Categoria: Ansiedade

Nos Ataques de pânico a Ameaça é Real Pedro Martins Psicoterapeuta

Nos Ataques de Pânico a Ameaça é Real?

A perspectiva de M. Blechner sobre os ataques de pânico difere da maioria dos clínicos.

Para a generalidade dos clínicos, durante um ataque de pânico, o paciente sente um perigo, mas esse perigo, na realidade, não existe.

O mesmo é dizer que os ataques de pânico não são baseados numa ameaça real.

Segundo Blechner, esta ideia é, pelo menos, para uma parte dos pacientes, imprecisa.

Normalmente, quando se pergunta ao paciente se há alguma coisa na sua vida que o pudesse originar um ataque de pânico, honestamente responde que não.

Mas o clínico pode chegar a uma conclusão diferente depois de fazer um questionário detalhado, procurando especificamente situações de perigo na vida do paciente que o assustem mas das quais não está ciente.

 

Blechner dá-nos como exemplo o caso do Sr. A

O Sr. A teve o seu primeiro ataque de pânico aos 28 anos.

Sentiu dores no peito e dificuldade em respirar. Pensou que ia ter um ataque cardíaco e dirigiu-se às urgências.

Os exames revelaram que o coração estava a funcionar normalmente.

Disseram-lhe que tinha tido um ataque de pânico e foi referenciado para a psiquiatria onde lhe prescreveram Alprazolam.

Um mês depois teve outro ataque que o levou novamente às urgências.

Os exames não revelaram nenhum problema no coração. Aumentaram a dosagem da medicação.

Devido ao medo de ter um novo ataque de pânico e às tonturas que a medicação lhe causava o Sr. A procurou outra abordagem. Foi referenciado para mim.

 

Para a generalidade dos clínicos, durante um ataque de pânico, o paciente sente um perigo, mas esse perigo, na realidade, não existe.

 

Era um jovem vigoroso e muito ambicioso, com um ar bastante saudável.

Perguntei-lhe se actualmente existia alguma coisa na sua vida que o fizesse ter medo. Ele disse que não existia nada, pelo menos, que ele soubesse.

No entanto, durante a nossa primeira conversa descobri que ele estava envolvido num esquema de corrupção, cujos clientes estavam a ser enganados e os lucros escondidos.

Ele foi um pouco blasé acerca da situação, assegurando-me que isso era uma prática comum.

Disse que sabia o que estava a fazer, e que nunca seria apanhado.

À medida que fui explorando a história descobri que o pai, actualmente reformado, foi levado à justiça por estar envolvido num negócio semelhante, e ficou quase arruinado financeiramente.

Ao mesmo tempo que o Sr. A parecia despreocupado em relação às suas práticas, ficou muito perturbado ao falar da ruína do pai.

Eu disse ao Sr. A, que, tendo em conta o ocorrido com o pai, era perfeitamente normal que ele temesse ser apanhado pelas práticas irregulares.

Disse-lhe que qualquer pessoa que estivesse a fazer o que ele fazia e cujo pai tivesse ficado praticamente arruinado por um comportamento semelhante, provavelmente, estaria bastante assustado.

Não era surpresa para mim que ele sentisse pânico; surpreendente para mim era ele não sentir medo mais vezes.

O Sr. A não gostou de me ouvir dizer aquilo, mas os ataques de pânico terminaram depois da primeira consulta.

Rapidamente deixou a medicação e os ataques de pânico não voltaram.

 

Por vezes os ataques de pânico surgem da dissociação de situações que objectivamente provocam ansiedade.

 

Reunindo o máximo de informações detalhadas que pude, fui capaz de substituir o pânico intermitente por um medo mais estável, que era ajustado à situação.

Nas sessões seguintes, senti por parte dele uma pressão para reinstituir a dissociação (entre a situação e o sentimento) e eu tive que lutar constantemente contra esse processo.

No entanto, na terapia as pressões foram cedendo à medida que ele ia encarando a realidade do que estava a fazer, bem como o esclarecimento das origens das suas defesas.

No caso do Sr. A, um trauma grave parecia estar na base para uma capacidade tão poderosa de dissociar.

O Sr. A é um entre vários pacientes cujos ataques de pânico surgem da dissociação de situações que objectivamente provocam ansiedade.

Em essência, consegui que o Sr. A apreendesse que:

“A situação que descreve faria com que qualquer pessoa estivesse com muito medo. Em grande medida, você está a ignorar e a dissociar o medo causado pela situação, e, logicamente, o medo que sente é real; o que não é normal é não saber de onde vem o medo; que você não conecte a emoção com a situação. Devido a isso parece que os ataques de pânico surgem do nada. Mas não é assim. Você tem muito boas razões para sentir muito medo, e, se quiser que os ataques de pânico terminem, tem de associar o medo à situação.”

Concordando ou não com a tese de que na base dos ataques de pânico está um perigo real, um questionário detalhado é muito importante para uma compreensão mais aprofundada dos episódios de pânico.

Ao mesmo tempo, será importante investigar a tendência de certos pacientes para dissociar.

 

Por que eu sou tão anal? - Pedro Martins Psicoterapeuta

Por Que Eu Sou Tão Anal?

Por vezes as pessoas perguntam: “Por que o meu amigo, parceiro, pai, chefe é tão anal?”.

De onde vem o termo “anal” e o que significa?

Este termo tem origem em Freud, e tal como muitas das suas ideias permanece fortemente enraizada no nosso “inconsciente colectivo” sem termos a noção das suas origens psicanalíticas.

A teoria da “personalidade retentivo-anal” é uma delas.

Nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” Freud descreve as três fases do desenvolvimento psicossexual na primeira infância: oral (0 a 1 ano), anal (1 a 3 anos) e fálico (3 a 6 anos).

A fase anal coincide com o período do treino do bacio. Nesta fase as crianças apercebem-se pela primeira vez que podem controlar os esfíncteres, assim como a si mesmas e o ambiente.

Pela primeira vez, a criança sente que pode obedecer ou opor-se à vontade dos pais.

 

A fase anal coincide com o período do treino do bacio.

 

“Não” é uma palavra muito popular entre os 2-3 anos de idade.

Embora a personalidade retentivo-anal não esteja incluída no DSM – Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, tem alguns aspectos em comum com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo da Personalidade:

– Uma grande preocupação com limpeza que se expressa através de lavagens constantes das mãos, extrema ordem e necessidade de controlo.

