Mês: <span>Junho 2017</span>

psicólogo clínico dinheiro

A função do dinheiro em Psicoterapia

Luciano Lutereau refere que o dinheiro na psicoterapia* tem uma função particular. O pagamento de uma sessão não corresponde à simples troca de um honorário por um serviço. O tempo não pode ser comprado.

O pagamento da psicoterapia não corresponde à mera troca de um honorário por um serviço porque o tempo não pode ser comprado.

Lembro-me de uma situação em que um homem, em certa ocasião, queria incluir a sua psicoterapia nos seus bens de consumo (era um homem rico) e disse: “Se eu aqui pago…” e eu respondi ” O que está a pagar? Está a pagar por uma coisa certa, mas creio que não saiba do que se trata; mas pelo meu tempo não é, vale mais do que uma fortuna e não o dou a troco de nada, mas porque eu quero”.

Dar tempo é dar o que não se tem. Falta sempre tempo, por isso dar tempo afasta a terapia da questão monetária, porque, antes de mais, o terapeuta oferece amor.

A relação com o terapeuta é uma relação amorosa, como qualquer outra. Alguns pacientes começam a irritar-se, em determinados momentos, com o uso de dinheiro para pagar as sessões. Eles sentem que o amor se degrada (e, portanto, às vezes incluem algum outro presente para que o dinheiro não seja tudo: um livro, um vinho ou um simples “obrigado” para dizer adeus).

A atitude do obsessivo é o oposto: ele gosta dessa degradação. E, assim, procura depreciar o amor de que se sente dependente. É possível receber amor sem sentir dependência? Não é o paciente que ama, mas o terapeuta. Eventualmente pode acontecer que o paciente desencadeie uma forma de amor (e não apenas a paixão) pelo terapeuta, mas, nestes casos, é uma defesa contra o amor do terapeuta.

Uma certa forma de gratidão também pode ser entendida como defesa. Quando um paciente diz: “com tudo o que eu lhe devo”, temos uma questão a resolver, pois a terapia pode encaminhar-se para algo que a mãe lhe disse: “tudo que eu fiz para ti”.

A psicoterapia vai em sentido contrário dessa gratidão. Por isso é que o dinheiro é necessário. A função do dinheiro na terapia é parcializar a dívida que se sente com o amor do terapeuta. E é desejável que a dívida seja paga com dinheiro, porque se não for paga em dinheiro, terá custos mais elevados para paciente e terapeuta.

Assim pode entender-se porque é necessário, eventualmente, o aumento dos honorários. Não é uma indexação de acordo com a inflação do país, mas a alteração (que nem sempre é um aumento, também pode ser uma diminuição) tem como lógica intervir na dívida para com o terapeuta.

Vejamos outras situações: aqueles que, por vezes, fazem terapia sem pagar, e voltam um pouco mais tarde para nos pagarem. O dinheiro está a queimar-lhes nas mãos! Porque se não pagarem com dinheiro, temem ser capturados pelo amor do terapeuta. Por isso se compreende que alguns pacientes não possam suportar ter uma dívida com o psicoterapeuta, mas também existem outros pacientes que precisam dela!

Numa psicoterapia analisa-se a posição do paciente a respeito do amor do psicoterapeuta. Suas formas defensivas de responder a esta oferta (porque todos os terapeutas trabalham de graça!), e como se concretizam essas defesas através do pagamento (que podem ser em dinheiro ou equivalente). Se paga para que essa dívida com o amor não seja insuportável, e, onde essa dívida não ocorre, a terapia fica coxa.

Certa vez fui procurado por uma pessoa que definiu que viria falar comigo duas ou três vezes. No final fez o pagamento e, como não tenho o hábito de contar o dinheiro, só mais tarde verifiquei que me tinha pago a mais. Liguei-lhe para o informar do sucedido. Disse-me que não se tinha enganado, que tinha feito de propósito. Apesar de neste caso ser pouco provável, gostava que ele regressasse e pudesse compreender o propósito, a sua forma de lidar com o amor.

