Mês: <span>Dezembro 2017</span>

falar alto e bom som

Falar alto e bom som

Por vezes pode parecer terrivelmente claro que, simplesmente, ninguém liga, ninguém se importa. Mal dão conta da nossa presença, dificilmente se aproximam para ouvir o que temos a dizer, não apanham nenhuma das nossas deixas – e, estão extremamente absorvidos com os seus próprios projetos e preocupações do dia-a-dia.

Com base em tais evidências, é fácil para nós cairmos numa conclusão perigosamente condenadora e muito dolorosa sobre nossa situação: estamos profundamente sozinhos – muito longe de qualquer possibilidade de conexão ou compreensão.

Mas a verdade pode ser ao mesmo tempo bastante mais simples e mais esperançosa.

De uma maneira geral estamos bastante disponíveis para ajudar quando percebemos que é urgente fazê-lo, mas também estamos distraídos e ocupados com nossas vidas para conseguirmos ​ aperceber-nos que se passa algo com as pessoas que nos são próximas, a menos que o problema seja apresentado de forma menos intrincada e mais clara.

Então, mas só então, entramos em acção e fazemos uso de todas as nossas capacidades e determinação de lidar com o sofrimento das outras pessoas. Por outras palavras, respondemos bem aos berros, mas terrivelmente com o subentendido.

A questão toma outra proporção nos casos trágicos em que alguém que conhecemos põe termo à sua própria vida. Estamos certos de que se tivéssemos sabido que se sentiam tão desesperados, teríamos feito qualquer coisa para ajudar. Ao mesmo tempo, também sabemos que não fazemos muitas perguntas, não olhamos muito de perto para certos sinais, e certamente, damos a impressão de estarmos constantemente ocupados. Acabamos a sentir-nos, obviamente, destroçados.

Ganharíamos muito se tivéssemos em conta certos factos sobre a natureza humana sem rancor ou surpresa quando estamos mais frágeis e desesperados. A aparente indiferença dos outros é verdadeiramente aparente. Precisamos aprender a falar de modo que se oiça – até que se oiça.

Infelizmente, tendemos a não ter confiança para fazê-lo precisamente quando é mais necessário, devido a um constrangimento primitivo que se apodera de nós quanto estamos frágeis, como se cada ser humano tivesse que passar pela vida contando apenas consigo. Parte da tragédia de estar desesperado é sentirmos que o nosso sofrimento é ilegítimo.

No entanto, nunca devemos esquecer-nos que, seja qual for a indiferença que possamos sentir, estamos rodeados de pessoas que quando vêem alguém em perigo, se atiram ao mar para o salvar. Se sabemos de forma clara que alguém (mesmo apenas um conhecido) está a precisar muito de nós, provavelmente deixamos tudo e corremos para ajudar.

Mas, ao mesmo tempo, somos incapazes de ler mentes e interpretar indirectas. Da próxima vez que estivermos em dificuldades, devemos lembrar-nos de que não devemos sentir-nos diminuídos por pedir ajuda, sabendo que a maioria das pessoas que nos rodeiam responderá à nossa dor uma vez que a ouçam. Precisamos lembrar-nos de falar alto e bom som.

 

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de Alain de Botton

os filhos dão muita alegria e aflição

Os filhos dão muita alegria…

“Os filhos dão muita alegria e tudo isso que se costuma dizer, mas também dão muita aflição, permanentemente, e não creio que isso mude nem sequer quando crescem, e disso já se fala menos. Vemos a sua perplexidade diante das coisas e isso faz aflição. Vemos a sua boa vontade, quando lhes apetece ajudar e colaborar e não conseguem, e isso também faz aflição. São aflitivas a seriedade deles e as suas brincadeiras elementares e as suas mentiras transparentes, afligem-nos as suas desilusões e também as suas ilusões, as suas expectativas e as suas pequenas desilusões, a sua incompreensão, as suas perguntas tão lógicas, e até a sua ocasional má intenção. Aflige-nos pensar em quanto lhes falta aprender, e no longuíssimo percurso que enfrentam e que ninguém pode fazer em seu lugar, mesmo que levemos séculos a fazê-lo e não vejamos a necessidade de que tudo o nasce tenha de começar outra vez do princípio. Que sentido faz que cada um passe pelos mesmos desgostos e descobertas, mais ou menos eternamente?” – “Os Enamoramentos”,  Javier Marías

Lembro-me do momento exacto em que olhei para a minha filha e senti essa dor, que era a dor que eu achava que pudesse ser a dela ou que tinha a certeza de que um dia seria a dela.

