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As Mães são Sempre as Culpadas? Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

As Mães São Sempre as Culpadas?

“As Mães São Sempre as Culpadas”. Mito ou realidade?

O que é que o mito da mãe esquizofrenogénica nos impede de tentar compreender?

 

Nenhum relato da história da psiquiatria do século XX está completo sem uma discussão sobre a “mãe esquizofrenogénica”, uma invenção sinistra da saída da imaginação dos psiquiatras misóginos.

A “mãe esquizofrenogénica”, como referem, foi considerada a única responsável pela génese do sofrimento rotulado como “esquizofrenia” nos seus filhos.

Como Allan F. Mirsky e colegas observaram num artigo sobre as Irmãs Genain, “Os anos 50 foram a era em que o conceito de ‘mãe esquizofrenogénica’ foi amplamente aceite.

No livro “Mística Feminina”, Betty Friedan referiu:

“De repente, descobriu-se que a mãe podia ser responsabilizada por quase tudo.

Em todos os casos de crianças perturbadas, mas também de adultos alcoólicos, suicidas, esquizofrénicos, psicopatas, neuróticos; na homossexualidade masculina, impotência;  promiscuidade feminina, frigidez; asma, e em todas as perturbações dos americanos, poderia ser encontrada uma mãe…

Claramente, algo estava ‘errado’ com as mulheres americanas.”

Este culpar da mãe é frequente na literatura psiquiátrica de meados do século, como escreveu a psicóloga Stella Chess em 1965:

“O procedimento padrão é assumir que o problema da criança é reactivo (à relação com a mãe) ao contacto materno num relacionamento individual.

Situações particulares que se encaixam nestas especulações são citadas como típicas dos sentimentos da criança e das atitudes da mãe, e são tomadas como prova da universalidade da tese das atitudes maternas nocivas.”

Ou como John Neill, MD, observou uma geração depois:

“Tornou-se prática comum acreditar que as mães eram a causa da psicose dos seus filhos.”

Mas será que os psiquiatras realmente “culparam a mãe” com exclusão de todas as outras causas? De onde veio essa noção?

 

O conceito de mãe esquizofrenogénica não era suficiente para explicar a génese da esquizofrenia

 

Como na maioria dos mitos, o mito do foco da psiquiatria na mãe esquizofrenogénica tem um fundo de verdade.

Num artigo de 1948, a psiquiatra alemã Frieda Fromm-Reichmann escreveu:

“O esquizofrénico é dolorosamente desconfiado e ressentido com as outras pessoas, devido à severa manipulação e rejeição que encontrou nas pessoas importantes da sua infância e juventude, como regra, principalmente uma mãe esquizofrenogénica.”

A Dra. Fromm-Reichmann era uma psicanalista famosa pela sua compaixão e habilidade em manejar até os casos mais complicados, aparentemente intratáveis ​​de “esquizofrenia” com psicoterapia intensiva e sem medicação.

É importante referir que as observações acima foram retiradas dum artigo que nem sequer se referia directamente à etiologia da esquizofrenia, mas era dedicado quase exclusivamente à dinâmica da relação terapeuta-paciente.

A análise dos escritos dos colegas de orientação psicanalítica da Dra. Fromm-Reichmann nos anos 50 e 60 revela que desde o início eles entenderam perfeitamente que o conceito de mãe esquizofrenogénica não era suficiente para explicar a génese da esquizofrenia e que essa condição era provavelmente o resultado de famílias perturbadas, e não apenas de mães perturbadas.

Por exemplo, Trude Tietze (1949), escreveu sobre o papel do pai:

“Pouco se sabe sobre os pais de crianças esquizofrénicas. Nenhuma investigação sistemática ao pai foi realizada em conexão com o presente estudo.

No entanto foram entrevistados oito pais e a impressão era de que eles também tinham muitos problemas de personalidade. Pareciam pessoas perfeccionistas e obsessivas, tão doentes quanto as esposas.”

Da mesma forma, os psiquiatras Ruth e Theodore Lidz escreveram:

“Nos nossos dados, é visível que as influências paternas são tão nocivas quanto as maternas.”

As suas descobertas foram replicadas nos estudos de Clardy,  Nuffield, Wahl, entre outros, que confirmaram o papel de todos os membros da família.

 

É realmente um exagero sugerir que consequências terríveis podem ocorrer quando esse relacionamento corre mal?

 

O psiquiatra DD Jackson achou que a esquizofrenia deveria ser estudada como uma “doença de origem familiar que envolve um ciclo complicado de vetores que vão muito para além do que pode ser conotado pelo termo ‘mãe esquizofrenogénica’.

Lidz e seus colegas concordaram, observando:

“Uma vez que os nossos estudos estavam a pôr a descoberto sérias dificuldades em quase todas as áreas nessas famílias, preferimos equilibrar o assunto, direccionando a atenção para a situação total ao invés do foco na mãe.”

De qualquer forma, a relação mãe-filho é sem dúvida o relacionamento humano mais importante que existe.

É realmente um exagero sugerir que consequências terríveis podem ocorrer quando esse relacionamento corre mal?

O artigo de Tietze, acima, discute o caso clínico de uma jovem mulher com esquizofrenia cuja mãe estava obcecada em impedir a filha de se masturbar.

Essa mulher cheirava as mãos da filha durante o dia para verificar se ela se tinha masturbado, e efectuou duas mutilações cirúrgicas no clitóris da criança; uma quando tinha um ano e outra quando ela tinha dois.

Essa mesma mãe inspeccionava a vulva da sua filha todas as noites e batia-lhe se julgasse que os lábios da vulva estavam “irritados”.

Será que as acções desta mãe tiveram algo a ver com os problemas que a filha apresentou mais tarde? Com toda a certeza.

Mas reconhecer o papel do trauma infligido pela mãe a uma determinada pessoa não é o mesmo que culpar a mãe por toda a “doença mental”.

A questão é meramente académica? Não.

Olhemos a resposta do psicólogo L. Alan Sroufe a um artigo publicado no New York Times em 2012.

 

É visível que as influências paternas são tão nocivas quanto as maternas

 

O artigo discutiu o estudo de 2009 do MTA por Brooks e colegas nos quais 600 crianças com o rótulo de diagnóstico “TDAH” (Perturbação de hiperatividade com défice de atenção) foram seguidos por oito anos, e que não encontraram benefícios a longo prazo da medicação para essa perturbação em nenhuma das vinte e quatro variáveis ​​de resultado.

Dr. Sroufe concluiu:

“A ilusão de que os problemas de comportamento das crianças podem ser curados com drogas impede-nos como sociedade de procurar as soluções mais complexas e necessárias.

As drogas deixam toda gente – políticos, cientistas, professores e pais – livres de responsabilidades. Todos, excepto as crianças, claro.

Nem todos viram as coisas dessa maneira.

Numa resposta à opinião do Dr. Sroufe a autora Judith Warner acusou-o de querer fazer “uma viagem de volta a uma época… em que se acreditava que as crianças com doenças psiquiátricas eram vítimas de ‘mães esquizofrenogênicas tóxicas'”.

Mas nem o estudo do MTA nem o artigo do Dr. Sroufe fizeram menção às “mães esquizofrenogénicas”.

Esta tempestade num copo de água acaba por nos afastar da questão principal:

Um amplo estudo desenvolvido ao longo de vários anos não encontrou benefícios a longo prazo para o uso de poderosas drogas (dadas a milhões de crianças) que provocam alterações no cérebro.

Essas foram as conclusões que merecem uma discussão séria – e não evocações de “mães esquizofrenogénicas”.

Mais recentemente, surgiu um artigo no Washington Post descrevendo um pouco da história da Chestnut Lodge, a instituição privada no Maryland onde a Dra. Fromm-Reichmann realizou o seu trabalho inovador.

 

Reconhecer o papel do trauma infligido pela mãe a uma determinada pessoa não é o mesmo que culpar as mães por toda a “doença mental

 

O artigo foi bastante sobranceiro:

“À medida que a compreensão das causas biológicas e químicas das doenças mentais crescia, a ligação de Chestnut Lodge à psicanálise freudiana passou a parecer datado. Poderia realmente ser tratada uma psicose debilitante – e ocasionalmente perigosa – falando sobre a mãe? ”

Além do facto de que a psicoterapia não poder ser reduzida a “falar sobre a mãe”, ainda não há evidências confiáveis ​​de uma causa química ou biológica da esquizofrenia ou de qualquer outro “distúrbio funcional” comummente tratado com drogas.

Enquanto isso, desde o tempo que Fromm-Reichmann desenvolveu o seu trabalho, uma montanha de evidências se tem acumulado, conectando a esquizofrenia ao abuso sexual, abuso físico, abuso emocional, e uma grande variedade de outras categorias de experiências adversas na infância.

A correlação entre experiências adversas na infância e esquizofrenia é robusta e confiável.

Ele atravessa fronteiras nacionais, estratos sociais e etnias. Foi verificado repetidamente em estudos longitudinais, estudos transversais, e em estudos de casos.

