Categoria: Psicoterapia

Por que a Terapia Funciona Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Por que a Terapia Funciona?

Actualmente a discussão já não anda tanto à volta da eficácia das psicoterapias, mas na razão por que a terapia funciona; quais os factores que estão na base da sua eficácia.

Em 2006, uma equipa de investigadores noruegueses começou a estudar como os psicoterapeutas com vasta experiência ajudam as pessoas a mudar.

Liderada por Michael Rønnestad, professor de psicologia clínica da Universidade de Oslo, a equipa acompanhou cinquenta pares terapeuta-paciente, analisando minuciosamente o que tornou os terapeutas tão eficazes.

Margrethe Halvorsen, uma pós-doutorada na época, teve a função de entrevistar os pacientes no final do tratamento.

Foi assim que conheceu Carrie – uma mulher de quase 40 anos, solteira, sem filhos e fácil de gostar.

Quando criança, Carrie (pseudónimo) tinha sido, de forma repetida, abusada sexualmente às mãos da mãe e dos amigos dela.

Antes de iniciar a terapia, costumava automutilar-se e tentou matar-se várias vezes. O seu corpo apresenta marcas das tentativas de suicídio.

“A história dela estava ali… à minha frente”, refere Halvorsen, depois fica em silêncio enquanto tenta encontrar palavras para transmitir a forte impressão que Carrie lhe causou.

Sete anos depois de se conhecerem, ainda é difícil articular: “Talvez “presença” seja a palavra certa”.

Foi a forma como Carrie falou das atrocidades de que foi vítima – com voz firme e olhos bem abertos – que levou a investigadora a interrogar-se sobre como alguém tão marcado poderia parecer tão vivo e inteiro.

A certa altura da entrevista, quando Halvorsen pediu a Carrie que descrevesse a sua terapia numa imagem ou palavra, ela deixou escapar: ‘Salvou a minha vida’.

Intrigada, convidou três colegas psicólogos para ajudá-la a aprofundar o caso de Carrie e descobrir o que aconteceu na terapia. “Não sabíamos onde estávamos a entrar”, disse-me Halvorsen.

 

Duas pessoas sentam-se numa sala e conversam, todas as semanas, por um período de tempo determinado, e a certa altura uma delas sai uma pessoa diferente. Por quê? Como?

 

Após as entrevistas iniciais com Carrie e com o seu terapeuta, os investigadores obtiveram um total de 242 notas resumidas que os dois tinham escrito após cada sessão ao longo dos três anos do estudo.

A partir desses dados, a equipa seleccionou e transcreveu literalmente 25 sessões que pareciam particularmente importantes. O material final era composto por 500 páginas.

Halvorsen e os seus colegas permaneceram intrigados por mais de dois anos, numa tentativa de entender o que exactamente tinha salvado a vida de Carrie.

Quando mergulhamos na questão de como as pessoas mudam através da terapia podemos ficar com a cabeça às voltas.

Aqui está uma intervenção psicológica que parece funcionar tão bem quanto as drogas (e, sugerem os estudos, provavelmente, melhor a longo prazo), e, no entanto, como é que exactamente isso funciona?

Duas pessoas sentam-se numa sala e conversam, todas as semanas, por um período de tempo determinado, e a certa altura uma delas sai uma pessoa diferente, que já não está atormentada pela dor, refém do medo ou esmagada pelo desespero. Por quê? Como?

As coisas ficam ainda mais intrigantes se você considerar o grande número de terapias disponíveis e os diferentes métodos que elas costumam usar.

Algumas querem que você sinta mais (por exemplo, abordagens psicodinâmicas e focadas na emoção); outras – sentir menos e racionalizar mais (por exemplo, terapias cognitivo-comportamentais ou CBT).

As primeiras veem as emoções difíceis como algo que precisa sair, ser trabalhado, elaborado e re-assimilado; as segundas – como algo a ser estimulado e controlado através da modificação consciente de pensamentos negativos.

Alguns terapeutas falam pouco, deixando espaço para que certos sentimentos ​​dos pacientes venham à superfície; outros dificilmente param entre sequências estruturadas de exercícios e trabalhos de casa.

 

O que acontece entre o paciente e o terapeuta vai além da mera conversa e é mais profundo do que o tratamento clínico

 

Em mais de 400 psicoterapias disponíveis actualmente, o seu terapeuta pode assumir a forma de um curandeiro, um confidente, um clínico, um coach, um treinador de condicionamento mental ou qualquer combinação ou derivação disto.

Nos últimos três anos, conversei com dezenas de terapeutas de várias escolas, tentando perceber a eficácia da psicoterapia, como a terapia funciona – e com isso quero dizer – curas.

Ultimamente, ampliei a minha pesquisa para perceber as bases da eficácia terapêutica para incluir investigadores, terapeutas e profissionais da área, mas a maioria dessas conversas fez-me sentir que nem os estudiosos em mudanças terapêuticas, nem os que as efectuavam poderiam, quando pressionados, explicar de maneira convincente como é que as pessoas se curam.

A contragosto, eu voltava novamente ao que Alan Kazdin, professor de psicologia e psiquiatria infantil na Universidade de Yale, referiu em 2009, num artigo amplamente citado:

‘É notável que, após décadas de pesquisa em terapia, não possamos fornecer uma explicação baseada em evidências de como ou porque, até mesmo as nossas intervenções mais estudadas produzem mudanças.’

Para complicar, numerosos estudos nas últimas décadas chegaram ao que parece ser uma conclusão contraintuitiva: que todas as psicoterapias têm efeitos relativamente parecidos.

Isto é conhecido como o “veredicto das aves Dodo” – em homenagem a um personagem de Alice no País das Maravilhas (1865) que declara após um concurso: “Todos ganharam e todos devem ter prémios”.

O facto de nenhuma forma isolada de terapia se ter mostrado significativamente melhor de que as outras pode surpreender os leitores, mas é familiar aos pesquisadores da área.

 

O vínculo emocional e a colaboração entre paciente e psicoterapeuta – chamada aliança terapêutica – emergiram como um forte preditor de melhorias

 

“Há tantos dados para essa conclusão que, se não fosse tão ameaçadora para certas teorias, seria aceite há muito tempo como uma das principais descobertas da psicologia”, escreve Arthur Bohart, professor emérito da California State University, Dominguez Hills, e autor de vários livros sobre psicoterapia.

Mesmo assim, essa alegada equivalência entre várias terapias é um produto da estatística.

Não diz nada sobre o que funciona melhor para cada indivíduo em específico, nem implica que você possa escolher um qualquer tipo de terapia e obter o mesmo benefício.

Talvez algumas pessoas se deem bem com a forma estruturada duma abordagem cognitiva, enquanto outras respondam melhor à exploração aberta e à procura e criação de sentido oferecidas pelas perspectivas psicodinâmicas/psicanalíticas.

Quando agregadas, essas diferenças individuais podem ser anuladas, fazendo com que todas as terapias pareçam igualmente eficazes.

Muitos pesquisadores, no entanto, acreditam que essa não é a única explicação.

Para eles, a razão mais profunda pela qual nenhuma terapia parece oferecer vantagens únicas sobre qualquer outra, é que todas elas são eficazes por causa dos elementos que compartilham.

A principal delas é a relação terapêutica; associada a resultados positivos por uma quantidade de evidências.

O vínculo emocional e a colaboração entre paciente e psicoterapeuta – chamada aliança terapêutica – emergiram como um forte preditor de melhorias, mesmo em terapias que não enfatizam factores relacionais.

Ver: Psicanálise e Psicoterapia Relacional – Uma Introdução

Até recentemente, a maioria dos estudos sobre a aliança terapêutica mostrava que ela se correlacionava apenas com uma melhoria da saúde mental nos pacientes, mas os avanços nos métodos de pesquisa permitiram encontrar evidências através de um nexo de causalidade, sugerindo que a relação terapêutica pode realmente estar na base da cura.

 

Bowlby percebeu que “o vínculo mãe-bebé não é puramente gerado pelo desejo de agarrar o seio como fonte de alimento, mas também é motivado pela ideia de ligação ao outro”

 

Da mesma forma, a investigação sobre os traços dos psicoterapeutas que apresentam bons resultados revelou que a maior experiência ou a adesão mais rigorosa a uma abordagem específica não resulta em maior eficácia, ao passo que a empatia, a afectividade, a esperança e a expressividade emocional se traduz em melhorias.

Tudo isso sugere uma alternativa tentadora à visão da terapia, tanto do profissional quanto do leigo: que o que acontece entre o paciente e o terapeuta vai além da mera conversa e vai mais fundo do que o tratamento clínico (propriamente dito).

A relação é superior e mais primitiva, e compara-se aos avanços no desenvolvimento que ocorrem entre mãe e bebé, e que ajudam a transformar um bebé envolto num turbilhão de sensações e emoções, numa pessoa normal e saudável.

Estou a referir-me à vinculação.

Para levar a analogia ainda mais longe, e se, pergunta a teoria da vinculação, a terapia lhe der a oportunidade de voltar atrás e reparar os seus primeiros laços emocionais e corrigir o funcionamento nocivo que está na base do seu sofrimento mental?

A teoria da vinculação foi desenvolvida pelo psicanalista britânico John Bowlby, que na década de 1950 combinou a teoria evolutiva e a psicanálise num corajoso novo paradigma.