Estes comportamentos têm como objectivo reduzir a ansiedade.

O que é a Analidade?

Geralmente, quando alguém pergunta: “Por que sou tão anal?”, refere-se à extrema necessidade de controlar as coisas ao seu redor através de uma enorme atenção aos pormenores.

Isto pode ser irritante para os que estão à sua volta, porque esse comportamento estende-se para além do que é considerado razoável, útil ou produtivo.

Francisco, um jovem advogado queixou-se de que a sua colega sénior tinha exigido que ele investigasse todas as teorias possíveis envolvidas num aspecto de um caso, mesmo as consideradas muito improváveis.

Isso obrigava-o a passar todo o fim-de-semana a pesquisar decisões que, na sua opinião, não tinham relação com o caso e eram uma completa perda de tempo.

Referindo-se à sua colega Francisco disse: “ela é tão anal”. Com isso, ele queria dizer que ele a sentia extremamente controladora e ansiosa.

Ao mesmo tempo, as próprias pessoas podem ficar frustradas com a necessidade de controlo e de ficarem excessivamente focadas em detalhes não essenciais, pois sentem-se incapazes de conter essa necessidade ou impulso.

 

O comportamento “anal” é uma tentativa de controlar a ansiedade.

 

Joana queria comprar um frigorífico novo. On-line pesquisou pelos melhores modelos. Encontrou um muito bem cotado dentro dos valores que estava disposta a gastar, mas com algumas apreciações negativas.

Passou vários dias a pesquisar os aspectos que tinham sido avaliados ​​negativamente, assim como a procurar outros modelos.

Todos os modelos com boas avaliações apresentavam algumas críticas.

Passado algum tempo, Joana percebeu que estava com medo de tomar uma decisão errada, mas a pesquisa em vez de ajudar a decidir ainda a deixou mais ansiosa.

Em ambos os exemplos, o comportamento “anal” é uma tentativa de afastar a ansiedade criando a ilusão de ordem.

A ansiedade surge da sensação de caos iminente, e o comportamento “anal” é uma tentativa de controlar ou de se defender desse caos.

O que fazer com a analidade?

Francisco, por exemplo, pode sentir que a sua colega está a ser “anal”, mas ela vê o seu próprio comportamento como meticuloso – uma qualidade – e considera a resistência de Francisco como um indício de desleixo e preguiça.

No caso de Joana, ela própria está irritado com as suas tendências anais e gostaria de pura e simplesmente tomar uma decisão e seguir em frente com a vida. Ficaria feliz se alguém decidisse por ela.

 

Todas as pessoas podem, ocasionalmente ser “anais”.

 

Se você acha que costuma ser “anal”, aqui estão alguns aspectos sobre os quais deve reflectir:

– Está a acontecer alguma coisa na sua vida que o está a deixar ansioso? A sua “analidade” pode ser uma maneira de controlar essa ansiedade.

– Pergunte a alguém próximo de si se o seu comportamento parece excessivo ou fora de controlo.

– Tente delegar tarefas a outras pessoas e depois deixe que elas determinem a extensão da atenção aos detalhes.

– Considere quais são as consequências de um resultado que é suficientemente bom, mas não perfeito?

Todas as pessoas podem, ocasionalmente ser “anais”.

Quando você ou outra pessoa estiver a ser “anal”, lembre-se de que é uma indicação de que está com dificuldade em controlar a ansiedade.

O comportamento “anal” é uma tentativa de controlar essa ansiedade.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins a partir de:

Susan Kolod – “Why am I so anal?”

Compreender a Ansiedade (parte III) - O Papel da Psicoterapia - Pedro Martins Psicoterapeuta

Compreender a Ansiedade (parte III)

Compreender a Ansiedade – O Papel da Psicoterapia

A psicoterapia pode ser uma forma de descobrir respostas para as questões complexas a que a ansiedade remete.

A psicoterapia é uma ajuda preciosa na medida em que faz aumentar a autoconsciência da pessoa.

Todos temos pontos cegos no que diz respeito aos nossos próprios pensamentos, sentimentos e motivações.

Fazer psicoterapia com um clínico qualificado pode ser um pouco como ver-se ao espelho.

Se você ficar muito perto do espelho, só verá uma pequena parte de si mesmo reflectida.

A terapia é como dar um passo para trás em relação ao espelho – você continua a ver o que via antes, mas agora consegue ver muito mais de si mesmo.

Isso significa que pode compreender coisas novas – coisas de que gosta e de que não gosta. Embora isso possa ser complicado, também pode ser muito valioso.

Afinal, se o seu carro não está a funcionar bem, mas você recusa-se a abrir o capô e olhar lá para dentro, provavelmente, não conseguirá resolver o problema.

A psicoterapia faz aumentar a autoconsciência da pessoa.

Da mesma forma, é muito difícil descobrir como lidar com uma dor emocional se nos recusarmos a olhar para dentro da nossa própria mente.

Então, como a psicoterapia pode ajudar a lidar com a ansiedade?

O processo terapêutico pode ser uma ajuda preciosa para descobrir o que significam os sentimentos de ansiedade.

– É, eventualmente, uma resposta ansiosa a uma situação stressante? (ansiedade funcional/situacional)

– É uma angústia existencial que resulta de um desfasamento entre aquilo que você possui, e o que precisa e deseja? (ansiedade existencial)

– É uma ansiedade disfuncional, inútil, que subestima as suas capacidades e amplia a sensação de perigo? (ansiedade disfuncional)

Em muitos casos, é uma mistura de várias ansiedades.

É importante descobrir o que está acontecer porque diferentes tipos de ansiedade necessitam de respostas distintas.

Muitas vezes as pessoas notam um desconforto mental, mas não estão cientes do que é a ansiedade. Através do processo psicoterapêutico, isso pode ficar claro.

Se a ansiedade é sobre um problema iminente que pode ser resolvido, então, procurar o apoio dos outros e empregar os seus recursos para resolver o problema, pode ser suficiente para diminuir a ansiedade.

Por exemplo, se uma pessoa achar que não está preparada para apresentar um trabalho, provavelmente, vai sentir-se ansiosa.

Cada tipo de ansiedade necessita de uma respostas distinta.

Preparar melhor a apresentação, treinar com um amigo ou colega e responder às perguntas prováveis, pode ser o suficiente para que a ansiedade desapareça.