Os autores do abuso podem ser pais, padrastos, avós, tios, irmãos mais velhos, primos, não parentes – e sim, às vezes mães.

Estes estudos também demonstraram que não existe um estilo de parentalidade especificamente ” esquizofrenogénico “.

Pelo contrário, qualquer uma das várias influências tóxicas (algumas em grande parte fora do controle dos pais, como doenças infantis ou morte de um dos pais) pode fazer com que o equilíbrio se incline para a esquizofrenia ou qualquer outra “doença mental”.

Por exemplo, um estudo descobriu que entre 45% e 60% dos pacientes diagnosticados com esquizofrenia foram sujeitos a abuso sexual na infância.

 

A ilusão de que os problemas de comportamento das crianças podem ser curados com drogas impede-nos como sociedade de procurar outras soluções

 

E, como o leitor sem dúvida já sabe, a grande maioria dos abusos sexuais na infância é perpetrada por homens, não por mulheres.

Esta é uma descoberta que deve ser recebida com alarme, e não como piada sobre “culpar a mãe”.

Mas também deve ser recebido com esperança, já que o abuso sexual infantil e outras experiências adversas na infância são problemas sobre os quais podemos agir.

O verdadeiro mito da mãe esquizofrenogénica é a ideia de que os psiquiatras sempre difundiram a ideia de que as mães são as únicas responsáveis ​​pela esquizofrenia nos seus filhos.

E esse mito tem sido usado por muito tempo como um espantalho para desviar a atenção da discussão séria sobre o papel do abuso e do trauma na génese da esquizofrenia e de outros tipos de sofrimento mental, e para promover explicações biológicas e intervenções farmacológicas para essas condições.

É hora de acabar com esse mito de uma vez para sempre.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de “The Real Myth of the Schizophrenogenic Mother” – Patrick Hahn

Mães Narcisistas Pedro Martins Psicoterapeuta

Mães Narcisistas

Quando a psicóloga Karyl McBride começou a ler livros sobre o vínculo mãe-filha, não pôde deixar de chorar.

Esses textos despertaram lembranças do seu passado. Ela tentou encontrar situações que a lembrassem do apego e da proximidade com a mãe.

Detalhes como o perfume que ela usava, o som da sua voz ou a temperatura da sua pele quando ela a abraçava. Mas não chegou a nenhuma.

Foi assim que ela teve consciência dessa carência e deu conta que, pelo menos na literatura, não havia nada escrito para filhas de mulheres não-maternais.

“Embora esta seja uma relação que muitas vezes deixa grandes feridas, não encontrei nada escrito que falasse sobre isso.”

“As meninas não odiavam as suas mães e a maternidade era mostrada como uma instituição sagrada na maioria das culturas”, escreveu mais tarde no seu texto “A minha mãe não me mima: como superar as sequelas causadas por uma mãe narcisista” (2018).

Este foi um projecto que ela desenvolveu como uma espécie de catarse: uma viagem emocional à sua infância, momento em que se sentiu carente de afecto e absolutamente invisível.

“Há mães tão emocionalmente carentes e tão ensimesmadas e egoístas que são incapazes de dar amor incondicional e apoio emocional às suas filhas.

 

As filhas das mães narcisistas gastam tempo e energia a tentar obter amor, atenção e validação do resto das pessoas, sem resultado.

 

Eu vi como os relacionamentos turbulentos das minhas pacientes com as suas mães, bem como a relação com a minha mãe, estavam claramente relacionados com o narcisismo materno.”

 

Quais são as dinâmicas da relação entre uma filha e uma mãe narcisista?

As meninas criadas por uma mãe narcisista sentem falta da empatia e a incapacidade da sua progenitora se sintonizar com o mundo emocional delas.

Não se sentem reconhecidas, ouvidas ou vistas. Elas referem que são invisíveis para os seus pais.

E, embora em alguns casos não tenham consciência dessas situações, elas crescem com a sensação de que as suas necessidades emocionais não são satisfeitas pelos adultos.

Podem ter um teto, roupas, comida, e todas essas coisas físicas asseguradas, mas as suas emoções não são escutadas ou validadas.

A mãe narcisista não demonstra afecto pela filha, a menos que isso a ajude em alguma coisa.

O carinho é uma retribuição, algo que é dado como moeda de troca. Não é incondicional.

Então cresce e vive toda a sua vida em torno das necessidades do outro, tentando fazer a sua mãe feliz, sem espaço para se auto-construir.

 

Quais são as consequências na vida quotidiana de um adulto ter crescido com uma mãe narcisista?

Como a menina não conseguiu fazer a sua mãe feliz, ela internaliza uma mensagem negativa de “eu não sou suficientemente boa”.

A internalização da falta de empatia e de amor faz com que sinta que “ninguém me pode amar”, “sinto-me vazia”, “não confio nos meus próprios sentimentos”, “as dúvidas paralisam-me”.

Depois, as filhas das mães narcisistas gastam tempo e energia a tentar obter amor, atenção e validação do resto das pessoas, sem resultado. Isso causa-lhes tristeza, raiva, angústia e decepção.

 

“Eu vi como os relacionamentos turbulentos das minhas pacientes com as suas mães, bem como a relação com a minha mãe, estavam claramente relacionados com o narcisismo materno.”

 

A necessidade primordial de se sentir unida a alguém é interrompida e deixa essa cicatriz, porque quando a confiança é afectada na infância, torna-se difícil confiar nos outros na idade adulta.

Além disso, torna a pessoa susceptível a atrair inconscientemente outros narcisistas na sua vida, mas agora na figura de amigos ou amantes, porque é a maneira de “gostar e ser gostada” que conhecem.

A menina, já adulta, não confia em si mesma e cresce sempre com dúvidas.

A falta de validação de quem elas são e das suas emoções faz com que se tratem a si mesmas como foram tratadas pela mãe narcisista.

Isso inclui serem duras consigo e não darem crédito a nada das coisas que constroem e conquistam.

 

Como a menina não conseguiu fazer a sua mãe feliz, ela internaliza uma mensagem negativa de “eu não sou suficientemente boa”.

 

Se a pessoa não se submete a um tratamento e toma a seu cargo a sua recuperação, vai experimentar sintomas semelhantes aos do transtorno de stress pós-traumático.

 

Como se explica uma mãe narcisista?

O narcisismo resulta de um trauma na infância. E não distingue géneros. São adultos que também foram vítimas de pais narcisistas.

Crescem sem terem consciência, sem trabalhar em si mesmos, a noção de que não são responsáveis ​​por seus próprios sentimentos ou comportamentos e, portanto, transmitem o que eu chamo de “legado do amor distorcido”.

Como especialista, decidi aprofundar a relação filha-mãe, mas também a relação pais e filhos, do género masculino, que são narcisistas.

McBride enfatiza a relação mãe-filha, porque as meninas, ao contrário dos seus irmãos homens, enfrentam uma dinâmica que eles não têm: a mãe narcisista vê a filha como uma extensão, não como alguém independente, com sua própria identidade.

 

Quando a confiança é afectada na infância, torna-se difícil confiar nos outros na idade adulta.

 

É por isso que ela pressiona a rapariga a agir e reagir tal como ela faria. E, por efeito, quando a filha não recebe validação desde a mais tenra idade, descobre que não tem transcendência no mundo e que os seus esforços não têm nenhum efeito.

“Há muitos temas de adultos que não devem ser expostos aos filhos. Tem de se permitir que eles sejam crianças, para se concentrarem nas coisas que importam para eles.

Não devem ser sobrecarregados com as preocupações dos “crescidos”. Pais narcisistas envolvem os seus filhos prematuramente no mundo adulto.

Uma mãe narcisista que constantemente confia à filha as dificuldades que tem no seu relacionamento com o marido, por exemplo, não entende como isso pode ser doloroso para a menina.

A filha sabe que compartilha traços com o pai e com a mãe; portanto, a menina interpreta a crítica ao pai como uma crítica a si mesma.

 

Como se rompe com o legado narcisista?

Ao trabalhar com um adulto vítima de uma relação parental narcisista, deve, em primeiro lugar, reunir-se os antecedentes, identificar o problema, e entendê-lo a um nível cognitivo.

Processar os sentimentos relacionados com a situação: sentir e reprogramar as mensagens negativas herdadas.

O conceito chave é a aceitação.

Separar-se psicologicamente da mãe e começar a construir uma consciência autêntica.

 

Os pais narcisistas envolvem os seus filhos prematuramente no mundo adulto.

 

Pergunte a si mesma quais são os seus direitos, reconheça o seu valor, a sua capacidade de assumir compromissos e desenvolver uma mãe interior: tornar-se alguém que pode nutrir-se, amar e cuidar-se a si mesma.

Então pode começar a ter um relacionamento saudável com a sua mãe, identificar as suas próprias características narcísicas e a recusar-se a transmitir esse legado. Todos podem mudar.

No entanto, embora a perspectiva seja encorajadora, não é um caminho fácil: “A terapia é necessária nesse processo para que o paciente se possa sentir validado e reconhecido.