Minha filha tinha uns três ou quatro anos e estava sentada no chão tentando brincar. Eu via o seu esforço e via o seu fracasso. Ou talvez apenas estivesse projectando nela o que sabia que seria seu embate mais ou menos eterno. Mas creio que não, acredito que já era angústia o que havia no seu rostinho redondo, já era perplexidade diante da aridez de alguns dias. Lembro-me de que, naquele momento, as lágrimas pingaram dos meus olhos, como de uma torneira mal fechada. Eu soube ali que jamais poderia tapar aquele buraco, que teria de testemunhar para sempre aquela luta íntima na qual cada um de nós está só. Sempre só. Eu assistia a ela desde já, tão pequena, tão frágil, tão confiante no meu poder ilusório, debatendo-se com a vida. E para sempre diante dela eu pingaria como uma torneira mal fechada. Era um momento silencioso entre nós – e as cartas já estavam dadas muito antes de nós.

É pelo consumo – e aí possivelmente nunca antes como agora – que se tenta tapar esse buraco aberto no peito dos nossos filhos. Um objecto seguido de outro objecto, a ilusão de que algo foi preenchido com duração cada vez mais curta, o desejo pelo produto seguinte cada vez mais imperativo, a frustração sempre abissal entre um e outro.

Mas não protegemos nossos filhos deste vazio, não há como protegê-los daquilo que é uma ausência que nos completa. Penso que este é o momento crucial da maternidade e da paternidade. Cada um de nós, que se sabe faltante, diante da falta que grita no filho. Quando me vi diante desse abismo, como a personagem de “Enamoramentos”, ela num momento muito diverso e muito mais limite do que o meu, lembro-me de me sentir envolta em melancolia. Eu soube ali, naquele instante prosaico em que minha pequena filha procurava por algo que talvez não pudesse ser encontrado em nenhum lugar além dela mesma, que eu haveria de conviver com uma falência dali em diante. Minha melancolia não se devia às dificuldades de uma maternidade precoce – mas à certeza de que proteger minha filha era uma missão desde sempre fracassada.

Ao olhar para minha própria filha naquele momento em que eu sabia que a máquina do mundo se abria diante dela para mostrar seu enorme estômago vazio, lembro-me de que, por um momento, pensei em alcançar talvez um outro brinquedo ou lhe oferecer um chocolate (…) Mas meu pensamento não virou gesto. Eu sabia que tudo o que eu podia fazer era me manter em silêncio. Que ser mãe, naquele momento, era ser capaz de vê-la debater-se com o vazio, testemunhar o início de seu longo embate vida adentro. E acho que ali, como deve acontecer com os pais e mães que percebem esse momento exacto, uma fissura nova se abriu em mim. Esta que para sempre me faria pingar como uma torneira mal fechada.

“Que sentido tem cada um passar pelos mesmos desgostos e descobertas, mais ou menos eternamente?” (…) a resposta talvez seja a de que não exista sentido. E exactamente por não existir, só podemos mostrar aos nossos filhos, porque isso é algo que se mostra, não que se diz, que a tarefa de uma vida humana, desde sempre e para sempre, é criar sentido onde não há nenhum. Inventar uma vida é a tarefa que faz de todos nós ficcionistas. E, em geral, uma vida que faz sentido é aquela em que os sentidos são construídos para serem perdidos mais adiante e recriados mais uma vez e sempre outra vez. É o vazio, afinal, que nos faz inventar uma vida humana – e não morrer antes da morte.

É o que fazemos como pais neste momento em que um filho descobre o vazio, um momento mais importante do que a primeira palavra ou o primeiro passo ou o primeiro dente, que também nos torna pais. É preciso aguentar. Saber aguentar e escutar a dor de um filho, sem tentar calar com coisas o que não pode ser calado com coisa alguma, é um acto profundo de amor. Um momento sem palavras em que nosso silêncio diz apenas que a tarefa de criar uma vida que faça sentido é dele, pessoal e intransferível. E tudo o que poderemos fazer é estar mais ou menos por perto, ainda que nada possamos fazer.

 

Eliane Brum

 

a arte de se separar ou ficar junto

A difícil arte de estar junto (ou de se separar)

Balint – Ocnofilia e Filobatismo 

Namoros, casamentos, empregos, ideias, relações eróticas, e toda uma variedade de coisas com que nos relacionamos têm fim.

