Categoria: Narcisismo

Mães Narcisistas Pedro Martins Psicoterapeuta

Mães Narcisistas

Quando a psicóloga Karyl McBride começou a ler livros sobre o vínculo mãe-filha, não pôde deixar de chorar.

Esses textos despertaram lembranças do seu passado. Ela tentou encontrar situações que a lembrassem do apego e da proximidade com a mãe.

Detalhes como o perfume que ela usava, o som da sua voz ou a temperatura da sua pele quando ela a abraçava. Mas não chegou a nenhuma.

Foi assim que ela teve consciência dessa carência e deu conta que, pelo menos na literatura, não havia nada escrito para filhas de mulheres não-maternais.

“Embora esta seja uma relação que muitas vezes deixa grandes feridas, não encontrei nada escrito que falasse sobre isso.”

“As meninas não odiavam as suas mães e a maternidade era mostrada como uma instituição sagrada na maioria das culturas”, escreveu mais tarde no seu texto “A minha mãe não me mima: como superar as sequelas causadas por uma mãe narcisista” (2018).

Este foi um projecto que ela desenvolveu como uma espécie de catarse: uma viagem emocional à sua infância, momento em que se sentiu carente de afecto e absolutamente invisível.

“Há mães tão emocionalmente carentes e tão ensimesmadas e egoístas que são incapazes de dar amor incondicional e apoio emocional às suas filhas.

 

As filhas das mães narcisistas gastam tempo e energia a tentar obter amor, atenção e validação do resto das pessoas, sem resultado.

 

Eu vi como os relacionamentos turbulentos das minhas pacientes com as suas mães, bem como a relação com a minha mãe, estavam claramente relacionados com o narcisismo materno.”

 

Quais são as dinâmicas da relação entre uma filha e uma mãe narcisista?

As meninas criadas por uma mãe narcisista sentem falta da empatia e a incapacidade da sua progenitora se sintonizar com o mundo emocional delas.

Não se sentem reconhecidas, ouvidas ou vistas. Elas referem que são invisíveis para os seus pais.

E, embora em alguns casos não tenham consciência dessas situações, elas crescem com a sensação de que as suas necessidades emocionais não são satisfeitas pelos adultos.

Podem ter um teto, roupas, comida, e todas essas coisas físicas asseguradas, mas as suas emoções não são escutadas ou validadas.

A mãe narcisista não demonstra afecto pela filha, a menos que isso a ajude em alguma coisa.

O carinho é uma retribuição, algo que é dado como moeda de troca. Não é incondicional.

Então cresce e vive toda a sua vida em torno das necessidades do outro, tentando fazer a sua mãe feliz, sem espaço para se auto-construir.

 

Quais são as consequências na vida quotidiana de um adulto ter crescido com uma mãe narcisista?

Como a menina não conseguiu fazer a sua mãe feliz, ela internaliza uma mensagem negativa de “eu não sou suficientemente boa”.

A internalização da falta de empatia e de amor faz com que sinta que “ninguém me pode amar”, “sinto-me vazia”, “não confio nos meus próprios sentimentos”, “as dúvidas paralisam-me”.

Depois, as filhas das mães narcisistas gastam tempo e energia a tentar obter amor, atenção e validação do resto das pessoas, sem resultado. Isso causa-lhes tristeza, raiva, angústia e decepção.

 

“Eu vi como os relacionamentos turbulentos das minhas pacientes com as suas mães, bem como a relação com a minha mãe, estavam claramente relacionados com o narcisismo materno.”

 

A necessidade primordial de se sentir unida a alguém é interrompida e deixa essa cicatriz, porque quando a confiança é afectada na infância, torna-se difícil confiar nos outros na idade adulta.

Além disso, torna a pessoa susceptível a atrair inconscientemente outros narcisistas na sua vida, mas agora na figura de amigos ou amantes, porque é a maneira de “gostar e ser gostada” que conhecem.

A menina, já adulta, não confia em si mesma e cresce sempre com dúvidas.

A falta de validação de quem elas são e das suas emoções faz com que se tratem a si mesmas como foram tratadas pela mãe narcisista.

Isso inclui serem duras consigo e não darem crédito a nada das coisas que constroem e conquistam.

 

Como a menina não conseguiu fazer a sua mãe feliz, ela internaliza uma mensagem negativa de “eu não sou suficientemente boa”.

 

Se a pessoa não se submete a um tratamento e toma a seu cargo a sua recuperação, vai experimentar sintomas semelhantes aos do transtorno de stress pós-traumático.

 

Como se explica uma mãe narcisista?

O narcisismo resulta de um trauma na infância. E não distingue géneros. São adultos que também foram vítimas de pais narcisistas.

Crescem sem terem consciência, sem trabalhar em si mesmos, a noção de que não são responsáveis ​​por seus próprios sentimentos ou comportamentos e, portanto, transmitem o que eu chamo de “legado do amor distorcido”.

Como especialista, decidi aprofundar a relação filha-mãe, mas também a relação pais e filhos, do género masculino, que são narcisistas.

McBride enfatiza a relação mãe-filha, porque as meninas, ao contrário dos seus irmãos homens, enfrentam uma dinâmica que eles não têm: a mãe narcisista vê a filha como uma extensão, não como alguém independente, com sua própria identidade.

 

Quando a confiança é afectada na infância, torna-se difícil confiar nos outros na idade adulta.

 

É por isso que ela pressiona a rapariga a agir e reagir tal como ela faria. E, por efeito, quando a filha não recebe validação desde a mais tenra idade, descobre que não tem transcendência no mundo e que os seus esforços não têm nenhum efeito.