É difícil para os pacientes desenvolver este “processo de acusação” às suas mães por causa dos sentimentos de culpa e do tabu que essa questão desperta.

O perdão é algo interno que vem depois de processar o trauma de uma infância difícil.

É claro, costumo recomendar aos meus pacientes que evitem confrontar a mãe ou o pai narcísico porque eles não aceitarão a responsabilidade ​​e a discussão terminará com os pais a acusar o filho de estar errado ou louco.

E como você evita ser uma mãe narcisista?

Com empatia. Se você se emociona com os sentimentos dos outros, você não é narcisista. É tão simples A empatia é a antítese do narcisismo. E, portanto, essa é a melhor maneira de cuidar de um filho.

 

Entrevista de Juan Cruz Giraldo a Karyl McBride

Traduzida/adaptada por Pedro Martins

Nos Ataques de pânico a Ameaça é Real Pedro Martins Psicoterapeuta

Nos Ataques de Pânico a Ameaça é Real?

A perspectiva de M. Blechner sobre os ataques de pânico difere da maioria dos clínicos.

Para a generalidade dos clínicos, durante um ataque de pânico, o paciente sente um perigo, mas esse perigo, na realidade, não existe.

O mesmo é dizer que os ataques de pânico não são baseados numa ameaça real.

Segundo Blechner, esta ideia é, pelo menos, para uma parte dos pacientes, imprecisa.

Normalmente, quando se pergunta ao paciente se há alguma coisa na sua vida que o pudesse originar um ataque de pânico, honestamente responde que não.

Mas o clínico pode chegar a uma conclusão diferente depois de fazer um questionário detalhado, procurando especificamente situações de perigo na vida do paciente que o assustem mas das quais não está ciente.

 

Blechner dá-nos como exemplo o caso do Sr. A

O Sr. A teve o seu primeiro ataque de pânico aos 28 anos.

Sentiu dores no peito e dificuldade em respirar. Pensou que ia ter um ataque cardíaco e dirigiu-se às urgências.

Os exames revelaram que o coração estava a funcionar normalmente.

Disseram-lhe que tinha tido um ataque de pânico e foi referenciado para a psiquiatria onde lhe prescreveram Alprazolam.

Um mês depois teve outro ataque que o levou novamente às urgências.

Os exames não revelaram nenhum problema no coração. Aumentaram a dosagem da medicação.

Devido ao medo de ter um novo ataque de pânico e às tonturas que a medicação lhe causava o Sr. A procurou outra abordagem. Foi referenciado para mim.

 

Para a generalidade dos clínicos, durante um ataque de pânico, o paciente sente um perigo, mas esse perigo, na realidade, não existe.

 

Era um jovem vigoroso e muito ambicioso, com um ar bastante saudável.

Perguntei-lhe se actualmente existia alguma coisa na sua vida que o fizesse ter medo. Ele disse que não existia nada, pelo menos, que ele soubesse.

No entanto, durante a nossa primeira conversa descobri que ele estava envolvido num esquema de corrupção, cujos clientes estavam a ser enganados e os lucros escondidos.

Ele foi um pouco blasé acerca da situação, assegurando-me que isso era uma prática comum.

Disse que sabia o que estava a fazer, e que nunca seria apanhado.

À medida que fui explorando a história descobri que o pai, actualmente reformado, foi levado à justiça por estar envolvido num negócio semelhante, e ficou quase arruinado financeiramente.

Ao mesmo tempo que o Sr. A parecia despreocupado em relação às suas práticas, ficou muito perturbado ao falar da ruína do pai.

Eu disse ao Sr. A, que, tendo em conta o ocorrido com o pai, era perfeitamente normal que ele temesse ser apanhado pelas práticas irregulares.

Disse-lhe que qualquer pessoa que estivesse a fazer o que ele fazia e cujo pai tivesse ficado praticamente arruinado por um comportamento semelhante, provavelmente, estaria bastante assustado.

Não era surpresa para mim que ele sentisse pânico; surpreendente para mim era ele não sentir medo mais vezes.

O Sr. A não gostou de me ouvir dizer aquilo, mas os ataques de pânico terminaram depois da primeira consulta.

Rapidamente deixou a medicação e os ataques de pânico não voltaram.

 

Por vezes os ataques de pânico surgem da dissociação de situações que objectivamente provocam ansiedade.

 

Reunindo o máximo de informações detalhadas que pude, fui capaz de substituir o pânico intermitente por um medo mais estável, que era ajustado à situação.

Nas sessões seguintes, senti por parte dele uma pressão para reinstituir a dissociação (entre a situação e o sentimento) e eu tive que lutar constantemente contra esse processo.

No entanto, na terapia as pressões foram cedendo à medida que ele ia encarando a realidade do que estava a fazer, bem como o esclarecimento das origens das suas defesas.

No caso do Sr. A, um trauma grave parecia estar na base para uma capacidade tão poderosa de dissociar.

O Sr. A é um entre vários pacientes cujos ataques de pânico surgem da dissociação de situações que objectivamente provocam ansiedade.

Em essência, consegui que o Sr. A apreendesse que:

“A situação que descreve faria com que qualquer pessoa estivesse com muito medo. Em grande medida, você está a ignorar e a dissociar o medo causado pela situação, e, logicamente, o medo que sente é real; o que não é normal é não saber de onde vem o medo; que você não conecte a emoção com a situação. Devido a isso parece que os ataques de pânico surgem do nada. Mas não é assim. Você tem muito boas razões para sentir muito medo, e, se quiser que os ataques de pânico terminem, tem de associar o medo à situação.”

Concordando ou não com a tese de que na base dos ataques de pânico está um perigo real, um questionário detalhado é muito importante para uma compreensão mais aprofundada dos episódios de pânico.

Ao mesmo tempo, será importante investigar a tendência de certos pacientes para dissociar.

 

Compreender a Ansiedade (parte III) - O Papel da Psicoterapia - Pedro Martins Psicoterapeuta

Compreender a Ansiedade (parte III)

Compreender a Ansiedade – O Papel da Psicoterapia

A psicoterapia pode ser uma forma de descobrir respostas para as questões complexas a que a ansiedade remete.

A psicoterapia é uma ajuda preciosa na medida em que faz aumentar a autoconsciência da pessoa.

Todos temos pontos cegos no que diz respeito aos nossos próprios pensamentos, sentimentos e motivações.

Fazer psicoterapia com um clínico qualificado pode ser um pouco como ver-se ao espelho.

Se você ficar muito perto do espelho, só verá uma pequena parte de si mesmo reflectida.

A terapia é como dar um passo para trás em relação ao espelho – você continua a ver o que via antes, mas agora consegue ver muito mais de si mesmo.

Isso significa que pode compreender coisas novas – coisas de que gosta e de que não gosta. Embora isso possa ser complicado, também pode ser muito valioso.

Afinal, se o seu carro não está a funcionar bem, mas você recusa-se a abrir o capô e olhar lá para dentro, provavelmente, não conseguirá resolver o problema.

A psicoterapia faz aumentar a autoconsciência da pessoa.

Da mesma forma, é muito difícil descobrir como lidar com uma dor emocional se nos recusarmos a olhar para dentro da nossa própria mente.

Então, como a psicoterapia pode ajudar a lidar com a ansiedade?

O processo terapêutico pode ser uma ajuda preciosa para descobrir o que significam os sentimentos de ansiedade.

– É, eventualmente, uma resposta ansiosa a uma situação stressante? (ansiedade funcional/situacional)

– É uma angústia existencial que resulta de um desfasamento entre aquilo que você possui, e o que precisa e deseja? (ansiedade existencial)

– É uma ansiedade disfuncional, inútil, que subestima as suas capacidades e amplia a sensação de perigo? (ansiedade disfuncional)

Em muitos casos, é uma mistura de várias ansiedades.

É importante descobrir o que está acontecer porque diferentes tipos de ansiedade necessitam de respostas distintas.

Muitas vezes as pessoas notam um desconforto mental, mas não estão cientes do que é a ansiedade. Através do processo psicoterapêutico, isso pode ficar claro.

Se a ansiedade é sobre um problema iminente que pode ser resolvido, então, procurar o apoio dos outros e empregar os seus recursos para resolver o problema, pode ser suficiente para diminuir a ansiedade.

Por exemplo, se uma pessoa achar que não está preparada para apresentar um trabalho, provavelmente, vai sentir-se ansiosa.

Cada tipo de ansiedade necessita de uma respostas distinta.

Preparar melhor a apresentação, treinar com um amigo ou colega e responder às perguntas prováveis, pode ser o suficiente para que a ansiedade desapareça.

Mas se o problema for evitado, a ansiedade vai aumentar.

Através da abordagem de várias questões na psicoterapia, podemos chegar à conclusão de que certos pensamentos desconfortáveis e sentimentos de ansiedade ou pânico vêm do “Departamento de Ansiedade Existencial”.