Como pode então uma situação tão à mão de todos os mortais, um assunto tão discutido, do charlatanismo à filosofia, causar desastres quando faz a sua chegada?

Porque não conseguimos deixar os outros partirem, transformando anos, décadas de amor, apego e suporte em ódio, indiferença e vingança?

A “resposta” está relacionada com duas posições básicas que começam no bebé e, cristalizadas, podem às vezes permanecer no adulto, gerando ansiedade, angústia e fazendo com que muitos de nós se transformem em “escravos” nos relacionamentos.

Balint recorre ao mundo infantil (brinquedos e/ou brincadeiras que causam arrepios, como por exemplo a montanha-russa) para nos ajudar a compreender a existência de duas posições no que diz respeito à relação como o objecto – (o objecto é uma representação mental de um objecto externo, um sujeito/outro/pessoa*).

Balint dá particular atenção a uma questão notória: o facto de que para alguns esses brinquedos/brincadeiras são fonte de intenso prazer, enquanto outros mal podem pensar em sentir o tal arrepio e frio na barriga. Guardemos essas duas reacções (aparentemente) antagónicas – elas são a base para o núcleo do pensamento neste trabalho.

Numa clara discordância de Freud (e Melanie Klein), Balint não acredita na existência do narcisismo primário, ou seja, o investimento total do bebé em si mesmo nos primeiros meses de vida de modo a que pense ser o único ser do mundo e o criador de todos os objectos*.

Para Balint, esse mundo inicial já é um mundo de relação com o outro, mas nele os outros atendem às necessidades do bebé de maneira incondicional. Os outros seguram-no, amamentam-no, o sustentam (no sentido físico), suportam a sua existência em toda a sua (do bebé) fragilidade.

Façamos agora a síntese dessas duas proposições:

Quais seriam as reacções possíveis do bebé ao perceber que os objectos* não existem para servi-lo? Que falham, têm vida e desejos próprios.

São duas as reações:

Ou se “penduram” no outro* para não o deixar escapar ou criam mecanismos para viver sem ele.

As duas posições básicas:

Balint dá tanta importância à sua descoberta que propõe duas palavras novas para descrever cada uma das respostas do bebé, às vezes também presentes nos nossos pacientes adultos; duas posições estas que são uma reacção à descoberta dos outros como autónomos.

Para o primeiro caso, a palavra proposta é ocnofilia, que vem de um radical grego que significa pendurar-se, encolher-se, hesitar (implícito aqui de que isso aconteça por medo, vergonha ou pena em relação a um outro. Este é o bebé que não gosta de andar na montanha-russa (metaforicamente falando): ao descobrir que os outros* não o servirão de forma incondicional para o resto da vida ele – cria mentalmente -, a possibilidade de se pendurar neles, quer eles queiram quer não.

Ou seja, para o ocnofílico, as distâncias são desesperantes, uma terrível ameaça e um vazio indizível. Apenas firmemente preso aos outros, ele pode viver e serenar a sua angústia.

A outra posição, advinda do mesmo problema é chamada de filobatismo.

Balint faz um mergulho nos significados arcaicos do radical desta palavra, mas para quem fala português o melhor é pensar no paralelo com a palavra acrobata. Este é o bebé que – cria mentalmente a ideia de que – não precisa dos outros*; melhor dito, que vive melhor sem eles. Ele confia no ambiente e em si e sente que a ameaça vem dos outros* que se aproximam dele. É um mundo inteiro “estruturado por distância segura e visão/observação”.

O filobata confia no mundo, nas distâncias. O problema surge quando necessita negociar com um outro que se impõe. Entretanto ele não despreza o outro: O filobata cuida dos outros. Na verdade ele transforma-os para o seu uso (e por isso cuida deles). O filobata não precisa dos outros, pelo menos, nenhum em particular.

Não parece difícil concordar com o autor: tudo o que é pensado aqui remete para questões muito primárias. O encontro com o mundo externo independente e com a consequente pergunta “e agora, o que vou fazer se o mundo se recusa a atender, de maneira absoluta, todos os meus desejos?”.

As duas saídas propostas são a ocnofílica e a filobática, ambas insatisfatórias, com seus prós-e-contras, se é que podemos falar assim, e que se tornam claras a partir do pensamento dos skills que cada posição desenvolve.

O ocnofílico tem os outros* como objectivo e desenvolve skills visando “um caminho eficiente para se pendurar e talvez (…) um método custoso para ser aceite pelo outro* como um tipo de parasita”. É uma técnica relativamente efectiva. O seu ponto fraco encontra-se no facto de que “o seu verdadeiro desejo nunca pode ser alcançado pelo estar colado ao outro*. O verdadeiro desejo é o de ser seguro pelo outro* e não o de pendurar-se desesperadamente nele”.