“Há muitos temas de adultos que não devem ser expostos aos filhos. Tem de se permitir que eles sejam crianças, para se concentrarem nas coisas que importam para eles.

Não devem ser sobrecarregados com as preocupações dos “crescidos”. Pais narcisistas envolvem os seus filhos prematuramente no mundo adulto.

Uma mãe narcisista que constantemente confia à filha as dificuldades que tem no seu relacionamento com o marido, por exemplo, não entende como isso pode ser doloroso para a menina.

A filha sabe que compartilha traços com o pai e com a mãe; portanto, a menina interpreta a crítica ao pai como uma crítica a si mesma.

 

Como se rompe com o legado narcisista?

Ao trabalhar com um adulto vítima de uma relação parental narcisista, deve, em primeiro lugar, reunir-se os antecedentes, identificar o problema, e entendê-lo a um nível cognitivo.

Processar os sentimentos relacionados com a situação: sentir e reprogramar as mensagens negativas herdadas.

O conceito chave é a aceitação.

Separar-se psicologicamente da mãe e começar a construir uma consciência autêntica.

 

Os pais narcisistas envolvem os seus filhos prematuramente no mundo adulto.

 

Pergunte a si mesma quais são os seus direitos, reconheça o seu valor, a sua capacidade de assumir compromissos e desenvolver uma mãe interior: tornar-se alguém que pode nutrir-se, amar e cuidar-se a si mesma.

Então pode começar a ter um relacionamento saudável com a sua mãe, identificar as suas próprias características narcísicas e a recusar-se a transmitir esse legado. Todos podem mudar.

No entanto, embora a perspectiva seja encorajadora, não é um caminho fácil: “A terapia é necessária nesse processo para que o paciente se possa sentir validado e reconhecido.

É difícil para os pacientes desenvolver este “processo de acusação” às suas mães por causa dos sentimentos de culpa e do tabu que essa questão desperta.

O perdão é algo interno que vem depois de processar o trauma de uma infância difícil.

É claro, costumo recomendar aos meus pacientes que evitem confrontar a mãe ou o pai narcísico porque eles não aceitarão a responsabilidade ​​e a discussão terminará com os pais a acusar o filho de estar errado ou louco.

E como você evita ser uma mãe narcisista?

Com empatia. Se você se emociona com os sentimentos dos outros, você não é narcisista. É tão simples A empatia é a antítese do narcisismo. E, portanto, essa é a melhor maneira de cuidar de um filho.

 

Entrevista de Juan Cruz Giraldo a Karyl McBride

Traduzida/adaptada por Pedro Martins

Infantilização dos filhos - Pedro Martins Psicoterapeuta

A Infantilização dos Filhos

Tratar um adulto como se fosse uma criança – infantilização -, cria um ciclo de dependência.

A ponto de vermos jovens adultos a perguntar constantemente, o que fazer e como fazê-lo.

Os efeitos negativos da infantilização nos adultos estão bem documentados:

– traduzem-se numa crescente diminuição da capacidade de funcionar autonomamente.

Mesmo nas crianças, a infantilização pode ter consequências negativas.

Imagine que tem uma filha pequena que acabou de aprender a atar os atacadores dos ténis.

Ela, objectivamente, leva mais tempo para fazer isso do que você.

Como normalmente está com pressa para sair de casa, você vai continuar atar-lhe os atacadores de manhã para não perder uns minutos preciosos.

Ao assumir essa tarefa que ela já pode fazer sozinha, você está a afectar o sentimento de autonomia da sua filha, mesmo que esteja a fazer isso por um motivo perfeitamente legítimo.

A infantilização nos adultos traduz-se numa crescente diminuição da capacidade de funcionar autonomamente.

Depois deste exemplo, imagine o que acontece com os pais muito narcísicos.

Os pais narcísicos precisam que os filhos permaneçam dependentes deles por muito tempo.

Quando os filhos crescem estes pais têm muito medo de não se sentirem importantes na vida dos filhos.

Nathan Winner e Bonnie Nicholson (2018), estudaram o papel da superprotecção: tratamento continuado dos filhos como se fossem crianças – infantilização.

De acordo com os autores, a superprotecção envolve excesso de envolvimento e intrusão, combinada com calor humano e pronta capacidade de resposta, em situações em que as crianças não precisam de ajuda nem de se sentirem seguras.

Os pais super-protectores, ao manterem os filhos dependentes deles, podem impedir o desenvolvimento adequado da independência do jovem adulto.

O que, por sua vez, leva o indivíduo a não ser capaz de viver uma vida adulta.

A superprotecção envolve excesso de envolvimento e intrusão.

Os pesquisadores acreditam que o controlo excessivo presente na superprotecção está no centro das dificuldades que os filhos de pais narcisistas podem sentir.

Winner & Nicholson definem o “controlo psicológico parental” como uma intrusão emocional, e não apenas tentativas de limitar a criança a tornar-se um adulto.

Os resultados (obtidos através de correlações) permitiram que os autores considerassem a relação entre o comportamento de controlo excessivo dos pais e o narcisismo das crianças.

Noutras palavras, os sujeitos com sentimentos de inferioridade, foram os que estiveram expostos a pais intrusivos que os tentavam controlar.

Os autores concluem que os pais que vão longe demais no seu desejo de permanecerem proeminentes e envolvidos na vida dos filhos contribuem para o desenvolvimento de sentimentos de inferioridade.

Os pais intrusivos levam os filhos a desenvolver sentimentos de inferioridade.

A existência desta relação sugere que os problemas narcísicos podem ser transmitidos de geração em geração.