Agastado com a falta de rigor académico na sua profissão, Bowlby voltou-se para a etologia.

Experiências com macacos recém-nascidos (algumas tão cruéis que nenhum conselho de ética as permitiria hoje) desafiaram a noção predominante de que os bebés veem as mães, principalmente, como fonte de alimento.

Bowlby percebeu que “o vínculo mãe-bebé não é puramente gerado pelo desejo de agarrar o seio como fonte de alimento, mas também é motivado pela ideia de ligação ao outro”, diz Jeremy Holmes, professor britânico de terapias psicológicas (agora aposentado) e co-autor do livro Attachment in Therapeutic Practice (2018).

 

As pesquisas sobre a teoria da vinculação sugerem que as interacções precoces com os cuidadores podem afectar drasticamente as crenças sobre si mesmo

 

Bowlby demonstrou que a busca por uma ligação ou segurança é uma necessidade inata: evoluímos para procurar um vínculo com os cuidadores ‘mais velhos e mais sábios’ para nos proteger do perigo durante o longo período de desamparo conhecido como infância.

A figura do apego, geralmente um ou ambos os pais, torna-se uma base segura a partir da qual explorar o mundo, e um porto seguro para o qual retornar para ser revigorado.

Segundo Holmes, Bowlby viu na teoria da vinculação “o começo de uma ciência dos relacionamentos íntimos” e a promessa de que ’se pudéssemos estudar pais e filhos, e a maneira como eles se relacionam, poderíamos começar a compreender o que acontece entre paciente e terapeuta’.

As pesquisas sobre a teoria da vinculação sugerem que as interacções precoces com os cuidadores podem afectar drasticamente as crenças sobre si mesmo, as expectativas em relação aos outros, a maneira como você processa as informações, lida com o stress e regula as emoções enquanto adulto.

Por exemplo, filhos de mães com sensibilidade – do tipo afectuoso e tranquilizante – desenvolvem uma vinculação segura, aprendem a aceitar e expressar sentimentos negativos, pedem ajuda e apoiam-se nos outros, e confiam na própria capacidade de lidar com o stress. 

Por contraste, filhos de cuidadores que não são responsivos ou são insensíveis desenvolvem uma vinculação insegura.

Eles tornam-se ansiosos e angustiados ao menor sinal de separação da sua figura de vinculação.

Os filhos de mães severas ou depreciadoras desenvolvem um padrão de vinculação inseguro evitante; suprimem as suas emoções e lidam sozinhos com o stress.

Finalmente, crianças com cuidadores abusivos ficam desorganizadas; elas alternam entre o evitante e o ansioso, envolvem-se em comportamentos estranhos e, como Carrie, geralmente têm comportamentos auto-destrutivos.

 

Impulsionadas por uma necessidade desesperada de segurança, as pessoas com vinculação insegura procuram “fundir-se” com os seus parceiros

 

Estilos de vinculação insegura ansiosa, insegura evitante e desorganizada desenvolvem-se como respostas a cuidados inadequados; um caso de: ‘tirar o melhor proveito de uma situação má’.

As interacções repetidas com figuras de vinculação não responsivas podem ser codificadas de maneira neutra e, mais tarde na vida, subconscientemente activadas, especialmente na intimidade e em situações stressantes.

É assim que os padrões de vinculação na infância se podem solidificar numa parte corrosiva da personalidade, distorcendo a forma como a pessoa se vê, experimenta o mundo e interage com os outros.

O psicólogo Mario Mikulincer, do Centro Interdisciplinar Herzliya em Israel, é um dos pioneiros da moderna teoria da vinculação, estudando precisamente os efeitos em cascata.

Em várias experiências ao longo de duas décadas, ele descobriu que, enquanto adultos, as pessoas ansiosas têm baixa auto-estima e são facilmente dominadas por emoções negativas.

Eles também tendem a aumentar os perigos e a duvidar da sua capacidade de lidar com eles.

Impulsionadas por uma necessidade desesperada de segurança, essas pessoas procuram “fundir-se” com os seus parceiros e podem ficar desconfiadas, com ciúmes ou com raiva deles, geralmente, sem uma causa objectiva.

Se os ansiosos entre nós desejam a conexão, as pessoas evitantes lutam pela distância e pelo controlo.

Eles desapegam-se de emoções fortes (positivas e negativas), retiram-se dos conflitos e evitam a intimidade.

A autoconfiança deles significa que se veem fortes e independentes, mas essa imagem positiva é fabricada às custas de manter uma visão negativa dos outros.

Como resultado, os seus relacionamentos íntimos permanecem superficiais, frios e insatisfatórios.

E embora ficar emocionalmente entorpecido possa ajudar as pessoas evitantes nos desafios do dia-a-dia, a pesquisa mostra que, no meio de uma crise, as suas defesas podem desmoronar e deixá-las extremamente vulneráveis.

Não é difícil ver como esses padrões de vinculação podem prejudicar a saúde mental.

 

O bom terapeuta torna-se uma figura de apego temporária

 

Tanto os que têm uma vinculação insegura ansiosa como insegura evitante têm sido associados a um maior risco de desenvolver ansiedade, depressão, solidão, distúrbios alimentares, dependência do álcool, abuso de substâncias e violência.

A forma de tratar esses problemas, dizem os teóricos da vinculação, é através de um novo relacionamento.

Nesta perspectiva, o bom terapeuta torna-se uma figura de apego temporário, assumindo as funções de uma mãe nutridora, reparando a confiança perdida, restaurando a segurança e desenvolvendo duas das principais capacidades geradas por uma infância normal: a regulação das emoções e uma intimidade saudável.

Quando Carrie começou a terapia, ficou claro que ela seria uma paciente que colocaria vários desafios.

A carta do seu médico pedia alguém “corajoso” para tratá-la, e podemos ver porquê: ela insistia em manter o direito de se auto-mutilar e de se suicidar.

“Tive a sensação de que ela se poderia matar a meio da terapia mas tive de correr esse risco”, disse o terapeuta aos investigadores no final do estudo.

Então, como é que ele conseguiu trazer Carrie de volta?

Ao analisar algumas respostas da enorme quantidade de dados recolhidos, Halvorsen e a sua equipa descobriram um padrão entre Carrie e o terapeuta análogo às interacções mãe-bebé.

Primeiro, Carrie desvalorizava-se e afundava-se mais, depois o terapeuta reconhecia as suas emoções negativas, e de imediato interpretava as suas tendências destrutivas como um mecanismo de sobrevivência que ela usara em criança para se proteger do trauma, mas que a prejudicavam enquanto adulta.

Gentilmente, mas com firmeza, ele desafiou a auto-aversão de Carrie, reestruturando o que ela via como condenável e inaceitável em si mesma, em algo humano e compreensível.

Frequentemente, ele pedia que ela pensasse na “criança na escada”, referindo-se a uma memória que Carrie tinha compartilhado numa sessão anterior.

 

Não entendemos as nossas experiências internas até vê-las acontecer nas reacções dos cuidadores

 

“É uma cena realmente perturbadora”, disse-me Halvorsen – em que a mãe de Carrie fica enfurecida com ela. – A mãe encheu uma mala com algumas das roupas da menina e mandou-a embora.

E a menina ficou sentada na escada por longas horas, sem saber o que fazer ou para onde ir.

Halvorsen notou que o terapeuta voltava a essa cena repetidamente, tentando evocar a auto-compaixão de Carrie e combater a sua implacável autocrítica.

Este padrão empático com reenquadramento e restruturação parece-se com as trocas de espelhamento e mitigação entre mãe e bebé nos primeiros anos de vida.

Esteja algum tempo junto de um recém-nascido e você verá que, quando ele chora, a mãe entra, pega-o ao colo e depois a sua expressão facial imita exageradamente a angústia do bebé.

De acordo com o psicanalista Peter Fonagy, da University College London, este espelhamento amplificado da mãe, esta imagem que devolve ao bebé, constitui uma parte fundamental para a criança poder desenvolver um senso de si e um controlo emocional.

“A ansiedade, por exemplo, é para o bebé uma mistura confusa de mudanças físicas, ideias e comportamentos”, refere Fonagy. ‘Quando a mãe reflecte, ou espelha a ansiedade da criança, ele agora ‘sabe’ o que está a sentir.’

Fonagy refere que este conhecimento não vem pré-instalado em nós. Não entendemos o significado das nossas experiências internas até vê-las exteriorizadas ou representadas nos rostos e nas reacções dos nossos cuidadores.

“Paradoxalmente, mesmo que agora eu saiba perfeitamente bem quando me sinto ansioso”, explica Fonagy numa entrevista em vídeo de 2016, “a ansiedade que reconheço como minha ansiedade não é propriamente a minha própria ansiedade, mas é a imagem da minha mãe a olhar para trás quando eu, em bebé, me senti ansioso.

 

A imagem que a mãe devolve ao bebé, constitui uma parte fundamental para este poder desenvolver um senso de si e um controlo emocional.

 

A mãe sensível capta o estado mental e emocional do bebé e espelha-o. Desta forma a criança aprende a reconhecer a sua experiência interna como “tristeza” ou “ansiedade” ou “alegria”.

As sensações anteriormente caóticas agora tornam-se coerentes e integradas no senso de quem ele é, permitindo que as emoções sejam processadas, previstas e manejadas adequadamente.