Mas se o problema for evitado, a ansiedade vai aumentar.

Através da abordagem de várias questões na psicoterapia, podemos chegar à conclusão de que certos pensamentos desconfortáveis e sentimentos de ansiedade ou pânico vêm do “Departamento de Ansiedade Existencial”.

Ao compartilharmos os nossos medos humanos comuns – medo de morrer, de estar a viver uma vida desprovida de significado, medo de não deixar uma marca, um legado – sentimo-nos mais fortes e capazes de tolerar a ansiedade existencial quando ela surge.

Se estamos sozinhos perante os nossos medos humanos básicos, eles tornam-se mais pesados ​​e penosos.

Se compartilharmos os nossos medos somos capazes de tolerar a ansiedade existencial.

Compartilhá-los com uma pessoa que seja solidária e compreensiva pode ajudar a desenvolver um espaço comum de entendimento e um sentimento de pertença.

Essa pessoa pode ser um psicoterapeuta, mas também pode ser um amigo, membro da família ou parceiro íntimo.

Vamos voltar ao nosso exemplo hipotético do “João”, um advogado que começou a duvidar se realmente tinha feito uma boa escolha, ou se devia procurar outras coisas que o realizassem.

Se houver um amigo próximo em quem o João confie e possa conversar sobre as suas dúvidas, preocupações, sentimentos de mal-estar e ansiedade, talvez se sinta mais determinado para explorar outras opções; a dar um passo corajoso em direcção ao assustador desconhecido – e, perceber o que é realmente importante para ele, independentemente do que as outras pessoas (pais) queiram que ele seja ou faça.

O apoio do amigo pode ajudar o João a aventurar-se na descoberta daquilo de que realmente gosta.

Estas conversas, quer ocorram em psicoterapia ou numa outra relação de confiança, podem ajudar as pessoas a aprofundar os seus desejos e necessidades, e a ver a vida com outros olhos.

E se a pessoa ao tentar entender a ansiedade, descobrir por meio da psicoterapia (ou não), que está a lidar com uma ansiedade disfuncional?

Vamos dar outro exemplo hipotético. Vamos chamar “Filipa” à pessoa deste exemplo.

Imagine que a Filipa sente uma ansiedade muito grande sempre que conhece novas pessoas.

Tanto que, apesar de querer fazer novas amizades, ela recusa-se a ir a festas e a eventos quando é convidada.

Uma vez que fica extremamente ansiosa quando é apresentada a novas pessoas, ela não se aventura para além dos vários conhecidos/amigos que tem, mas ao mesmo tempo sente-se sozinha e sem amigos íntimos.

Imaginemos que na psicoterapia a Filipa fica mais consciente de que, quando conhece novas pessoas, bloqueia com o receio que os outros achem que é entediante e a rejeitem.

Se ela analisar mais profundamente essa expectativa, poderá encontrar outra coisa – a crença de que não é agradável e que é uma pessoa desinteressante.

A ansiedade social está associada à forma como nos vemos.

Por vezes, crenças como esta são fardos pesados que carregamos sem sabermos – talvez tenham estado ali desde sempre, de modo que são tão familiares que nem os estranhamos, ou, talvez, estejam submersos nas distracções da vida quotidiana.

A ansiedade social da Filipa está associada à forma como se vê.

A psicoterapia pode ajudar a compreender porque o espelho lhe devolve uma imagem distorcida de si mesma.

Isso implica desafiar certas crenças negativas sobre ela própria e explorar a origem dessas crenças.

Dessa forma, a Filipa será capaz de reconhecer e a apreciar as suas qualidades, e, nesse sentido, dar pequenos passos para se ligar aos outros.

Adaptado por Pedro Martins a partir de: “Understand Anxiety” – Alina Sotskova

Compreender a Ansiedade Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico.

Compreender a Ansiedade (parte II)

ANSIEDADE EXISTENCIAL

E se a ansiedade não estiver ligada a nenhuma situação recente, mudança ou evento stressante?

E se de alguma forma a ansiedade surgir do nada? Na verdade, às vezes, a ansiedade pode surgir inesperadamente quando certas situações nos levam a reflectir sobre “o estado” da nossa vida.

Inevitavelmente, todas as pessoas terão que considerar a sua morte. É mais provável que isso aconteça após uma situação em que alguém se viu confrontado com a morte; aquando da perda de um ente querido ou, simplesmente, de olhar para o futuro.

No entanto, a ansiedade existencial também pode surgir em circunstâncias agradáveis.

Por vezes, o nervosismo pode surgir com a tomada de consciência de que nenhum momento dura para sempre, e até o momento mais feliz acabará.

Como seres humanos, apreciamos tanto esses momentos que “deixá-los ir” pode gerar ansiedade.

A ansiedade existencial também pode surgir em circunstâncias agradáveis.

Mesmo que não estejamos a reflectir sobre questões de vida/morte, a ansiedade existencial pode surgir quando pensamos sobre os nossos objectivos, valores, ou planeamos o futuro.

Queremos que as coisas que fazemos e desejamos na vida tenham um propósito e um significado.

Quando os empregos, hobbies, relacionamentos ou objectivos pessoais começam a perder o propósito, a angústia e o mal-estar podem aparecer.

Pode parecer estranho, mas além das coisas desagradáveis que ansiedade existencial nos faz sentir, também está a enviar-nos uma mensagem importante.

Imaginemos que o João seguiu o desejo do pai de que ele também fosse advogado.

O João não questionou essa decisão nem pensou se esse objectivo estava de acordo com os seus desejos e valores. Apenas o seguiu diligentemente, convencido de que era isso que queria.

No entanto, após vários anos a exercer, sente-se cada vez mais nervoso, preocupado com coisas insignificantes e incapaz de dormir à noite, não encontrando nenhuma razão concreta para as insónias.

O trabalho é pouco gratificante. Ele esperava que ao atingir o objectivo (ser advogado) se sentiria completo, mas sente-se mais vazio do que nunca.

Neste caso, os sentimentos de ansiedade existencial, embora dolorosos, podem ser uma ajuda, encaminhando-o na direcção da auto-reflexão:

Quais são os meus objectivos? Ser advogado encaixa naquilo que desejo? É verdadeiramente significativo para mim? Que acções ou papéis marcantes estão a faltar na minha vida?