Os pais emocionalmente intrusivos produzem filhos que, por sua vez, sentem que essa é a melhor maneira de criar um filho.

Também é importante notar que os pais que são demasiado controladores, efectivamente, são muito carinhosos enquanto cuidam dos filhos e lhes dão tudo (ou mais do que tudo).

Assim, os filhos sentem que serão amados se acederam os desejos dos pais, deteriorando ainda mais o seu sentimento de autonomia.

Ter sido tratado como uma criança não significa que você tenha que ser criança para sempre.

Ao ter uma percepção da forma como se deu o seu crescimento pode, finalmente, reconhecer o seu próprio potencial para ser um adulto e encetar movimentos no sentido da independência .

Por que algumas pessoas têm tanta dificuldade de admitir os seus erros - Pedro Martins Psicoterapeuta

Por que algumas pessoas têm tanta dificuldade de admitir os seus erros?

Todos cometemos erros com alguma regularidade.

Alguns erros são pequenos, como: “Não, não é preciso pararmos no supermercado, há leite que chegue para o pequeno-almoço”.

Alguns maiores, como: “Não é preciso andarmos a correr; temos tempo de sobra para chegar ao aeroporto e fazermos o check-in tranquilamente”.

Outros com grandes implicações, como: “Eu sei que estava escuro e a chover, mas tenho certeza de que foi este homem que arrombou a casa do outro lado da rua”.

Ninguém gosta de estar errado. É uma experiência emocional desagradável.

A questão é:

Como respondemos quando descobrimos que estávamos errados?

Quando não havia leite suficiente para o pequeno-almoço; quando apanhámos trânsito e perdemos o voo, ou quando descobrimos que devido à nossa identificação um homem inocente foi preso.

Alguns de nós admitimos que estávamos errados e dizemos: “Oops, tu estavas certa. Deveríamos ter comprado leite”.

Alguns de nós insinuamos que estávamos errados, mas não o fazemos explicitamente ou de uma maneira que seja satisfatória para a outra pessoa: “Tínhamos muito tempo para chegar ao aeroporto a horas, o problema foi o trânsito estar invulgarmente caótico. Mas tudo bem, para a próxima saímos mais cedo.

Mas algumas pessoas recusam admitir que estão erradas, mesmo diante de evidências esmagadoras: “Eles libertaram-no devido aos testes de DNA e à confissão do responsável? Ridículo! Tenho a certeza que foi ele; eu vi que foi ele!”

O que é que psicologicamente torna impossível admitir os erros? O Ego

Os dois primeiros exemplos são, provavelmente, familiares para a maioria de nós, porque são respostas típicas aos nossos erros.

Aceitamos a responsabilidade total ou parcialmente (às vezes, muito, muito parcialmente), mas não contrariamos os factos.

Não alegamos que havia leite suficiente quando não havia, ou que não estávamos atrasados para ir para o aeroporto.

Mas o que leva as pessoas a reagir contra os factos; a não admitir que estavam erradas em qualquer circunstância?

O que é que psicologicamente torna impossível admitir que estavam erradas, mesmo quando é óbvio que estavam?

E porque é que sistematicamente não admitem que estavam erradas?

A resposta está relacionada com o seu ego.

Algumas pessoas têm um ego tão frágil, uma auto-estima tão baixa, uma constituição psicológica tão fraca, que admitir que cometeram um erro ou que estavam erradas é insuportável para os seus egos.

Aceitar que estavam errados, lidar essa realidade, seria tão catastrófico psicologicamente, que a mente faz algo notável para evitar isso:

– Literalmente, distorce a percepção da realidade.

Dessa forma protegem o ego frágil, mudando os próprios factos na sua mente, para que não estejam errados ou sejam culpados.

Nesse sentido, fazem afirmações do tipo:

“Eu verifiquei e havia leite suficiente, alguém deve ter bebido”.

Quando lhes é dito que ninguém esteve em casa depois de saírem, logo, ninguém poderia ter bebido o leite, eles insistem:

“Alguém deve ter bebido, porque eu verifiquei e havia leite”.

As pessoas que repetidamente exibem esse tipo de comportamento são, por definição, psicologicamente muito frágeis.

A rigidez psicológica que apresentam não é um sinal de força, antes uma indicação de fraqueza.

Aliás, a rigidez psicológica, é, regra geral, sinal de fragilidade.

Estas pessoas não decidem manter-se firmes; são obrigadas a fazer isso para protegerem os seus egos frágeis.

Para admitir os nossos erros é necessária uma certa capacidade emocional.

Normalmente ficamos aborrecidos quando erramos, mas superamos isso.

Entre os que superam os erros, temos uns que o fazem com muita dificuldade: os perfeccionistas.

Mas quando as pessoas são constitucionalmente incapazes de admitir que erraram, quando não conseguem tolerar a ideia de que podem cometer erros, é porque têm um ego demasiado frágil para superar o sentimento de que falharam.

Daí terem que deformar a própria percepção da realidade e contestar factos óbvios no sentido de se defenderem de forma rígida contra a realidade.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins a partir de:

Why It’s So Hard for Some People to Admit They Were Wrong – Guy Winch

O Ressentimento Nas Relações. Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

O Ressentimento nas Relações

A intensidade e a rapidez com que se instala o ressentimento afecta, sobretudo, os relacionamentos afectivos.

Como sabemos, o ressentimento está ligado à vulnerabilidade narcísica.

Estamos a falar de situações em que a pele psíquica é fina e delicada, e, portanto, facilmente ferida.

O ferimento não só desencadeia raiva, como um enorme ressentimento (característico da patologia borderline).