Mas a mãe não se limita a espelhar a dor emocional do bebé; ela acalma-o.

Embalando o bebé nos braços ou murmurando com uma voz suave, a mãe responsiva sustem o choro e contém os sentimentos negativos do bebé.

A angústia, escreve Holmes em 2015, “é transmitida do bebé para mãe, “metabolizada”, ou seja, pré-digerida, e devolvida ao bebé com menor intensidade e num formato que ele possa digerir.

O terapeuta de Carrie também a ajudou a assimilar os seus sentimentos mais dolorosos. Ao aprender a tolerar estados negativos, ela poderia desenvolver resiliência face às suas experiências internas mais sombrias.

Ele encorajou-a a deixar sair a vergonha e a raiva, e devolveu-as empaticamente de uma forma que a fizesse sentir-se vista e reconhecida.

Mas ele também conteve e transformou essas emoções para ela, devolvendo-as em termos de adaptação, protecção e sobrevivência.

Como uma boa mãe, pré-digeriu a angústia de Carrie, dando-lhe um sentido, um significado e uma explicação.

O terapeuta transformou-as em algo que agora poderia ser aceite e suportado.

Eventualmente, a co-regulação das emoções entre mãe e filho, ou terapeuta e paciente, abre o caminho para o auto-domínio e auto-regulação.

Uma forma de isso acontecer nos primeiros anos, escreve Mikulincer, em 2003, é internalizando o cuidador:

A voz e a atitude do cuidador tornam-se parte de si e, quando você se depara com uma fase difícil, começa a usar as mesmas falas, o mesmo tom, que a sua mãe costumava usar para o acalmar.

 

O bom terapeuta sintoniza inconscientemente os estados internos dos quais o paciente pode nem estar ciente

 

Ao mesmo tempo, a progressiva emancipação da dependência emocional na infância passa pelo crescimento dos seus próprios recursos internos, enfrentando e aprendendo com os desafios.

Ao fazer um movimento para o exterior a jovem criança enfrenta o risco inevitável do fracasso.

“Com o apoio, a segurança, a orientação e o incentivo de uma figura de apego cuidadosa e afectuosa, as crianças podem lidar melhor com o fracasso, persistir na tarefa apesar dos obstáculos, e inibir outros impulsos e distracções”, referiu Mikulincer.

Dessa forma, as crianças aumentam a sua tolerância a emoções negativas e desenvolvem capacidades preciosas para lidar com os problemas por conta própria.

Um processo semelhante ocorre na terapia. Passado algum tempo, os pacientes internalizam o afecto e a compreensão do seu terapeuta, transformando-o num recurso interno para obter força e apoio.

Uma voz nova e compassiva cintila na vida, silenciando a do crítico interno – ele próprio um eco de figuras insensíveis de apegos anteriores.

Mas esta transformação não é fácil. Como escreveu o poeta W H Auden em The Age of Anxiety (1947): ’Preferimos estar arruinados a mudar…’

É função do terapeuta é orientar os pacientes enquanto viajam por águas desconhecidas, ajudando-os a permanecer esperançosos e a persistir através da dor, tristeza, raiva, medo, ansiedade e desespero que possam ter de enfrentar.

Isso acontece não apenas através das conversas, mas também no silêncio.

De facto, de acordo com o psicólogo Allan Schore, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que estudou o apego do ponto de vista da neurobiologia nos últimos 20 anos, a mudança na terapia não ocorre tanto na comunicação verbal entre paciente e terapeuta, mas de uma maneira mais imperceptível – através de uma diálogo entre dois cérebros e dois corpos.

Talvez este modo de vinculação predomine nas terapias que procuram aprofundar as emoções.

 

A mãe sensível capta o estado mental e emocional do bebé e espelha-o. Desta forma a criança aprende a reconhecer a sua experiência interna

 

Mais uma vez, o processo espelha a boa prestação de cuidados no início da vida.

Muito antes da fala, mãe e bebé comunicam-se por meio de vias não-verbais – expressão facial, contemplação mútua, nuances vocais, gestos e toques.

A mãe sensível “lê” os estados emocionais do filho e responde apropriadamente através do seu próprio corpo.

Estas comunicações não-verbais, escreve Schore, são registadas e processadas pelo hemisfério direito do bebé, moldando os sistemas neuronais nascentes, envolvidos no processamento emocional e nas respostas automáticas ao stress.

Os sinais não-verbais da mãe são codificados como estratégias inconscientes implícitas que o hemisfério direito do bebé mais tarde activará inconscientemente para regular as suas emoções.

Mais uma vez, algo semelhante ocorre na terapia. O bom terapeuta sintoniza subconscientemente as emoções não verbalizadas; estados internos dos quais o paciente pode nem estar ciente.

Momento a momento, o terapeuta ajusta a sua própria linguagem corporal em resposta aos ritmos internos do paciente, envolvendo-os num tipo de dança na qual ambos os parceiros se sincronizam e se influenciam mutuamente.

De acordo com Schore, com o tempo, as comunicações não-verbais do terapeuta podem ficar impressas no hemisfério direito do paciente, examinando os padrões de coping guardados, e dando origem a padrões mais flexíveis e adaptáveis.

Para Fonagy, um factor igualmente fundamental na terapia para a restauração do bem-estar é a aprendizagem social.

Do ponto de vista da evolução, podemos estar desconfiados das outras pessoas, porque um viés negativo serve para a sobrevivência.

No entanto, para uma espécie intensamente social como a nossa, estar constantemente à defesa não é um bom presságio.

Como, então, confiamos, cooperamos e conectamos com as outras pessoas, além de nos protegermos da ameaça que elas podem representar?

 

O principal valor da psicoterapia reside no seu potencial de reavivar a nossa confiança epistémica

 

A teoria da pedagogia natural, proposta em 2011 por Gergely Csibra e György Gergely, professores de ciências cognitivas da Universidade da Europa Central em Budapeste, sugere uma resposta.

Nesta visão, a evolução criou um mecanismo sofisticado para relaxar a nossa vigilância natural, para que possamos aprender com os outros.

Para reconhecer fontes de informação relevantes e confiáveis, confiamos em certas pistas ou sinais visuais e verbais.

Na infância, escreve Fonagy em 2014, estes sinais são os mesmos que estão subjacentes a uma ligação segura (as vocalizações ‘maternais’, por exemplo).

Noutras palavras, os bebés estão preparados para confiar no cuidador sensível, que, por sua vez, os ensina a confiar nos outros e a navegar no mundo social.

Um estudo da Universidade de Harvard em 2009 mostra que crianças seguramente vinculadas são juízes exigentes e credíveis – confiam na mãe quando ela está a ser razoável, mas seguem os seus próprios julgamentos quando as posições desta são contrárias à realidade.

A segurança em si e nos outros transforma as crianças em adultos abertos a novas informações, confortáveis ​​com a incerteza e flexíveis para mudarem de opinião à luz de novos dados.

O oposto verifica-se para os que têm uma vinculação insegura.

As pessoas ansiosas tendem a distorcer os sinais sociais e exagerar as ameaças, e isso pode induzi-las a ver os seus parceiros como não confiáveis, solidários ​​ou desinteressados.

As pessoas com o padrão evitante de vinculação estão concentradas em proteger-se, o que pode fazer com que se agarrem a estereótipos negativos dos outros face a amplas evidências em contrário.

Por exemplo, no estudo de Mikulincer em 2003, casais avaliavam o comportamento dos seus parceiros ao longo de três semanas.

 

A angústia é transmitida do bebé para mãe, “metabolizada”, ou seja, pré-digerida, e devolvida ao bebé com menor intensidade e num formato que ele possa digerir.

 

Enquanto as pessoas ansiosas deram classificações mais altas quando os seus cônjuges eram objectivamente mais solidários, as pessoas com o padrão evitante inseguro falharam completamente em registar as mudanças positivas dos seus parceiros.

Aparentemente, o apego inseguro perpetua a nossa suspeita natural, mantendo-nos fechados e não receptivos a informações socialmente relevantes.

Fonagy chama a isto “desconfiança epistémica” e, para ele, pode ser o denominador comum de muitos problemas de saúde mental, explicando a sua gravidade e persistência.

O principal valor da terapia reside no seu potencial de reactivar a nossa confiança epistémica e impulsionar a capacidade de aprendermos com os outros no nosso ambiente social.

Ao restaurar a vinculação segura, a terapia reduz a nossa vigilância social e abre-nos a possibilidade confiar numa pessoa – o terapeuta – que eventualmente nos permite sair para o mundo e confiar nas outras pessoas.

A importância deste reconhecimento é tal que mesmo nas sessões de CBT, quando os terapeutas são bombardeados pelos sentimentos perturbados dos pacientes, eles mudam temporariamente o foco ou postura habitual para empatizar com o sentimento presente e depois voltam a enfatizar os temas cognitivos e controle racional da experiência emocional.

A restauração da vinculação segura foi o que aconteceu com Carrie.

Nas últimas sessões, ela percebeu que não estava realmente sozinha. Ela tinha um amigo em quem podia confiar e uma irmã que compartilhou as suas memórias de infância.

Não era que essas pessoas estivessem ausentes anteriormente; ela simplesmente não as estava a ver, ou talvez não pudesse confiar no que estava bem à sua frente.

