Mês: Junho 2019

As crianças querem ajudar e devemos deixar. Pedro Martins Psicoterapeuta

As crianças querem ajudar e devemos deixar

Tendemos a pensar nas crianças mais como fonte de trabalho extra do que como fonte de ajuda.

Muitas vezes pensamos que levar a que os nossos filhos nos ajudem em casa é trabalho a dobrar.

Também tendemos a pensar que a única forma de obter ajuda das crianças é pressioná-las, através de ameaças de castigo ou “suborno”, que, por boas razões, podemos ser relutantes em fazer.

Geralmente pensamos no trabalho como algo que as pessoas naturalmente não querem fazer, e passamos essa visão aos nossos filhos, que depois a transmitem aos seus filhos.

No entanto, as pesquisas encontraram fortes evidências de que as crianças muito jovens, inatamente, querem ajudar.

E se tiverem permissão para fazê-lo, continuarão a ajudar, voluntariamente, ao longo da infância e até à idade adulta.

 

Evidências do instinto infantil de ajudar

Num estudo clássico, realizado há mais de 35 anos, Harriet Rheingold (1982) observou crianças de 18, 24 e 30 meses a interagir com os pais (mãe em alguns casos, pai noutros) enquanto estes realizavam tarefas domésticas de rotina.

Entre elas estavam: dobrar a roupa, varrer o chão, levantar a loiça da mesa, e arrumar coisas espalhados pelo chão.

 

As pesquisas encontraram fortes evidências de que as crianças muito jovens, inatamente, querem ajudar.

 

No estudo, pediu-se a cada pai que trabalhasse relativamente devagar e permitisse que o filho ajudasse se quisesse, mas não pedisse ajuda à criança ou direccionasse a ajuda por meio de instruções verbais.

O resultado foi que todas as crianças (80 no total) ajudaram voluntariamente a fazer o trabalho.

A maioria delas ajudou em mais de metade das tarefas que os pais realizavam, e alguns até iniciaram tarefas antes dos pais.

Além disso, nas palavras de Rheingold, “as crianças realizaram as tarefas com movimentos rápidos e enérgicos, entoações vocais de contentamento, expressões faciais de prazer, e satisfação com a conclusão da tarefa”.

Muitos outros estudos confirmaram o desejo, aparentemente universal, das crianças pequenas em ajudar.

Este comportamento de ajuda não tem por base a obtenção de uma recompensa.

 

As crianças são intrinsecamente motivadas, em vez de motivadas extrinsecamente

 

De facto, Felix Warneken e Michael Tomasello (2008) descobriram que oferecer uma recompensa por ajudar reduz a ajuda subsequente.

Numa experiência, possibilitaram que crianças de 20 meses ajudassem o experimentador de várias maneiras e que algumas crianças fossem recompensadas (com a oportunidade de brincar com um brinquedo atraente) e outras não.

O resultado foi que aquelas que tinham sido recompensadas ​​por ajudar tinham muito menos probabilidade de ajudar do que aquelas que não tinham sido recompensadas.

Apenas 53% das crianças na condição anteriormente recompensada ajudaram, em comparação com 89% na condição não recompensada.

Esta descoberta é uma evidência de que as crianças são intrinsecamente motivadas, em vez de motivadas extrinsecamente, para ajudar.

Isto é, ajudam porque querem ser úteis, não porque esperam algo por isso.

Muitas outras pesquisas mostraram que as recompensas tendem a minar a motivação intrínseca.

Na nossa cultura costumamos cometer dois erros em relação aos desejos das crianças pequenas de ajudar.

Primeiro, pomos de lado as ofertas de ajuda, porque estamos com pressa de fazer as coisas e acreditamos (muitas vezes correctamente) que a “ajuda” da criança vai-nos atrasar ou a criança não vai fazer bem as coisas e nós vamos ter de fazer de novo.

Segundo, se realmente queremos ajuda da criança, oferecemos algum tipo de acordo, alguma recompensa, para fazê-lo.

No primeiro caso, passamos a mensagem à criança de que ela não é capaz de ajudar.

E no segundo caso, passamos a ideia de que ajudar é algo que uma pessoa só fará se receber algo em troca.

 

O seu filho está ajudar, em parte, para reforçar o vínculo consigo.

 

Em resumo, a pesquisa sugere que, se você quiser que o seu filho seja seu parceiro nas tarefas de casa, faça o seguinte:

Assuma que se trata de um trabalho da família, e não apenas seu, o que significa que você não é a única pessoa responsável por fazê-lo.