A ansiedade existencial pode ser comparada a um simpático bichinho que vive na nossa consciência.

Às vezes é esse bichinho que (no pior momento possível!) nos vem lembrar que a vida pode ser mais do que um conjunto de tarefas rotineiras e mundanas, e que uma vida com propósito e com objectivos é muito importante.

Essencialmente, a ansiedade existencial:

Pode, ou não, ser desencadeada por uma situação ou por um evento stressante. É um sentimento que surge, para a maioria das pessoas, de vez em quando.

Não há necessariamente um problema óbvio ligado à ansiedade existencial. No entanto, isso pode ajudar-nos a reflectir sobre questões importantes:

Porque faço isto? Porque o meu trabalho é importante para mim? O que é verdadeiramente significativo para mim? O que eu valorizo? Que pessoa quero ser nos relacionamentos? Etc.

Compartilhar a ansiedade existencial com os outros pode fazer com que nos sintamos menos sozinhos e mais capacitados para fazer escolhas de acordo com as nossas convicções.

No entanto, a vida trará sempre novas questões sobre as quais reflectir.

Criar conexões significativas e fazer escolhas consistentes com os nossos valores, são algumas das coisas que podem ajudar a combater a ansiedade existencial.

Agora que falámos um pouco sobre exemplos em que a ansiedade pode ser desconfortável, mas ao mesmo tempo útil, vamos falar sobre o que acontece quando a ansiedade se torna tão intensa que começa a atrapalhar mais do que a ajudar.

Neste caso podemos designá-la de ANSIEDADE DISFUNCIONAL

Em última instância até a ansiedade disfuncional tem alguma utilidade. No entanto, é preciso considerar os custos/benefícios.

A ansiedade disfuncional pode impedir-nos de atingir os nossos objectivos com mais frequência do que nos ajuda a alcançá-los.

É como se fosse um alarme de incêndio que faz um barulho ensurdecedor e que não se desliga. Tanto faz que se tenha queimado uma torrada ou que a casa esteja a arder: os sensores estão desligados, por isso não consegue avaliar a dimensão do problema.

A Ansiedade disfuncional pode impedir-nos de atingir os nossos objectivos.

As ameaças e os perigos são sentidos em todos os lugares, mesmo nos lugares seguros.

Existem maneiras diferentes disso se manifestar. Temos, por exemplo, padrões específicos de ansiedade (disfuncional) que surgem repetidamente, como a perturbação da ansiedade generalizada, ansiedade social, fobia específica, transtornos obsessivos, stress pós-traumático.

A ameaça que a pessoa experimenta em cada um destes padrões é um pouco diferente.

Quando uma pessoa experimenta ansiedade social severa, por exemplo, teme que as outras pessoas a julguem ou excluam. Esse medo pode evoluir e ter vida própria, levando a outras possibilidades assustadoras:

“E se ninguém gostar de mim?”; “E se os meus amigos apenas fingem que gostam de mim?”; “E se eu não conseguir encontrar um parceiro? ”; “ E se eu ficar sozinha para sempre? ”

A perturbação de Stress Pós-Traumático (PTSD) e a perturbação Obsessivo-Compulsiva também tendem a apresentar uma ansiedade significativa.

A PTSD é uma perturbação que ocorre após uma pessoa viver uma experiência traumática, como um assalto ou um acidente de carro.

A ansiedade na PTSD, geralmente, tem a ver com a sensação de ameaça e perigo para a vida ou o bem-estar da pessoa.

Muitas vezes a pessoa pode ter medo de coisas que sentia como seguras: caminhar na rua, (no caso de um assalto); conduzir (no caso de um acidente de automóvel).

A ansiedade disfuncional também pode surgir associada a outros tipos de problemas de saúde mental, como a depressão.

Embora na depressão a dificuldade principal da pessoa possa passar por sentir-se em baixo e triste, ela pode ficar preocupada e muito mais ansiosa do que costumava ficar em relação a várias questões.

A Ansiedade disfuncional sobrestima o perigo

Basicamente, a ansiedade disfuncional, é a ansiedade que gera certo tipo de pensamentos (preocupações excessivas, receios de rejeição, expectativas de fracasso), de sentimentos (nervosismo, angústia) e de estados físicos (tensão, dores abdominais, dificuldade de concentração) que não são proporcionais à ameaça real.

Quando vamos a uma festa para conhecer novas pessoas, por exemplo, corremos o risco de que algumas das pessoas que nos são apresentadas não gostem de nós.

No entanto, a ansiedade vai focar-se apenas nisso e irá ignorar outras possibilidades: que há pessoas na festa que podem sentir-se neutras em relação a nós ou achar que somos interessantes, engraçados, etc.

A ansiedade disfuncional amplia as coisas a um ponto que se assemelham a uma catástrofe.

Se conhecer uma pessoa na festa e ela não simpatizar consigo por um motivo qualquer, é pouco provável que tenha um impacto significativo na sua saúde, objectivos, trabalho ou relacionamentos.

Contudo, a ansiedade disfuncional tece uma teia de pensamentos em que um evento trivial parece conduzir a todos os tipos de tragédias no futuro: não ter amigos, ficar sozinho para sempre, etc..

Simplificando, a ansiedade disfuncional sobrestima o perigo e subestima os nossos recursos internos e externos.

É fundamental compreender o que estamos a sentir para tomar decisões informadas sobre o que realmente fazer em relação aos vários tipos de ansiedade.

Se, por exemplo, estamos a lidar com a ansiedade útil e funcional, mas a confundimos com a ansiedade disfuncional podemos seguir o caminho perigoso de tentar eliminar algo que é de facto valioso e útil.

Em resumo, a ansiedade disfuncional:

Geralmente, a ansiedade não é proporcional à situação, contexto ou evento, e é, frequentemente, excessiva e avassaladora.

Muitas vezes leva a evitar pessoas, lugares ou situações que são temidas. Prejudica os nossos objectivos e acções.

Nunca se está verdadeiramente tranquilo: a ansiedade não desaparece, somente diminui por um curto período de tempo.

Como podemos saber que tipo de ansiedade estamos a sentir?

Antes de mais, é preciso dizer que as pessoas podem experimentar os vários tipos de ansiedade – às vezes, até no mesmo dia!

É importante ter presente que os vários tipos de ansiedade não são mutuamente exclusivos.