Mas a sua crescente confiança – primeiro no terapeuta, depois na boa vontade do mundo e na sua própria capacidade de navegar – permitiu-lhe ver os outros, ‘mais como oportunidades de contacto social do que como ameaças’.

 

Passado algum tempo de terapia, os pacientes internalizam o afecto e a compreensão do seu terapeuta, transformando-o num recurso interno ao qual podem recorrer

 

A terapia de Carrie não a curou: o seu trauma era demasiado profundo. Mas ela foi salva. Agora estava pronta para viver e continuar o processo de cura.

Na sua última sessão, Carrie deixou um presente de despedida para o terapeuta – um mosquetão (anel metálico usado em desportos que usam cordas, como por exemplo, a escalada).

É assim que nas montanhas, dois alpinistas ficam presos/vinculados com segurança por uma corda, de modo que, se um escorrega, o vínculo impede o outro de cair no precipício.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de Cradled by Therapy – Elitsa Dermendzhiyska

 

Por que é tão importante desenvolver uma vinculação?

A vinculação não é importante, é vital.

No momento do nascimento, o recém-nascido é cem por cento imaturo, o que nos torna dependentes da nossa mãe ou da pessoa encarregue de cuidar de nós.

A figura principal de vinculação, geralmente a mãe, é a responsável por satisfazer as necessidades básicas do recém-nascido (fome, protecção, calor, sono, etc.).

Não é apenas uma questão de melhorar a vida da criança, mas permitir que ela sobreviva.

Os estudos científicos e a prática clínica levam-nos a concluir que os bebés e as crianças que tiveram figuras de vinculação que atendiam às suas necessidades são:

Mais auto-confiantes, mais autónomas, têm uma boa capacidade de resolução de conflitos, são mais resilientes, têm uma auto-estima maior, são valorizados no trabalho, nos relacionamentos e com os amigos. Enfim, são mais felizes.

Existem coisas importantes que uma figura de vinculação deve ter em conta:

– Explicitar o seu amor à criança

– Incentivar a sua autonomia

– Legitimar as emoções e ajudar a geri-las

– Dedicar tempo de qualidade aos filhos

– Atender às necessidades dos filhos

– Protegê-los de situações perigosas de maneira equilibrada (sem serem super-protectores)

– Estabelecer limites claros e respeitosos

 

Os adolescentes que têm um apego seguro tendem a ter uma auto-estima alta

 

É importante notar que a ideia de quanto mais melhor, é falsa. As crianças precisam apenas de estímulo suficiente.

Foi demonstrado que os adolescentes que têm uma vinculação segura tendem a ter uma auto-estima alta, enquanto os adolescentes que têm uma vinculação insegura tendem a ter uma auto-estima mais baixa.

Isso é generalizável para qualquer estágio vital. John Bowlby, pai da teoria da vinculação, referiu que a auto-estima de uma pessoa está intimamente relacionada com o seu estilo de apego.

 

Vinculação Insegura

As consequências de uma vinculação insegura são terríveis e para toda a vida, a menos que algo seja feito para repará-la.

Existem diferentes estilos de apego inseguro, mas, em geral, as consequências da falta de protecção ou a superprotecção e a não promoção da autonomia são:

A dificuldade ou incapacidade de ser autónomo em diferentes áreas da vida

Baixa auto-estima

Um sentimento constante de desprotecção

Autocrítica constante

Ansiedade, somatização, medos, insegurança

Incapacidade de regular as suas próprias emoções

Dificuldade em ser empático

Maior probabilidade de desenvolver uma adição

Dependência emocional.

 

Para especificar um pouco mais, as pessoas que têm uma vinculação insegura do tipo evitante têm medo da intimidade e da proximidade.

Enquanto na vinculação insegura do tipo ansioso ambivalente, a pessoa é insegura e pouco autónoma, necessitando de outras pessoas para desenvolver os seus projectos de vida.

 

A reparação da vinculação só pode ser feita num relacionamento vertical.

 

A vinculação insegura evitante é normalmente fruto de pais autoritários, enquanto a vinculação ansiosa ambivalente é mais frequente em ambientes superprotetores, onde não há promoção da autonomia.

 

 Razões para o aumento da vinculação insegura

Primeiro, destacamos a falta de tempo que os pais passam com os filhos.

Entre outras coisas, é resultado dos horários de trabalho e da hiperestimulação em que estamos imersos.

Tudo isto dificulta a dedicação de tempo de qualidade aos filhos.

Em segundo lugar, encontramos crianças que são super-protegidas ou que se desenvolvem em contextos de desprotecção.

Ambos os estilos educacionais têm consequências muito semelhantes.

Outros aspectos que influenciam são o ritmo vertiginoso a que as crianças estão sujeitas (em resultado de uma sociedade hiperactiva), ausência de limites, modelos parentais rígidos e autoritários em que não é permitida a expressão de emoções, superestimulação, uso abusivo das novas tecnologias em detrimento da conexão social e emocional.

 

Reparar a vinculação insegura

A vinculação insegura pode ser reparada, pois o cérebro é orientado e tende para a saúde mental. Por isso vamos sempre a tempo de reparar um apego inseguro.

Um aspecto essencial para a reparação da vinculação é que ela deve ser feita num relacionamento vertical, ou seja, não pode ser realizada pelos nossos amigos ou parceiros (relacionamentos horizontais).

As Relações verticais ocorrem em contextos psicoterapêuticos.

É claro que um amigo, um parente e um relacionamento podem trazer muitos aspectos positivos, mas não é possível reparar uma vinculação nesses contextos, somente em relacionamentos verticais (psicoterapeuta-paciente).

Adaptado por Pedro Martins a partir de uma a entrevista a Rafael Guerrero

Pensa que a Dor Crónica é puramente física? Pedro Martins - Psicólogo Clínico/Psicoterapeuta

A dor crónica é puramente física?

A dor crónica não é simplesmente uma questão biomédica – é também psicológica e social.

Embora o British Journal of Medicine faça referência a um problema grave no que diz respeito à dor crónica e ao consumo de opioides nos Estados Unidos (Mackey & Kao, 2019), outros países enfrentam problemas semelhantes.

A dor crónica (DC); dor que dura três ou mais meses ou além do tempo de cura esperado, é uma epidemia que afecta actualmente milhões de pessoas.

A DC pode deixar vidas em pausa, uma vez que impede a pessoa de trabalhar, exercitar-se, ter relações sexuais, hobbies ou até sair de casa.

Uma razão pela qual nos encontramos nesta situação deve-se ao facto de a dor ser historicamente enquadrada como um problema “biomédico”.

Portanto, foi tratado principalmente com soluções biomédicas, como comprimidos e procedimentos médicos. No entanto, a dor crónica não está a ser tratada.

As taxas de dependência de opioides aumentam rapidamente e a prevalência de dor crónica continua a subir (Nahin et al., 2019).

Embora isso não signifique que se deva tirar os medicamentos das mãos de pessoas que sofrem de dor a longo prazo – o que é anti-ético na melhor das hipóteses e cruel na pior -, mas, claramente, algo tem mudar.

Graças aos recentes avanços da ciência e da medicina, agora entendemos a dor melhor do que nunca.

Pesquisas sobre manejo e tratamento da dor avançam diariamente, e os erros anteriores estão a ser corrigidos.

 

A dor “física” também é, – sempre -, afectada pelas emoções.

 

Para entender melhor a dor, vamos primeiro defini-la:

É uma “experiência sensorial e emocional desagradável”. Dito de outra forma, a dor é física e emocional 100% do tempo. Nunca é apenas emocional ou física.

Isto é confirmado por pesquisas em neurociência que indicam que a dor é processada por várias partes do cérebro, incluindo o sistema límbico – unidade responsável pelas emoções (Martucci & Mackey, 2018).

A dor “física” também é, – sempre -, afectada pelas emoções.

Por que temos dor?

A dor serve como sistema de resposta a perigos no corpo, mantendo-nos seguros e vivos, alertando-nos sobre possíveis riscos, e ensina-nos a evitar situações perigosas.

Quando queimamos a mão numa coisa quente, as probabilidades de aprender com esse acidente e não o repetirmos são altas.

Se torcemos um pé numa corrida, a dor leva-nos a parar, procurar ajuda e tratar o pé.

Você pode razoavelmente acreditar que a dor está localizada exclusivamente no corpo, na parte que dói.

Mas enquanto as informações sensoriais do corpo são críticas para o processamento da dor, ela é, realmente, construída pelo cérebro.

A evidência disso está na condição designada por “dor fantasma” nos membros, na qual uma vítima de um acidente perde um membro e continua a sentir uma dor enorme na parte do corpo que não está lá.

Se a dor estivesse localizada exclusivamente no corpo, a ausência de um membro deveria significar ausência de dor.

 

A dor serve como sistema de resposta a perigos no corpo, mantendo-nos seguros e vivos.

 

Também é razoável acreditar que a dor se deve exclusivamente a problemas biológicos com base no corpo, conforme sugerido pelo modelo biomédico (por exemplo, “o problema está nos tecidos”).

No entanto, o que sabemos actualmente – e na verdade, sabemos há décadas – é que a dor não é biomédica, mas biopsicossocial (Gatchel, 2004).

Isso significa que há três domínios sobrepostos (igualmente importantes), a termos em conta, se queremos tratar efectivamente a DC: biologia, psicologia e o funcionamento social.

O domínio biológico, geralmente, recebe mais atenção, mas restam dois terços do modelo.