Deve renunciar a algum controle sobre a forma como o trabalho é feito.

Se você quer que seja feito exactamente do seu jeito, terá que fazer isso sozinho ou contratar alguém para fazê-lo.

Entenda que as tentativas das crianças de ajudar são genuínas e, se você dedicar algum tempo para deixar a criança ajudar, talvez com um pouco uma orientação discreta, ela acabará por se tornar boa nisso.

Evite pedir ajuda, negociar, recompensar ou controlar, pois tudo isso prejudica a motivação intrínseca da criança para ajudar.

Um sorriso de contentamento e um agradável “obrigado” é bom e sabe bem. É o que seu filho quer de si.

O seu filho está ajudar, em parte, para reforçar o vínculo consigo.

A ajuda é boa não só para você, mas também para o seu filho. Ele está a crescer de forma muito positiva, ajudando.

Ao ajudarem os filhos adquirem capacidades e sentimentos de valorização pessoal, auto-estima e de pertença, contribuindo para o bem-estar da família.

Ao mesmo tempo, quando se permite à criança ajudar, o altruísmo inato é nutrido.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de “Toddlers Want to Help and We Should Let Them” – Peter Gray

Eu Achava que a Estava a Ajudar Pedro Martins Psicoterapeuta

Eu achava que a estava a ajudar, mas…

Uma grande amiga minha perdeu o pai há uns tempos. Encontrei-a sentada sozinha num banco, junto ao nosso local de trabalho, sem se mexer, apenas a olhar para o horizonte.

Ela estava devastada. Eu queria ajudar mas não sabia o que lhe dizer. É tão fácil dizer a coisa errada a alguém que está vulnerável e em sofrimento.

Então, comecei a falar sobre como cresci sem pai. Disse-lhe que o meu pai se tinha afogado num submarino quando eu tinha apenas 9 meses de idade e que me custava muito a sua perda, mesmo que eu nunca o tivesse conhecido.

Eu só queria que ela percebesse que não estava sozinha, que eu tinha passado por algo parecido e que podia entender como ela se sentia.

Mas depois de ter relatado essa história, a minha amiga olhou para mim e disse: “Ok, Celeste, ganhaste. Tu nunca tiveste um pai e eu pelo menos consegui passar 30 anos com o meu. Foi pior para ti. Eu acho que não deveria estar tão chateada com a morte do meu pai.”

Fiquei atordoada e mortificada. A minha reacção imediata foi defender-me. “Não, não, não”, disse, “não é isso que estou a dizer. Eu só quis dizer que sei como tu te sentes.”

E ela respondeu: “Não, Celeste, tu não sabes. Tu não tens ideia de como eu me sinto.”

Ela afastou-se e eu fiquei ali impotente vendo-a a ir embora e a sentir-me me como uma idiota. Eu tinha falhado totalmente à minha amiga.

Eu queria consolá-la e, em vez disso, a fiz sentir pior. Naquele momento, eu ainda sentia que ela me tinha entendido mal.

Pensei que ela estava num estado muito frágil e me tinha atacado injustamente quando eu estava apenas a tentar ajudar.

 

Daquele dia em diante, comecei a perceber com que frequência respondia a histórias de perda e sofrimento com histórias das minhas próprias experiências.

 

Mas a verdade é que ela não me entendeu mal. Ela entendeu o que estava a acontecer, talvez melhor do que eu.

Quando ela começou a compartilhar os seus sentimentos senti-me desconfortável.

Eu não sabia o que dizer, então passei para um assunto com o qual estava confortável: eu mesma.

Eu posso ter tentando empatizar, pelo menos a um nível consciente, mas o que realmente fiz foi desviar o foco da sua angústia e voltar a atenção para mim.

Ela queria falar comigo sobre o seu pai, contar-me sobre o tipo de homem que ele era, para que eu pudesse apreciar plenamente a magnitude da sua perda.

Em vez disso, pedi a ela que parasse por um momento e ouvisse minha história sobre a morte trágica do meu pai.

Daquele dia em diante, comecei a perceber com que frequência respondia a histórias de perda e sofrimento com histórias das minhas próprias experiências.

Quando uma colega de trabalho foi demitida, eu contei-lhe o quanto eu me esforcei para encontrar um emprego depois de ter sido despedida anos antes.

Mas quando comecei a prestar mais atenção à forma como as pessoas reagiam às minhas tentativas de empatizar, percebi que o efeito de compartilhar as minhas experiências nunca foi aquele que eu pretendia.

