Mês: <span>Outubro 2016</span>

A ansiedade, a bioquímica e a interpretação da experiência. Pedro Martins Psicoterapeuta

A ansiedade, a bioquímica e a interpretação da experiência

Recentemente estive a conversar com um jovem sobre a sua ansiedade, que era sentida por ele como muito intensa.

Quando lhe perguntei acerca do que seria a sua ansiedade ele disse que não sabia.

Quando lhe sugeri que podíamos tentar explorar sobre o que se tratava a ansiedade ele disse que era tão intensa que devia ser bioquímica.

Isso significava que para ele a ansiedade não podia ser entendida como sendo psicológica, mas tinha que ser tratada como parte da sua “doença”.

Eu reconheci que a ansiedade envolve bioquímica, mas mostrei-lhe que também existem experiências e interpretações das experiências que despoletam reacções químicas.

Por exemplo, se alguém aponta uma arma na nossa direcção, provavelmente vamos sentir um intenso processo bioquímico dentro de nós mas a experiência não seria “apenas bioquímica”.

Se as pessoas procuram compreender (se) e trabalhar os seus problemas emocionais é essencial que tenham curiosidade sobre as suas experiências/vivências e possam reflectir sobre o que as pode ter desencadeado.

Se alguém aponta uma arma na nossa direcção, provavelmente vamos sentir um intenso processo bioquímico dentro de nós mas a experiência não será “apenas bioquímica”.

Por vezes essa curiosidade ou reflexão trás importantes informações sobre essas experiências.

E pode, por vezes, permitir a identificação do que fez despontar a ansiedade e dessa forma possibilitar a sua resolução.

Claro que situações de ansiedade e de depressão, normalmente têm origem em experiências muito mais complexas, e implica uma maior reflexão.

Vivemos numa sociedade que não gosta da complexidade e da reflexão profunda.

Desta forma temos um viés na direcção de pensar que as emoções perturbadoras não fazem sentido e rapidamente concluir que se trata apenas de uma questão química.

Este viés faz-nos pensar que não devemos vivenciar estados emocionais perturbadores, por isso temos tendência a afastá-los ou a dissociá-los o que torna mais difícil entendermos as causas e decidir o que fazer com eles.

Aqueles que comercializam drogas psiquiátricas aproveitam este viés cultural para oferecer uma pseudo-explicação sedutora, de que os estados emocionais indesejáveis ​​e que não são facilmente resolvidos devem ser o resultado de um “desequilíbrio bioquímico” ou algum outro problema biológico.

A nossa cultura tornou-se fortemente influenciada por esta forma de ver as coisas, ao ponto da maioria acreditar que os problemas emocionais graves para os quais não há uma explicação fácil devem ser causados por uma falha bioquímica, em vez de ser algo que pode ser potencialmente compreendido e resolvido.

O triste resultado deste esforço de marketing tem sido o drástico agravar da tendência cultural para evitar ouvirmo-nos uns aos outros e a nós mesmos.

Qualquer problema mental ou emocional que não pode ser resolvido rapidamente é “bioquímico” e não vale a pena sequer tentar entender, pelo contrário, devemos partir logo para as drogas.

Assistimos  ao drástico agravar da tendência cultural para evitar ouvirmo-nos uns aos outros e a nós mesmos.

Quando as pessoas estão traumatizadas ou quando experimentam conflitos que excedem a sua capacidade de lidar com eles dá-se uma dissociação.

Quando a dissociação é o problema, há uma necessidade de trabalhar no sentido de uma maior compreensão e integração.

No entanto, o efeito da crença no desequilíbrio bioquímico vai aumentar a dissociação.

Ao invés de se questionar acerca das origens da ansiedade ou da depressão, por exemplo, a pessoa convencida de que é um desequilíbrio bioquímico procura apenas livrar-se dela sem tentar compreender a sua origem interna.

Quando as pessoas estão convencidas que os seus problemas são bioquímicos têm menos propensão em explorar o problema com outras pessoas ou com um terapeuta.

O resultado final desta desinformação provocada pelo marketing pode ser extremamente iatrogénica, e ser uma das causas primárias, juntamente com os efeitos secundários a longo prazo das drogas, do agravamento da saúde mental.

Traduzido/adaptadoa partir de “It’s not just drugs; Misinformation used to push drugs can also make mental problems worse” – Ron Unger

psicoterapia

Transtorno Obsessivo-Compulsivo

Os obsessivos são extremamente ordenados e escrupulosos.