Os factores psicossociais, essenciais para o tratamento eficaz, são frequentemente ignorados.

 

A pesquisa revela que as emoções negativas, pensamentos catastróficos e comportamentos pouco saudáveis exacerbam a dor crónica

 

O domínio psicológico da dor inclui pensamentos e crenças (por exemplo, “estou mal; nunca melhorarei”); expectativas e experiências anteriores; emoções (por exemplo, ansiedade, raiva, depressão) e comportamentos.

Os factores sociais incluem status socioeconómico, acesso a cuidados, família, amigos, cultura, comunidade, contexto e outros factores sócio-ambientais.

A pesquisa em neurociência revela que as emoções negativas, pensamentos catastróficos e comportamentos pouco saudáveis, efectivamente, exacerbam a dor, agravam os sintomas e mantêm a pessoa presa num ciclo de medo, inactividade, miséria e dor.

Dito de outra maneira: stress, ansiedade, depressão, pensamentos catastróficos, expectativas negativas com foco na dor, retraimento social e falta de exercício, pioram a dor.

Ao mesmo tempo a pesquisa refere que podemos exercer algum controle sobre a dor, através do manejo das emoções, pensamentos e crenças, mediante vários tipos de terapia.

Além disso, facultar aos pacientes educação e compreensão sobre a dor pode reduzi-la, assim como a incapacidade associada.

As abordagens psicossociais para o tratamento da dor são tão promissoras que foram incorporados nas clínicas de tratamento da dor da UCSF e de Stanford.

Portanto, se você tem dor crónica, lembre-se do seguinte: mudar o seu cérebro pode modificar a sua dor.

A saúde emocional afecta directamente sua saúde física, porque o cérebro e o corpo estão conectados.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

A partir de “Think Pain Is Purely Medical? Think Again.” – Rachel Zoffness

Crescer sem psicoterapia - Pedro Martins Psicoterapeuta - Psicólogo Clínico

Crescer Emocionalmente sem Terapia

Crescer emocionalmente é difícil de conseguir por conta própria.

De vez em quando, encontro alguém que parece ter crescido sem terapia, uma pessoa relativamente equilibrada e satisfeita, pouco sobrecarregada com conflitos internos.

Como psicanalista e psiquiatra, interrogo-me sobre isso. Crescer emocionalmente apresenta tantas dificuldades e desafios que ultrapassá-las com sucesso parece uma tarefa assustadora.

Onde é que a criança tem o guia para desenvolver um senso de autonomia pessoal enquanto também desfruta de relacionamentos com as outras pessoas?

Como é que um filho de três ou treze anos descobre como lidar com a inveja que tem dos outros, as questões da sexualidade, os seus desejos destrutivos e vingativos?

Como é que a criança pode saber que a sua dor de estômago representa ansiedade em ir para a escola, ou que sua preocupação com a escola pode servir para distraí-la de preocupações mais sérias sobre fantasias e acontecimentos que surgem em casa?

Há uma razão para que tantos filmes sobre ou para crianças (como o E.T.) retratem os adultos como pessoas que não compreendem o mundo das crianças: há uma certa verdade nisso.

Mesmo os pais mais intuitivos e empáticos não conseguem compreender completamente o mundo interior de uma criança, mesmo que eles já tenham sido crianças.

No entanto, os seus esforços são importantes e os pais costumam ajudar as crianças a aprender, a aceitar, a entender e a regular os seus sentimentos e desejos.

 

É muito difícil vermos os nossos pontos cegos.

 

Mas há sempre sentimentos de vergonha e culpa que as crianças preferem que os pais não conheçam, e sentimentos e fantasias que os pais não conseguem imaginar.

Uma menina de quatro anos pode dizer descaradamente à mãe que planeia casar-se com o pai, mas esconde o quanto ela adoraria fazer desaparecer o irmão mais novo.

Independentemente da forma como a mãe responde, a menina ainda está muito por sua conta, enquanto tenta discernir a fantasia da realidade.

Com pouco conhecimento ou experiência, as crianças são chamadas a lidar com os seus desejos imperiosos e as autocríticas.

Com os seus corpos em mudança e as exigências dos pais e professores, sem mencionar a existência de doenças, tristezas, rejeições de amigos, e golos falhados.

Os pais podem ajudar a crescer emocionalmente (e também podem magoar), mas há sempre muito mais coisas do que aquelas que eles podem controlar.

Com os seus recursos limitados, as crianças passam por fases onde despontam medos, peculiaridades, crenças, rituais e maneiras de se relacionar com o mundo.

Estas adaptações diminuem e fluem, mudam, ficam inactivas e reaparecem.

Todos nós carregamos pelo menos parte dessa bagagem -eu-estou-a-lidar-com-esta-loucura-o-melhor-que-posso-, para a vida adulta, e normalmente queremos deixar conteúdo da bagagem por analisar.

É tão difícil ver os nossos próprios pontos cegos, e surpreendentemente, a maioria de nós deseja ferreamente apegar-se a eles.

 

Mesmo os pais mais intuitivos e empáticos não conseguem compreender completamente o mundo interior de um filho.

 

No meu consultório vejo constantemente pessoas que se casaram para evitar um envolvimento profundo e depois divorciam-se porque o envolvimento não é suficientemente profundo;

ou que, inconscientemente, estão a fazer um esforço tão grande para serem diferentes dos seus pais, que não conseguem fazer com que o relacionamento funcione com um parceiro;

ou que continuam a fazer jogos e a tentar não se vingar de pequenos ou grandes traumas de infância.

Muitas vezes eles dizem-me: “Eu deveria ter vindo vê-lo há vinte anos”, e eu não discordo.

Por que eles não vieram?

Na maioria das vezes, as pessoas transportam os sentimentos desconfortáveis que têm sobre as suas lutas emocionais da infância para o presente.

As pessoas falam sobre o estigma de procurar ajuda para os problemas emocionais, mas o mais importante e omitido “estigma” são sobretudo, as próprias hesitações e as auto-depreciações.

A afirmação “Preciso de ajuda e vou obtê-la” raramente é mal recebida, mas a vergonha de querer ou precisar de ajuda para estas questões é tão grande que poucas pessoas se sentem à vontade para a verbalizar.

 

Como existe muito do passado no presente, mesmo que invisível, os obstáculos emocionais ao trabalho, ao amor e ao lazer são muitos.

 

Quando eu estava na faculdade, tinha tanta vergonha e medo de precisar de terapia como qualquer outra pessoa, mas existiam coisas que me incomodavam e com as quais eu não conseguia lidar.

Naquela altura, ter feito psicoterapia por um curto período de tempo ajudou-me a reconhecer que compreendia muito pouco sobre mim e sobre os meus sentimentos em relação à minha família – um começo muito útil.

Voltar a fazer psicoterapia quando era estudante de medicina ajudou ainda mais.

Durante a formação para psicanalista fiz uma psicoterapia mais longa que me proporcionou uma sensação tremendamente gratificante de finalmente desatar os nós emocionais mais apertados e ocultos.

Que sorte não me ter sentido obrigado a fingir que era maduro a ponto de me privar da ajuda essencial dos outros.

Freud sugeriu que era desejável que as pessoas pudessem amar e trabalhar, e, alguns, acrescentou, brincar.

Podem parecer coisas simples – amor, trabalho e diversão -, mas exigem equilíbrio emocional e flexibilidade, além de percepções realistas de si mesmo e dos outros.

Como existe muito do passado no presente, mesmo que invisível, os obstáculos emocionais ao trabalho, ao amor e ao lazer são muitos.

Embora algumas pessoas de facto atinjam estes objectivos aparentemente simples, mas realmente muito ambiciosos, é muito mais fácil quando alguém nos ajuda a esclarecer certas percepções erróneas.

Em qualquer idade, pode ser difícil crescer emocionalmente, dar o próximo passo no desenvolvimento.

E, os quiproquós no desenvolvimento são resolvidos com muito mais facilidade, e, geralmente, de forma mais profunda, com, do que sem terapia.

No entanto, apesar de existirem outras opções, muitos de nós parecem preferir crescer da maneira mais difícil – sozinhos -.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins
a partir de: Growing Up Without Therapy – Lawrence D. Blum

Ansiedade de Desempenho - Psicoterapia

Ansiedade de Desempenho

Muitos actores, políticos, atletas, figuras públicas e músicos sofrem de ansiedade de desempenho – também conhecido como “medo do palco” – Barbra Streisand, Beyonce, Adele, Emma Stone, David Beckham, Whoopi Goldberg, Oprah Winfrey, Thomas Jefferson, Warren Buffett, Mahatma Gandhi, para citar alguns.

Aqueles que não são famosos também se debatem com a ansiedade de desempenho. Isso inclui gestores, escritores, académicos, advogados e até profissionais de saúde mental.

Debati-me com o “medo do palco” enquanto estudante e sofria com as dúvidas quando tocava piano em público. Então, pratiquei mais. Os meus mentores e professores garantiram-me que eu “não me deveria preocupar”.

Essas garantias não ajudaram. Senti-me sozinha e confusa. As pessoas não queriam falar sobre o “medo do palco”; agiam como se fosse contagioso.

Apesar da minha ansiedade apresentei-me, mas a experiência foi esgotante, confusa e perturbadora.