Alguém com ansiedade social poder ter um pavor existencial, ou um ataque de pânico depois de receber más notícias sobre o trabalho. Também pode ter uma preocupação perfeitamente funcional em relação a uma cirurgia que é necessário agendar.

A ansiedade disfuncional é mais rara, e a ansiedade funcional está presente no dia-a-dia da maioria das pessoas. A ansiedade existencial costuma aparecer sem convite.

Adaptado por Pedro Martins a partir de: “Understand Anxiety” – Alina Sotskova

10 Razões para a Ansiedade nos Adolescentes Pedro Martins Psicoterapeuta psicólogo clínico

10 Razões para a Ansiedade nos Adolescentes

A ansiedade é uma das principais razões que levam os adolescentes (mas também os adultos) a iniciarem uma psicoterapia.

Alguns jovens são tão perfeccionistas que ficam paralisados com o medo do fracasso. Outros preocupam-se tanto com o que seus colegas pensam sobre eles que são incapazes de desfrutar das coisas.

Alguns suportaram circunstâncias difíceis ao longo das suas vidas. Mas outros têm famílias estáveis, com muitos recursos e pais que os apoiam.

Suspeito que o aumento da ansiedade seja reflexo das várias mudanças sociais e culturais que vivemos nas últimas duas décadas.

Aqui estão as 10 principais razões:

 

  1. A tecnologia oferece uma fuga pouco saudável

O acesso constante a dispositivos digitais permite que as crianças escapem das emoções desconfortáveis, como o tédio, a solidão ou a tristeza. Mal entram no carro começam a jogar no telemóvel, e quando estão no quarto a maioria do tempo é usado a conversar nas redes sociais.

Agora estamos a ver o que acontece quando toda uma geração passou a infância a evitar o desconforto. A tecnologia substituiu oportunidades para aumentar a força mental, e assim não desenvolveram as capacidades necessárias para lidar com os desafios quotidianos.

 

A função dos pais não é fazer com que os filhos estejam sempre felizes.

 

  1. A ditadura da felicidade

A felicidade é tão enfatizada na nossa cultura que alguns pais acham que a sua função é fazer com que os filhos estejam sempre felizes. Quando uma criança está triste, os pais procuram logo animá-la. Quando ela está irritada, tudo fazem para a acalmar.

As crianças crescem a acreditar que, se não se sentirem sempre felizes, algo deve estar errado. Isso cria muita agitação interna. Eles não entendem que é normal e saudável sentirem-se tristes, frustrados, culpados e desapontados.

 

  1. Os pais estão a dar elogios contraproducentes

Dizer coisas como “Tu és o corredor mais rápido da equipa” ou “Tu és a mais inteligente da turma” não gera auto-estima. Em vez disso, pressiona as crianças a viver de acordo com esses rótulos. Isso pode levar a um medo paralisante de falhar ou de rejeição.

 

  1. Os pais estão a ficar prisioneiros da competição para o sucesso

Muitos pais tornaram-se assistentes pessoais dos filhos adolescentes. Eles trabalham arduamente para garantir que os filhos possam competir: contratam explicadores e treinadores desportivos particulares. Os pais fazem tudo para ajudar os adolescentes a impressionar na escola. Passam a mensagem de que o filho deve destacar-se em tudo para conseguir um cobiçado lugar nas melhores faculdades.

 

Dizer “Tu és a mais inteligente da turma” gera mais ansiedade que auto-estima.

 

  1. As crianças não estão a desenvolver capacidades emocionais

Nós colocamos o foco na preparação académica e investimos pouco em ensinar as crianças a lidar com as emoções que precisam para ter sucesso. De facto, uma pesquisa de estudantes universitários do primeiro ano revelou que 60% não se sentem emocionalmente preparados para a vida universitária.

Saber gerir o tempo, combater o stress e lidar com os sentimentos são componentes fundamentais para viver uma boa vida. Sem estas capacidades, não é de admirar que os adolescentes estejam ansiosos com as dificuldades quotidianas.

  1. Os pais agem mais como protectores do que guias

Algures ao longo da vida, muitos pais começaram a acreditar que o seu papel é ajudar as crianças a crescer com o mínimo de cicatrizes emocionais e físicas possíveis. Eles tornaram-se tão superprotetores que os filhos nunca lidaram com os desafios por conta própria. Consequentemente, estas crianças cresceram a acreditar que são muito frágeis para lidar com as realidades da vida.

 

  1. Os adultos não sabem ajudar as crianças a enfrentar os medos correctamente.

Num extremo do espectro, vamos encontrar pais que pressionam demasiado os filhos. Eles forçam os filhos a fazer coisas que os aterrorizam. Do outro lado, vamos encontrar pais que não puxam pelas crianças. Eles deixam os filhos afastarem-se de qualquer coisa que pareça provocar ansiedade.

O contacto com a situação é a melhor maneira de vencer o medo, mas apenas quando é feito de forma gradual. Sem prática e orientação, as crianças nunca ganham a confiança para enfrentar os medos de frente.

 

O papel dos pais não é evitar que as crianças cresçam sem cicatrizes.

 

  1. Os pais evitam a culpa e o medo

A parentalidade desperta emoções desconfortáveis, como culpa e medo. Mas, em vez de se permitirem a sentir essas emoções, muitos pais estão a mudar a forma de exercer a parentalidade. Então, eles não deixam os filhos fora de vista porque isso aumenta a sua ansiedade, ou sentem-se culpados por dizer não aos filhos a ponto de cederem. Consequentemente, passam aos filhos a ideia de que as emoções desconfortáveis ​​são intoleráveis.

 

  1. Crianças não têm tempo livre suficiente para brincar

Com tantas actividades as crianças foram ficando sem tempo para brincar. Algumas actividades ajudam a introduzir e a fortalecer regras, mas o jogo desestruturado ensina habilidades vitais para crianças, como a forma de lidar com o inesperado, com desentendimentos sem uma arbitragem dos adultos. Brincar sozinho ensina as crianças a lidar com a solidão, com os seus pensamentos e a ficarem confortáveis ​​na sua própria pele.

 

  1. As hierarquias familiares estão desreguladas

Embora as crianças passem a impressão de que gostariam de decidir sobre várias coisas, no fundo, elas sabem que não são capazes de tomar boas decisões sozinhas. Eles querem que os pais sejam líderes. E quando a hierarquia fica confusa – ou mesmo invertida – a ansiedade aumenta.