A decepção com alguém ou o desprazer com uma situação leva à rotura do laço afectivo e ao desinvestimento em relação à pessoa ou à situação frustrante.

Em virtude do violento, indomável e duradouro desejo de vingança, dá-se uma retracção narcísica e uma rotura relacional: a rotura por ressentimento.

Trata-se de uma rotura tendencialmente definitiva e dissolvente da representação do outro, que se apaga, quase desaparece.

Consequentemente, surge o sentimento de vazio – fruto da desertificação do mundo interior.

 

o ressentimento está ligado à vulnerabilidade narcísica.

 

O ressentimento resulta do não reconhecimento e insuficiente apreço de que o sujeito foi vítima na infância por parte de pessoas significativas.

E, por vezes, objecto de troça e alvo do ridículo.

O ressentimento é a espinha irritativa que permanentemente espicaça a agressividade destas pessoas.

De realçar que na génese da vulnerabilidade narcísea, está a ausência ou insuficiente confirmação narcísica nos momentos de reaproximação:

– Quando a criança volta à proximidade com as pessoas de referência e espera ver nestas o comportamento de aplauso pelos seus desempenhos.

Mas há ainda outro importante aspecto da rotura relacional por ressentimento. Trata-se do seu desastroso resultado:

O sujeito não parte para a luta, não se bate pela conquista ou reconquista do outro, da relação, do seu próprio objectivo. Fica preso na raiva.

A fim de limitar o sofrimento e a decepção, em fase de circunstâncias desagradáveis ou mesmo insuportáveis, retira-se e desinveste.

Trata-se de um desinvestimento temporário, voltando ao fim de algum tempo a investir de novo.

Muitas vezes, na mesma pessoa ou objectivo: o que se tornou hostil e desprezível pode voltar a ser amável e interessante.

Só a resolução de ressentimentos antigos pode pôr fim a este ciclo.

Bibliografia: “O Desespero” – A. Coimbra de Matos

As famílias dos pacientes Borderline - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

As Famílias dos Pacientes Borderline

Nas famílias dos pacientes borderline  temos um dos pontos-chave da etiopatogenia: a insuficiência narcísica dos pais e a sua própria personalidade limite ou próxima.

A necessidade que alguns pais têm de que os filhos preencham as suas lacunas narcíseas, é um dos aspectos mais importantes para o desenvolvimento dos estados limite.

O amor que dedicam ao filho depende de uma condição: que o filho os complete, lhes dê o brilho que eles não têm ou julgam não ter.

O amor que os pais dedicam não é incondicional, mas condicionado.

O filho é, então, uma espécie de prótese, instrumento ou adorno de um ou de ambos os pais. Só é valorizado enquanto tal, quando e como desempenha essa função.

Função tão essencial para o pai, que o filho será maciçamente desprezado e desinvestido se não a executar.

Vemos, portanto, um amor condicionado, não incondicional (é neste sentido que se emprega o conceito de “amor incondicional”; não, como é óbvio, na acepção de um amor exagerado, sem limites – que seria abafante e impeditivo de um desenvolvimento autónomo e diferenciado.

Trata-se de um vínculo de indiferença mais do que propriamente de hostilidade, que empobrece significativamente a interacção e a vida mental.

As pessoas vivem em conjunto mas sem intimidade afectiva; estão próximas, mas pouco comunicantes; dependentes, mas sem densidade de relação. Têm uma necessidade amorosa que jamais satisfazem.

As mães narcísicas e simbiotizantes tratam os filhos como objectos.

A mãe ou pai narcisista apresenta ainda outro aspecto patológico: o seu amor é captativo – na intenção de receber – e não de um amor oblativo como é próprio dos pais mentalmente saudáveis, e, desde logo, promotores de um desenvolvimento normal.

Cria-se então um laço filho-mãe/pai invertido: é o próprio filho que desempenha a função parental.

Se não cumpre este mandato será eternamente acusado de mau filho, sem amor pelos pais, abandonante, filho ingrato.

Em resumo a etiologia da patologia borderline:

– Personalidade borderline dos pais

– Modos anómalos de comunicação intra-familiar (informação paradoxal, abuso da mentira, manipulação).

– Encorajamento e recompensa dos comportamentos de obediência, de pendência, apego/desencorajamento e punição dos comportamentos de espontaneidade, autonomia e desapego.

– Incompetência e incoerência maternas – respostas inadequadas e ditadas, não pelas necessidades da criança, mas pelas variações de humor da mãe.

– Mães narcísicas e simbiotizantes que tratam os filhos como objectos transitivos, não considerando as suas (deles filhos) próprias necessidades – que, portanto não satisfazem – e controlando-os e utilizando-os para e a seu bel-prazer.

– Falência do pai: ausência de um pai que não só preencha as falhas como corrija os erros maternos e ajude na desidealização da mãe.

Assim, podemos considerar duas ordens de factores causais preponderantes:

a) Pais intrusivos, abafantes, controladores, agressivos, e traumatizantes. Famílias fechadas.

b) Pais distantes, abandonantes, negligentes e rejeitantes. Famílias desunidas.

Bibliografia: “O Desespero” – A. Coimbra de Matos

10 Traços que Podemos Encontrar nos Pais Tóxicos. Pedro Martins Psicoterapeuta

10 Traços dos Pais Tóxicos

É muito difícil criar filhos e ninguém tem o direito de julgar quando se trata do estilo parental de alguém.

Há uma linha muito ténue entre os erros cometidos pelos pais e o comportamento inadequado dos pais tóxicos.

Este artigo pode ajudar a determinar e lidar com situações tóxicas que prejudicam a nossa vida.

1 – “Sê o melhor, mas não te esqueças que não és nada de especial.”