Já para o filobata o mundo é bem diferente. Desde que as coisas não fiquem demasiado complicadas, ele, o acrobata, sente-se imensamente seguro voando pelos céus. O risco encontra-se nos outros*, que não podem satisfazê-lo e são, por isso, perigosos.

Encontra segurança em relações em que faz dos outros* equipamentos que estão sempre dispostos a servi-lo nas suas acrobacias e por isso são, pelo filobata, muito bem cuidados.

Agora, claro, dada a característica primitiva das duas posições é inevitável, para Balint e para nós, falar de dois sentimentos também primitivos, avassaladores e conectados: amor e ódio. (brevemente)

 

 

Este post teve por base excertos (modificados) de:

A difícil arte de estar junto (ou de se separar) – Luis Fernando Santos

agorafobia

Etiologia da Depressão e da Agrofobia à luz da Vinculação

Depressão

A Teoria da Vinculação poderá ser de muita relevância para a compreensão da etiologia da depressão, como Bowlby propôs.

Experiências de perdas na infância, separação e rejeição pelos pais ou pelo cuidador poderão levar ao desenvolvimento de modelos internos de representação insegura. Representações cognitivas internas do self como não-amado/não-valorizado e figuras de vinculação que não fornecem amor e não são confiáveis pela criança, são consistentes com parte da tríade cognitiva da depressão de Beck.

Os tipos de vinculação são importantes na previsão de sintomas depressivos na adolescência. Crianças com vinculações inseguras têm maior prevalência de sintomas depressivos, comparativamente com crianças com uma vinculação segura.

Um estudo realizado numa população de estudantes afro-americanos que se propôs determinar a importância dos modelos internos de representação e do tipo de vinculação para o desenvolvimento de depressão concluiu que os indivíduos que têm uma visão positiva de si e dos outros têm uma complacência emocional que funciona como um mecanismo de protecção contra a depressão. Assim, estes estudantes com boa auto-estima vêem os outros como uma fonte confiável de apoio e reportam níveis inferiores de depressão.

Agorafobia

Quando uma criança sofre disrupções na vinculação como a perda ou a ausência da sua figura de vinculação, esta incorre num risco de “fobia escolar”.

Esta fobia, define-se como o medo de deixar a mãe e a sua casa, e poderá transformar-se numa agorafobia.

Num estudo retrospectivo que avaliou doentes agorafóbicos, Marks observou que 95% dos agorafóbicos afirmam ter maior medo quando estão sozinhos. Muitos deles evitam estar sozinhos em casa, e outros requerem a presença de alguém (vivenciado como securizante) quando tentam ultrapassar a sua fobia.

De acordo com Chambless (1982), estes agorafóbicos preferem a presença de um determinado membro da família. Este acompanhante expande as fronteiras da sua “zona de segurança”.

A semelhança entre esta perturbação e o uso da figura de vinculação como a “base segura” para exploração, evidente na Situação “Estranha” é, sem dúvida, evidente.

 

Este  post teve por base a tese de Mestrado integrado em Medicina:

“Teoria da Vinculação” – Nuno Ferreira Silva

Bowlby

Bowlby estudou psicologia e ciências pré-clínicas no Trinity College em Cambridge, ganhando prémios por desempenho intelectual notável. Depois de Cambridge, ele trabalhou com crianças delinquentes e desajustadas, na época com vinte e dois anos, fazendo residência no University College Hospital em Londres. Aos vinte e seis, ele se formou em medicina. Enquanto estava na escola de medicina, ele se matriculou no Instituto de Psicanálise. Após sua saída, ele se formou em psiquiatria adulta no Maudsley Hospital. Em 1937, aos 30 anos de idade, qualificou-se como psicanalista.

Durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi tenente-coronel no Corpo Médico da Armada Real. Após a guerra, ele se tornou Diretor Substituto da Clínica Tavistock e, partir de 1950, Consultor de Saúde Mental da Organização Mundial da Saúde.