 

Criámos um ambiente que gera mais ansiedade nos jovens do que resiliência. Se tivermos em conta os pontos referidos atrás podemos ajudar as crianças a construir a estrutura mental necessária para se manterem saudáveis.

 

Adaptado a partir de “10 reasons teens have so much anxiety today” – Amy Moran

Borderline - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Borderline – Uma Introdução

A baixa tolerância à frustração no borderline, enraizada em frustrações precoces e repetidas sem envolvimento afectivo compensador e reconfortante, está na origem de uma das características da sua personalidade – a passagem ao acto.

A relativa incapacidade de controlo dos impulsos e a ansiedade tendencialmente invasiva não são mais que derivados da referida inconstância da estrutura mental.

Na tendência ao acto impulsivo e não pensado ou realização imediata do cenário fantasmático que a resposta instintiva constrói (encenação agida, acting-out) pesa, por conseguinte, como significativo factor condicionante a insuficiente antecipação a médio e longo prazo.

 

O Borderline vive permanentemente em stress e ansiedade

 

É esta quase ausência de antecipação do futuro ou previsão – de mentalização antecipatória -, que explica o comportamento borderline.

Assim andará ao sabor das marés do humor (das antecipações negativas ou positivas momentâneas, do curto prazo) e dos ventos dos estímulos (dos factores do meio não processados por um programa pessoal de vida preexistente).

O Borderline vive permanentemente em stress e ansiedade: submetido a forças externas deformantes (stressores) e com medo do que vai acontecer.

Nesta situação, ou condição de existência, nada faz de construtivo; apenas reage para conservar o equilíbrio.

Deste modo não aprende com a experiência; repete e repete-se: dá a mesma resposta – de fuga/luta ou adaptação (consoante domina a disposição activa ou passiva) – e permanece no seu estilo bidimensional – retirada/eliminação ou conformismo; jamais elaboração mental e a construção do novo: o pensamento e a criação.

Uma das características nucleares da personalidade-limite é a ausência de relações complementares.

As relações, no borderline, são de completação e não de complementaridade. Alguém faz-me falta para me sentir completo, inteiro; mas não para formar uma nova unidade, o par.

O que falhou? – Uma relação de vinculação em que, sendo alguém para outro alguém, o fizesse alguém de significativo e de significante.

 

Bibliografia: “O Desespero” – A. Coimbra de Matos

puberdade psicologia clínica

A Puberdade e as suas consequências

A palavra puberdade, de origem latina, aparece no dicionário etimológico como o “conjunto de transformações psicofisiológicas ligadas à maturação sexual que traduzem a passagem progressiva da infância à adolescência”.

Trata-se de um conjunto de processos geneticamente pré-definidos que desencadeiam e levam à maturação sexual.

É uma fase crucial de mudanças somáticas e psicológicas, durante a qual se operam reestruturações nucleares que vão constituir matrizes da personalidade a consolidar ao longo da adolescência.

A puberdade caracteriza-se pelo surgimento da capacidade orgástica e reprodutiva. Sendo que a relação entre a preeminência do desejo sexual e a efectivação dessa possibilidade constitui uma fonte de angústia.

A puberdade tem o importante papel de transição, ou seja, põe fim à latência e dá início à adolescência e prepara o jovem para a autonomia. Trata-se de um processo ancorado no biológico mas com repercussões psicológicas, ou seja, organizador da vida psíquica, nomeadamente da psicossexualidade.

 

A crise na puberdade como organizador

Ao contrário do que acontece na adolescência, na puberdade pode mesmo falar-se de uma crise. Trata-se de um processo curto mas de grande agitação e até de disrupção, determinado por factores genéticos, que em último caso pode ser considerado um factor de risco para a saúde mental.

Uma vez que a crise puberal é uma situação disruptiva com implicações no narcisismo infantil, se esta crise se dá num Eu muito fragilizado pode acontecer que o desenvolvimento se interrompa, caindo numa situação psicopatológica.

 

Na puberdade dão-se alterações muito bruscas

A maturação genital que ocorre na puberdade impõe uma série de transformações corporais e funcionais de uma maneira tão brusca que provocam sentimentos de estranheza e até, em alguns adolescentes, despersonalização. É, talvez, a idade de maior sofrimento psíquico, caracterizado por estados confusionais de todo o tipo.

A puberdade no sexo feminino não apresenta a mesma continuidade com a latência como acontece no sexo masculino. Nesta altura a púbere sente que tem um corpo estranho, diferente daquele corpo harmónico da latência. Esse era um corpo controlável, este está “descontrolado” e a rapariga sente-se insegura e ineficiente sem controlo sobre o seu corpo, sendo incapaz de mentalmente elaborar as transformações que se processam.

Com a puberdade abre-se um caminho tumultuoso mas necessário para a evolução psíquica. Há uma luta entre o proibido e o imperioso.

No entanto este processo de bruscas alterações será sentido de forma menos dramática se decorrer dentro da evolução normal onde o desejo de crescer é predominante. Nessa altura começará a apreciar as alterações no seu corpo – face, seios, estatura, postura -.

 

O corpo na puberdade

O corpo com o qual a púbere se depara é um corpo estranho, diferente daquele que ela conhecia na latência. Esse era estável, sem grandes oscilações. Agora o corpo muda todos os dias. Esta velocidade dificulta a elaboração mental das transformações em curso.O corpo que a rapariga conhece é aquele da latência, e o corpo que lhe surge é um corpo de desejo, que é considerado estranho. Este “novo corpo” vai obrigar ao luto do corpo infantil.

A representação e a forma como é integrado o corpo sexuado, constituirá a matriz sobre a qual se vai organizar a futura sexualidade.

A forma como o corpo é investido narcisicamente, como masculino ou feminino, depende da forma de relacionamento objectal que a púbere teve com os pais e em particular da narcisação que deles recebeu. A púbere vai amar ou odiar o seu corpo conforme se sentiu amada ou rejeitada pelos pais.

A negação do corpo sexuado, fantasia de não pertencer a nenhum género (roupas muito largas), podem surgir nesta altura.

A integração da imagem do corpo sexuado no Self sofre vicissitudes e angústias que constituem pontos cruciais do desenvolvimento e da superação da puberdade”

As transformações nas relações entre pais e filho púbere estão ligadas às mudanças ocorridas na sua aparência física.