Os pais tóxicos esperam que os filhos tenham um desempenho ao mais alto nível.

No entanto, todas as realizações da criança são consideradas dentro do esperado, portanto, não valorizadas.

Os comentários desagradáveis podem destroçar a vida das crianças, porque crescem convictas que são uma decepção para os pais.

2 – “Aceite a nossa ajuda, mas pare de se aproveitar.”

Estes pais oferecem algo que os filhos, verdadeiramente, não precisam. Mas qualquer recusa gera ressentimento.

Os filhos pensam: “Os meus pais, provavelmente, querem companhia e sentir que são importantes”. Então, aceitam a ajuda, agradecem aos pais e oferecem algo em troca.

Mas não há final feliz porque os pais estão sempre a recordar aos filhos os “favores” que fizeram por eles.

Os filhos ficam reféns dos pais:
– Caso recusem a ajuda dos pais: os filhos sentem-se mal por recusar a ajuda de um parente
– Caso aceitem a ajuda dos pais: os filhos sentem que devem ser gratos aos pais pelo apoio e devem estar prontos para retribuir a ajuda a qualquer momento.

Quando crescemos com pais tóxicos podemos não reconhecê-los como tal.

3 – “Vá embora, mas não me deixe.”

Nas famílias saudáveis, os pais ajudam os filhos a sair de casa e viver a sua própria vida.

Os pais tóxicos nunca querem que os filhos saiam, mas estão sempre atirar à cara que a casa, o dinheiro e a comida são deles.

Qualquer tipo de objecção e argumentação dos filhos é ignorada.

O que estes pais realmente querem? Querem que os filhos sejam submissos e permaneçam ao seu lado!

4 -“Faz o que eu te digo, mas culpa-te a ti próprio se falhares.”

Neste caso, os pais tratam os filhos como um objecto: fazem os seus próprios planos e esperam que os filhos os acompanhem.

A propósito, eles não se importam com as consequências de controlar completamente a vida dos filhos. Se algo der errado, a culpa não é deles.

“Eu fiz tudo por ti”. Frase típica dos pais tóxicos.

5 – “Progrida mas esqueça os seus planos para o futuro.”

Os pais querem que os filhos sejam bem-sucedidos, mas não consideram a forma como isso será feito.

Por exemplo, podem esperar que os filhos construam uma carreira de sucesso desde que nunca saiam de casa.

Os pais narcisistas ficam entusiasmados com as conquistas dos filhos por dois motivos:
– Gostam de se gabar do sucesso (que sentem como seu) dos filhos para que os outros os invejem.
– Filhos bem-sucedidos garantem uma vida melhor para os pais.

Ao mesmo tempo, existem outros pais que estão sempre a lembrar aos filhos que existe uma enorme distância entre os seus desejos a realidade.

Aos poucos os filhos vão interiorizando o pensamento dos pais: “Para quê sonhar alto se os sonhos não se podem realizar?!”

6 – “Confie em mim, mas… cuidado”

Vida privada? Espaço pessoal? Não existem para os filhos de pais tóxicos.

Se você tentar restringir o acesso dos seus pais ao seu “território pessoal”, eles vão acusá-lo de não confiar neles.

Mesmo na sua própria casa um filho adulto não está protegido, uma vez que estes tipos de pais não usam as chaves sobresselentes apenas em caso de emergência.

Os filhos devem responder a todas as perguntas – “Porque não lavaste a chávena?” ou “Porque gastaste dinheiro nessa porcaria?”

Estes pais não respeitam as vidas e as decisões pessoais dos filhos.

7 – “Nem vale a pena tentares porque não chegas lá.”

Quanto mais baixa a auto-estima de uma criança, mais fácil é controlá-la.

Os pais tóxicos discorrem sobre as falhas e os defeitos dos filhos e, na maioria dos casos, comentam a sua aparência, porque é uma das questões mais delicadas, principalmente, nos adolescentes.

Se não existem “defeitos óbvios”, os pais, simplesmente, inventam-nos, e com isso, os filhos vão desenvolvendo sentimentos de inferioridade.

São pais que têm muita dificuldade em aceitar o sucesso e a força de vontade dos filhos.

Relacionamentos com pais tóxicos podem ser difíceis de cortar. Você pode precisar de se distanciar para criar os limites que não consegue estabelecer directamente com eles.

8 – “Partilha comigo, mas não te sintas ridicularizada.”

Os pais narcísicos obrigam os filhos a contar-lhes tudo e às vezes fazem-nos sentir culpados por não compartilharem os seus sentimentos.

Mais tarde, essa mesma informação é usada contra os próprios filhos.

Parentes, vizinhos e outras pessoas estão a par de tudo o que a adolescente compartilhou com os pais. E, os pais, realmente, não vêm nada de errado nisso.

9 – “Você tem que lidar com os problemas dos adultos, mas ainda não tem direitos.”

Nas famílias tóxicas, os pais compartilham os seus problemas e as suas responsabilidades com os filhos.

As crianças são arrastadas para situações para as quais não estão preparadas.

Os adolescentes são obrigados a ouvir as queixas dos pais, ajustar-se a uma “situação complicada”, colocar-se no lugar dos pais, ajudar, tolerar e consolar.

Infelizmente, nestes casos, os filhos não têm o direito de expressar a sua opinião. Só são considerados maduros para aquilo que interessa aos pais.

10 – “Tenha medo de mim, mas ame-me.”

Para os pais tóxicos, um ataque emocional é sinónimo de amor e atenção.

Nestas famílias, as crianças conseguem perceber o estado de espírito dos pais pelo som que fazem ao pousar as chaves quando chegam a casa, ou pela forma como arrastam os pés ao caminhar.