 

A ansiedade de desempenho ou “medo do palco” não afecta apenas as pessoas sujeitas a grande exposição 

 

Alguns sintomas da ansiedade de desempenho

Hoje, a ansiedade de desempenho é menos estigmatizada, mas continua a debilitar e a desmoralizar muitas pessoas. A ansiedade de desempenho apresenta sintomas físicos e psicológicos, como:

– Tremores

– Insegurança

– Pavor de cometer erros; Humilhação

– Vergonha de não ser “perfeito” perante uma plateia

– Grande preocupação com o que as pessoas pensam

– Medo de decepcionar os outros

– Preocupações em parecer “esquisito” ou “estúpido”

– Ruminação constante ou pensamento circular

 

O medo leva à “luta” ou à “fuga”

Quando as pessoas ficam assustadas e se sentem atacadas, elas tentam defender-se. Infelizmente, a luta pode transformar-se num ataque a si próprio.

Esquecendo o que sabe, a pessoa acredita que o público não irá apreciá-los ou vai rir deles.

Como exemplo, alguns artistas procrastinam na preparação para uma apresentação – e depois dizem que não tiveram tempo suficiente para se preparar!

Outros param completamente de fazer apresentações.

A forma como alguém se aproxima – ou evita uma ameaça é importante para entender e gerir a ansiedade de desempenho.

Os psicanalistas chamam às respostas defensivas à ansiedade de “defesas do ego” porque o ego (ou o Eu) está a proteger-se da percepção de um temido desastre.

 

Quando as pessoas ficam assustadas e se sentem atacadas, elas tentam defender-se. Infelizmente, a luta pode transformar-se num ataque a si próprio.

 

Diminuir a ansiedade

Exemplo 1

Clara temia que o público desaprovasse as suas performances e, frequentemente sentia-se inibida em expressar as suas ideias musicais.

As suas mãos ficavam geladas e isso causava-lhe um grande sofrimento. Na terapia, ela percebeu que os seus medos e sensações físicas tinham um significado emocional na sua vida.

Os seus pais divorciaram-se quando ela era muito jovem. Clara não conseguia entender a depressão da sua mãe ou o desaparecimento do seu pai.

Ela assumiu que tinha tido algum papel na separação e sentiu-se responsável e culpada.

Clara sentiu que os seus pais eram indiferentes e que não respondiam às suas necessidades. Eles também não tinham ideia do impacto que as suas acções tinham na filha.

Ela ficou furiosa com os humores da sua mãe e a ausência do seu pai, mas tentou sempre ser uma filha “perfeita” para encobrir a sua raiva.

Clara usou duas defesas do ego para se proteger da ansiedade:

Ela negou a sua raiva porque temia que a raiva fizesse com que as pessoas a abandonassem.

Ela desconectou-se das suas emoções, raiva e medo em particular, fora do cenário das apresentações, mas tornou-se ansiosa quando estava em palco, temendo que uma apresentação “imperfeita” fizesse com que o público a desaprovasse.

Enquanto Clara e eu trabalhámos para entender as raízes mais profundas das suas mãos frias, ela descobriu que a sua ansiedade era um sinal de um sentimento desconfortável, como o medo ou a raiva.

Percebida essa conexão, poderia expressar-se através de palavras e, posteriormente, através das suas performances, que ela antecipou com prazer, em vez de medo.

 

Hoje, a ansiedade de desempenho é menos estigmatizada, mas continua a debilitar e a desmoralizar muitas pessoas.

 

Exemplo 2

Francisco tornou-se violoncelista apesar das objecções dos seus pais, que acreditavam que os músicos “acabavam a tocar no metro”. Ele persistiu nos seus estudos, mas desenvolveu uma dor no braço.

Francisco consultou vários médicos que não encontraram nenhum problema físico.

Fiz-lhe a seguinte pergunta: “Vamos considerar que a dor no seu braço provém de alguns sentimentos dentro de si – dentro da sua mente”.

Embora duvidoso, ele começou a explorar as suas reacções emocionais como uma pista importante para a sua dor física.

Ele passou a compreender como o medo e a raiva eram uma expressão da sua ansiedade de desempenho.

Ele temia comprovar que os seus pais estavam certos se não triunfasse.

Na verdade, ele estava tão enfurecido com eles por duvidarem da sua capacidade que às vezes quando estava preocupado batia no seu próprio braço.

Descobrir esses sentimentos ajudou-o a eliminar a sua dor e permitiu que Francisco controlasse a sua ansiedade de desempenho.

 

Descobrir certos sentimentos ajudou Francisco a eliminar a sua dor e permitiu que controlasse a sua ansiedade de desempenho.

 

Como gerir a ansiedade de desempenho

Aqui estão algumas coisas importantes a serem lembradas sobre a ansiedade no desempenho:

Não existe uma performance “perfeita”. A perfeição existe nas nossas mentes, fantasias e desejos.

Sentir ansiedade não significa que você não é excelente naquilo que faz.

A ansiedade é um sinal para desenvolver a curiosidade sobre as reacções e acções de alguém.

A vergonha é um sentimento complexo sobre si mesmo e também um medo de rejeição do público. Isso pode ser resolvido através da compreensão da fonte do seu desconforto emocional.

Perceba que a autocrítica intensa vem da mente do artista. Não é necessariamente o que o público sente.

Sintomas físicos como mãos frias, estômago embrulhado e dores de cabeça são algumas das maneiras pelas quais o corpo transmite pistas sobre o seu estado emocional.

Através da terapia, Clara e Francisco aprenderam a falar livremente sobre a raiva e o medo. Eles começaram a compreender que os sintomas físicos podem resultar de emoções difíceis de lidar. Uma vez expressadas as emoções, o sintoma físico começou a desaparecer.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

A partir de: What’s at the Root of Performance Anxiety? – Julie Jaffee Nagel

Esperar-o-pior-pode-levar-ao-pior.-Pedro-Martins-Psicoterapeuta

Esperar o Pior Pode Levar ao Pior

Um novo estudo mostra como os neuróticos criam as suas próprias profecias auto-realizáveis. Esperar o pior pode levar ao pior.

Você está prestes a encontrar-se com uma pessoa que conheceu online, talvez um futuro namorado; a ir a uma entrevista de emprego solicitada por uma empresa.

Inegavelmente, estas parecem ser grandes oportunidades, mas elas podem despertar muitas questões e medos internos.

Eles vão gostar de você o suficiente para avançar para um relacionamento, romântico ou profissional?

O que fará quando se encontrar com eles?

Você pensa nos momentos em que falhou em situações semelhantes e só consegue imaginar que as coisas vão correr mal.

Se disser a coisa errada a decepção será ainda maior.

E se deixar as suas crenças políticas escaparem na conversa, apenas para descobrir que essa pessoa pensa exactamente o oposto?

E se a sua mente ficar em branco quando tentar responder a uma pergunta importante?

 

As crenças negativas fazem com que as pessoas vejam as suas experiências através de um conjunto distorcido de percepções.

 

De acordo com a teoria cognitiva das emoções, a manutenção das crenças disfuncionais impedem as pessoas de vivenciarem a felicidade e leva-as a sentirem-se deprimidas e ansiosas.

Estas crenças disfuncionais incluem:

– Ideias de que as outras pessoas não gostam de você;

– Esperar o pior numa nova situação;

– Usar as ocasiões em que não teve sucesso como prova de que nunca terá êxito no futuro.

Segundo a teoria cognitiva as crenças negativas que você mantém sobre si mesmo fazem com que veja as suas experiências através de um conjunto distorcido de percepções.

 

O que faz manter as percepções negativas?

1 – Você teve tantas experiências negativas no passado que se acostumou ao fracasso e agora ele está enraizado na sua identidade.

2 – Os traços de personalidade distorcem as suas percepções de uma forma que impossibilitam que você tenha expectativas de que alguma coisa boa lhe vai acontecer.

Um estudo de Wilson McDermut e al. refere que os traços neuróticos de personalidade desempenham um papel importante ao afectarem as crenças disfuncionais das pessoas e, como resultado, a felicidade delas.

Em suma, a sua personalidade pode muito bem preparar o terreno para você ter crenças que atrapalhem o seu sucesso e felicidade. A questão é como.

O estudo de McDermut et al. sugere que a tendência para manter percepções distorcidas sobre si mesmo e das suas capacidades, e expectativas negativas parece mais provável de se desenvolver em pessoas cuja personalidade tende a olhar o mundo com preocupação e ansiedade.

Se crenças disfuncionais que indivíduos altamente neuróticos mantêm forem abordadas através de uma intervenção, então é possível ajudá-los a reverter o processo e desenvolver crenças renovadas nas suas capacidades.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

A partir de: “Expecting the Worst Can Lead to the Worst If You’re Neurotic” – Susan Krauss Whitbourne

Mães emocionalmente indisponíveis

Mãe Emocionalmente Indisponível

Mãe Emocionalmente Indisponível

“Acho que literalmente ansiava por amor e atenção quando era criança.

Quanto mais a minha mãe se afastava, mais frenética me tornava. Comecei a comportar-me mal porque sabia que assim ela me daria atenção, mesmo que isso significasse ser castigada.

Parece estranho, mas foi o que eu fiz. Ao não conseguir ter o amor, lutei para ter a raiva dela. Pelo menos, naqueles momentos, ela estava lá.” – Natália

Outra mulher descreve o que fazia para ter a mãe emocionalmente presente:

“Quando eu era muito jovem percebi que a minha mãe gostava de fazer de enfermeira.