À medida que o corpo cresce também cresce o desejo de escapar ao domínio do outro, o que leva a pôr em causa as regras.

 

A regressão na puberdade

Na puberdade há um desejo de reconstruir a relação fusional como forma de atenuar a angústia de separação que reaparece no primeiro momento da maturação sexual genital.

Esta forte tendência regressiva até à mãe faz com que a ambivalência domine a situação: por um lado a dependência da mãe reaparece, negando a separação e o crescimento, e por outro, é agressiva, desafia a autoridade e as normas.

O desenvolvimento, de uma maneira geral, faz-se no permanente jogo entre forças de progressão e as paragens transitórias sempre ameaçadas pela regressão, no caminho para a diferenciação e a identidade. Desenvolver-se é diferenciar-se, e diferenciar-se é afirmar-se. Cada passo da diferenciação psíquica implica uma certa desorganização, acompanhada de um movimento regressivo.

Esta regressão não deve ser vista como uma coisa negativa uma vez que esta se encontra ao serviço do desenvolvimento, preservando o narcisismo, e corresponde a um tempo de espera que compense o descompasso entre a maturação sexual e a maturidade psicológica. O êxito na evolução para a feminilidade passa pela capacidade de superar as tendências regressivas da puberdade.

 

 A genitalidade e a sexualidade na puberdade

O termo puberdade tem uma relação estreita com a sexualidade. A palavra deriva de pūbēs, que designa a região genital. Também associado ao termo puberdade está, “velar” e “esconder”, neste caso escondido pelos pêlos. A descoberta da sexualidade é uma das tarefas dominantes da puberdade.

A puberdade com as suas transformações impõe a realidade (para alguns dolorosa) de um corpo sexuado e obriga a assunção de pertença a um dos géneros.A pulsão tem agora um objecto sexual – o outro -.

Com a maturação genital passamos do “não posso” da infância para o “posso” do púbere.

Nesta fase o funcionamento mental do púbere caracteriza-se por uma tensão excessiva, uma energia livre e uma sexualidade genital. Esta muitas vezes fica dentro do corpo (somatizações), ou é descarregada através do agir.

Em virtude do que foi descrito anteriormente pode compreender-se que os mecanismos de defesa mais usuais na puberdade sejam o ascetismo e a intelectualização. No que diz respeito à intelectualização, esta tem como fim a repressão emocional através da racionalização.

 

 

Excertos da Tese de Mestrado: “CONTRIBUTO À COMPREENSÃO DA ANOREXIA MENTAL FEMININA A PARTIR DO PROCESSO DE SEPARAÇÃO-INDIVIDUAÇÃO” – Pedro Martins

psicoterapeuta psicólogo clínico

Insónias

Sonhar é pensar. Como se diz muito sabiamente, não se pode sonhar sem pensar. Não se pode dormir sem sonhar, como não se pode pensar sem sonhar.

O sonho é a base de tudo, porque é aquilo que está na base de todos nós, na base do pensamento, na base do imaginário.

Sonhar é muito importante para resolver certos problemas, entre os quais os medos.

Um pesadelo é um sonho que é tão insuportável que a pessoa acorda, ou seja, faz intervir o corpo, faz intervir os movimentos, faz intervir a consciência.

O pesadelo pode ser considerado um sonho falhado;

um sonho que não se consegue levar até ao fim, em que a pessoa não consegue dar uma solução satisfatória para aquele problema. Daí que muitas vezes se repita até se encontrar a solução.

Não se pode dormir sem sonhar.

Para João dos Santos, uma insónia é sempre, seja qual for a justificação que se dê, a presença de uma situação de angústia que não foi completamente resolvida:

“A insónia significa o medo de ter um pesadelo, ou seja, o medo de sonhar.

E, portanto, se a pessoa está acordada, diz que não consegue dormir, porque está a fazer contas para saber como é que vai pagar a dívida no dia tantos e tal, mas não creio que seja isso.

Isso é um álibi que justifica uma angústia que eu não sei qual é.

O que eu sei é que não são os melhores remédios para a insónia que a curam. Ou, se curam, fazem-no de uma forma artificial e pouco saudável porque uma grande parte dos medicamentos que se tomam para dormir inibem também a função do sonho.

Hoje já há medicamentos que permitem dormir e sonhar.

Os farmacologistas já descobriram isso, mas, de qualquer forma, a maneira mais saudável de dormir é realmente sonhar, é a pessoa ser capaz de acabar de sonhar, porque então o seu pensamento evolui.

A insónia começa por ser realmente uma história qualquer que a pessoa tem para pensar e que é incómoda, que é desagradável, que é triste, e depois, quando as pessoas já estão há muito tempo sem dormir, acabam por ter medo de não dormir, Parece uma contradição, não é?

A insónia é o medo de não dormir. Porque, quando se adormece, sonha-se, e o sonho pode ser mau.”

A ansiedade, a bioquímica e a interpretação da experiência. Pedro Martins Psicoterapeuta

A ansiedade, a bioquímica e a interpretação da experiência

Recentemente estive a conversar com um jovem sobre a sua ansiedade, que era sentida por ele como muito intensa.

Quando lhe perguntei acerca do que seria a sua ansiedade ele disse que não sabia.

Quando lhe sugeri que podíamos tentar explorar sobre o que se tratava a ansiedade ele disse que era tão intensa que devia ser bioquímica.

Isso significava que para ele a ansiedade não podia ser entendida como sendo psicológica, mas tinha que ser tratada como parte da sua “doença”.

Eu reconheci que a ansiedade envolve bioquímica, mas mostrei-lhe que também existem experiências e interpretações das experiências que despoletam reacções químicas.

Por exemplo, se alguém aponta uma arma na nossa direcção, provavelmente vamos sentir um intenso processo bioquímico dentro de nós mas a experiência não seria “apenas bioquímica”.

Se as pessoas procuram compreender (se) e trabalhar os seus problemas emocionais é essencial que tenham curiosidade sobre as suas experiências/vivências e possam reflectir sobre o que as pode ter desencadeado.

Se alguém aponta uma arma na nossa direcção, provavelmente vamos sentir um intenso processo bioquímico dentro de nós mas a experiência não será “apenas bioquímica”.

Por vezes essa curiosidade ou reflexão trás importantes informações sobre essas experiências.