Ao compartilharmos os nossos medos humanos comuns – medo de morrer, de estar a viver uma vida desprovida de significado, medo de não deixar uma marca, um legado – sentimo-nos mais fortes e capazes de tolerar a ansiedade existencial quando ela surge.

Se estamos sozinhos perante os nossos medos humanos básicos, eles tornam-se mais pesados ​​e penosos.

Se compartilharmos os nossos medos somos capazes de tolerar a ansiedade existencial.

Compartilhá-los com uma pessoa que seja solidária e compreensiva pode ajudar a desenvolver um espaço comum de entendimento e um sentimento de pertença.

Essa pessoa pode ser um psicoterapeuta, mas também pode ser um amigo, membro da família ou parceiro íntimo.

Vamos voltar ao nosso exemplo hipotético do “João”, um advogado que começou a duvidar se realmente tinha feito uma boa escolha, ou se devia procurar outras coisas que o realizassem.

Se houver um amigo próximo em quem o João confie e possa conversar sobre as suas dúvidas, preocupações, sentimentos de mal-estar e ansiedade, talvez se sinta mais determinado para explorar outras opções; a dar um passo corajoso em direcção ao assustador desconhecido – e, perceber o que é realmente importante para ele, independentemente do que as outras pessoas (pais) queiram que ele seja ou faça.

O apoio do amigo pode ajudar o João a aventurar-se na descoberta daquilo de que realmente gosta.

Estas conversas, quer ocorram em psicoterapia ou numa outra relação de confiança, podem ajudar as pessoas a aprofundar os seus desejos e necessidades, e a ver a vida com outros olhos.

E se a pessoa ao tentar entender a ansiedade, descobrir por meio da psicoterapia (ou não), que está a lidar com uma ansiedade disfuncional?

Vamos dar outro exemplo hipotético. Vamos chamar “Filipa” à pessoa deste exemplo.

Imagine que a Filipa sente uma ansiedade muito grande sempre que conhece novas pessoas.

Tanto que, apesar de querer fazer novas amizades, ela recusa-se a ir a festas e a eventos quando é convidada.

Uma vez que fica extremamente ansiosa quando é apresentada a novas pessoas, ela não se aventura para além dos vários conhecidos/amigos que tem, mas ao mesmo tempo sente-se sozinha e sem amigos íntimos.

Imaginemos que na psicoterapia a Filipa fica mais consciente de que, quando conhece novas pessoas, bloqueia com o receio que os outros achem que é entediante e a rejeitem.

Se ela analisar mais profundamente essa expectativa, poderá encontrar outra coisa – a crença de que não é agradável e que é uma pessoa desinteressante.

A ansiedade social está associada à forma como nos vemos.

Por vezes, crenças como esta são fardos pesados que carregamos sem sabermos – talvez tenham estado ali desde sempre, de modo que são tão familiares que nem os estranhamos, ou, talvez, estejam submersos nas distracções da vida quotidiana.

A ansiedade social da Filipa está associada à forma como se vê.

A psicoterapia pode ajudar a compreender porque o espelho lhe devolve uma imagem distorcida de si mesma.

Isso implica desafiar certas crenças negativas sobre ela própria e explorar a origem dessas crenças.

Dessa forma, a Filipa será capaz de reconhecer e a apreciar as suas qualidades, e, nesse sentido, dar pequenos passos para se ligar aos outros.

Adaptado por Pedro Martins a partir de: “Understand Anxiety” – Alina Sotskova

Luto, perda

Luto – O que não se deve dizer

O luto é uma parte inevitável da vida; a cada minuto 108 pessoas morrem no mundo inteiro. O que fazer quando alguém de quem gostamos sofreu uma perda? Não é fácil responder, e para além do mais, não existe uma maneira específica de lidar com estas coisas.

O psicanalista Robert Stolorow, em entrevista à Thrive Global refere que a nossa estratégia padrão para abordar estas situações propõe o oposto daquilo que as pessoas realmente precisam.

Na entrevista que podemos ler abaixo, Stolorow refere que as pessoas não precisam de ser consoladas na sua dor tanto quanto necessitam aproximar-se dela e que não há cronograma para o luto.

 

THRIVE GLOBAL: Escreveu que não devemos dizer a alguém que tenha experimentado uma perda traumática  “deixa-o ir e segue em frente”. Porquê?

ROBERT STOLOROW: Se você diz a alguém para seguir em frente, basicamente, você está a rejeitar a dor emocional dessa pessoa, dizendo: “Ok, basta, acabou, não quero fazer parte disso”. Você está a rejeitar o que a pessoa mais precisa, o que eu chamo de “espaço relacional” para essa dor emocional. É isso que eu tento fazer quando trabalho com pacientes traumatizados. É um pouco o oposto do que as pessoas bem-intencionadas fazem intuitivamente, tentando fazer as pessoas sentirem-se melhor.

TG: Porque é que isso é útil?

RS: Compartilhar a dor e oferecer um lugar para ela pode ajudar a torná-la mais suportável. Pode não diminuir muito a dor, mas ao existir um espaço onde a dor é permitida e onde pode ser compartilhada, ela torna-se mais suportável.

“O Luto é uma forma de Amor”

O que é realmente importante sobre ser capaz de encontrar um espaço para o sofrimento é que o luto é na verdade uma forma de amor. A dor é a forma que o amor toma quando um ente querido morre.

TG: Fale-me mais sobre isso.

RS: A magnitude do sofrimento corresponde à profundidade do amor pela pessoa perdida. É um aspecto extremamente importante da vida emocional de alguém – ser capaz de sofrer-, porque ser capaz de sofrer é uma forma de ser capaz de amar. Amar torna cada um de nós vulnerável ao desgosto amoroso.

TG: A palavra ” finitude” – A noção de Martin Heidegger de que a existência humana está inevitavelmente envolvida na temporalidade e na morte – surge muito na sua escrita.

RS: Tento tomar o conceito de finitude de Heidegger e torná-lo mais relacional. Não é apenas a nossa própria finitude que é a fonte da ansiedade existencial; É a finitude dos outros, de todos aqueles com quem nos preocupamos e amamos. Em certo sentido, a menos que estejamos completamente isolados emocionalmente dos outros, somos sempre vulneráveis ​​à dor da perda incorporada numa existência finita.

TG: É algo de que nos devíamos tentar livrar?

RS: Definitivamente não. Tendo passado por uma perda terrível há anos, e já tive outra desde então, ser enlutado faz parte da minha identidade. É parte de quem eu sou. Eu acho que posso ajudar muito as pessoas por causa disso – eu não tenho que fugir disso, não preciso evitá-lo, não preciso fugir disso.

TG: Tenho curiosidade pelo trauma menos agudo, onde não há um único acontecimento terrível, mas algo mais ambiental ou a longo-prazo, como o abuso ou a negligência nas relações familiares.

A teoria do apego diz-nos que, como adultos, as pessoas que cresceram com pais ansiosos ou emocionalmente distantes serão atraídas por essas mesmas dinâmicas nos seus relacionamentos amorosos. Como é que o seu trabalho pode ajudar a processar a dor de uma infância tóxica?

RS: Eu acho que é preciso ter mais detalhes sobre a dureza dessa infância. Uma das razões pela qual uma pessoa com uma infância tóxica pode sentir-se atraída por pessoas indisponíveis é que a pessoa está a tentar dominar dores antigas e sair delas de forma diferente. Esse é um dos motivos.

 

TG: Existe um tempo “normal” para a duração do período de luto?

RS: Eu penso que o conceito de normalidade está errado em relação à perda. Quanto mais profundo o amor, maior o sofrimento e talvez nunca termine. Eu acho que há casos em que as pessoas levam o luto até ao seu próprio túmulo. Eu sei que algumas pessoas escreveram sobre estágios de luto. Tenho a sensação de que isso é conversa fiada.

TG: Porquê?

RS: Faz-se uma espécie de cronograma universal para o processo de luto, e não se leva em conta a natureza da relação de amor perdida. O sofrimento varia dependendo da natureza da relação que se perdeu. O sofrimento tem sido patologizado. Quando você patologiza o sofrimento você está patologizar o amor.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de “Why you should never tell someone who’s grieving to Move On”

Entrevista a Robert Stolorow

depressão ansiedade

Depressão – As Causas e como Resolvê-las

O que realmente causa depressão e ansiedade – e como podemos realmente resolvê-las?

Actualmente, no mundo ocidental, se você andar deprimido ou ansioso e for ao seu médico, porque, simplesmente, não consegue aguentar mais, provavelmente ele vai falar-lhe de uma certa “teoria”. Aconteceu comigo quando eu era adolescente, na década de 90. Você sente-se assim, disse o meu médico, porque o seu cérebro não está a funcionar correctamente. Não está a produzir os químicos necessários. Você precisa tomar medicação para tratar o cérebro.

Eu tentei essa estratégia com todo o meu coração durante mais de uma dezena de anos. Ansiava por um alívio. A medicação tinha um ligeiro efeito sempre que aumentava a dose, mas logo depois a dor voltava. Acabei por rapidamente chegar à dose máxima e assim andei muitos anos. Pensei que estava alguma coisa errada comigo porque estava a tomar antidepressivos e apesar disso, sentia uma dor profunda.