Estas crianças vivem em constante medo e apreensão.

Estes pais, geralmente, ficam ofendidos quando as suas acções (supostamente) amáveis são olhadas com desconfiança.

Recorrem com frequência ao: “Eu fiz tudo por ti, e tu és tão ingrato”.

Os pais tóxicos não querem que os filhos saiam de casa, mas estão sempre atirar à cara que a casa, o dinheiro e a comida são deles.

Como lidar com pais tóxicos?

É muito difícil libertar-se de uma atmosfera tóxica – mesmo para adultos!

No entanto, aqui ficam algumas sugestões que podem ajudar a proteger os limites pessoais e a salvar um relacionamento.

Primeiro, precisamos perceber os seguintes factos:

Nós não podemos mudar o passado.

Um relacionamento tóxico é como uma espécie de doença crónica – é muito difícil curá-la, então é melhor evitar qualquer tipo de complicação.

As recomendações baseiam-se no entendimento de que cada pessoa tem dos seus próprios direitos e necessidades.

Você tem o direito de:

Viver na sua própria casa com as suas próprias regras.

Não tomar parte na resolução de problemas de outros parentes.

Limitar o acesso ao seu espaço.

Pensar pela sua cabeça e ignorar seus pais quando eles disserem “Eu sei o que é melhor para ti”.

Gerir os seus recursos: dinheiro, tempo e esforço.

Escolher os seus interesses pessoais em detrimento dos dos seus pais.

Adaptado a partir de “10 traits of toxic parents who ruin their children’s lives without realizing it”

Illustrated by Marat Nugumanov for BrightSide.me

Pais Tóxicos - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Pais Tóxicos – Descubra como lidar com eles

Se é complicado estar com os seus pais e os evita, há grande probabilidade de eles serem tóxicos.

Não só os relacionamentos tóxicos podem incluir a relação com pais narcísicos, como muitas das relações tóxicas em que nos envolvemos têm como matriz relações familiares disfuncionais.

Quando crescemos com pais tóxicos podemos não reconhecê-los como tal.

Normalmente, os pais tóxicos não respeitam os filhos como indivíduos. Não se comprometem, não assumem a responsabilidade pelos seus comportamentos, nem pedem desculpa.

Os pais tóxicos podem prejudicar os filhos ao ponto de impedirem o seu crescimento, assim como os movimentos no sentido da retoma do desenvolvimento suspenso, da autonomia e da independência.

Quando crescemos com pais disfuncionais, podemos não reconhecê-los como tal. Tudo parece normal.

Podemos estar em negação e não perceber que fomos maltratados emocionalmente, principalmente, quando as nossas necessidades materiais foram satisfeitas.

 

Comportamentos Tóxicos

Aqui estão algumas questões que deve colocar em relação ao comportamento dos seus pais. Se a conduta deles é persistente, pode ser tóxica para a sua auto-estima.

1 – Eles tendem a exagerar ou a fazer cenas?

2 – Eles fazem chantagem emocional?

3 – Eles fazem exigências frequentes e/ou irracionais?

4 – Eles tentam controlar?

5- Eles criticam ou comparam você?

6 – Eles ouvem com interesse?

7 – Eles manipulam, usam a culpa, ou fazem-se de vítima?

8 – Eles culpam ou atacam você?

9 – Eles assumem a responsabilidade e pedem desculpa?

10 – Eles respeitam os seus limites físicos e emocionais?

11- Eles desconsideram os seus sentimentos e necessidades?

12 – Eles invejam ou competem consigo?

 

Separar-se dos pais tóxicos: Seja assertivo e defina limites

A autonomia e a independência do ponto de vista emocional não têm uma relação directa com distância/proximidade física. Mesmo que fisicamente se afaste bastante, a ligação emocional disfuncional pode persistir.

Relacionamentos com pais tóxicos podem ser difíceis de cortar

É mais difícil não reagirmos aos nossos pais do que aos nossos amigos e parceiros, com quem estamos em pé de igualdade. Os pais podem facilmente mexer com os filhos; eles sabem onde está o botão que faz desencadear certo tipo de reacções.

Uma vez que os limites nos foram impostos pela família, quando fazemos certos movimentos que ponham em causa esses limites, a família, em particular os pais, sentem necessidade de nos mostrar que não os devemos ultrapassar.

É muito complicado estabelecer novos limites com os pais, principalmente se você tenha uma mãe que liga (ou “exige” que você ligue) todos os dias; se queixa com frequência de problemas de saúde; diz sentir-se sozinha; faz chantagem emocional, e, dessa forma, provoca sentimentos de culpa.

À medida que os movimentos de autonomização são sentidos pelos pais, como reacção, começam a desferir ataques ao terapeuta, amigos ou companheiro, responsabilizando-os pelo estabelecimento dos novos limites.

Relacionamentos com pais tóxicos podem ser difíceis de cortar. Você pode precisar de se distanciar deles para criar os limites que não consegue estabelecer directamente com eles.

Algumas pessoas cortam com a família por esse motivo.

Os cortes podem ser necessários em casos de pais tirânicos. No entanto, embora reduzam a tensão emocional, os problemas subjacentes permanecem e podem afectar todos os relacionamentos.

É muito melhor, para o seu crescimento emocional, aprender a responder aos ataques.

Superar um relacionamento tóxico começa em si

Quando visitar os seus pais, preste atenção às regras não expressas; aos limites e aos padrões de comunicação. Tente comportar-se de uma forma diferente daquela que tinha quando era jovem.