* Psicoterapia Psicodinâmica

psicólogo clínico

A diferença entre Auto-estima e Narcisismo

Um elevado narcisismo não é o mesmo que uma elevada auto-estima. “Entre eles existe apenas uma fraca relação”.

Brummelman e seus colegas descobriram que quando as mães e os pais são calorosos e afectuosos, passam tempo com os seus filhos e mostram interesse pelas suas actividades, “as crianças gradualmente interiorizam a crença de que são indivíduos meritórios – o núcleo da auto-estima -, e isso não se transforma em narcisismo.

Em contrapartida, a sobrevalorização dos pais – colocar as crianças num pedestal – promove traços narcisistas. Nesse sentido, é melhor os pais dizerem às crianças: “fizeste um bom trabalho”, em vez de: “mereceste ganhar” ou “porque é não foste tão bom quanto ela?”

Um foco precoce e pronunciado sobre o sucesso pode levar a um apego inseguro entre os pais e os filhos. Pode fazer com que os filhos apreendam que o amor e a atenção de uma mãe ou de um pai só estão disponíveis se as expectativas elevadas forem atingidas.

As crianças que sentem que nunca conseguem corresponder aos desejos dos pais podem tornar-se adultos com um ego frágil e ficarem presos a pensamentos e comportamentos narcisistas de forma a suster o ego.

Ludden refere que os pais que criam narcisistas, “apresentam aos seus filhos um mundo onde tudo é uma competição : Há vencedores e perdedores e tu tens que ser o vencedor.” Uma abordagem mais saudável seria ensinar as crianças que “elas não têm que ser o melhor, mas apenas o melhor que podem ser.”

psicólogo clínico

Boas razões para ficar num relacionamento mau

Tendo consciência de que o nosso relacionamento é insatisfatório, por que ficamos? A pesquisa em psicologia pode ajudar a explicar a nossa tendência para iniciar e manter relacionamentos com parceiros que não respondem às nossas necessidades.

Porque mantemos relacionamentos maus

1. Podemos estar satisfeitos com relacionamentos insatisfatórios

Em pesquisas recentes que exploram as decisões das mulheres sobre permanecer ou sair dos seus relacionamentos, o factor mais importante nas decisões das mulheres para permanecer na relação foi a satisfação no relacionamento (Edwards et al., 2011). Como podemos estar satisfeitos com relacionamentos insatisfatórios? Alguns indivíduos, especialmente aqueles que têm baixa auto-estima ou aqueles que se consideram menos atraentes, têm baixos “níveis de comparação” (Thibaut e Kelley, 1986; Luciano e Orth, 2017; Montoya, 2008). O nível de comparação pode ser entendido como um “padrão”: aquilo que se espera receber num relacionamento. Indivíduos com baixos níveis de comparação não esperam muitos benefícios dos seus relacionamentos, mas esperam muitas dificuldades. Se você tem um baixo nível de comparação, pode manter-se num relacionamento ruim porque está de acordo com as suas baixas expectativas. Os indivíduos com baixa auto-estima são mais propensos a envolverem-se em relacionamentos de menor duração e sofrem novas diminuições de auto-estima quando os seus relacionamentos terminam (Luciano e Orth, 2017). Da mesma forma, as mulheres que sofreram abusos em criança relatam mais satisfação nos relacionamentos de menor qualidade (Edwards et al., 2011).