 

Ela não precisava de conselhos ou das minhas histórias. Ela só precisava que eu a ouvisse.

 

O que todas essas pessoas precisavam era que eu as ouvisse e reconhecesse o que elas estavam a sofrer. Em vez disso, forcei-os a ouvirem-me.

Hoje em dia, tento estar mais consciente do meu instinto de compartilhar histórias e falar de mim mesma.

Tento fazer perguntas que incentivem a outra pessoa a continuar e fiz um esforço consciente para ouvir mais e falar menos.

Recentemente tive uma longa conversa com uma amiga minha que estava a passar por um divórcio. Passamos quase 40 minutos ao telefone e eu mal disse uma palavra.

No final do telefonema, ela disse: “Obrigada pelo teu conselho. Realmente ajudaste-me a resolver algumas coisas.”

A verdade é que realmente não lhe dei nenhum conselho; a maior parte do que eu disse foi uma versão de “Isso não parece nada fácil. Sinto muito que isso esteja a acontecer contigo.”

Ela não precisava de conselhos ou das minhas histórias. Ela só precisava que eu a ouvisse.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

A partir de: The Mistake I Made With My Grieving Friend – Celeste Headlee

Mães Narcisistas Pedro Martins Psicoterapeuta

Mães Narcisistas

Quando a psicóloga Karyl McBride começou a ler livros sobre o vínculo mãe-filha, não pôde deixar de chorar.

Esses textos despertaram lembranças do seu passado. Ela tentou encontrar situações que a lembrassem do apego e da proximidade com a mãe.

Detalhes como o perfume que ela usava, o som da sua voz ou a temperatura da sua pele quando ela a abraçava. Mas não chegou a nenhuma.

Foi assim que ela teve consciência dessa carência e deu conta que, pelo menos na literatura, não havia nada escrito para filhas de mulheres não-maternais.

“Embora esta seja uma relação que muitas vezes deixa grandes feridas, não encontrei nada escrito que falasse sobre isso.”

“As meninas não odiavam as suas mães e a maternidade era mostrada como uma instituição sagrada na maioria das culturas”, escreveu mais tarde no seu texto “A minha mãe não me mima: como superar as sequelas causadas por uma mãe narcisista” (2018).

Este foi um projecto que ela desenvolveu como uma espécie de catarse: uma viagem emocional à sua infância, momento em que se sentiu carente de afecto e absolutamente invisível.

“Há mães tão emocionalmente carentes e tão ensimesmadas e egoístas que são incapazes de dar amor incondicional e apoio emocional às suas filhas.

 

As filhas das mães narcisistas gastam tempo e energia a tentar obter amor, atenção e validação do resto das pessoas, sem resultado.

 

Eu vi como os relacionamentos turbulentos das minhas pacientes com as suas mães, bem como a relação com a minha mãe, estavam claramente relacionados com o narcisismo materno.”

 

Quais são as dinâmicas da relação entre uma filha e uma mãe narcisista?

As meninas criadas por uma mãe narcisista sentem falta da empatia e a incapacidade da sua progenitora se sintonizar com o mundo emocional delas.

Não se sentem reconhecidas, ouvidas ou vistas. Elas referem que são invisíveis para os seus pais.

E, embora em alguns casos não tenham consciência dessas situações, elas crescem com a sensação de que as suas necessidades emocionais não são satisfeitas pelos adultos.

Podem ter um teto, roupas, comida, e todas essas coisas físicas asseguradas, mas as suas emoções não são escutadas ou validadas.

A mãe narcisista não demonstra afecto pela filha, a menos que isso a ajude em alguma coisa.

O carinho é uma retribuição, algo que é dado como moeda de troca. Não é incondicional.

Então cresce e vive toda a sua vida em torno das necessidades do outro, tentando fazer a sua mãe feliz, sem espaço para se auto-construir.

 

Quais são as consequências na vida quotidiana de um adulto ter crescido com uma mãe narcisista?

Como a menina não conseguiu fazer a sua mãe feliz, ela internaliza uma mensagem negativa de “eu não sou suficientemente boa”.

A internalização da falta de empatia e de amor faz com que sinta que “ninguém me pode amar”, “sinto-me vazia”, “não confio nos meus próprios sentimentos”, “as dúvidas paralisam-me”.

Depois, as filhas das mães narcisistas gastam tempo e energia a tentar obter amor, atenção e validação do resto das pessoas, sem resultado. Isso causa-lhes tristeza, raiva, angústia e decepção.