Isso fazia com que se sentisse importante e reconhecida, coisa, que eu acho, não acontecia no seu dia-a-dia.

Alguns dos momentos mais felizes da minha infância estão entrelaçados com bronquite, acredite ou não.

Quando eu estava doente, ela tinha de me incluir na interminável lista de tarefas das quais ela se queixava constantemente.

Mas na maior parte do tempo, ela ignorava-me.”

 

O anseio por amor e atenção da mãe emocionalmente indisponível é a marca registada desta filha

 

Identificar uma mãe emocionalmente indisponível

Os filhos destas mães foram emocionalmente negligenciados, embora possam ter dificuldade em reconhecê-lo, pois as suas necessidades externas não foram apenas satisfeitas adequadamente, mas também, consideradas com atenção.

Estas mães tratam das coisas de forma escrupulosa; as casas impecavelmente organizadas e as crianças bem aprumadas.

Embora possam ser muito boas a tratar da casa e muito activas nas suas comunidades, elas não prestam atenção às necessidades emocionais dos filhos, nem aos seus sentimentos.

Estas mães podem, elas próprias ter uma vinculação evitante ou, simplesmente, não gostarem das exigências da maternidade.

Alexandra refere:

“A minha mãe não respondia às minhas necessidades e quanto mais carente me sentia, menos atenção me dava.

Ela via o choro como um sinal de fraqueza e acusava-nos disso.

Cedo aprendi a pedir pouco porque era realmente melhor quando não fazia exigências.

O meu irmão e eu reagíamos a ela da mesma forma, e só na minha adolescência, quando vi as mães dos meus amigos a agirem é que percebi o quanto a minha mãe era fria.

Eu fiz psicoterapia durante alguns anos e ainda tenho dificuldade em pedir ajuda, carinho ou qualquer outra coisa. Tenho 45 anos e ainda sou muito defensiva.”

 

Como uma mãe emocionalmente indisponível o pode afectar

Ao contrário da mãe controladora ou de uma pessoa com traços narcísicos que deliberadamente faz do filho um satélite a circular à sua volta, a mãe emocionalmente indisponível faz isso sem querer.

Na verdade ela só quer ter uma relação a um nível superficial.

 

Parece estranho, mas foi o que eu fiz. Ao não conseguir ter o amor, lutei para ter a raiva dela. Pelo menos, naqueles momentos, ela estava lá.” – Natália

 

O anseio por amor e atenção da mãe é a marca registada desta filha, e ela lidará com isso eliminando as suas emoções e necessidades emocionais, consciente e inconscientemente, ou tornando-se subordinada a esse anseio.

Aqueles que se revestem de armaduras sofrem de problemas de confiança, dificuldade em manter uma ligação e problemas para identificar sentimentos, e têm um estilo de vinculação evitante.

Aqueles que estão subordinados pelos seus anseios continuam a tentar chamar à atenção das suas mães, por vezes, recorrendo a substitutos pouco saudáveis para preencher o vazio nos seus corações.

Reconhecer a negligência emocional que se sofreu é, frequentemente, um caminho longo, como explicou uma filha de 43 anos:

“Quando eu ouvia as palavras ‘negligência emocional’, imediatamente pensava em alguém que era pobre e morava numa barraca, porque eu pensava que negligência emocional era parte de não ter coisas suficientes.

Mas agora percebo perfeitamente que se pode ser emocionalmente pobre e viver numa casa linda, com piscina e court de ténis.

A minha mãe nunca me deu uma palavra de apoio ou validação e levei vinte anos para perceber que aquilo que sentia em relação à minha infância era real.

Você pode estar esfomeado com o frigorífico cheio de comida e negligenciado com um armário cheio de roupas novas e dinheiro para gastar.

Demorei muito tempo para conseguir acreditar em mim mesma.”

 

Reconhecer a negligência emocional que se sofreu é, frequentemente, um caminho longo.

 

Enredado na confusão

Um dos enigmas para as filhas de mães emocionalmente indisponíveis é o intrigante fenómeno de como a mãe pode estar fisicamente presente e completamente ausente do ponto de vista emocional.

Para a criança pequena, isto é mentalmente confuso e, à medida que a criança amadurece, ela pode permanecer assim e desenvolver uma profunda insegurança.

Provavelmente, perguntará se há algo errado com ela. Ela é demasiado carente ou exigente? Está pedindo demais?

Ou pode perguntar se está apenas a inventar. Essas perguntas podem atormentar uma filha durante a vida adulta, como explicou Laura:

“Uma parte de mim queria que a minha mãe fosse má de maneiras que pudessem ser vistas – barafustando e gritando ou talvez até mesmo bater-me, mas isso nunca aconteceu.

À superfície, ela parecia ser uma óptima mãe e, acredite em mim, toda a gente pensava assim.

Mas ela nunca realmente me ouviu ou se importou verdadeiramente comigo.

 

A minha mãe nunca me deu uma palavra de apoio ou validação e levei vinte anos para perceber que aquilo que sentia em relação à minha infância era real.

 

Ela era inacessível e fria. Eu lutei durante anos, pensando que a culpa, de alguma forma, era minha.

Quando me casei, entrei em choque quando encontrei a família do meu marido pela primeira vez.

Francamente pensei que a mãe dele estava a representar. Mas ao longo do tempo, percebi que aquilo que eu estava a ver eram demonstrações genuínas de amor e carinho. Percebi que, afinal, eu não era louca.”

 

Passos para a cura

A descoberta é o primeiro passo e implica reconhecer a forma como a sua mãe a tratava e, em seguida, começar a ver como você se adaptou a ela.

Comportamentos que você sempre considerou serem partes inatas da sua personalidade, muitas vezes revelam ser o resultado de tentar lidar com o ambiente emocional da sua família de origem.

Independentemente da forma como reagiu à indisponibilidade emocional é importante ter em atenção o peso de certos aspectos:

– Confiar nos outros é um problema na sua vida

– O grau em que você deseja ou desdenha ligações próximas

– Se você tende a isolar-se e a minimizar a importância dos relacionamentos

– Se você está sempre alerta e temerosa num relacionamento e tem problemas com limites saudáveis

– O grau em que você é emocionalmente inteligente e consegue identificar e agir de acordo com os seus sentimentos

– Se você está a repetir o padrão, sentindo-se atraído por amigos e parceiros emocionalmente indisponíveis

 

A recuperação é possível, embora seja preciso tempo e esforço.

A melhor opção é o acompanhamento por um terapeuta experiente.

A boa notícia é que você não precisa permanecer para sempre aquela menina à espera da mãe (que não veio nem virá). Existem outras formas de sair daquele quarto da infância.

 

Traduzido/adaptado por P

Comprrender as coisas de forma racional versus emocional. Pedro Martins Psicólogo Clínico

Compreender as coisas de forma Racional vs. Emocional

É necessário distinguir entre saber algo sobre nós mesmos de forma racional e emocional

Conhecer a nossa própria mente é, na melhor das hipóteses, difícil.

É, até, extraordinariamente difícil compreender coisas básicas sobre nós e o que está por trás delas.

Coisas que condicionam as nossas vidas, e, das quais, esperamos um dia libertar-nos.

Em certos momentos é, verdadeiramente desanimador, concluir que saber uma coisa sobre nós, ter consciência dela, não é suficiente para que ela se altere.

Uma compreensão racional do passado, apesar de correcta, por si só não é suficiente para nos libertar.

Podemos, por exemplo, saber do ponto de vista racional de que somos tímidos junto de figuras de autoridade porque o nosso pai era uma figura fria e distante, e que não nos apoiava nem dava o amor que precisávamos.

Conseguir chegar até esta conclusão pode ser o trabalho demorado e, tendo chegado, poderíamos esperar que os nossos problemas com a timidez e a autoridade diminuíssem.

Mas, na nossa mente, infelizmente, as coisas não são assim tão simples.

Uma compreensão racional do passado, apesar de correcta, por si só não é suficiente para nos libertar.

Para isso, temos de olhar de forma aprofundada o que se passou connosco e o que suportámos.

Precisamos dar mais um passo e compreender as coisas do ponto de vista emocional.

Teremos que contactar com um conjunto de episódios do passado, nos quais os problemas com os nossos pais e as questões da autoridade se originaram.

Temos de permitir recordar certos momentos que devido à sua intensidade foram remetidos para longe na nossa memória.

É preciso encontrar, contactar e escutar emocionalmente partes nossas.

Não basta saber que tivemos um relacionamento difícil com o nosso pai, é preciso contactar com os sentimentos associados à situação.

Sabemos que pensar racionalmente é importante – mas, por si só, dentro do processo terapêutico, não é suficiente para resolver os nossos problemas psicológicos.

Há uma diferença fundamental entre reconhecer que éramos tímidos enquanto crianças e vivenciar o que era sentir-se intimidado, ignorado e com receio de ser rejeitado ou ridicularizado.

É diferente saber, de uma maneira abstracta, que a nossa mãe não esteve muito focada em nós quando éramos pequenos e re-conectarmos com o que sentíamos quando tentávamos partilhar algumas das nossas necessidades com ela e não conseguíamos.