2. Mudança nas Prioridades

Os mecanismos comuns que ajudam a manter os nossos relacionamentos são o “aprimoramento dos parceiros” e as “ilusões positivas”. Ambos os termos referem-se ao facto de que tendemos a ver os nossos companheiros de forma positiva, às vezes irrealisticamente (Morry et al., 2010; Conley et al., 2009). Nos casais gays e lésbicas, bem como nos casais heterossexuais, aqueles que vêem os seus parceiros mais positivamente também relatam mais satisfação no relacionamento (Conley et al., 2009). Como podemos ver nossos parceiros de forma positiva quando estamos em relacionamentos indesejáveis? A pesquisa mostra que valorizamos as características positivas que os nossos parceiros apresentam mais do que outras características (Fletcher et al., 2000). Por exemplo, se o seu parceiro é generoso, mas não introspectivo, você pode vir a valorizar mais a generosidade do que a introspecção ao longo do seu relacionamento. Quando os nossos parceiros revelam características negativas, podemos reduzir a importância dessas características e aumentar a importância dos traços positivos que possuem (Fletcher et al., 2000).

3. Alternativas de baixa qualidade

Se você está numa relação indesejável, pode considerar alternativas a essa relação, incluindo estar sozinho ou começar um relacionamento diferente (Thibaut e Kelley, 1986). Se perceber que uma alternativa pode ser preferível à sua situação actual, é mais provável que abandone o seu relacionamento, mas se entender que as alternativas são de menor qualidade, é mais provável que permaneça, apesar de tudo, num relacionamento insatisfatório. Pesquisas recentes mostram que afigurar alternativas ruins para o relacionamento aumenta a probabilidade de ficar com um parceiro indesejável, e que as mulheres com baixa auto-estima percebem menos alternativas desejáveis aos seus relacionamentos actuais (Edwards et al., 2011). Além disso, o divórcio é mais comum nos países onde as mulheres conseguem mais independência económica e em que a proporção de homens para mulheres é maior, sugerindo que as mulheres são mais propensas a divorciar-se se tiverem os meios económicos para viver de forma independente, bem como se existir uma abundância de outros possíveis parceiros (Barber, 2003).

4. Manipulação

Se o seu parceiro está ciente de que você deseja terminar o relacionamento, ele ou ela podem usar diferentes métodos de manipulação para forçá-lo a permanecer. A manipulação emocional, como o rebaixar, desprezar ou mesmo ameaças de violência contra futuros parceiros, podem ser usadas para conservar o relacionamento (Buss e Shackelford, 1997; Primos e Fugère, no prelo). Os homens com baixa auto-estima, bem como aqueles que se sentem menos atraentes que os seus parceiros, podem ser mais propensos a usar manipulações para evitar que seus parceiros terminem a relação (Buss e Shackelford, 1997; Holden et al., 2014). A angústia associada ao abuso emocional ou às implicações físicas da violência do parceiro são fortes impedimentos para aqueles que procuram terminar um relacionamento. Edwards et al. (2011) sugerem que as mulheres que estão psicologicamente angustiadas podem não sentir que têm a capacidade de deixar os seus parceiros.

5. Investimento

Outros obstáculos importantes para pôr fim a um relacionamento mau incluem os investimentos compartilhados com os companheiros (Adams, 1965). Como Copp et al. (2015) referem, investir muito tempo num relacionamento ou compartilhar investimentos, como uma casa ou filhos, torna os casais mais propensos a ficarem juntos. De acordo com Rego et al. (2016), quando já investimos muito tempo, esforço ou recursos num relacionamento, muitos de nós continuamos esse investimento mesmo quando pode não ser o melhor para nós; Temos tendência para continuar relacionamentos infelizes quando investimos neles. Os autores também explicam que, ao tomar decisões no que diz respeito ao relacionamento, muitas vezes dependemos mais de emoções do que de deliberações racionais. O que nos leva ao última razão, porque muitas vezes ficamos em relacionamentos ruins …

6. Amor

Os psicólogos distinguem entre três diferentes componentes: a componente cognitiva ou pensamentos, a componente afectiva ou sentimentos, e a componente comportamental ou acções (Kassin et al., 2011). Frequentemente, essas componentes não estão alinhadas umas com as outras. Por exemplo, no caso de um relacionamento ruim, os seus pensamentos podem ser negativos, dizendo que seu parceiro não é bom para você, mas os seus sentimentos ainda podem ser positivos. Podemos continuar a amar os nossos parceiros, embora reconheçamos conscientemente que estamos envolvidos em relacionamentos ruins. Também é possível que fortes sentimentos positivos e negativos em relação a um parceiro possam coexistir (Zayas e Shoda, 2015).