 

“Eu vi como os relacionamentos turbulentos das minhas pacientes com as suas mães, bem como a relação com a minha mãe, estavam claramente relacionados com o narcisismo materno.”

 

A necessidade primordial de se sentir unida a alguém é interrompida e deixa essa cicatriz, porque quando a confiança é afectada na infância, torna-se difícil confiar nos outros na idade adulta.

Além disso, torna a pessoa susceptível a atrair inconscientemente outros narcisistas na sua vida, mas agora na figura de amigos ou amantes, porque é a maneira de “gostar e ser gostada” que conhecem.

A menina, já adulta, não confia em si mesma e cresce sempre com dúvidas.

A falta de validação de quem elas são e das suas emoções faz com que se tratem a si mesmas como foram tratadas pela mãe narcisista.

Isso inclui serem duras consigo e não darem crédito a nada das coisas que constroem e conquistam.

 

Como a menina não conseguiu fazer a sua mãe feliz, ela internaliza uma mensagem negativa de “eu não sou suficientemente boa”.

 

Se a pessoa não se submete a um tratamento e toma a seu cargo a sua recuperação, vai experimentar sintomas semelhantes aos do transtorno de stress pós-traumático.

 

Como se explica uma mãe narcisista?

O narcisismo resulta de um trauma na infância. E não distingue géneros. São adultos que também foram vítimas de pais narcisistas.

Crescem sem terem consciência, sem trabalhar em si mesmos, a noção de que não são responsáveis ​​por seus próprios sentimentos ou comportamentos e, portanto, transmitem o que eu chamo de “legado do amor distorcido”.

Como especialista, decidi aprofundar a relação filha-mãe, mas também a relação pais e filhos, do género masculino, que são narcisistas.

McBride enfatiza a relação mãe-filha, porque as meninas, ao contrário dos seus irmãos homens, enfrentam uma dinâmica que eles não têm: a mãe narcisista vê a filha como uma extensão, não como alguém independente, com sua própria identidade.

 

Quando a confiança é afectada na infância, torna-se difícil confiar nos outros na idade adulta.

 

É por isso que ela pressiona a rapariga a agir e reagir tal como ela faria. E, por efeito, quando a filha não recebe validação desde a mais tenra idade, descobre que não tem transcendência no mundo e que os seus esforços não têm nenhum efeito.

“Há muitos temas de adultos que não devem ser expostos aos filhos. Tem de se permitir que eles sejam crianças, para se concentrarem nas coisas que importam para eles.

Não devem ser sobrecarregados com as preocupações dos “crescidos”. Pais narcisistas envolvem os seus filhos prematuramente no mundo adulto.

Uma mãe narcisista que constantemente confia à filha as dificuldades que tem no seu relacionamento com o marido, por exemplo, não entende como isso pode ser doloroso para a menina.

A filha sabe que compartilha traços com o pai e com a mãe; portanto, a menina interpreta a crítica ao pai como uma crítica a si mesma.

 

Como se rompe com o legado narcisista?

Ao trabalhar com um adulto vítima de uma relação parental narcisista, deve, em primeiro lugar, reunir-se os antecedentes, identificar o problema, e entendê-lo a um nível cognitivo.

Processar os sentimentos relacionados com a situação: sentir e reprogramar as mensagens negativas herdadas.

O conceito chave é a aceitação.

Separar-se psicologicamente da mãe e começar a construir uma consciência autêntica.

 

Os pais narcisistas envolvem os seus filhos prematuramente no mundo adulto.

 

Pergunte a si mesma quais são os seus direitos, reconheça o seu valor, a sua capacidade de assumir compromissos e desenvolver uma mãe interior: tornar-se alguém que pode nutrir-se, amar e cuidar-se a si mesma.

Então pode começar a ter um relacionamento saudável com a sua mãe, identificar as suas próprias características narcísicas e a recusar-se a transmitir esse legado. Todos podem mudar.

No entanto, embora a perspectiva seja encorajadora, não é um caminho fácil: “A terapia é necessária nesse processo para que o paciente se possa sentir validado e reconhecido.

É difícil para os pacientes desenvolver este “processo de acusação” às suas mães por causa dos sentimentos de culpa e do tabu que essa questão desperta.

O perdão é algo interno que vem depois de processar o trauma de uma infância difícil.

É claro, costumo recomendar aos meus pacientes que evitem confrontar a mãe ou o pai narcísico porque eles não aceitarão a responsabilidade ​​e a discussão terminará com os pais a acusar o filho de estar errado ou louco.

E como você evita ser uma mãe narcisista?

