Categoria: Vinculação

Casais explosivos - Pedro Martins Psicoterapeuta

Casais Explosivos

Há muitas maneiras dos casais serem infelizes no amor, mas existe uma, a que psicologia moderna tem dado especial atenção:

– Os relacionamentos em que uma das partes tem um padrão de vinculação inseguro evitante e a outra, um padrão inseguro ansioso.

(Ver Teoria da Vinculação) (Veja qual é o seu estilo de Vinculação)

A teoria desenvolvida por J. Bowlby pressupõe dois estilos de vinculação:

Vinculação Segura.

Vinculação Insegura.

Por sua vez, a vinculação insegura divide-se em ansiosa e evitante.

 

Em primeiro lugar, temos aqueles que têm uma vinculação segura:

– São os que tiveram boas experiências na infância.

Esperam e fazem com que sejam bem tratados por aqueles que amam.

Trata-se de pessoas afortunadas que são capazes de empatizar e de ser generosas.

Comunicam com honestidade e objectividade as suas necessidades.

Assume-se que cerca de 50% da população tem uma vinculação segura.

 

Aqueles que na infância foram sujeitos a grandes decepções e traumas formam os restantes estilos de vinculação: Insegura-Ansiosa / Insegura-Evitante.

O que torna as coisas ainda mais complicadas é o facto das pessoas com um estilo inseguro evitante serem frequentemente atraídas para formar casais com as pessoas do estilo inseguro ansioso, onde as suas características emocionais contribuem para uma combinação particularmente explosiva.

 

Casais explosivos: as pessoas com um estilo inseguro evitante são frequentemente atraídas para formar casais com as pessoas do estilo inseguro ansioso.

 

As pessoas com vinculação insegura ansiosa terão num relacionamento o sentimento característico de não serem devidamente apreciadas e amadas.

Estão convencidas de que com mais proximidade, ternura e sexo a união pode ser possível.

Os parceiros com quem estão, no entanto, parecem-lhes dolorosamente desapegados.

Parece que nunca querem com tanta intensidade quanto a que eles oferecem.

Ficam profundamente magoadas com a frieza e a distância e, aos poucos, começam a sentir auto-aversão e rejeição.

Desvalorizadas e incompreendidas, são invadidas por sentimentos de vingança e ressentimento.

Por um longo período, podem calar as suas frustrações até que, eventualmente, o desespero irrompe.

Mesmo que seja num momento muito inadequado, não conseguem deixar de procurar resolver os problemas naquela ocasião.

Previsivelmente, esse tipo de discussão corre muito mal.

O parceiro ansioso perde a calma; exagera e crítica com tanta maldade que deixa o parceiro evitante convencido de que ele é louco e mesquinho.

Um parceiro seguro pode saber como acalmar a situação, mas um evitante, certamente, não é capaz.

Tragicamente, o evitante desencadeia uma insegurança ainda maior no parceiro ansioso.

Sob pressão para ser mais carinhoso e próximo, o parceiro evitante instintivamente retrai-se.

Sente-se perseguido; fica frio e desconecta-se, aumentando ainda mais a ansiedade do parceiro.

Por baixo do seu silêncio, o evitante está magoado por se sentir “controlado”.

Tem a sensação de ser perseguido: injustamente perseguido devido à “carência” do outro.

Silenciosamente pode fantasiar sair para fazer sexo com alguém, de preferência, um completo estranho.

 

A maioria de nós pode não ser completamente saudável no amor, mas pode encontrar formas de manter um bom relacionamento.

 

É importante saber que isto não se passa apenas no seu relacionamento.

Existem, literalmente, milhões de relações onde se passam coisas idênticas.

É igualmente importante, ter consciência de que as causas do sofrimento, que são tão pessoais e tão duras, são na verdade fenómenos gerais, e estão bem estudadas.

A solução, como sempre, passa pelo conhecimento; pela consciencialização.

Há uma grande diferença entre a pessoas ansiosas e evitantes agirem os impulsos e, como seria preferível, perceberem que eles fazem parte de nós; saberem de onde vieram e explicarem a si próprias e aos outros por que somos levados a fazer as coisas que fazemos.

Não podemos – a maioria de nós – ser completamente saudáveis no amor, mas também podemos ser algo quase tão benéfico:

Podemos ser pessoas comprometidas em explicar o nosso comportamento patológico (motivado por várias coisas) em tempo útil, antes de nos tornarmos excessivamente furiosos e magoar os outros, e, posteriormente pedir desculpa pelo sucedido.

Há poucas coisas mais românticas, no verdadeiro sentido da palavra, do que um casal que aprendeu a compartilhar de forma franca e delicada, o que os levou a reagir de certa forma, e que tudo farão para rapidamente voltar ao normal.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de Alain de Botton

 

O que o seu estilo de vinculação pode revelar sobre a sua sexualidade.

O que a vinculação pode revelar sobre a sua sexualidade

O sistema comportamental de vinculação evoluiu no sentido de aumentar as possibilidades de sobrevivência das crianças e o sucesso reprodutivo futuro, mantendo a proximidade com os cuidadores.

A qualidade das interacções repetidas com as figuras de vinculação molda gradualmente os padrões “definitivos” de como a pessoa de vê a si própria, assim como os objectivos relacionais.

As interacções com as figuras de vinculação que respondem às necessidades da pessoa promovem um sentimento de vinculação segura.

Este sentimento de segurança proporciona a confiança de que se é digno do amor dos outros.

E que esses outros significativos nos apoiarão quando necessário, levando à consolidação de objectivos interpessoais voltados para a construção de relacionamentos íntimos.

Quando as figuras de vinculação respondem às necessidades da pessoa promovem um sentimento de confiança.

Em contraste, interacções com figuras de vinculação que são inconsistentemente responsivas ou consistentemente não responsivas resultam na adopção de estratégias alternativas para lidar com a insegurança resultante:

Hiperactivação e desactivação do sistema de vinculação, respectivamente.