Por fim, a necessidade de respostas era tão grande que estive três anos a pesquisar o que realmente causa a depressão e a ansiedade, e como efectivamente as tratar. Fiquei assustado com muitas coisas que aprendi. A primeira foi que a minha reacção à medicação não era bizarra – era bastante normal.

Geralmente a depressão é medida pelos investigadores através da escala de Hamilton. Esta vai de 0 (extremamente feliz) a 59 (pensamentos suicidas). De acordo com a pesquisa do professor Irving Kirsch, da Universidade de Harvard, melhorar os padrões de sono representa um aumento na escala de Hamilton de cerca de 6 pontos. Os antidepressivos oferecem, em média, um aumento de 1.8 pontos. É um efeito real, mas modesto. O facto de ser uma média significa que algumas pessoas podem ter um aumento maior, mas para um grande número de pessoas como eu, não é suficiente para sair da depressão.

Para além disso, fiquei aturdido ao descobrir que reconhecidos investigadores pensam que a teoria que considera que a depressão é causada por um desequilíbrio químico está errada. Fiquei ainda mais surpreso ao descobrir que esta não é uma posição marginal – a Organização Mundial da Saúde tem alertado durante anos para a necessidade de começar a lidar com as causas mais profundas da depressão.

De entre as várias causas apontadas para a depressão, uma foi pessoalmente, mais difícil de investigar, a ponto de quase não olhar para ela durante os três anos de pesquisa. Finalmente, em San Diego – Califórnia pude compreender mais sobre essa causa quando conheci um notável investigador; o Dr. Vincent Felitti.

No entanto, tenho que dizer que desde o princípio foi muito doloroso investigar essa causa. Isso obrigou-me a encarar algo de que eu fugi a maior parte da minha vida. Uma das razões pelas quais me agarrei à “teoria” de que a minha depressão era apenas o resultado de algo errado no meu cérebro, percebo agora, era porque não queria ter que pensar nisso.

A história da descoberta do Dr. Felitti remonta a meados da década de 80, e aconteceu quase por acidente. A princípio, parece que não é uma história sobre a depressão. Mas vale a pena seguir a sua caminhada porque pode ensinar-nos muito.

Quando os pacientes foram pela primeira vez no gabinete do Dr. Felitti, alguns tiveram dificuldade em entrar. Estavam nos estágios mais graves de obesidade, e foram designados para clínica, como sendo a sua última oportunidade. Felitti ficou encarregue de encontrar uma forma de resolver a questão dos elevadíssimos custos da obesidade na empresa. Comece do zero, disseram eles. Experimente qualquer coisa.

Um dia, Felitti teve uma ideia tão doida quanto simples: “E se estas pessoas com obesidade, simplesmente, parassem de comer e vivessem à base das gorduras que acumularam nos seus corpos – com suplementos de nutrição monitorizados – até que alcançassem um peso normal? O que aconteceria?” Cautelosamente, com muita supervisão médica tentaram e, surpreendentemente funcionou. Os pacientes estavam a perder peso e a voltar a ter um corpo sadio.

Entretanto, aconteceu algo estranho. No programa, algumas pessoas perderam quantidades incríveis de peso, e a equipa médica, e todos os seus amigos, esperavam que essas pessoas reagissem com alegria, mas muitas vezes entravam numa depressão brutal, pânico e/ou raiva. Alguns tentaram suicidar-se. Sem aquele volume sentiram-se incrivelmente vulneráveis. Alguns abandonaram o programa, empanturraram-se de fast-food e voltaram rapidamente ao seu peso inicial.

Felitti ficou desconcertado, até falar com uma mulher de 28 anos. Em 51 semanas, Felitti ajudo-a a passar dos 185 kg para os 60 kg. Então, de repente, sem nenhum motivo aparente, ela ganhou 17 kg no espaço de poucas semanas. Em pouco tempo, ela ultrapassou os 185 kg. Então, Felitti perguntou-lhe gentilmente o que mudou quando ela começou a perder peso. Parecia um mistério para ambos. Conversaram durante muito tempo. A certa altura ocorre-lhe uma coisa. Quando ela era obesa, os homens nunca se interessavam por ela, mas quando ela chegou a um peso saudável, pela primeira vez em muito tempo, um homem atirou-se a ela. Ela fugiu e imediatamente começou a comer compulsivamente sem conseguir parar.

Foi quando Felitti lhe perguntou: Quando é que você começou a aumentar de peso? Ela pensou sobre a questão e respondeu: Quando tinha 11 anos. Então ele perguntou: Aconteceu mais alguma coisa na sua vida quando você tinha 11 anos? Bem, ela respondeu – foi quando o meu avô começou a violar-me.

Das 183 pessoas do programa, Felitti descobriu que 55% tinham sido abusadas sexualmente. Uma mulher referiu que tinha aumentado de peso depois de ter sido violada porque “o excesso de peso faz com que passe despercebida, e é isso que eu quero”. Descobriu que muitas dessas mulheres se tornaram obesas por uma razão inconsciente: proteger-se da atenção dos homens, que, acreditavam, iriam maltratá-las.

Felitti de repente percebeu: “O que tínhamos pensado como sendo o problema – a obesidade, era de facto, com muita frequência, a solução para problemas sobre os quais nada sabíamos”.

Esta descoberta levou Felitti a lançar um enorme programa de pesquisa, financiado pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Ele queria saber como é que os vários tipos de trauma infantil afectam os adultos. Ele aplicou um questionário simples a 17 mil pacientes comuns em San Diego, que vinham apenas para cuidados de saúde gerais (desde uma dor de cabeça até uma perna partida). Ele perguntou aos pacientes se alguma entre 10 coisas más lhes tinha acontecido em criança, como por exemplo, ser negligenciada ou abusada emocionalmente. De seguida perguntou aos pacientes se apresentavam algum entre 10 problemas psicológicos, como obesidade, depressão ou dependência de drogas. Ele queria analisar as correspondências.

Uma vez introduzidos, os números pareciam inacreditáveis. A quantidade de pessoas com trauma infantil – factor de risco para a depressão no adulto – era assustador. As pessoas que referiram sete categorias de eventos traumáticos em criança tinham mais 3100% de probabilidades de tentar o suicídio em adulto e mais de 4000% de probabilidades de consumir drogas duras.

Depois de uma das minhas longas conversas com o Dr. Felitti sobre estas questões, fui até à praia em San Diego. Todo eu tremia. Enquanto caminhava fui tomado por uma quantidade enorme de sentimentos. Ele estava a forçar-me a pensar sobre uma dimensão da minha depressão que eu não queria enfrentar. Quando eu era criança, a minha mãe estava doente e meu pai estava noutro país e, nesse caos, fui sujeito a actos extremos de violência por parte de um adulto. Entre outros actos, fui estrangulado com um cabo eléctrico. Eu tentei selar essas memórias, para as afastar da minha mente. Eu recusei pensar que elas estavam a afectar a minha vida adulta.

Porque é que tantas pessoas que experimentam maus tratos na infância sentem o mesmo? Porque é que isso leva muitas delas a ter comportamentos autodestrutivos, como a obesidade, consumo de drogas duras ou o suicídio? Passei muito tempo a pensar nisso. Eu tenho uma teoria. Embora, quero salientar, vai além da evidência científica descoberta por Felitti, e não posso afirmar com certeza, que é verdadeira.

Quando somos criança, temos muito pouco poder para mudar o que nos rodeia. Você não se pode afastar, ou forçar alguém a parar de o maltratar. Então, você tem duas opções. Pode admitir a si mesmo que é impotente – que, a qualquer momento pode ser maltratado, e, simplesmente, não há nada que possa fazer a esse respeito.

Ou você pode dizer a si mesmo que a culpa é sua. Se fizer isso, você realmente ganha algum poder – pelo menos na sua própria mente. Se é culpa sua, então há algo que você pode fazer para tornar as coisas diferentes. Você não é uma bola numa máquina de flippers, é a pessoa que controla a máquina. Desta forma, assim como a obesidade protegeu as mulheres dos homens que elas temiam que pudessem violá-las, culpar-se pelos seus traumas de infância protege-o de ver quão vulnerável você era e é. Você pode tornar-se o poderoso. Se a culpa é sua – a um certo nível -, sente que controla.

Mas isso tem um custo. Se você é responsável por ser maltratado, então, de algum modo, deve pensar que mereceu. Uma pessoa que acha que mereceu ser ferida em criança vai pensar que também o merece como adulto. Isto não é maneira de viver. Mas é a forma – a melhor possível na altura -, que permite sobreviver perante tamanhas adversidades.