Com empatia. Se você se emociona com os sentimentos dos outros, você não é narcisista. É tão simples A empatia é a antítese do narcisismo. E, portanto, essa é a melhor maneira de cuidar de um filho.

 

Entrevista de Juan Cruz Giraldo a Karyl McBride

Traduzida/adaptada por Pedro Martins

A importância de beijar. Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo

A Importância de Beijar

Um dos aspectos surpreendentes dos relacionamentos é a quantidade de segurança que precisamos para acreditar que somos activamente desejados.

Não é menos surpreendente, a forma como facilmente esquecemos este facto embaraçoso, tanto sobre nós mesmos como sobres as outras pessoas.

A narrativa dominante sobre amor diz-nos que a insegurança, no que diz respeito a ser desejado, atinge o seu auge no início do namoro, quando estamos profundamente conscientes das inúmeras razões pelas quais o nosso parceiro pode não estar interessado em levar as coisas adiante.

No entanto, uma vez que o relacionamento começou, que existe um lar, eventualmente filhos e um padrão estabelecido de vida, assumimos que o medo de não ser desejado desapareceu.

Longe disso. O medo de não ser desejado continua todos os dias. Podem sempre surgir novas ameaças ao amor.

Só porque fomos amados ontem, nada garante que seremos queridos hoje.

 

Para tentar acalmar as inseguranças devemos instituir um ritual: um beijo de manhã e outro à noite.

 

Mais perniciosamente, se nos deixarmos infectar pelo medo, podemos adoptar uma posição defensiva onde, porque assumimos que não somos desejados, começamos a comportar-nos com uma certa indiferença, o que encoraja o parceiro a agir da mesma forma.

Duas pessoas que são, no fundo, muito bem-dispostas uma com a outra podem entrar num ciclo de negação de que precisam do outro, porque assumem cautelosa e preventivamente que a outra pessoa não as quer mais.

Para tentar acalmar esses medos e ciclos de indiferença, devemos instituir um ritual, aparentemente pequeno, mas de facto crucial nas nossas vidas: um beijo de manhã e outro à noite.

Todas as manhãs, antes de sair, não importa o quanto estamos com pressa, devemos dar um ao outro um beijo nos lábios, por pelo menos sete segundos, o que é – na realidade – um tempo muito estranhamente longo.

Inclinem-se sobre o companheiro, não pensem nas muitas coisas que têm que fazer nas próximas horas. Simplesmente concentrem-se na sensação da boca dele na sua, sinta o nariz contra a pele dele.

Não parem abruptamente no final: continuem a olhar um para o outro por mais alguns momentos e sorriam. O mesmo deve ser repetido todas as noites aquando do regresso a casa.

 

Somos criaturas sensuais; precisamos do contacto físico.

 

Quando beijamos, estamos a entrar num canal fundamental de conexão emocional. O contacto físico íntimo afecta-nos de uma forma que é distinta e, em muitos aspectos, superior a palavras.

Somos criaturas sensuais pelo menos no mesmo grau em que somos racionais: um sorriso ou uma carícia pode, portanto, tranquilizar-nos muito mais profundamente do que um eloquente “amo-te muito”.

Em bebés, fomos serenados pelo toque muito antes de podermos entender a linguagem, e, portanto, continuamos a precisar de contacto físico para acreditar, verdadeiramente acreditar, que temos um lugar na vida da outra pessoa.

Normalmente, um beijo surge de um sentimento de ternura: primeiro temos uma emoção e depois a sua expressão.

Mas há outra forma das nossas mentes poderem trabalhar; uma maneira na qual um sentimento surge a seguir a uma acção.

 

Quando beijamos, estamos a entrar num canal fundamental de conexão emocional.

 

O beijo da manhã e da noite deve vir primeiro, independentemente de haver ou não uma emoção de ternura.

Então, é quase certo, se continuarmos com o beijo, a emoção surgirá (é muito difícil beijar e não sentir nada).

O beijo da manhã e da noite deve ser um ritual.

Uma característica básica dos rituais é que os fazemos, quer tenhamos vontade de praticá-los ou não.

O beijo deve acontecer mesmo que você tenha tido um desaguisado com o parceiro e estiver ressentido, ou se estiver com pressa para uma reunião importante. Melhores sentimentos se seguirão.

Quando saímos de casa a caminho do trabalho, em vez de questionarmos se nos esquecemos das chaves ou do carregador do telemóvel, devemos sempre perguntar se fizemos uma coisa muito mais importante e amorosa: se trocamos um beijo de sete segundos.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

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