Estas duas estratégias defensivas de vinculação ajudam a proteger a pessoa da angústia, de acordo com os medos que a motivam.

As estratégias de hiperactivação, que caracterizam a vinculação insegura ansiosa, resultam dos medos extremos de abandono e envolvem respostas de protesto destinadas a levar as figuras de vinculação a prestar atenção às suas necessidades.

As estratégias de desactivação, que caracterizam a vinculação insegura evitante, são alimentadas por medo da intimidade e envolvem respostas de fuga destinadas a manter a distância emocional e a confiança nos relacionamentos íntimos.

Estas estratégias iniciais acompanham as interacções interpessoais da pessoa durante toda a sua vida, afectando os níveis desejados de intimidade e interdependência nas relações profundas (teste aqui o seu estilo de vinculação).

A vinculação segura permite abordar a sexualidade com confiança e facilita a intimidade sexual.

Assim, é provável que influenciem a sexualidade no contexto dum relacionamento, incluindo os tipos de desejos que as pessoas pretendem satisfazer, os tipos de relação que procuram e o que entendem como sexualmente desejável com os parceiros actuais e potenciais.

As pesquisas indicam que a vinculação segura encoraja uma abordagem auto-confiante da sexualidade, facilita a intimidade sexual e o prazer nas interacções sexuais mútuas no contexto de relacionamentos profundos.

Em linha com os objectivos de construção dum relacionamento, os indivíduos com uma vinculação segura envolvem-se em sexo, principalmente, para melhorar o vínculo emocional (por exemplo, para expressar amor pelos seus parceiros) e são menos propensos do que os indivíduos menos seguros a envolverem-se em sexo casual.

O sentimento de segurança, que é caracterizado por uma relativa despreocupação com a ligação ao outro e inexistência de ansiedades quanto ao desempenho sexual, permite que os indivíduos com vinculação segura respondam com sucesso às preferências sexuais dos parceiros sem comprometer as suas próprias necessidades.

No geral, a abordagem confiante da sexualidade que acompanha a vinculação segura facilita um envolvimento prazeroso em actividades sexuais afectivas e exploratórias, promovendo, assim, a qualidade e a longevidade do relacionamento.

Por outro lado, os padrões inseguros de vinculação (ansioso / evitante) tendem a prejudicar o funcionamento sexual nos relacionamentos amorosos.

Os medos de rejeição das pessoas muito ansiosas podem levá-las a usar o sexo para responder às suas necessidades não satisfeitas de ligação profunda.

Se uma pessoa se sente permanentemente insegura quanto a ser amada, se essa insegurança se reflecte em preocupações quanto ao relacionamento ou em medo da intimidade, é pouco provável que a sexualidade dessa pessoa seja satisfatória.

A natureza desta interferência, no entanto, reflecte-se de forma distinta na vida amorosa das pessoas com vinculação insegura ansiosa, das pessoas com vinculação insegura evitatante.

Os medos de rejeição das pessoas muito ansiosas podem levá-las a usar o sexo, que é uma via proeminente para buscar proximidade (ver Erotização do Contacto), para responder às suas necessidades não satisfeitas de ligação profunda.

Tendem, por exemplo, a sexualizar o seu desejo de afecto e são propensos a ter sexo para conquistar um parceiro e/ou a manipular o parceiro para reduzir as possibilidades de abandono.

O “sexting” pode ser outra manifestação da sexualização das suas necessidades de vinculação.

Em concreto, tendem a enviar textos onde instam à actividade sexual, provavelmente, na esperança de obter uma resposta positiva dos seus parceiros e seduzi-los para um relacionamento mais profundo.

Infelizmente, as ansiedades de relacionamento das pessoas muito ansiosas continuam a assombrá-las no quarto, levando a comportarem-se de forma contraproducente que, por vezes, ironicamente, pode contribuir para a concretização dos seus piores medos.

Por exemplo, o medo que as pessoas muito ansiosas têm de perder os parceiros, leva-as a aceder aos desejos deles e a envolver-se em actividades sexuais indesejadas e muitas vezes arriscadas (por exemplo, relações sexuais desprotegidas).

Ao mesmo tempo, as suas próprias preferências sexuais podem não ser expressas.

As pessoas com vinculação insegura ficam desconfortáveis com proximidade imposta pelo contacto sexual e, assim, tendem a privar o sexo da intimidade psicológica.

A inibição das necessidades sexuais, juntamente com as preocupações com o relacionamento (por exemplo, sentir angústia de separação durante o sexo), impedem que se deixem levar pelas sensações eróticas, resultando em menor prazer e várias dificuldades sexuais.

As dificuldades sexuais, por sua vez, tendem a frustrar as expectativas irreais das pessoas altamente ansiosas em relação à “união perfeita” e a gerar um ciclo erosivo de preocupações no que diz respeito ao relacionamento e à sexualidade.

As pessoas muito evitantes, em comparação, sentem desconforto com a proximidade imposta pelo contacto sexual e, assim, tendem a privar o sexo da intimidade psicológica.

Especificamente, tendem a ter relações sexuais por motivos egoístas (por exemplo, melhorar a performance, reduzir o stress).

Estes objectivos sexuais momentâneos, combinadas com um baixo compromisso na relação, podem explicar por que reagem favoravelmente ao sexo “sem compromisso” e se envolvem em sexo fora dos relacionamentos.

As pessoas evitantes distanciam-se dos seus parceiros não apenas por se envolverem em sexo extra-conjugal, mas também porque raramente têm fantasias íntimas com os seus parceiros.

Assim, investem na actividade sexual solitária da masturbação, em vez de terem relações sexuais frequentes com os parceiros.

Quando as pessoas muito evitantes fazem sexo com os parceiros, são menos propensas a demonstrar afeição e a responder às necessidades dos seus parceiros.