Mas foi o que o Dr. Felitti descobriu a seguir que mais me ajudou. Quando os pacientes que responderam ao questionário referiram que sofreram maus-tratos (trauma da infância), ele conseguiu que os seus médicos abordassem a questão: “Vejo que você passou por uma má experiência em criança. Lamento que isso tenha acontecido consigo. Gostaria de falar sobre isso? ”

Felitti quis saber se ser capaz de falar sobre o trauma com uma figura de autoridade confiável, e reconhecer que não se é culpado, ajudaria a libertar as pessoas. O que aconteceu foi surpreendente. Só o facto de se ser capaz de falar sobre o trauma levou a uma enorme queda na procura de cuidados médicos (uma redução de 35% ao longo do ano seguinte). Para as pessoas que foram encaminhadas para uma ajuda mais especializada, houve uma queda de mais de 50%. Uma mulher idosa – que descreveu ser sido violada quando era criança – mais tarde escreveu uma carta dizendo: “Obrigado por perguntar… Tinha medo de morrer sem que ninguém soubesse o que aconteceu”.

O acto de falar, de libertar-se da vergonha é – em si mesmo – a cura.

Então, junto das pessoas em quem confio, comecei a falar sobre o que me tinha acontecido quando era mais jovem. Longe de me envergonharem e de pensarem que eu era perturbado, eles mostraram amor e ajudaram-me a ultrapassar o sofrimento passado e presente.

Enquanto ouvia as gravações das minhas longas conversas com Felitti, pensei que, se ele tivesse dito às pessoas o que meu médico me disse – que os seus cérebros não estavam a funcionar bem, e era por isso que eles estavam tão angustiados, e a única solução era a medicação – talvez nunca tivessem sido capazes de entender as causas mais profundas dos seus problemas e nunca teriam conseguido libertar-se deles.

Quanto mais investiguei a depressão e a ansiedade, mais percebi que longe de ser causada por um espontâneo mau funcionamento do cérebro, a depressão e ansiedade, são, principalmente, causadas por acontecimentos nas nossas vidas.

Existem factores biológicos, como os genes, que podem tornar-nos significativamente mais sensíveis a essas causas, mas não são os factores principais.

E isso levou-me à evidência científica de que devemos tentar resolver a depressão e a ansiedade de uma maneira muito diferente (ao mesmo tempo os antidepressivos, devem, evidentemente, permanecer em cima da mesa).

Para fazer isso é necessário parar de olhar para a depressão e para a  ansiedade como uma patologia irracional, ou uma estranha falta de químicos no cérebro. Perante acontecimentos terrivelmente dolorosos, a dor faz sentido. É uma resposta ao que está a acontecer consigo. Para lidar com a depressão, você precisa lidar com suas causas subjacentes.

Um dia, um dos colegas do Dr. Felitti, o Dr. Robert Anda, disse-me uma coisa sobre a qual tenho pensado desde então.

Quando as pessoas estão a comportar-se de maneiras aparentemente autodestrutivas, “está na hora de parar de perguntar o que há de errado com elas e começar a perguntar o que aconteceu com elas”.

 

Tradução/adaptação – Pedro Martins

a partir de Johann Hari – HuffPost

Johann Hari – Lost Connections: Uncovering the Real Causes of Depression – and the Unexpected Solutions

verdadeiro e falso self

O Verdadeiro e o Falso Self

O Verdadeiro e o Falso Self

Uma das explicações mais surpreendentes e impactantes, sobre o porquê de nós como adultos, podermos ter problemas psicológicos, está ligada ao facto de nos nossos primeiros anos nos ter sido negada a possibilidade de sermos plenamente nós mesmos.

Ou seja, não foi permitido sermos obstinados e difíceis; não pudemos ser suficientemente exigentes, agressivos, intolerantes e egoístas como precisávamos ser.

Como os nossos cuidadores estavam demasiado preocupados ou afectados com algo, foi naturalmente necessário ajustarmo-nos a eles, sentindo que era preciso agir de acordo para sermos aceites e amados.

Um desenvolvimento saudável requer que possamos experimentar o incomensurável luxo de um período em que não precisamos de nos preocupar com os sentimentos e opiniões daqueles que cuidam de nós.

Fomos “obrigados” a ser Falso Self antes de termos tido a possibilidade de nos sentirmos verdadeiramente vivos – Self Verdadeiro.

E, como resultado, muitos anos depois, sem entendermos muito bem como, corremos o risco de nos sentirmos pouco consistentes, frágeis internamente, e, de alguma forma, relativamente ausentes.

A teoria do Verdadeiro e Falso Self resulta do trabalho de um dos maiores pensadores do século XX, o pedopsiquiatra e psicanalista inglês Donald Winnicott.

Numa série de trabalhos dos anos sessenta e com base em observações cuidadas dos seus pacientes (adultos e crianças), Winnicott desenvolveu a tese de que um desenvolvimento saudável requer que, invariavelmente, possamos experimentar o incomensurável luxo de um período em que não precisamos de nos preocupar com os sentimentos e opiniões daqueles que cuidam de nós.

Podemos ser inteiramente e, sem qualquer sentimento de culpa, o nosso Verdadeiro Self, porque aqueles que nos rodeiam – durante um período – adaptam-se inteiramente às nossas necessidades e desejos, por mais inconvenientes e difíceis que estes possam ser.

O verdadeiro Eu do bebé, na formulação de Winnicott, é, por natureza, associal e amoral. Não está muito interessado nos sentimentos dos outros.

O bebé grita quando precisa – mesmo a meio da noite ou num comboio cheio de passageiros.

Pode ser agressivo, mordendo e – aos olhos de um apreciador simpatizante das boas maneiras ou apreciador da higiene – chocante e um pouco nojento. Expressa-se onde e como quer.

Pode ser doce, é claro, mas nos seus próprios termos, e não para atrair ou regatear o amor.

Se uma pessoa tem sensação de se sentir autêntico como adulto, então deve ter desfrutado o imenso privilégio emocional de ter sido verdadeiro à sua maneira: exigir das pessoas a seu belo prazer, pontapear quando está com raiva, gritar quando está cansada, morder quando se sente irritada.

O verdadeiro Eu da criança deve ter a possibilidade de fantasiar destruir os pais quando está em fúria – e depois testemunhar que o pai sobreviveu; o que garante à criança um sentido vital e imensamente reconfortante de que não é de facto omnipotente, e que o mundo não colapsa perante os seus desejos destrutivos.

Quando as coisas correm bem, de forma gradual e voluntária, a criança desenvolve um Falso Selfcapacidade de se comportar de acordo com as exigências da realidade externa.

Isto é o que permite que uma criança se submeta às regras da escola, se torne adulto e tenha uma vida profissional.

Quando nos foi dada a possibilidade de ser Verdadeiro Self, não precisamos de nos insurgir e manifestar as nossas necessidades constantemente.

Podemos seguir as regras porque, durante algum tempo, conseguimos ignorá-las inteiramente.

Infelizmente, muitos de nós não tivemos o começo ideal.

Talvez a nossa mãe estivesse deprimida e o pai frequentemente irritado, talvez houvesse um irmão mais velho ou mais novo a viver uma crise e exigisse toda a atenção.

O resultado foi termos aprendido a cumprir cedo demais, e assim, tornado obedientes às custas da nossa autenticidade.

Nos relacionamentos podemos ser polidos e norteados para as necessidades dos nossos parceiros, mas não somos capazes de amar adequadamente.

No trabalho, podemos ser cumpridores, mas pouco criativos e originais.

Nestas circunstâncias, e esta é a sua genialidade, a psicoterapia oferece-nos uma segunda oportunidade.

Nas mãos de um bom terapeuta é-nos permitido a regredir até ao momento em que começámos a ser Falso Self.

Na sala do psicoterapeuta, contidos em segurança pela sua circunspeção, podemos aprender – mais uma vez – a sermos autênticos.

Podemos ser excessivos, difíceis, despreocupados, egoístas, agressivos, chocantes e irascíveis.

O terapeuta irá aceitar-nos – e, assim, ajudar-nos a experimentar uma nova sensação de vitalidade, que deveria ter lá estado desde o princípio.

A exigência de ser Falso Self, nunca desaparece, mas torna-se mais suportável, porque regularmente nos permitem, na privacidade da sala do terapeuta, uma vez por semana ou mais, ser Verdadeiro Self.

Winnicott era extremamente calmo e generoso com os seus pacientes quando eles estavam a tentar reviver o seu Verdadeiro Self.

Um deles partiu o seu jarrão favorito, outro roubou-lhe dinheiro e um terceiro insultava-o sessão após a sessão.

Mas Winnicott era imperturbável, sabendo que isso fazia parte de uma jornada de regresso à saúde, longe da fadiga mortal que aflige esses pacientes.

Podemos agradecer a Winnicott por nos recordar que o prazer e o sentimento de autenticidade devem passar por estágios de egoísmo e por certo tipo de comportamentos. Simplesmente, não existe outra forma.