A psicoterapia permite reviver certos sentimentos. Só quando estamos em contacto com os sentimentos é que podemos corrigi-los com a ajuda das nossas capacidades – agora mais maduras – e, assim, abordar os problemas reais na nossa vida actual.

É preciso encontrar, contactar e escutar partes nossas – talvez pela primeira vez – para que possam ser ao mesmo tempo tranquilizadas e revigoradas.

É com base neste tipo de conhecimento emocional arduamente conquistado, e não no seu tipo racional, que podemos encontrar uma forma de resolver os nossos problemas internos.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de “Knowing things intellectually vs. knowing them emotionally”

Amores Ardentes, Amores Frustrantes. Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Amores Ardentes, Amores Frustrantes

A vida de certas pessoas é marcada por grandes entusiasmos e amores ardentes que rapidamente abandonam, porque rapidamente frustrantes – pela não correspondência ao ideal desejado.

Muito desejado porque nunca obtido – não fora essa a sua falta básica:

– A de um amor materno/paterno de qualidade indiscutível, que as tivesse verdadeiramente preenchido.

Um afecto incondicional, que não dependesse dos seus atributos ou desempenhos; cuja única condição fosse a de existir e ser filho.

Esse amor que só um pai ou uma mãe pode e sabe dar.

Que nenhum homem ou mulher irá oferecer numa relação conjugal;

Que nenhum amigo, colega, mestre ou discípulo preencherá.

Que só quem ama como mãe ou pai pode fornecer;

Ou quem possa entender essa falta essencial – alguém muito empático que a sorte lhe possa trazer.

Habitualmente isso não acontece.

 

Os amores ardentes são frustrantes por não corresponderem ao ideal desejado.

 

Só uma psicoterapia que considere o lado experiencial lhe poderá pôr cobro, pelo encetar de uma relação diferente que o paciente desconhece, e por isso nova.

É um novo vínculo de apego que se estabelece e vai relançar o desenvolvimento normal; e novo, também porque nunca antes verdadeiramente experimentado.

Processo que se inicia na relação terapêutica, mas que passa, se contínua e persiste no quotidiano.

 

São pessoas que, sobretudo, fazem escolhas precipitadas.

 

Nelas impera mais a primeira impressão que um exame cuidadoso, a razão apaixonada que o bom senso, o brilho do outro que a natureza do seu interior.

É uma escolha narcísica – o sujeito reflecte-se no espelhado do outro, no outro que o ecoa ou admira; ou aquece-se ao seu brilho e participa na sua grandiosidade.

Tais relações revelar-se-ão sempre decepcionantes e desprazerosas:

– porque simétricas e não complementares -, trazendo sofrimento e conduzindo a inevitáveis e até a desejadas roturas.

Enquanto persistir o mesmo mecanismo de selecção – o que acontece se a estrutura e o funcionamento mental não mudarem -, o ciclo reinicia-se a cada novo relacionamento amoroso.

Bibliografia: “O Desespero” – A. Coimbra de Matos

Compreender a Ansiedade (parte III) - O Papel da Psicoterapia - Pedro Martins Psicoterapeuta

Compreender a Ansiedade (parte III)

Compreender a Ansiedade – O Papel da Psicoterapia

A psicoterapia pode ser uma forma de descobrir respostas para as questões complexas a que a ansiedade remete.

A psicoterapia é uma ajuda preciosa na medida em que faz aumentar a autoconsciência da pessoa.

Todos temos pontos cegos no que diz respeito aos nossos próprios pensamentos, sentimentos e motivações.

Fazer psicoterapia com um clínico qualificado pode ser um pouco como ver-se ao espelho.

Se você ficar muito perto do espelho, só verá uma pequena parte de si mesmo reflectida.

A terapia é como dar um passo para trás em relação ao espelho – você continua a ver o que via antes, mas agora consegue ver muito mais de si mesmo.

Isso significa que pode compreender coisas novas – coisas de que gosta e de que não gosta. Embora isso possa ser complicado, também pode ser muito valioso.

Afinal, se o seu carro não está a funcionar bem, mas você recusa-se a abrir o capô e olhar lá para dentro, provavelmente, não conseguirá resolver o problema.

A psicoterapia faz aumentar a autoconsciência da pessoa.

Da mesma forma, é muito difícil descobrir como lidar com uma dor emocional se nos recusarmos a olhar para dentro da nossa própria mente.

Então, como a psicoterapia pode ajudar a lidar com a ansiedade?

O processo terapêutico pode ser uma ajuda preciosa para descobrir o que significam os sentimentos de ansiedade.

– É, eventualmente, uma resposta ansiosa a uma situação stressante? (ansiedade funcional/situacional)

– É uma angústia existencial que resulta de um desfasamento entre aquilo que você possui, e o que precisa e deseja? (ansiedade existencial)

– É uma ansiedade disfuncional, inútil, que subestima as suas capacidades e amplia a sensação de perigo? (ansiedade disfuncional)

Em muitos casos, é uma mistura de várias ansiedades.

É importante descobrir o que está acontecer porque diferentes tipos de ansiedade necessitam de respostas distintas.

Muitas vezes as pessoas notam um desconforto mental, mas não estão cientes do que é a ansiedade. Através do processo psicoterapêutico, isso pode ficar claro.

Se a ansiedade é sobre um problema iminente que pode ser resolvido, então, procurar o apoio dos outros e empregar os seus recursos para resolver o problema, pode ser suficiente para diminuir a ansiedade.

Por exemplo, se uma pessoa achar que não está preparada para apresentar um trabalho, provavelmente, vai sentir-se ansiosa.

Cada tipo de ansiedade necessita de uma respostas distinta.

Preparar melhor a apresentação, treinar com um amigo ou colega e responder às perguntas prováveis, pode ser o suficiente para que a ansiedade desapareça.

Mas se o problema for evitado, a ansiedade vai aumentar.

Através da abordagem de várias questões na psicoterapia, podemos chegar à conclusão de que certos pensamentos desconfortáveis e sentimentos de ansiedade ou pânico vêm do “Departamento de Ansiedade Existencial”.

Ao compartilharmos os nossos medos humanos comuns – medo de morrer, de estar a viver uma vida desprovida de significado, medo de não deixar uma marca, um legado – sentimo-nos mais fortes e capazes de tolerar a ansiedade existencial quando ela surge.

Se estamos sozinhos perante os nossos medos humanos básicos, eles tornam-se mais pesados ​​e penosos.

Se compartilharmos os nossos medos somos capazes de tolerar a ansiedade existencial.

Compartilhá-los com uma pessoa que seja solidária e compreensiva pode ajudar a desenvolver um espaço comum de entendimento e um sentimento de pertença.

Essa pessoa pode ser um psicoterapeuta, mas também pode ser um amigo, membro da família ou parceiro íntimo.

Vamos voltar ao nosso exemplo hipotético do “João”, um advogado que começou a duvidar se realmente tinha feito uma boa escolha, ou se devia procurar outras coisas que o realizassem.

Se houver um amigo próximo em quem o João confie e possa conversar sobre as suas dúvidas, preocupações, sentimentos de mal-estar e ansiedade, talvez se sinta mais determinado para explorar outras opções; a dar um passo corajoso em direcção ao assustador desconhecido – e, perceber o que é realmente importante para ele, independentemente do que as outras pessoas (pais) queiram que ele seja ou faça.

O apoio do amigo pode ajudar o João a aventurar-se na descoberta daquilo de que realmente gosta.

Estas conversas, quer ocorram em psicoterapia ou numa outra relação de confiança, podem ajudar as pessoas a aprofundar os seus desejos e necessidades, e a ver a vida com outros olhos.

E se a pessoa ao tentar entender a ansiedade, descobrir por meio da psicoterapia (ou não), que está a lidar com uma ansiedade disfuncional?

Vamos dar outro exemplo hipotético. Vamos chamar “Filipa” à pessoa deste exemplo.

Imagine que a Filipa sente uma ansiedade muito grande sempre que conhece novas pessoas.

Tanto que, apesar de querer fazer novas amizades, ela recusa-se a ir a festas e a eventos quando é convidada.

Uma vez que fica extremamente ansiosa quando é apresentada a novas pessoas, ela não se aventura para além dos vários conhecidos/amigos que tem, mas ao mesmo tempo sente-se sozinha e sem amigos íntimos.

Imaginemos que na psicoterapia a Filipa fica mais consciente de que, quando conhece novas pessoas, bloqueia com o receio que os outros achem que é entediante e a rejeitem.

Se ela analisar mais profundamente essa expectativa, poderá encontrar outra coisa – a crença de que não é agradável e que é uma pessoa desinteressante.

A ansiedade social está associada à forma como nos vemos.

Por vezes, crenças como esta são fardos pesados que carregamos sem sabermos – talvez tenham estado ali desde sempre, de modo que são tão familiares que nem os estranhamos, ou, talvez, estejam submersos nas distracções da vida quotidiana.

A ansiedade social da Filipa está associada à forma como se vê.

A psicoterapia pode ajudar a compreender porque o espelho lhe devolve uma imagem distorcida de si mesma.

Isso implica desafiar certas crenças negativas sobre ela própria e explorar a origem dessas crenças.

Dessa forma, a Filipa será capaz de reconhecer e a apreciar as suas qualidades, e, nesse sentido, dar pequenos passos para se ligar aos outros.

Adaptado por Pedro Martins a partir de: “Understand Anxiety” – Alina Sotskova

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