As pessoas com vinculação insegura são mais susceptíveis de ter dificuldades sexuais e relacionais.

O descontentamento na relação transborda para o seu mundo de fantasias, e interfere na gratificação das suas próprias necessidades sexuais.

No geral, as dificuldades das pessoas evitantes em atenuar os medos da intimidade, que se estendem até ao mundo protegido das fantasias sexuais, privam a relação de calor e negam a oportunidade de experiências reparadoras.

Tomados como um todo, as pessoas com vinculação insegura são susceptíveis a ter dificuldades sexuais e relacionais.

No entanto, paradoxalmente, as relações de pessoas com vinculação  insegura são especialmente propensas a beneficiar do sexo.

Para essas pessoas, satisfazer a actividade sexual carrega o potencial de reduzir os receios de ligação e, assim, produzir um ambiente no relacionamento que conduza à formação de uma verdadeira intimidade.

Essa sensação de intimidade crescente, por sua vez, pode aumentar o desejo sexual entre os parceiros, intensificando ainda mais o relacionamento.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins a partir de: What you attachment style may reveal about your sex life – Gurit E. Birnbaum

Qual é o seu estilo de Vinculação? Psicoterapia

Qual é o Seu Estilo de Vinculação? Faça o Teste.

Um dos mais importantes questionários da história da psicologia do século XX teve um início modesto nas páginas de um jornal local do Colorado, “The Rocky Mountain News”, em Julho de 1985.

O questionário desenvolvido por Cindy Hazan e Phillip Shaver (psicólogos da universidade de Denver) pedia aos leitores que indicassem com qual das três afirmações se identificavam quando estavam apaixonados.

A: Eu acho relativamente fácil aproximar-me dos outros e fico confortável dependendo deles, assim como tê-los dependentes de mim. Eu não penso em ser abandonado nem temo que alguém se aproxime demasiado de mim.

B: Eu acho que os outros ficam relutantes em aproximar-se tanto quanto eu gostaria. Preocupo-me muitas vezes com o facto de o meu parceiro não me amar de verdade ou de não querer ficar comigo. Eu quero ficar muito perto do meu parceiro, e isso às vezes assusta as pessoas a ponto de se afastarem.

C: Sinto-me um pouco desconfortável perto dos outros. É difícil confiar completamente neles e permitir depender deles. Fico nervoso quando alguém se aproxima muito, e, com alguma frequência, os outros querem que eu seja mais íntimo do que me sinto confortável a ser.

As opções acima dizem respeito aos três principais estilos de vinculação – Seguro; Inseguro Ambivalente/Ansioso; Inseguro Evitante – identificados pela primeira vez pelo psicólogo e psicanalista inglês John Bowlby, o autor da Teoria da Vinculação, nos anos 50 e 60.

 

Opção A assinala o que é conhecido como um padrão Seguro de vinculação, no qual o amor e a confiança surgem facilmente.

A opção B refere-se ao estilo Inseguro Ambivalente/Ansioso. É o caso em que a pessoa deseja ter intimidade com os outros, mas está continuamente com medo de ser decepcionada e, muitas vezes, precipita crises nos relacionamentos através de comportamentos hostis.

A opção C diz respeito ao padrão Inseguro Evitante de vinculação. Aqui, os perigos da intimidade são evitados através de actividades solitárias e de uma retirada emocional.

 

Se há coisa que devemos fazer para melhorar os nossos relacionamentos, é saber a qual das três categorias, predominantemente, pertencemos, e, olhar para os relacionamentos amorosos à luz desse conhecimento, no sentido de ficarmos mais conscientes das armadilhas em que podemos cair.

Acresce que metade de nós, pelo menos, não está seguro em relação ao amor, o que provavelmente nos coloca entre o evitante e o ansioso, e temos – para complicar ainda mais – uma propensão acima da média para nos apaixonarmos por alguém que corresponde à outra face da moeda, agravando, assim, as nossas inseguranças e defesas.

 

Aqui está uma breve lista do que as pessoas do tipo Evitante e Ansioso devem ter em mente nos seus relacionamentos:

SE FOR TIPO EVITANTE COM UM PARCEIRO ESTILO ANSIOSO

– Reconheça em que medida procura confirmações afectivas quando as coisas são mais profundas, especialmente, quando o outro deseja mais proximidade.

– Veja se tende a preferir sexo e proximidade com “estranhos” e que fica nervoso e/ou incomodado com carinhos e beijos. Provavelmente, você também prefere “fazer as coisas” com a luz apagada.

– Tente perceber se está a sabotar a intimidade a longo prazo.

– Seja compreensivo com o facto de você temer o que realmente quer.

– Pense em como, no seu passado, a proximidade foi assustadora porque as pessoas o decepcionaram e observe como você adoptou uma estratégia de retirada para se proteger. Você não quer fazer mal ao seu parceiro, mas tendo em conta o seu passado, existe alguma probabilidade de isso acontecer.

– Lembre-se de que o presente é diferente do passado e que você, ao trazer receios antigos está a pôr em risco o presente.

– Pode parecer que o seu parceiro está a ser agressivo e mal-humorado consigo sem motivo. No entanto, ele é incapaz de expressar as necessidades de outra forma. É você que ele quer, e é exactamente por isso que se comporta dessa forma.

 

SE FOR ESTILO ANSIOSO COM UM PARCEIRO EVINTANTE

– As coisas não são, necessariamente, tão más quanto parecem.

– O silêncio pode ser apenas silêncio, e não falta de amor. A distância não é maldade, mas a maneira de manter o equilíbrio.

– Veja os ataques como desejo de amor.

– Você não é insensato ou “necessitado” por querer mais; mas a sua maneira de lidar com o que legitimamente precisa está a complicar enormemente as coisas.