Desta forma procuram controlar ao mínimo pormenor tudo aquilo que pudesse relacionar-se directa ou indirectamente com os seus problemas.

O excesso de controlo, domínio de si próprio e do outro é uma uma das características fundamentais da neurose obsessiva.

Estes pacientes encontrarem-se submetidos a certas ideias ou pensamentos fixos ou à necessidade compulsiva de executar actos que despertam neles reacções emocionais intensas e cujo significado profundo não chegam a compreender.

Os obsessivos procuram controlar ao mínimo pormenor tudo aquilo que possa relacionar-se com os seus problemas.

As obsessões surgem por imposição de uma necessidade interna, sentindo-se obrigados a respeitá-las, às vezes, sob coação de uma angústia irreprimível.

Na neurose obsessiva há um hiperinvestimento do pensar – ruminação ideativa, indecisão e dúvida sistemática; omnipotência das ideias, superstição e recurso a fórmulas mágicas.

Este hiperinvestimento do pensamento é um reflexo do contra-investimento (como bloqueio do impulso de agir), que se evidencia na riqueza de formações reactivas que o obsessivo apresenta: parcimónia, delicadeza.

Os sintomas com que mais vulgarmente o obsessivo expressa os seus conflitos são:

– dúvidas, cismas, obsessões de contraste (o aparecimento de pensamentos obscenos durante uma prece), ideias compulsivas, mania da limpeza, tendência exagerada para a ordem e para a simetria, medos de contacto, fobias, superstições, etc.

Traços de carácter: forte teimosia ou obstinação, tendências exageradas para a poupança e extrema disposição para a ordem.

Nos obsessivos há um hiperinvestimento do pensar – ruminação ideativa, indecisão e dúvida sistemática

O obsessivo caracteriza-se, ainda, pela utilização de mecanismos de defesa específicos.

Entre os mais importantes pode destacar-se o da formação reactiva, que está profundamente enraizado na sua personalidade e com o qual procura opor-se à sua culpa, às suas hostilidades e às suas agressões inconscientes.

Isto pode dar lugar, por exemplo, a um comportamento permanentemente exagerado de amabilidade e cortesia.

O isolamento é o mecanismo por meio do qual se tende a separar ou distanciar aquelas pessoas, pensamentos ou objectos que por diversos motivos inconscientes não podem estar juntos nem tocar-se.

O mecanismo de anulação é um dos mais comuns e talvez o exemplo mais conhecido seja a “lavagem compulsiva” como forma de anular uma acção prévia (real ou fantasiada) vivida como “ter-se sujado”.

Ou seja, a culpa persecutória, por ter realizado ou fantasiado uma má acção, uma “porcaria”, tem tendência a reparar-se através da lavagem das mãos.

O obsessivo, por outro lado destaca-se em geral pelo grande desenvolvimento intelectual e pela sua aguda inteligência.

Mas a sua mentalidade encontra-se perturbada pela persistência de traços mágicos e ideias supersticiosas provenientes da época da omnipotência e da magia infantil.

Bibliografia:

Culpa de Depressão – León Grinberg

Breves considerações sobre a neurose obsessiva – A. Coimbra de Matos

psicoterapia

O direito a estar triste. Entre a tristeza e a paixão

“Há um fenómeno social, que se vê muito na família e na escola, e que a mim me impressiona particularmente, que é o não reconhecimento por parte dos adultos que as crianças têm direito de estar tristes, ou a ter tristezas, ou a ter desgostos, ou a sofrer com as suas tristezas.”

A recusa do adulto em reconhecer a tristeza da criança corresponde à recusa do adulto em reconhecer a sua própria tristeza infantil e até a sua tristeza actual.

Quer dizer, ele também foi vítima disso, ele também teve tristezas que teve de esconder, que teve de disfarçar, que teve de resolver de uma certa maneira, porque os adultos, no seu tempo de criança, também já não lhe concediam o direito à sua tristeza.

Porque a tristeza conduz a uma reflexão sobre a própria pessoa, sobre o próprio eu, leva-nos a olhar para dentro e a procurarmos ver o que se passa dentro de nós.

Enquanto, que na paixão, por exemplo, a pessoa está toda voltada para fora e só vê o objecto amado, o objecto de amor.

Quando se está apaixonado por uma pessoa, ou por uma ideia, ou seja lá o que for, a pessoa está toda voltada para fora.

Na tristeza, pelo contrário, a pessoa está toda voltada para dentro.

E na cultura ocidental nós recusamos muito a depressão, ao contrário do que acontece muito com os orientais que aproveitam muito para meditar, para pensar, para reflectir, para atingir o discernimento das coisas.