Por causa de seu trabalho anterior com crianças delinquentes e mal-adaptadas, ele se tornou interessado no desenvolvimento de crianças e começou a trabalhar na Child Guidance Clinic (Clínica de Orientação Pediátrica) em Londres. Este interesse foi, provavelmente, reforçado por uma variedade de eventos da guerra envolvendo a separação de crianças de seus familiares; estes incluindo o resgate de crianças judias pela Kindertransport (evacuação de crianças judaicas da Alemanha, Checoslováquia, Polónia e Cidade Livre de Danzig que decorreu entre 1938 e 1939), a evacuação de crianças de Londres para mantê-las a salvo de ataques aéreos, e o uso de grupos de berçários para permitir que as mães de crianças pequenas contribuíssem para o esforço de guerra. Bowlby estava interessado desde o início de sua carreira no problema da separação e no trabalho de Anna Freud e Dorothy Burlingham durante a guerra sobre desabrigados e de Rene Spitz sobre órfãos. Ao final da década de 1950, ele havia acumulado um corpo de trabalho teórico e observacional para indicar a importância fundamental do apego desde o nascimento para o desenvolvimento humano.

Bowlby estava interessado em descobrir os padrões reais de interacção familiar envolvidos no desenvolvimento saudável bem como no patológico. Ele focou em como as dificuldades de apego eram transmitidas de uma geração à próxima. Em seu desenvolvimento da teoria do apego, ele propôs a ideia de que o comportamento de apego era, essencialmente, uma estratégia de sobrevivência evolutiva para proteger o recém-nascido de predadores. Mary Ainsworth, uma aluna de Bowlby, mais tarde ampliou e testou suas ideias, e fez, de fato, o papel principal ao sugerir a existência de vários estilos de apego. As três experiências mais importantes para o futuro trabalho de Bowlby e o desenvolvimento da teoria do apego foram seu trabalho com crianças delinquentes e mal-adaptadas.

 

via wikipedia

breakdown

Por que as Crises são tão importantes?

Um dos grandes problemas dos seres humanos é que somos muito bons a “continuar”, a “andar para a frente”.

Somos especialistas em render-nos às exigências do mundo externo, a viver de acordo como o que é esperado de nós e seguir as prioridades definidas pelos outros.

Continuamos a dar a imagem de sermos uns excelentes rapazes ou raparigas – e podemos, sem grandes marcas visíveis, manter esse feito mágico durante décadas.

Até que um dia, de repente, para a surpresa de todos, incluindo nós mesmos, quebramos.

A crise pode assumir várias formas.

Já não conseguirmos sair da cama. Cairmos numa depressão catatónica.

Desenvolvermos ansiedade social. Deixarmos de dormir e comer. Balbuciarmos incoerentemente. Perdemos o comando sobre uma parte do nosso corpo.

Somos levados a fazer coisas totalmente contrárias ao nosso Eu normal. Tornamo-nos completamente paranóicos em relação a qualquer coisa.

Recusamo-nos a agir de acordo com as “regras” nos nossos relacionamentos, temos um caso, fazemos uma fuga para a frente – ou, pelo contrário, colocamos um pau na engrenagem do dia-a-dia.

Uma crise não é apenas qualquer coisa a funcionar mal, é um apelo para a saúde.

As crises são extremamente inconvenientes para todos, e, sem surpresa, há uma urgência em medicalizar o problema e tentar retirá-lo de cena, para que as coisas, como de costume, possam continuar.

Mas isso é não compreender o que está a acontecer quando temos uma crise.

Uma crise não é apenas uma loucura fortuita ou qualquer coisa a funcionar mal, é algo muito real – um apelo para a saúde.

É uma tentativa de uma parte da nossa mente forçar a outra a um processo de crescimento, auto-compreensão e auto-desenvolvimento, que até então se recusou a empreender.

Se pudermos colocá-lo paradoxalmente, é uma tentativa de impulsionar o processo de ficar bem, verdadeiramente bem, através da doença.

O perigo de apenas medicalizarmos o problema e tentar fazê-lo desaparecer instantaneamente, é perder a lição embutida na nossa doença.

Uma crise não é apenas uma dor, embora também seja isso, é claro; é uma oportunidade extraordinária para aprender.

A razão pela qual quebramos é porque nós, durante anos, não quisemos ver as coisas.

Havia algo que era preciso ouvir dentro das nossas mentes, que colocámos habilmente de lado.

Existiam mensagens que precisávamos ter prestado atenção, aprendizagens emocionais e conexões que era necessário fazer e não fizemos.

E agora, depois de termos assobiado para o lado durante tanto tempo, demasiado tempo, o Eu emocional está a tentar fazer-se ouvir da única maneira que nesta fase ele sabe.

Está totalmente desesperado – e devemos entender e até empatizar com a sua raiva silenciosa.