– Você está “espicaçar” o seu parceiro ao pedir mais intimidade de forma muito directa. E é provável que o esteja a fazer com alguma dose de raiva.

– Mentalize-se de que precisa ir muito devagarinho e gerir bem a distância no que diz respeito ao seu desejo de proximidade.

– O seu parceiro não é maldoso ou bizarro, mas somente tão afectado quanto você. E isso é muito normal; 40% da população encontra-se nas mesmas circunstâncias.

 

Em termos de conclusão, dizer que é muito importante saber onde nos situamos no que diz respeito aos estilos de vinculação nos relacionamentos afectivos.

Não se trata apenas de um importante conhecimento sobre nós mesmos; a partir dele, caso nos encontremos algures na linha Evitantes/Ansiosos, podemos e devemos actuar para que os nossos relacionamentos não sejam postos em causa, possam prosperar e trazerem-nos o retorno desejado.

 

automutilação -psocura de atenção ou de vinculação

Automutilação: O Que É e Como Ajudar

A automutilação num amigo, num parceiro, num filho ou em alguém com quem você trabalha pode gerar uma profunda ansiedade e suscitar uma série de sentimentos perturbadores – confusão, raiva, desamparo, preocupação e até pânico.

Esses sentimentos podem levar aqueles que estão a tentar apoiar a pessoa que se mutila a entrar num modo socorrista (eu tenho que fazer tudo o que eu puder para que ele pare) ou, em vez disso, uma espécie de menosprezo bem-intencionado (eles estão à procura de atenção, se eu ignorar, isso desaparece).

 

“É como se toda a dor que se vem acumulando há dias, simplesmente, se desvanecesse num único momento”

 

Porque é que ele se magoa? Porque é que não pode, simplesmente, falar comigo? Como posso pará-lo? Essas são as questões que circulam em torno do problema da automutilação. Então, naturalmente, no meio de toda esta preocupação e pânico – há a questão de como é ser a pessoa que se está a ferir?

Porque se automutilar?

A automutilação não é um distúrbio mental. A automutilação é um problema na regulação emocional. A regulação emocional significa a capacidade de uma pessoa (a) perceber que está a viver uma experiência emocional; (b) que a nomeie e compreenda; (c) a expresse aos outros de uma forma sadia e, finalmente (d) gerir o sentimento de modo a torná-lo mais tolerável. Algumas crianças, adolescentes e adultos voltam-se para a automutilação porque o seu sistema de regulação emocional não é suficiente para diminuir a dimensão – insuportável – da sua dor.

Podemos ver isso na forma como as pessoas que se mutilam descrevem o que sentem. Essa percepção é valiosa para aqueles que tentam entender a automutilação. Eis o que nos foi dito por pessoas que acompanhamos em psicoterapia:

“É como se toda a dor que se vem acumulando há dias, simplesmente, se desvanecesse num único momento”

“Quando eu me corto, é o único momento que me sinto real, viva, como estou aqui agora”

“É como se a automutilação fosse o meu único amigo que me faz sentir melhor.”

“Eu não quero que as pessoas saibam, não se trata de dizer “olhe para mim”, é sobre encontrar uma maneira de me sentir calma sem magoar ninguém”

“É a única coisa que posso controlar na minha vida, por isso diminui a minha ansiedade.”

“Se eu não me cortasse, estaria morta. Cortar, literalmente, mantém-me viva”

 

Indivíduos que lutam para tolerar a dor e o stress e pessoas com problemas psicológicos, frequentemente, encontram-se num estado de hiper-excitação (excepcionalmente alerta, nervosos, ansiosos) ou num estado de hipo-excitação (sentindo-se mortos e entorpecidos interiormente). A automutilação é uma maneira poderosa de encontrar o meio-termo entre os dois estados emocionais extremos. Quando estão ansiosos, a automutilação acalma; e quando se sentem mortos por dentro, a automutilação desperta o corpo e a mente. A automutilação torna-se a figura de vinculação da pessoa, a sua base segura.

Procura de atenção ou procura de vinculação?

Como pais, amigos, professores, cônjuges – nós tentamos fazer o melhor possível para entendermos quem se mutila. Podemos, naturalmente, vê-lo como uma maneira de chamar à atenção; e assim podemos ignorá-lo, minimizá-lo ou criticá-lo, ou pior – gozar.

Há uma outra maneira, mais compassiva, mas também mais eficaz, de ver e compreender a automutilação: é vê-la como uma busca de vinculação.

Um marco fundamental para uma criança pequena é aprender a regular as suas emoções, e elas fazem isso com a ajuda das suas figuras de vinculação (pais, cuidadores, outras pessoas importantes), que de alguma forma entremeiam essa regulação.

 

“Aqueles que não desenvolveram a capacidade de regulação emocional em pequenos vão encontrar outras maneiras de trazer as suas figuras de vinculação para perto.”

 

A teoria da vinculação mostra-nos que aqueles que não desenvolvem a capacidade de regulação emocional quando são pequenos (devido ao stress familiar, estilo parental, temperamento, problemas de saúde e assim por diante) encontram outras maneiras (inseguras) de trazer as suas figuras de vinculação para perto. De alguma forma, isso traz-lhes conforto e segurança. Alguns indivíduos escondem as suas emoções e, portanto, mantêm os outros por perto porque não são um “problema”; outros podem fazer um grande alarido das suas necessidades, e isso mantém os outros por perto, com o intuito de responder à crise.

Então, o que é que isso tem a ver com a automutilação? A automutilação é um comportamento de busca de vinculação. Aqueles que se mutilam em segredo (sem que ninguém saiba) regulam as emoções e mantêm os outros afastados. Assim, lidam com dor sozinhos, pois para eles parece mais seguro. Os que não escondem a automutilação sentem-se mais seguros quando os outros os atendem, seja por meio de compreensão ou por meio de críticas. Qualquer atenção é melhor que nenhuma atenção.