Preste atenção aos hábitos e defesas que usa para gerir a sua ansiedade.

Pergunte a si mesmo: “Do que tenho medo?” Lembre-se de que, embora possa sentir-se como uma criança quando está com os seus pais, você já não é uma criança. Agora você é um adulto. Se quiser pode ir-se embora, ao contrário de quando era criança.

Superar um relacionamento tóxico começa em si – nos seus sentimentos e atitudes -, e termina em si. A expectativa que os seus pais vão mudar vai diminuindo, até que finalmente percebe que eles nunca vão mudar, mas você vai.

 

Aspectos a ter em mente em relação aos seus pais:

1 – Não é necessário que os seus pais mudem para você ficar bem.

2 – Você não é os seus pais. Eles são uma coisa, você é outra.

3 – Você não é aquilo que eles dizem que você é.

4 – Não é obrigatório gostar dos seus pais, no entanto, pode estabelecer uma nova relação com contornos diferentes e amá-los.

5 – Você não pode mudar os seus pais.

O que você pode fazer

Inicie uma psicoterapia, fortaleça a sua rede de apoio/amigos e procure obter uma independência financeira.

Raiva Narcísica Pedro Martins - Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Raiva Narcísica

A raiva narcísica é uma agressividade maligna, oriunda do ódio ou da hostilidade e geradora da mais temível, destruidora e verdadeira violência – porque uma violência que não pára, dificilmente se esgota e permanentemente se reconstitui.

Esta agressividade é uma reacção ao amor-próprio ferido, ou melhor, à ferida do amor-próprio.

Ao homem não lhe chega ser amado. Precisa não só de amor, como de apreço, admiração, consideração e respeito.

A primeira condição para a organização de uma regular auto-estima, de um normal narcisismo, é o facto – o acontecimento – de ser amado, de ter sido bem-amado. Só tendo sido amado, o indivíduo se ama a si próprio; e amando-se a si mesmo, pode amar o outro.

Mas ao homem não lhe chega ser amado – ter a certeza que tem um lugar no coração daqueles que ama. Precisa – como de pão para a boca -, não só de amor, como de apreço e até de admiração; assim como de consideração e respeito.

Frustrar a pessoa nesta necessidade narcísica é desencadear-lhe uma raiva – dita raiva narcísica – que, inundando toda a personalidade, vai alimentar profundos sentimentos agressivos, traduzidos por inveja, desprezo e desejo de eliminação dos considerados superiores.

O indivíduo com baixa auto-estima é sempre um potencial agressor.

Humilhado, o indivíduo desenvolve uma ferocidade silenciosa mas altamente destruidora e mesmo mortífera.

O acúmulo de ferimentos narcíseos torna o indivíduo mais sensível aos ataques à auto-estima e menos resistente aos seus efeitos devastadores no tónus narcísico (auto-estima básica).

Forma-se uma estrutura narcísica de baixa imunidade e de debilidade narcíseas – com grande intolerância às injúrias ao amor-próprio e um despertar fácil de comportamentos agressivos.

O indivíduo com baixa auto-estima é sempre um potencial agressor. Basta que se conjuguem a provocação e a condição de ser ou se julgar o mais forte.Por aqui se vê quão perigoso é socialmente.

Perigosidade maior porque ataca sempre o mais fraco dado o seu sentimento de inferioridade. É deste terreno que saem os tiranos, os pais violentos e os chefes despóticos.

A criança adquire muito cedo a noção do que é justo ou injusto. Tratada com injustiça, desenvolve um profundo ressentimento.

O ressentimento conduz ao desejo de vingança e à necessidade de reparação (de ser reparado). A acumulação de ressentimento conduz a uma atitude paranóide, querelante e reivindicativa.

DEFINIÇÃO E GÉNESE

A raiva narcísica é a fúria desencadeada pela frustração intolerável. Em face da expectativa enganadora que lhe foi criada pelo outro (falsa promessa), sobretudo quando reiterado, o indivíduo reage com grande sentimento de raiva; sente-se ludibriado.

Muito mais que a privação ou a perda afectiva, o que está em causa na génese do ódio e da raiva é a frustração, designadamente a frustração afectiva: o não aparecimento do amor anunciado.

A vivência repetida ou crónica de frustração afectiva é, por conseguinte, a matriz da hostilidade.

DESENVOLVIMENTO

A desvalorização e desqualificação, a ridicularização e a humilhação vão, seguidamente, condicionar o desenvolvimento da raiva narcísica.

É, com efeito, pela acção destas atitudes do outro ou dos outros que a ferida narcísica se vai alargando, cronicizando, transformando uma verdadeira chaga.

E assim se vai criando um sentimento crónico de orgulho/amor-próprio feridos, alimentando uma raiva constante, sempre pronta a desfechar em violência destrutiva e mortífera.

O homem não nasce violento. É a sociedade que o faz violento.

Porém, pela sua extensa memória, o seu amor-próprio e o seu sentimento de justiça, é potencialmente o ser mais violento.

Está nas mãos da cultura envolvê-lo de afecto, apreço e respeito, e, assim, atacar as raízes da violência.

Bibliografia:

– “Violência Inconsciente” – A. Coimbra de Matos

– “Génese, desenvolvimento e reprodução da violência” – A. Coimbra de Matos

A erotização do contato - Pedro Martins Psicoterapeuta, Psicólogo clínico

A Erotização do Contacto

É difícil viver o defeito narcísico, por isso o depressivo o mascara. Ao mesmo tempo, as defesas contra o afecto depressivo são uma das principais causas do agravamento da estrutura depressiva.