E pode, por vezes, permitir a identificação do que fez despontar a ansiedade e dessa forma possibilitar a sua resolução.

Claro que situações de ansiedade e de depressão, normalmente têm origem em experiências muito mais complexas, e implica uma maior reflexão.

Vivemos numa sociedade que não gosta da complexidade e da reflexão profunda.

Desta forma temos um viés na direcção de pensar que as emoções perturbadoras não fazem sentido e rapidamente concluir que se trata apenas de uma questão química.

Este viés faz-nos pensar que não devemos vivenciar estados emocionais perturbadores, por isso temos tendência a afastá-los ou a dissociá-los o que torna mais difícil entendermos as causas e decidir o que fazer com eles.

Aqueles que comercializam drogas psiquiátricas aproveitam este viés cultural para oferecer uma pseudo-explicação sedutora, de que os estados emocionais indesejáveis ​​e que não são facilmente resolvidos devem ser o resultado de um “desequilíbrio bioquímico” ou algum outro problema biológico.

A nossa cultura tornou-se fortemente influenciada por esta forma de ver as coisas, ao ponto da maioria acreditar que os problemas emocionais graves para os quais não há uma explicação fácil devem ser causados por uma falha bioquímica, em vez de ser algo que pode ser potencialmente compreendido e resolvido.

O triste resultado deste esforço de marketing tem sido o drástico agravar da tendência cultural para evitar ouvirmo-nos uns aos outros e a nós mesmos.

Qualquer problema mental ou emocional que não pode ser resolvido rapidamente é “bioquímico” e não vale a pena sequer tentar entender, pelo contrário, devemos partir logo para as drogas.

Assistimos  ao drástico agravar da tendência cultural para evitar ouvirmo-nos uns aos outros e a nós mesmos.

Quando as pessoas estão traumatizadas ou quando experimentam conflitos que excedem a sua capacidade de lidar com eles dá-se uma dissociação.

Quando a dissociação é o problema, há uma necessidade de trabalhar no sentido de uma maior compreensão e integração.

No entanto, o efeito da crença no desequilíbrio bioquímico vai aumentar a dissociação.

Ao invés de se questionar acerca das origens da ansiedade ou da depressão, por exemplo, a pessoa convencida de que é um desequilíbrio bioquímico procura apenas livrar-se dela sem tentar compreender a sua origem interna.

Quando as pessoas estão convencidas que os seus problemas são bioquímicos têm menos propensão em explorar o problema com outras pessoas ou com um terapeuta.

O resultado final desta desinformação provocada pelo marketing pode ser extremamente iatrogénica, e ser uma das causas primárias, juntamente com os efeitos secundários a longo prazo das drogas, do agravamento da saúde mental.

Traduzido/adaptadoa partir de “It’s not just drugs; Misinformation used to push drugs can also make mental problems worse” – Ron Unger

Ataques de Pânico - a experiência do desamparo. Pedro Martins Psicoterapeuta - Psicoterapia

Ataques de Pânico – A Experiência do desamparo

Os ataques de pânico constituem a marca e a prova de que o aparelho psíquico descobriu a sua precariedade fundamental enquanto tal.

Através do ataque de pânico, o sujeito busca, de alguma forma tornar apreensível no plano psíquico a experiência inominável do desamparo.

As experiências repetidas do “estar morrendo” que se instalam no pânico parecem constituir uma tentativa de obter um certo domínio sobre o que escapa às possibilidades de simbolização.

Ter ataques repetidos de pânico constitui uma tentativa, por assim dizer, de controlar o momento de abandono por parte do outro suposto protector e fiador do mundo.

A experiência de desintegração psíquica acompanha a ameaça do seu desaparecimento.

O sujeito em pânico considera que a presença concreta do outro fiador da estabilidade do seu mundo é uma condição indispensável para a sua própria sobrevivência.

Se há algo de mortal no pânico é essa sorte de ataque contra si mesmo como expressão de apelo – mas também de revolta e desespero – diante do outro protector que abandona.

Um ataque de pânico constitui, assim, um grito desesperado, um pedido de ajuda e uma expressão de revolta dirigidos a este fiador superpotente de quem o sujeito espera protecção e amor.

A crise de pânico dirige-se, portanto, ao “Outro” ainda que este não possa ser objectivado em alguém delimitável:

– A crise constitui um pedido de amor, um reconhecimento, um apelo ao sujeito para não ser abandonado, sem ajuda, ao seu próprio desamparo.

Os ataques de pânico constituem um grito desesperado, um pedido de ajuda.

As vertigens e as sensações de estar em queda livre (de estar caindo sem parar), tão frequentes nos ataques de pânico, parecem manifestar corporalmente a vivência de abandono pelo objecto protector, fiador da estabilidade do mundo.

Realmente não há garantia para nada, ninguém me pode proteger contra o possível.

Até ao início das crises, a questão do desamparo não se colocara de facto.

Quando, subitamente, o individuo se vê confrontado com ela, a ilusão desaba mas nada consegue ser colocado no seu lugar.

Não há nenhuma possibilidade de subjectivação da falta de garantias pois essa “descoberta” terrível é feita toda de uma vez.

Restam apenas o desespero e o esforço desatinado para “fazer alguma coisa”: a confluência dessas duas tendências materializa-se no pânico.

O abandono tão temido pelo indivíduo acometido por ataques de pânico tem contornos bastante específicos.

Primeiro, apresenta-se como algo concreto: a ameaça de separação de uma pessoa em particular, da perda de uma situação estável, o medo de que mudanças venham a interferir de modo catastrófico na sua vida habitual ou na sua saúde.

Eles [ataques de pânico], começam frequentemente (…) após um evento que confirma ao sujeito o carácter incerto, imprevisível e potencialmente ameaçador do mundo.

Assim, a morte de um ente próximo, uma doença grave na família, a separação de um ser amado são situações relatadas de modo quase rotineiro aos que cuidam de pessoas sofrendo de ataques de pânico como tendo desencadeado os ataques.

A perda real de um próximo constitui para esses sujeitos a mais abominável concretização dos seus fantasmas de abandono e de impotência ante um mundo excessivamente perigoso.

Eles constatam: “Então a situação de desamparo é mesmo possível!” e ficam desesperados.

In Pânico e Desamparo

Mário Eduardo C. Pereira

 
 
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