Embora a ‘atenção’ possa ser uma consequência da autoagressão, o propósito dela é regular a emoção e / ou aproximar os outros, a fim de atender a uma necessidade emocional não satisfeita.

Então, o que fazer?

A experiência de trabalhar com pessoas que se mutilam mostrou-nos que minimizar, ignorar ou criticar a pessoa não funciona. Na verdade, isso piora! As reações bem-intencionadas de outras pessoas aumentam o sentimento de vergonha e autoaversão na pessoa que se mutila, o que aumenta a necessidade de se mutilar.

Em vez disso – procure ligar-se emocionalmente e reflicta sobre o que sente. Faça o que precisa fazer para se sentir emocionalmente conectado – mostre que se importa; mostre que está lá. Então, e só então, você pode ajudá-los a lidar com o problema.

Aqui estão as nossas principais dicas:

  1. Fale sobre isso. Deixe-os saber que você notou; que está curioso. Que você questiona que sentimento leva uma pessoa a magoar-se. Não deixe que a automutilação seja um elefante no meio da sala.
  2. Mantenha-se calmo e com os pés assentes na terra. A sua ansiedade criará mais ansiedade neles. Eles precisam que você seja firme, cuidadoso e que não faça julgamentos.
  3. Tente imaginar que necessidade emocional está por trás da automutilação, caso eles não o consigam colocar em palavras. Ofereça-lhes a sua “linguagem afectiva”, seja isso um abraço, aceitação, palavras gentis, actos de reflexão ou respeito.
  4. Mostre que você “os mantém em mente” mesmo quando não estão juntos.
  5. Ajude-os a elaborar os seus “gatilhos”. O que lhes dá a vontade de se mutilar? Pensar em conjunto que tipo de coisa faz disparar a vontade de se mutilar pode levar à sua redução.
  6. Escolha com cuidado a quem você conta. Outras pessoas saberem pode causar vergonha, mas também pode ser um alívio. Decidam juntos.
  7. Fique de olho na segurança. A automutilação não leva ao suicídio, mas as pessoas com tendências suicidas são mais propensas a se automutilar. Incentive-os a cuidar das suas feridas.
  8. Considerem o tratamento psicoterapêutico. Situações destas raramente se resolvem sem apoio especializado.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de “Self-harm: Attention seeking or attachment seeking? –  Shoshanah Lyons

como construímos a nossa identidade

Como construímos a nossa Identidade

A construção da Identidade passa por um processo de identificação.

O termo identificação em psicologia presta-se a uma certa dificuldade porque é utilizado em dois sentidos:

1 – Identificação como operação mental de reconhecimento, como actividade gnóstica; identificar um objecto ou uma pessoa consiste em caracterizá-lo e reconhecê-lo, sendo portanto uma acção intelectual de abstracção e generalização e de comparação, uma operação lógico-dedutiva que enriquece a experiência sensório-motora e a actividade da senso-percepção.

2 – Identificação como movimento construtivo da personalidade, consistindo numa transformação do próprio por apropriação de características do outro.

A identificação – construção da identidade – nem sempre se faz pela interiorização de qualidades e atributos do outro, designada de identificação positiva. A identificação também se processa no sentido oposto: modificação do próprio pela criação de características opostas às do modelo; é a chamada identificação negativa (neste caso é mais um objecto de contraste do que de identificação).

Na identificação positiva está em causa uma relação amorosa com o objecto de identificação; na identificação negativa, uma relação de agressividade (“gosto tanto dele que quero ser como ele” , odeio-o tanto que quero ser bem diferente”).

Por isso a identidade positiva é estável e tranquilizadora, e a identidade negativa, instável e inquietante. A identidade negativa é um importante factor na génese do comportamento dissocial, mas também – em certa medida – da diferenciação individual.

Não se nasce com uma identidade psíquica; ela é uma construção pessoal.

Não se nasce com uma identidade psíquica; construímos a nossa identidade subjectiva. A identidade é, pois, uma construção pessoal. Até porque a percepção de que nós temos (quem somos e para onde tendemos), que temos do outro e que o outro tem de nós, é indicada pela introjecção do que necessitamos e pela projecção daquilo que desejamos; pois na compreensão das pessoas e de nós próprios a descriminação e avaliação cognitivas têm como suporte prínceps a qualificação emocional.

Parte-se, é certo, da identidade biológica, objectiva e de um programa genético para o seu desenvolvimento. Mas – sublinho – de um programa aberto: que permite um leque relativamente amplo de evoluções possíveis, mesmo da própria constituição biológica; muito mais, da organização mental.

O meio, sobretudo o ambiente afectivo-humano e socio-cultural, modela-nos e, até certo ponto, pode transformar-nos. As relações pessoais (interpessoais) significativas – na sua essência, relações intersubjectivas -, são a base e o veículo da construção identificativa que nos forma e, a todo o tempo, transforma. Somos, pelo menos em certa medida, uma criação do sistema relacional em que vivemos e convivemos – vale dizer, da relação afectiva em que fomos envolvidos e nos envolvemos: seja, uma criatura do outro e para o outro.

Porém, e sobremaneira, somos também – e desde o início – criadores activos (passe a redundância), espontâneos e livres do nosso ser psíquico, da identidade peculiar que nos vai definindo e diferenciando. Ser intencional por excelência, o homem constrói-se – mais que é construído. Para além de sermos – é preciso dizê-lo -, nós próprios, os construtores do mundo – e únicos obreiros, com os outros (em colaboração, abraço humano), do universo civilizacional e político que psicologicamente habitamos.

É esta posição eminentemente intencional e transformadora – de mim e do outro, meu parceiro de relação – e que nos distingue dos bichos.

E é no vínculo com o semelhante, na relação de apego e intimidade – relação biunívoca de amor e de descoberta – que me conheço e reconheço: sei quem sou e o que valho.

vinculação apego

Vinculação saudável e patológica

Vinculação saudável e patológica

Muito do que somos resulta da forma como – tipo de vinculação – fomos criados na infância.