O depressivo, duramente inferiorizado, esconde as vergonhas. O essencial, para ele, é salvar a face narcísica; mesmo que o interior continue ferido e a humilhação bem sentida.

É precisamente nos deprimidos que encontramos a maior resistência à reabertura do ferimento narcísico, falsamente cicatrizado.

A erotização do contacto é um mecanismo antidepressivo por excelência.

A dificuldade de relacionar-se, a que a inferioridade conduz (e que com ela se reforça), tem outra saída: a erotização do contacto.

A erotização do contacto é um mecanismo antidepressivo por excelência. A ansiedade relacional é erotizada e a inibição na relação curto-circuitada.

A ausência de uma figura de amor, a perda não reparada do amor dessa figura – (causa primeira e fundamental do sofrimento depressivo) é negada.

Na relação erótica o investimento no outro é substituído pelo investimento no acto; uma relação funcional e parcial vicariante da relação total de amor  – tida e considerada, como impossível.

Mas sabemos bem a miséria que esconde, a insatisfação que comporta, a monotonia em que se traduz, o aborrecimento a que conduz – a depressão que se iludiu e que cada vez mais se vai tornando mais funda.

“Fugir à depressão é agravar a depressividade”

Fugir à depressão e ao afecto depressivo da perda e ao tempo de depressão que é necessário para elaborar e fazer o trabalho do luto é agravar a depressividade.

Sem esse trabalho não é possível conquistar um novo amor – única cura da depressão-doença -, reorganizando uma relação vital (não há vida mental saudável sem uma constância de amor).

O poder sentir, reconhecer e viver o vazio – de forma temporária – conduz, lógica e necessariamente, ao preenchimento, a novo encontro ou reencontro, e assim, substitui-se o vazio – que quando ignorado, caminha para o definitivo.

Caso contrário, é a morte da esperança, com a idealização do prazer. Parafraseando Samuel Johnson, diremos que: a vida não é um salto de prazer em prazer, mas um voo de esperança em esperança.

A relação biológica, animal, é ditada pelo instinto, mas a relação humana, pessoal, é nutrida pelo afecto.

A partir de: “Compensação narcísica e erotização do contacto” – A. Coimbra de Matos

Ciúme e Inveja Psicoterapia

O Ciúme e a Inveja. Descubra as diferenças

O ciúme é um sentimento vivido na relação triangular (a três) originado no receio de perder o objecto de amor; a dificuldade no ciúme é a repartição do amor do outro.

O indivíduo pretende ser único e exclusivo depositário desse amor.

“O ciúme é um sentimento altamente perturbador e está na origem dos mais variados dramas passionais.”

No ciúme o sujeito luta pela posse total e exclusiva do amor do outro, sabendo de antemão que isso não é possível pela consciência que tem da existência de um terceiro.

Presente nos mais variados quadros clínicos, é sobretudo característico da estrutura obsessiva.

Trata-se de um sentimento forte e altamente perturbador que está na origem dos mais variados dramas passionais e portanto, traz muitos pacientes para a terapia.

Costuma-se distinguir entre ciúmes neuróticos (que corresponde à breve descrição que fizemos), os ciúmes mórbidos ou patológicos e os ciúmes delirantes, conforme o grau de maior ou menor crítica; os ciúmes patológicos ligam-se com a estrutura depressiva; o delírio de ciúme com a paranóia.

A inveja é um sentimento vivido na relação binária (a dois) e que traduz uma incompletude narcísica. É um sentimento de falta, experimentado na comparação com o outro; e condiciona o desejo de possuir os atributos desse outro.

O sentimento de inveja vai operar pela vida fora em todas as circunstâncias em que a consciência de défice se agudiza e a idealização do outro se avoluma, sendo portanto fácil de estalar em toda a estrutura narcisicamente tocada e em toda a relação em que o outro se torna demasiado importante para a segurança do sujeito.

Se o outro demonstra ou exibe aos olhos do sujeito, por qualquer forma, a sua qualidade de superior, a inveja duplica. Passa de um ressentimento e desejo de apoderar-se das posses e atributos do outro (que caracteriza genuinamente a inveja) para o desejo de o destruir; é nesta sequência se organiza o desejo de poder.

“No ciúme e na inveja o amor-próprio é altamente atingido.”

Enquanto na inveja conta um sentimento de falta e um desejo de apoderar-se, no ciúme está em causa um sentimento de perda ou ameaça de perda e um desejo de reter.

Em ambos os casos, a agressividade e o ódio jogam um papel predominante na relação com o outro. Num e noutro caso, o amor-próprio é altamente atingido; na inveja, sobre a forma de ressentimento; no ciúme, de humilhação. À revolta no invejoso, corresponde a depressão no ciumento.

Na inveja há um défice narcísico e no ciúme um ferimento narcísico; o invejoso sente-se pobre, o ciumento empobrecido.

Centrado no sentimento de perda, o ciumento oscila entre os pólos da depressão e da raiva: quanto mais agressivo, menos deprimido.

Enquanto o invejoso jamais se sente suficientemente poderoso, o ciumento nunca se sente completamente amado.

Na inveja o tom afectivo básico é a insatisfação; no ciúme a tristeza. O ciumento sente-se desvalorizado, é tímido e submisso; o invejoso ambiciona e luta (isto numa visão extremada, é evidente).

Estas descrições – da inveja e do ciúme – são notoriamente esquemáticas e intencionalmente forçadas, para bem distinguir os cambiantes típicos dos afectos (as suas estruturas) em causa. Na vida afectiva real, o que encontramos é uma mistura dos dois sentimentos, polarizando-se mais num sentido do que noutro.

A partir de “A inveja e o ciúme.” A. Coimbra de Matos

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