Nós temos que ser autênticos antes de podermos ser vantajosamente, um pouco “falsos” – e se nunca tivemos permissão, então a nossa ansiedade, a nossa depressão vão dar nota de que precisamos dar um passo atrás, e a terapia está lá para isso.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de: “The True and the False Self” – Alain de Botton

falar alto e bom som

Falar alto e bom som

Por vezes pode parecer terrivelmente claro que, simplesmente, ninguém liga, ninguém se importa. Mal dão conta da nossa presença, dificilmente se aproximam para ouvir o que temos a dizer, não apanham nenhuma das nossas deixas – e, estão extremamente absorvidos com os seus próprios projetos e preocupações do dia-a-dia.

Com base em tais evidências, é fácil para nós cairmos numa conclusão perigosamente condenadora e muito dolorosa sobre nossa situação: estamos profundamente sozinhos – muito longe de qualquer possibilidade de conexão ou compreensão.

Mas a verdade pode ser ao mesmo tempo bastante mais simples e mais esperançosa.

De uma maneira geral estamos bastante disponíveis para ajudar quando percebemos que é urgente fazê-lo, mas também estamos distraídos e ocupados com nossas vidas para conseguirmos ​ aperceber-nos que se passa algo com as pessoas que nos são próximas, a menos que o problema seja apresentado de forma menos intrincada e mais clara.

Então, mas só então, entramos em acção e fazemos uso de todas as nossas capacidades e determinação de lidar com o sofrimento das outras pessoas. Por outras palavras, respondemos bem aos berros, mas terrivelmente com o subentendido.

A questão toma outra proporção nos casos trágicos em que alguém que conhecemos põe termo à sua própria vida. Estamos certos de que se tivéssemos sabido que se sentiam tão desesperados, teríamos feito qualquer coisa para ajudar. Ao mesmo tempo, também sabemos que não fazemos muitas perguntas, não olhamos muito de perto para certos sinais, e certamente, damos a impressão de estarmos constantemente ocupados. Acabamos a sentir-nos, obviamente, destroçados.

Ganharíamos muito se tivéssemos em conta certos factos sobre a natureza humana sem rancor ou surpresa quando estamos mais frágeis e desesperados. A aparente indiferença dos outros é verdadeiramente aparente. Precisamos aprender a falar de modo que se oiça – até que se oiça.

Infelizmente, tendemos a não ter confiança para fazê-lo precisamente quando é mais necessário, devido a um constrangimento primitivo que se apodera de nós quanto estamos frágeis, como se cada ser humano tivesse que passar pela vida contando apenas consigo. Parte da tragédia de estar desesperado é sentirmos que o nosso sofrimento é ilegítimo.

No entanto, nunca devemos esquecer-nos que, seja qual for a indiferença que possamos sentir, estamos rodeados de pessoas que quando vêem alguém em perigo, se atiram ao mar para o salvar. Se sabemos de forma clara que alguém (mesmo apenas um conhecido) está a precisar muito de nós, provavelmente deixamos tudo e corremos para ajudar.

Mas, ao mesmo tempo, somos incapazes de ler mentes e interpretar indirectas. Da próxima vez que estivermos em dificuldades, devemos lembrar-nos de que não devemos sentir-nos diminuídos por pedir ajuda, sabendo que a maioria das pessoas que nos rodeiam responderá à nossa dor uma vez que a ouçam. Precisamos lembrar-nos de falar alto e bom som.

 

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de Alain de Botton

psicólogo clínico psicoterapeuta

Por que a minha psicoterapeuta não me diz o que devo fazer?

Cara Psicoterapeuta,

Eu sou uma mulher que está prestes a completar os 30, e iniciou a psicoterapia pela primeira vez o ano passado. Eu iniciei porque se tornou evidente que aquilo que eu pensava ser apenas “eu” era realmente “eu com depressão“, e a terapia ajudou-me realmente a reconhecê-lo e a partir daí continuar a avançar. Agora, talvez pela primeira vez na minha vida, eu sei o que é não estar constantemente temperamental (eu pensava que isso era “normal”) e isso foi incrível. O meu argumento é que a terapia tem sido muito útil, até mesmo na forma como olho para a vida – excepto numa coisa.

Não entendo porque a minha terapeuta não me dá conselhos! Obviamente, não quero dizer constantemente, mas acho que em determinadas situações, ela poderia dizer-me o que pensa, mas não. Ela sabe que um dos meus problemas foi a falta de orientação enquanto crescia – que, basicamente, tive que descobrir tudo por minha conta porque os meus pais ou não sabiam o que aconselhar-me (por exemplo, deixaram a escolha do curso superior completamente para mim) ou deram-me conselhos inadequados (uma vez quase perdi um amigo depois de seguir um conselho quando eu era muito jovem para perceber que o conselho era muito mau).

Não é que os meus pais não sejam pessoas bem-intencionadas. Só que em muitas questões não souberam o que fazer. Eles tomaram sempre más decisões nas suas próprias vidas (algumas desastrosas, a ponto de quase perdermos a casa), então, quando se tratava da minha vida – amigos, namoro, faculdade, carreira – eu não tinha modelos ou orientadores nos meus pais como a maioria dos meus amigos.

Para ser justa com a minha terapeuta, eu entendo que já não sou uma criança e que ela quer que eu descubra as coisas sozinha como um adulto, e entendi isso – até certo ponto. Mas se é uma pergunta simples, algo prático ou algo que não é um problema psicológico profundo, porque é que ela não me diz o pensa? Estou a falar do tipo de perguntas que as pessoas da minha idade rotineiramente fazem aos seus pais: Faz sentido comprar uma casa agora, tendo em conta que a posso pagar, ou devo manter-me no meu apartamento arrendado até as coisas estarem mais assentes com a minha família? Ou se devo aceitar sair com um rapaz com quem uma colega de trabalho teve um relacionamento há mais de um ano, podendo ela ficar chateada?

Eu só quero saber o que ela sugeriria – não que eu, necessariamente, fizesse isso, mas pelo menos eu teria a opinião de um adulto estável em quem confio.

Uma vez que você é uma terapeuta com uma coluna num jornal onde dá conselhos, já alguma vez deu conselhos a pessoas em terapia? Você deve ter opiniões sobre se as pessoas devem terminar os relacionamentos, afastarem-se de um amigo, ou comprar uma casa agora ou esperar até as coisas assentarem. Alguma vez compartilhou coisas com os seus pacientes? E se não, por que não dar-lhes a sua perspectiva? Eu acho essa parte da terapia tão frustrante.

 

Atenciosamente,
Se Não for Pedir Muito (SNFPM)

 

 

Cara Se Não For Pedir Muito,

 

Adivinhe?! Vou dar-lhe alguns conselhos. Eis o que eu acho que você deve fazer:

1. Compre uma casa agora.
2. Saia com alguém.

Mas espere – antes de aceitar este conselho, deixe-me dar-lhe um último conselho: não aceite o meu conselho. Porque se fizer isso, é provável que acabe por ficar desapontada comigo como ficou com os seus pais. O meu conselho – como seus pais ou mesmo como sua terapeuta (caso ela dê) – pode ser bem-intencionado, mas não irá ajudá-la da maneira que imagina.

Por um lado, apesar das minhas boas intenções, qualquer coisa que eu sugira será mediada pelos meus próprios preconceitos e experiências de vida. Então, enquanto eu considero a sua situação e pensamos a sua vida, também é verdade que a aconselho a comprar uma casa, em parte porque comprei a minha primeira casa nos meus 30 e, em retrospectiva, gostaria de a ter comprado mais cedo. Noutras palavras, o meu conselho está condicionado pelas minhas crenças pessoais sobre questões imobiliárias. Da mesma forma, sugeri que você aceitasse o convite para sair, porque se fosse eu – se eu tivesse quase 30 anos e realmente gostasse de um rapaz e não fosse próxima da mulher que andou a sair com ele há mais de um ano – eu sairia com ele. Mas você pode ter ideias, valores e uma tolerância diferente para lidar com algumas coisas. O que pode ser uma boa ideia para mim pode ser um desastre para si. E, ao dar-lhe conselhos, eu poderia projetar os meus próprios valores e crenças em você, em vez de ajudá-la a construir uma noção mais profunda de si própria.

Haverá sempre uma distância entre o que o psicoterapeuta pode aconselhar e o que é melhor para o paciente. Um terapeuta pode ver um casal e achar que eles devem divorciar-se, mas algumas pessoas preferem estar num casamento altamente conflituoso do que estarem sozinhas, não importa o quanto o terapeuta possa defender pessoalmente que é melhor estar sozinho por um tempo do que num casamento altamente conflituoso, onde o parceiro se recusa a mudar. A vida dos nossos pacientes tem que ser vivida por eles, e não por nós.

Ainda assim, não está sozinha ao querer que a sua terapeuta lhe diga o que fazer. Ao longo do tempo colocaram-me todo o tipo de perguntas: que profissão uma pessoa deveria escolher, se deveria ter outro filho ou congelar os óvulos, e se deveriam ir passar férias a casa da sua família caótica, ou fazer algo mais agradável em vez disso. E quando eu não correspondo a esse desejo sinto que estou sadicamente reter a “resposta” que, na sua opinião, poderia fornecer facilmente, e assim, resolver o seu problema premente.