Apego é um termo definido pelo psiquiatra e psicanalista John Bowlby, que analisou as carências das crianças que ficaram órfãs na 2ª Guerra Mundial.

Bowlby afirmou que a nossa necessidade de apego não é secundária à alimentação, como era defendido na altura. Constatou que a forma como fomos cuidados por certas figuras de referência se reflecte nos sentimentos de segurança.

Os cuidados físicos, emocionais e mentais vão mudando ao longo das fases de desenvolvimento. Uma vinculação segura, geralmente, é considerada concluído aos 18 meses. É por isso que hoje se considera que a licença de maternidade e paternidade deve ter no mínimo a duração de um ano.

A vinculação é uma necessidade básica determinada pela espécie. Precisamos de amor, amparo e alimentação. Dependendo da forma como esses cuidados são prestados, adquirimos resistência à adversidade ou ficamos vulneráveis, o qual é um factor de risco muito importante no que diz respeito à possibilidade de sofrer transtornos mentais a partir da adolescência.

Há vinculações saudáveis e patológicas.

A vinculação segura é aquela nos torna resilientes. Não significa que devemos estar todo o dia agarrados à criança. Pelo contrário, deve promover-se a sua autonomia de acordo com as fases; em cada idade a criança precisa de um tipo diferente de relação afectiva e cognitiva.

Os transtornos de personalidade estão intimamente relacionados com o nosso modo de vida. O estilo parental influencia muito. Se uma criança é criada numa vinculação segura, a probabilidade de ter uma doença mental é baixa.

Uma vinculação saudável promove autonomia pessoal. Em cada momento, temos que nos separar um pouco dos nossos filhos para que possam explorar e relacionar-se com o mundo.

O excesso de preocupação – Por exemplo, a sobreprotecção leva a uma vinculação insegura e com menor resistência à adversidade. É o mal da sociedade moderna; está relacionado com transtorno da personalidade limite (borderline). Quando os pais são muito protectores, na adolescência os filhos fazem rupturas muito marcadas, como forma de os castigar.

A outra vinculação que favorece o transtorno mental é a vinculação insegura evitante, que é completamente ao contrário: pais excessivamente desapegados. A criança é separada ainda muito jovem, e o que é importante é a rectidão. É um apego que está relacionado a figuras de paternas muito poderosas. A vulnerabilidade tende para a psicose, porque os filhos são ensinados a confiar apenas em si próprios, num mundo hostil e persecutório, onde mostrar afectos é considerado uma fraqueza. É um apego que favorece o individualismo e a pressão para triunfar. São distúrbios mais próximos das questões narcísicas.

O mais tóxico de todos é a ausência de relações de vinculação. O que chamamos de apego desorganizado. Maus tratos, abuso, violência física e colégios muito rígidos. Essas crianças apresentam patologias desde muito cedo. São crianças do género psicopata; aqueles que torturam o gato, que maltratam outras crianças. Se não há vinculação, não há empatia.

 

Excertos da entrevista de Diego Figuera ao El País

agorafobia

Etiologia da Depressão e da Agrofobia à luz da Vinculação

Depressão

A Teoria da Vinculação poderá ser de muita relevância para a compreensão da etiologia da depressão, como Bowlby propôs.

Experiências de perdas na infância, separação e rejeição pelos pais ou pelo cuidador poderão levar ao desenvolvimento de modelos internos de representação insegura. Representações cognitivas internas do self como não-amado/não-valorizado e figuras de vinculação que não fornecem amor e não são confiáveis pela criança, são consistentes com parte da tríade cognitiva da depressão de Beck.

Os tipos de vinculação são importantes na previsão de sintomas depressivos na adolescência. Crianças com vinculações inseguras têm maior prevalência de sintomas depressivos, comparativamente com crianças com uma vinculação segura.

Um estudo realizado numa população de estudantes afro-americanos que se propôs determinar a importância dos modelos internos de representação e do tipo de vinculação para o desenvolvimento de depressão concluiu que os indivíduos que têm uma visão positiva de si e dos outros têm uma complacência emocional que funciona como um mecanismo de protecção contra a depressão. Assim, estes estudantes com boa auto-estima vêem os outros como uma fonte confiável de apoio e reportam níveis inferiores de depressão.

Agorafobia

Quando uma criança sofre disrupções na vinculação como a perda ou a ausência da sua figura de vinculação, esta incorre num risco de “fobia escolar”.

Esta fobia, define-se como o medo de deixar a mãe e a sua casa, e poderá transformar-se numa agorafobia.

Num estudo retrospectivo que avaliou doentes agorafóbicos, Marks observou que 95% dos agorafóbicos afirmam ter maior medo quando estão sozinhos. Muitos deles evitam estar sozinhos em casa, e outros requerem a presença de alguém (vivenciado como securizante) quando tentam ultrapassar a sua fobia.

De acordo com Chambless (1982), estes agorafóbicos preferem a presença de um determinado membro da família. Este acompanhante expande as fronteiras da sua “zona de segurança”.

A semelhança entre esta perturbação e o uso da figura de vinculação como a “base segura” para exploração, evidente na Situação “Estranha” é, sem dúvida, evidente.

 

Este  post teve por base a tese de Mestrado integrado em Medicina:

“Teoria da Vinculação” – Nuno Ferreira Silva

Bowlby

Bowlby estudou psicologia e ciências pré-clínicas no Trinity College em Cambridge, ganhando prémios por desempenho intelectual notável. Depois de Cambridge, ele trabalhou com crianças delinquentes e desajustadas, na época com vinte e dois anos, fazendo residência no University College Hospital em Londres. Aos vinte e seis, ele se formou em medicina. Enquanto estava na escola de medicina, ele se matriculou no Instituto de Psicanálise. Após sua saída, ele se formou em psiquiatria adulta no Maudsley Hospital. Em 1937, aos 30 anos de idade, qualificou-se como psicanalista.

Durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi tenente-coronel no Corpo Médico da Armada Real. Após a guerra, ele se tornou Diretor Substituto da Clínica Tavistock e, partir de 1950, Consultor de Saúde Mental da Organização Mundial da Saúde.

Por causa de seu trabalho anterior com crianças delinquentes e mal-adaptadas, ele se tornou interessado no desenvolvimento de crianças e começou a trabalhar na Child Guidance Clinic (Clínica de Orientação Pediátrica) em Londres. Este interesse foi, provavelmente, reforçado por uma variedade de eventos da guerra envolvendo a separação de crianças de seus familiares; estes incluindo o resgate de crianças judias pela Kindertransport (evacuação de crianças judaicas da Alemanha, Checoslováquia, Polónia e Cidade Livre de Danzig que decorreu entre 1938 e 1939), a evacuação de crianças de Londres para mantê-las a salvo de ataques aéreos, e o uso de grupos de berçários para permitir que as mães de crianças pequenas contribuíssem para o esforço de guerra. Bowlby estava interessado desde o início de sua carreira no problema da separação e no trabalho de Anna Freud e Dorothy Burlingham durante a guerra sobre desabrigados e de Rene Spitz sobre órfãos. Ao final da década de 1950, ele havia acumulado um corpo de trabalho teórico e observacional para indicar a importância fundamental do apego desde o nascimento para o desenvolvimento humano.

Bowlby estava interessado em descobrir os padrões reais de interacção familiar envolvidos no desenvolvimento saudável bem como no patológico. Ele focou em como as dificuldades de apego eram transmitidas de uma geração à próxima. Em seu desenvolvimento da teoria do apego, ele propôs a ideia de que o comportamento de apego era, essencialmente, uma estratégia de sobrevivência evolutiva para proteger o recém-nascido de predadores. Mary Ainsworth, uma aluna de Bowlby, mais tarde ampliou e testou suas ideias, e fez, de fato, o papel principal ao sugerir a existência de vários estilos de apego. As três experiências mais importantes para o futuro trabalho de Bowlby e o desenvolvimento da teoria do apego foram seu trabalho com crianças delinquentes e mal-adaptadas.

 

via wikipedia

vinculação

Os Estudos de Harlow – Vinculação

No seu estudo laboratorial com macacos Rhesus em 1958, Harry Harlow forneceu dados empíricos que apoiavam o trabalho de Bowlby.

Harlow especulou sobre a natureza do amor, sobre as suas variáveis e analisou a teorias contemporâneas.

A posição comummente defendida por psicólogos e sociólogos era a seguinte: Os motivos básicos são, na sua maior parte, os drives primários – particularmente fome, sede, eliminação da dor e sexo – e todos os outros motivos, incluindo o amor ou afecto, são seus derivados ou drives secundários. “A mãe está associada à redução dos drives primários – particularmente fome, sede e dor – e através da aprendizagem, afecto ou amor é seu derivado (…).

No entanto, John Bowlby atribui importância não só à alimentação e satisfação da sede, mas também ao Instinto Primário de Agarrar, uma necessidade de contacto físico íntimo, que é inicialmente associado à mãe.”

Numa das suas experiências, Harlow separou os macacos recém-nascidos das suas progenitoras horas depois do nascimento, e colocou-os num cenário laboratorial que incluía duas “mães substitutas”, ambas equipadas com um biberão. Uma das ‘mães’ tinha sido construída apenas com um rede de metal, e outra possuía um revestimento de pano macio.

A primeira observação de Harlow foi que macacos face à possibilidade de escolha entre as duas mães substitutas passavam consideravelmente mais tempo agarrados à ‘mãe’ de pano, mesmo quando era só a ‘mãe’ de ferro que estava equipada com o biberão. Esta observação sugere a ideia que a relação de afecto/amor, não é uma resposta simples à satisfação de necessidades fisiológicas.

Com o seu trabalho experimental, Harlow mostra claramente que nenhuma recompensa de comida é necessária para a formação de vinculações fortes. Acrescenta ainda, que “os dados retirados desta experiência mostram que o conforto no contacto com a mãe é a variável de maior importância no desenvolvimento de respostas afectivas.

Teoria da vinculação

A influência da vinculação nas relações amorosas

As relações de vinculação na infância apresentam fortes semelhanças com as relações de cariz amoroso na idade adulta, sendo as primeiras prototípicas das últimas.

Ao longo do desenvolvimento do ser humano, a complementaridade de papéis vai dando lugar à reciprocidade, as representações internas vão adquirindo maior relevo e articulação com a manifestação dos comportamentos de vinculação.

A necessidade de presença física, para obtenção de conforto e segurança em situações de adversidade, vai sendo substituída, progressivamente, pela presença simbólica ou pela interacção à distância (Fonseca, Soares, & Martins, 2006).

Os padrões de vinculação manifestados por um adulto dependem de variáveis como:

– a idade, o género e as experiências vivenciadas com as figuras de vinculação nos seus primeiros anos de vida.

Habitualmente, uma relação de vinculação persiste ao longo do ciclo vital do indivíduo.

Muito embora durante a adolescência as vinculações da infância possam atenuar-se ou serem até substituídas por novos vínculos, as primeiras não são facilmente abandonadas, sendo comum persistirem na idade adulta (Bowlby, 1982).

As relações de vinculação na infância apresentam fortes semelhanças com as relações de cariz amoroso na idade adulta.

Assim, uma nova vinculação a outra figura, nomeadamente a um companheiro amoroso, não significa necessariamente que a vinculação às figuras parentais tenha cessado.

Na verdade, verifica-se uma relação causal significativa entre as experiências de um indivíduo com as suas figuras parentais e a sua capacidade para estabelecer vínculos afectivos posteriores.