Uma crise não é apenas uma dor, é uma oportunidade extraordinária para aprender.

O que a crise nos está a dizer acima de tudo é que as coisas não podem ser levadas como de costume.

Que as coisas têm que mudar ou (e isso pode ser assustador de testemunhar) o suicídio pode surgir no horizonte.

Por que não podemos simplesmente ouvir a necessidade emocional calmamente e, em tempo útil – evitar o melodrama de uma crise?

Porque a mente consciente é inerentemente preguiçosa e muito relutante em se envolver com o que a crise – de forma brutal – tem para dizer.

Durante anos, recusa-se a ouvir uma tristeza particular, uma ansiedade crescente, ou um problema num relacionamento.

Podemos comparar o processo com uma revolução.

Durante anos, as pessoas pressionam o governo para ouvir as suas exigências e agir em conformidade.

Durante anos, o governo diz “ok”, mas na prática não faz nada – até que um dia, as pessoas não aguentam mais, derrubam os portões do palácio, destroem as coisas à sua passagem e disparam aleatoriamente contra inocentes e culpados.

Normalmente, em revoluções, não há bons resultados.

As queixas legítimas e as necessidades das pessoas não são ouvidas nem tidas em consideração.

Há uma guerra civil muito feia – às vezes, literalmente, a morte. O mesmo se aplica às crises.

No entanto, perante as queixas físicas, os bons profissionais – tentam arduamente escutar em vez de censurar a doença.

Eles detectam entre as particularidades um pedido de mais tempo para nós mesmos, para um relacionamento mais próximo, para um modo de ser mais honesto e, para a aceitação de quem realmente somos.

É por isso que começamos a beber e a isolar-nos, ou a crescer inteiramente paranóicos ou maniacamente sedutores.

Uma crise representa uma vontade de crescimento que não encontrou outra forma de se expressar.

Muitas pessoas, depois de um horrível período de meses ou anos, dirão: “Eu não sei como é que eu teria ficado bem se eu não tivesse adoecido”.

No meio de uma crise, muitas vezes perguntamos se enlouquecemos.

Não, não enlouquecemos. Estamos a comportar-nos estranhamente, sem dúvida, mas sob a agitação superficial, estamos numa busca escondida e lógica para a saúde.

Nós não ficámos doentes; já estávamos doentes.

A nossa crise, se a pudermos superar, é uma tentativa de mudar o estado das coisas, um alarme insistente para reconstruirmos as nossas vidas numa base mais autêntica e sincera.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de “The importance of having a breakdown” – Alain the Botton

vinculação

Os Estudos de Harlow – Vinculação

No seu estudo laboratorial com macacos Rhesus em 1958, Harry Harlow forneceu dados empíricos que apoiavam o trabalho de Bowlby.

Harlow especulou sobre a natureza do amor, sobre as suas variáveis e analisou a teorias contemporâneas.

A posição comummente defendida por psicólogos e sociólogos era a seguinte: Os motivos básicos são, na sua maior parte, os drives primários – particularmente fome, sede, eliminação da dor e sexo – e todos os outros motivos, incluindo o amor ou afecto, são seus derivados ou drives secundários. “A mãe está associada à redução dos drives primários – particularmente fome, sede e dor – e através da aprendizagem, afecto ou amor é seu derivado (…).

No entanto, John Bowlby atribui importância não só à alimentação e satisfação da sede, mas também ao Instinto Primário de Agarrar, uma necessidade de contacto físico íntimo, que é inicialmente associado à mãe.”

Numa das suas experiências, Harlow separou os macacos recém-nascidos das suas progenitoras horas depois do nascimento, e colocou-os num cenário laboratorial que incluía duas “mães substitutas”, ambas equipadas com um biberão. Uma das ‘mães’ tinha sido construída apenas com um rede de metal, e outra possuía um revestimento de pano macio.

A primeira observação de Harlow foi que macacos face à possibilidade de escolha entre as duas mães substitutas passavam consideravelmente mais tempo agarrados à ‘mãe’ de pano, mesmo quando era só a ‘mãe’ de ferro que estava equipada com o biberão. Esta observação sugere a ideia que a relação de afecto/amor, não é uma resposta simples à satisfação de necessidades fisiológicas.

Com o seu trabalho experimental, Harlow mostra claramente que nenhuma recompensa de comida é necessária para a formação de vinculações fortes. Acrescenta ainda, que “os dados retirados desta experiência mostram que o conforto no contacto com a mãe é a variável de maior importância no desenvolvimento de respostas afectivas.

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