Traduzido/adaptado por Pedro Martins
a partir de “The Good Reasons We Stay in Bad Relationships” – Madeleine A. Fugère

psicoterapeuta

Os três estados do Amor

O amor é o nosso valor mais elevado, o que todos desejamos e acreditamos, nos torna fundamentalmente humanos. No entanto, também é fonte de considerável ansiedade. Principalmente porque estamos preocupados em saber se amamos de forma correcta.

A sociedade é subtil e altamente prescritiva a este respeito. Isso sugere que, para sermos uma pessoa conforme, devemos estar disponíveis para o sexo e, além disso, devemos “amar” de uma maneira muito particular: devemos estar constantemente entusiasmados com a presença do nosso parceiro, devemos estar ansiosos por vê-lo depois de cada ausência, devemos querer mantê-lo nos nossos braços, beijar e ser beijados e – acima de tudo – desejar fazer sexo quase todos os dias. Por outras palavras, devemos seguir o roteiro do êxtase romântico ao longo das nossas vidas.

Isso é bonito em teoria mas extremamente punitivo na prática. Se quisermos definir este amor como estando de acordo com a normalidade, a maioria de nós terá que admitir (com considerável constrangimento) que não está muito por dentro do amor – e, portanto, não se encontra entre as pessoas saudáveis ou normais.

Criámos um culto do amor que contrasta radicalmente com a maioria das nossas verdadeiras experiências dos relacionamentos.

É aí que os antigos gregos nos podem ajudar. Eles cedo perceberam que existem muitos tipos de amor, cada um com as suas respectivas fases e virtudes.

Os gregos atribuíram aos poderosos sentimentos físicos que muitas vezes experimentamos no início de um relacionamento a palavra ‘eros’ (ἔρως). Eles sabiam que o amor não está necessariamente acabado quando essa intensidade sexual diminui, como quase sempre ocorre após um ano ou mais de relacionamento.

Os nossos sentimentos podem evoluir para outro tipo de amor que eles resumiram com a palavra “philia” ( φιλία ), normalmente traduzido como “amizade”, embora a palavra grega seja muito mais calorosa, mais leal e mais tocante; Podemos estar dispostos a morrer por ‘philia’. Aristóteles recomendou que superássemos o eros na juventude e, em seguida, alicerçar os nossos relacionamentos – especialmente os casamentos – numa filosofia de philia.

Os gregos tinham uma terceira palavra para o amor: “agape” ( ἀγάπη), que pode traduzida como um amor caridoso. É o que podemos sentir em relação a alguém que se comportou mal, ou que está triste devido às suas falhas de carácter – mas por quem ainda sentimos compaixão. É o que um Deus pode sentir pelo seu povo, ou o que o público pode sentir por uma personagem trágica numa peça de teatro. É o tipo de amor que experimentamos em relação à fraqueza de alguém. Isso lembra-nos que o amor não é apenas sobre a admiração pelas virtudes, é também sobre simpatia e generosidade em relação ao que é frágil e imperfeito em nós.

Tendo estas três palavras à mão – eros, philia e agape – ampliamos poderosamente a nossa compreensão do amor. Os gregos antigos eram sábios em dividir o amor nas suas partes constituintes.

Sob a sua tutela, podemos ver que provavelmente temos muito mais amor nas nossas vidas do que nosso vocabulário actual reconhece.

Traduzido e adaptado por Pedro Martins
a partir de Alain de Botton – Why We Need the Ancient Greek Vocabulary of Love

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