Uma das surpresas que ser terapeuta me trouxe foi a frequência com que as pessoas querem saber exactamente o que fazer, como se eu tivesse a “resposta correcta” – ou como se as respostas “correctas” ou “erradas” existissem para a maior parte das escolhas que nós fazemos no nosso dia-a-dia. A minha formação como terapeuta prepara-me para compreender as pessoas e ajudá-las a decidir o que querem fazer, mas não posso fazer certas escolhas por elas. Eu não sou uma especialista em imóveis, consultora de orientação profissional ou, o mais importante, adivinha. Parte do que as pessoas querem dos meus conselhos é o alívio da incerteza – se o meu terapeuta diz X, eu não tenho que lidar com minha ansiedade em torno da dúvida. Mas se existe uma coisa certa na vida é a incerteza, e a incapacidade de tolerar a incerteza do que acontecerá se decidirem que X ou Y ou Z impede as pessoas de tomarem decisões.

Aprender a diminuir a velocidade e a reflectir sobre as escolhas e antecipar as possíveis consequências das nossas acções ajuda a diminuir a ansiedade a longo prazo. Receber conselhos de um terapeuta alivia a ansiedade no momento, mas não vai perdurar.

No início da minha formação, senti uma tremenda pressão para dar um conselho de tipo benigno (pelo menos foi o que pensei), até que percebi que as pessoas ficavam ressentidas de lhes dizerem o que fazer. Sim, elas podem perguntar – repetida e categoricamente – mas depois de se lhes realmente responder, o seu alívio inicial é muitas vezes substituído pelo ressentimento. Isso acontece mesmo que as coisas corram bem, porque, em última análise, os seres humanos querem ser responsáveis pelas suas vidas, e é por isso que as crianças passam a infância a implorar para que as deixem tomar as suas próprias decisões, em vez de que as tomem por elas.

Mas se você foi um certo tipo de criança, uma criança como você, SNFPM, uma criança que teve que tomar decisões por si mesma antes de estar pronta – ou porque ninguém lhe ofereceu, ou você não podia confiar nos conselhos que lhe davam – a tomada de decisão com as implicações que a acompanham pode gerar muita ansiedade. Em vez de procurar mais autonomia no caminho da vida adulta, esse tipo de criança provavelmente irá crescer pedindo que essa liberdade lhe seja retirada.

Então, você pergunta ao seu terapeuta: devo fazer isto? Devo fazer aquilo? Vá lá, diga-me: o que você faria?

Por trás destas questões reside a suposição de que a sua terapeuta é um ser humano mais competente do que você. O pensamento é: quem sou eu para tomar decisões importantes na minha vida? Estou realmente qualificada para isso? A sua terapeuta, por outro lado, é considerada especialista, o pai substituto, “Aquele que a Conhece Melhor”. E você é a criança no corpo adulto que fantasia sobre o quão agradável seria sentir-se livre de toda a responsabilidade e deixar um adulto ficar com o peso de fazer as escolhas difíceis. Mesmo que corra mal, ter outra pessoa a decidir parece mais seguro. Que alívio poder culpar outra pessoa por uma decisão errada, de modo que a dor de uma má decisão não seja amplificada por ter sido a única pessoa responsável pelo erro. (Nesse sentido pensa: Oh, Deus, eu sou como os meus pais – tomo decisões horríveis!)

Isso é um tipo de proteção enganadora, porque o conselho do seu terapeuta na verdade, fará com que se sinta com raiva e insegura. Você pode implorar e até persuadir o seu terapeuta, às 7 da tarde de uma longa sexta-feira, a oferecer-lhe o conselho que deseja. E sua primeira reação pode ser: Finalmente! Inicialmente, você pode sentir-se apoiada e cuidada de uma forma que não sentiu com os seus pais.

Mas o que você pode fazer com essa pepita, esse presente terapêutico, esse tão desejado conselho? Apesar de obter exactamente o que você pediu, pode não o pôr em prática. Pode procrastinar, arranjar todo o tipo de desculpas pelas quais ainda não avançou. Então, vai sentir-se mal por ainda não o ter concretizado. E vai começar a pensar, eu sinto-me mal porque a minha terapeuta me fez sentir mal ao tentar dizer-me o que fazer. Como ela ousa! Eu não vou fazer isso só porque ela me disse para fazer. Quem é ela para mandar em mim? E você vai sentar-se no sofá todas as sextas-feiras às sete, sem lhe dizer que não fez o que ela sugeriu, porque está ressentida por ela se intrometer, por fazer você sentir que sua própria opinião não tem valor; e, acima de tudo, você será consumida pela vergonha que sente por desagradá-la ao não fazer o que ela quer. Em tudo isto há uma inversão, pois, na verdade, a sua terapeuta só lhe deu um conselho para lhe agradar a si, e não a ela. No final, ninguém está feliz.

É por isso que receber conselhos não é a solução para os seus problemas, SNFPM. Subjacente a todo esse “empurrão” sobre o que fazer com o seu apartamento e com o rapaz que a convidou para sair, e as dezenas de outros conselhos que você pode ter tentado obter, está a esperança da sua terapeuta de que você a deixará. Não agora, mas quando estiver pronta, e o objectivo dela em cada sessão é ajudá-la a “preparar-se”. Desde o primeiro dia, pensamos em como ajudar os nossos pacientes a deixarem-nos, não porque não nos preocupamos, mas porque é o que nós fazemos. Nós não queremos que você tenha que fazer um grande esforço para se libertar. Queremos que você aprenda a confiar em si mesma. Queremos que você pare de nos pedir para brincar ao Deus com sua vida porque não somos deuses. Somos mortais que fazemos o nosso melhor para entender os nossos modelos e tendências, a nossa dor e os nossos anseios, para que possamos assumir a responsabilidade pelas nossas vidas. E queremos que você faça o mesmo.

Até certo ponto, todos nós travamos essa batalha interna: criança ou adulto? Segurança ou liberdade? E não importa onde nos posicionamos nesse continuum, em última análise, cada decisão que tomamos é baseada em duas coisas: medo e amor. Às vezes ganha o medo, às vezes o amor, e às vezes é sensato ouvir o medo, e outras vezes o amor. Se há uma coisa que a sua terapeuta está a tentar mostrar, é como distinguir os dois. E ela mostra-o através da prática da escuta para que você possa usar os seus sentimentos como uma bússola para a orientar na melhor direcção possível.

Os terapeutas podem não dar conselhos, mas damos orientação. E se há uma coisa que seu psicoterapeuta sabe, é que as verdades mais poderosas – as que as pessoas tomam mais a sério – são aquelas que elas obtiveram por conta própria.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins a partir de:

“Why Won’t My Therapist Just Tell Me What to Do?” – Lori Gottlieb

 

 

psicoterapeuta psicólogo clínico

Insónias

Sonhar é pensar. Como se diz muito sabiamente, não se pode sonhar sem pensar. Não se pode dormir sem sonhar, como não se pode pensar sem sonhar.

O sonho é a base de tudo, porque é aquilo que está na base de todos nós, na base do pensamento, na base do imaginário.

Sonhar é muito importante para resolver certos problemas, entre os quais os medos.

Um pesadelo é um sonho que é tão insuportável que a pessoa acorda, ou seja, faz intervir o corpo, faz intervir os movimentos, faz intervir a consciência.

O pesadelo pode ser considerado um sonho falhado;

um sonho que não se consegue levar até ao fim, em que a pessoa não consegue dar uma solução satisfatória para aquele problema. Daí que muitas vezes se repita até se encontrar a solução.

Não se pode dormir sem sonhar.

Para João dos Santos, uma insónia é sempre, seja qual for a justificação que se dê, a presença de uma situação de angústia que não foi completamente resolvida:

“A insónia significa o medo de ter um pesadelo, ou seja, o medo de sonhar.

E, portanto, se a pessoa está acordada, diz que não consegue dormir, porque está a fazer contas para saber como é que vai pagar a dívida no dia tantos e tal, mas não creio que seja isso.

Isso é um álibi que justifica uma angústia que eu não sei qual é.

O que eu sei é que não são os melhores remédios para a insónia que a curam. Ou, se curam, fazem-no de uma forma artificial e pouco saudável porque uma grande parte dos medicamentos que se tomam para dormir inibem também a função do sonho.

Hoje já há medicamentos que permitem dormir e sonhar.

Os farmacologistas já descobriram isso, mas, de qualquer forma, a maneira mais saudável de dormir é realmente sonhar, é a pessoa ser capaz de acabar de sonhar, porque então o seu pensamento evolui.

A insónia começa por ser realmente uma história qualquer que a pessoa tem para pensar e que é incómoda, que é desagradável, que é triste, e depois, quando as pessoas já estão há muito tempo sem dormir, acabam por ter medo de não dormir, Parece uma contradição, não é?

A insónia é o medo de não dormir. Porque, quando se adormece, sonha-se, e o sonho pode ser mau.”

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