett Eisenbeck e seus colegas, publicado no Journal of Contextual Behavioral Science, indica que os níveis mais altos de procrastinação estavam relacionados com um elevado sofrimento psicológico.

Tanto a procrastinação como a angústia foram associadas à inflexibilidade psicológica.

Além disso, a inflexibilidade psicológica mediou a relação entre o sofrimento psicológico e a procrastinação.

Este papel mediador foi observado nos três estados emocionais negativos: depressão, ansiedade e stress.

Estes resultados indicam a existência de uma ligação entre que os estados emocionais negativos e a procrastinação.

Outras pesquisas, mas também a experiência vivida, mostram muito claramente que, uma vez começada uma tarefa, normalmente somos capazes de continuar. Começar não é tudo, mas pode ser uma grande ajuda.

Aborde os verdadeiros motivos pelos quais procrastina e é provável que comece a alcançar os seus objectivos de forma mais rápida e menos angustiante.

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