Assim, o estilo de vinculação construído nos primeiros anos de vida mantém-se e irá moldar o padrão de relacionamentos estabelecidos na adultícia.

A Escala de Vinculação do Adulto (EVA) apresenta resultados consistentes com a teoria de que a qualidade das relações precoces prevê as interacções num contexto amoroso nas suas relações futuras (Dinero, Conger, Shaver, Widaman & Larsen-Rife, 2011).

Mais concretamente, indivíduos categorizados como inseguros revelaram-se mais propensos a exibir emoções negativas e a mobilizar estratégias inadequadas, durante situações conflituosas com um parceiro.

Hazan e Shaver (1987) salientam paralelismos entre as relações de vinculação primárias e as relações amorosas na idade adulta.

Estas efectivam-se na concepção de que na adultícia a relação com o outro poderá constituir-se como promotora de segurança, na medida em que o indivíduo procura proximidade em situações avaliadas como ameaçadoras, recorrendo ao outro para readquirir uma percepção de competência pessoal e uma capacidade de exploração do mundo.

Ao conceptualizarem as relações íntimas como relações de vinculação, Hazan e Shaver identificaram três estilos de vinculação na idade adulta, semelhantes aos de Ainsworth.

O estilo de vinculação construído nos primeiros anos de vida mantém-se e irá moldar o padrão de relacionamentos estabelecidos na adultícia.

Estes designam-se por estilos de vinculação Seguro, Inseguro Ambivalente/Ansioso e Inseguro Evitante, associados a formas distintas de vivenciar o relacionamento amoroso.

Neste sentido, foi elaborado um modelo bidimensional composto por eixos dicotómicos compostos por modelos de si e modelos dos outros.

Da interface destes dois eixos surgem quatro estilos de vinculação, sendo estes Seguro, Inseguro Preocupado, Inseguro Evitante Desligado e Inseguro Evitante Amedrontado.

Indivíduos com estilo de vinculação seguro apresentam modelos positivos de si e dos outros, manifestando baixos níveis de ansiedade e evitamento face à intimidade com o outro.

Estes indivíduos caracterizam-se pela valorização das suas relações íntimas, através de uma capacidade de as manter sem prejuízo da autonomia pessoal, destacando-se uma coerência das narrativas das suas relações.

Por sua vez, indivíduos com um estilo de vinculação inseguro evitante desligado possuem um modelo positivo do self e negativo dos outros, minimizando as suas percepções subjectivas de angústia ou de necessidades sociais, negando defensivamente a necessidade ou o desejo de relacionamentos próximos.

Assim, na regulação emocional e no comportamento interpessoal, manifestam um baixo nível de ansiedade mas um elevado evitamento de proximidade, decorrente das expectativas negativas que têm dos outros.

Mostram ainda um elevado sentido de mérito pessoal, negando o valor das relações íntimas e exacerbando a estima pela independência.

Tanto os indivíduos inseguros preocupados como os inseguros amedrontados detêm um profundo sentido de auto-desmerecimento.

Indivíduos com um estilo de vinculação inseguro preocupado apresentam um modelo negativo do self e positivo dos outros, manifestando uma elevada ansiedade e um baixo evitamento face à proximidade.

Já indivíduos com estilo de vinculação inseguro evitante amedrontado operam através de modelos negativos de si e dos outros.

Encaram-se como não merecedores do amor dos outros, manifestam uma elevada ansiedade e evitamento, mas possuem um desejo consciente de contacto social que é inibido por medos associados às suas consequências.

Ou seja, na regulação emocional e no comportamento interpessoal, são indivíduos que apresentam uma elevada dependência dos outros contudo, devido às expectativas negativas que deles têm, evitam a intimidade para evitarem o sofrimento de uma eventual perda ou rejeição.

Em muitas situações o sujeito não tem consciência de que está a ser manipulado pelas suas experiências passadas.

Os modelos representacionais de figuras de vinculação e do eu que um indivíduo constrói durante a sua infância e adolescência tendem a persistir até e durante a vida adulta.

Esta manutenção das representações de vinculação pode apresentar como consequência uma tendência para apreender uma nova pessoa, com quem pode construir um vínculo afectivo, sustentado num modelo existente, continuando frequentemente apesar de repetidas evidências de que o modelo é inadequado.

Tornando-se cada vez mais desadequado, o indivíduo espera ser percebido e tratado de um modo coerente ao seu modelo do self, permanecendo com tais expectativas apesar de evidências contrárias.

Tais percepções e expectativas distorcidas conduzem a falsas crenças acerca dos outros, falsas expectativas acerca do modo como os outros se comportarão e a atitudes inadequadas, com a intenção de frustrar o comportamento do outro.

A título de exemplo, um sujeito que durante a sua infância foi frequentemente ameaçado de abandono pode precipitadamente atribuir intenções semelhantes ao seu companheiro amoroso.

Assim, interpretará os comportamentos do cônjuge, como o que este diz ou faz, em função dessas intenções que lhe atribuiu e tomará uma iniciativa que julgue ser a mais adequada para enfrentar a situação que acredita existir, permanecendo equívocos e conflitos no seio da relação amorosa.

Em todo este processo, o sujeito não tem consciência de que está a ser manipulado pelas suas experiências passadas, nem de que as suas crenças e expectativas actuais são infundadas.

O conteúdo cognitivo estabelece-se como extremamente relevante na consideração das respostas disfuncionais no seio dos conflitos, considerando que a adesão a crenças irrealistas, especificamente a respeito da natureza dos relacionamentos, é indicadora de um nível de perturbação das relações.

Este post foi composto com excertos do trabalho de Sara Damas:

“Relação entre os Estilos de Vinculação do Adulto, os Esquemas
Precoces Desadaptativos e as Relações Interpessoais.”

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