A palavra discernimento creio que significa compreender sentindo.

Corresponde mais a descobrir do que propriamente a compreender no sentido racional.

E a tristeza dá um discernimento, uma compreensão, nesse sentido, de que aliás todos nós nos apercebemos se voltarmos um pouco atrás e virmos o que foi a nossa vida.

A pessoa cresce, desenvolve-se e aperfeiçoa-se à custa desses movimentos de voltar para fora e de voltar para dentro o seu olhar.

Vemos que os momentos de tristeza nos conduziram a modificações importantes na vida.

Muitas vezes há essa reflexão, esse olhar para dentro de que às vezes a gente não se apercebe, de que não damos conta por isso, mas a verdade é que ele existe, porque a pessoa está voltada para dentro.

Nessas alturas, quer seja na adolescência quer seja na idade adulta, está de facto, a reflectir sobre todos os seus problemas, os mais íntimos, os mais pessoais, e menos voltada para as coisas de fora e para os problemas dos outros.

Esse discernimento corresponde mais a um fazer-se luz dentro de nós e portanto a compreendermo-nos melhor através de um fechar de olhos ao que está para fora e voltar o nosso olhar, a nossa compreensão das coisas para dentro.

Isso na infância é fundamental para que a pessoa cresça.

A pessoa cresce de facto, desenvolve-se, aperfeiçoa-se à custa desses movimentos de voltar para fora e de voltar para dentro o seu olhar.

De uma certa maneira são, movimentos de paixão e movimentos de tristeza.”

“Eu agora quero-me ir embora”
João dos Santos
Conversas com
João Sousa Monteiro

Narcisismo Normal e Patológico Pedro Martins Psicoterapeuta

Narcisismo Normal e Patológico

Existe um narcisismo normal, útil, baseado num amor são para consigo mesmo, que facilita o desenvolvimento de um amor são para com o outro e que implica uma protecção psíquica e somática.

O Eu deste tipo de narcisismo mostrará capacidade para gratificar e ser gratificado, e para reparar e elaborar lutos pelas perdas.

Por outro lado, há um narcisismo patológico em que predominam a inveja e a agressão para com o outro e para com o Self, que se reforça em função da atitude do ambiente familiar para com a criança.

Quando esta atitude é predominantemente negativa, aumenta a ferida narcísica e intensifica-se a patologia, com diminuição da auto-estima, aparecimento de afectos destrutivos e persecutórios, humilhação, difamação e desamparo, aos quais a criança pretende resistir com omnipotência e megalomania.

Bibliografia: Culpa e Depressão – Léon Grinberg

Psicoterapia

O Sintoma em Psicoterapia

Em psicoterapia o sintoma tem um estatuto diferente daquele que vulgarmente lhe é atribuído.

O que é um sintoma?

Se um paciente se queixa de depressão, falta de desejo sexual ou de incapacidade de pôr termo a uma relação onde é vítima de um parceiro violento, qual é o sintoma?

O sintoma não é necessariamente aquilo de que se tem consciência.

Talvez seja mais apropriado chamar-lhe queixa, que não deve ser confundida com sintoma.

Segundo Mezan, “a queixa” traduz uma percepção que o indivíduo tem sobre si mesmo, uma “teoria” a seu respeito que, como qualquer produção psíquica, deve ser tratada com respeito.”

No entanto, nada indica que essa “teoria” esteja de acordo com os “reais” significados.

Por outro lado, o sintoma, por norma, apresenta-se como absurdo; o paciente não consegue perceber a sua razão de ser nem de onde ele provém.Se soubesse, provavelmente, não recorreria a um psicólogo.

O sintoma é sentido como absurdo porque encontra-se desconectado da restante vida mental.

Perante a impossibilidade de estabelecer essa conexão o sujeito desenvolve uma teoria para dar sentido ao seu sintoma.

Factos improváveis, mas plausíveis, são usadas para explicar/justificar o sintoma.

Portanto, numa psicoterapia, perante o sintoma, não deve ter-se a mesma atitude que a medicina.

O médico procura aliviar ou remover o sintoma que perturba a saúde do paciente. Neste caso o paciente não é “sujeito do seu mal”, mas “vítima”.

Do psicólogo espera-se que estabeleça as condições para que o paciente, ao seu ritmo, possa criar novas conexões que lhe permitam uma compreensão mais profunda da situação e de si, e ao mesmo tempo, o extinguir dos sintomas.

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