Mês: <span>Março 2017</span>

relação psicoterapia

Adiar o início da Psicoterapia

Caminhando entre as insondáveis razões que levam as pessoas a adiar o começo de uma psicoterapia, deparamos com várias que, apesar de reconhecerem a necessidade, optam por coisas, digamos, menos convencionais. Tenho algo contra? Nada a opor, se forem uma ajuda. Na maioria das vezes não são uma ajuda, e quando o são, por norma é temporária (o seu efeito é proporcional à relação que se estabelece). Porque as pessoas optam por elas? Posso pensar que as considerem mais rápidas, mais baratas, mais eficazes, etc. Mas pode ser que uma das razões possa assentar no tipo de relação que se estabelece (ou não).

Recordo uma jovem mulher que recebi e que se mostrou muito interessada em discutir a minha orientação. Ainda que de forma superficial conhecia as principais correntes psicoterapêuticas. Para além disso conversamos um pouco sobre ela e sobre a sua vida. Ao falar-me das suas relações compreendi melhor o grande interesse sobre a minha orientação e até que ponto eu fazia uso das teorias.

Para ela se sentir segura era fundamental que existisse algo que a pudesse manter separada dos outros. Um muro de betão, um vidro ou uma fina película, conforme o género de relação.

No nosso caso queria assegurar-se que entre mim e ela existiria uma teoria que nos separava. Ficaria mais segura em saber que não era eu (a nossa relação) que a estava a ajudar mas a teoria.

As suas relações (defeituosas, intrusivas, insuficientes) levaram a que as conexões emocionais se fossem reduzindo e sujeitas a um grande escrutínio. Antes de entrar precisava saber o que ia encontrar. Por norma não é possível saber o que vai acontecer, antes de acontecer. Na ausência desse conhecimento fazia uso do conhecimento adquirido, supondo que, seguramente – para o bem e para o mal – se ia repetir.

Mas por muitas voltas que se dê, aquilo que foi estruturado na interacção com o “outro” só na relação com o “outro” pode ser modificado, através de uma nova, fresca e sadia via de conexão emocional.

emagrecer

Por que comemos demais?

É claro que muitos de nós comemos demais. E em resposta, cresceu uma enorme indústria que nos aconselha a consumir e proporciona tudo o que existe de mais saudável.

Mas isso é não compreender de todo porque começámos a comer quantidades excessivas. Não tem nada a ver com comida, e, portanto, tentar mudar a nossa dieta não é o foco mais lógico para concentrar os nossos esforços. Nós comemos muito porque estamos realmente com fome daquilo que não está disponível.

Parece natural que tudo o que poderíamos querer deveria estar à mão. Os supermercados e as lojas gourmet são templos icónicos da sociedade de consumo e os restaurantes não se poupam a esforços para nos satisfazer.

Poderíamos ser tentados por uma mariscada? Ou uma selecção de vegetais regionais regados com azeite proveniente de uma pequena quinta nos Pirinéus?

Mas se pudéssemos realmente escolher será que não quereríamos um menu ligeiramente diferente? Por exemplo:

Conversa sincera com o pai, marinada em perdão mútuo.
– Amor maternal carinhoso * (* adequado para aqueles que estão em dieta livre de críticas).
– Amizade madura servida com farripas de memórias.
– Conversa fresca, polvilhada com boa disposição (para dois).
– Flirt ao natural (o nosso Sommelier recomenda, como acompanhamento ideal, um copo de Chateau Fantaisie).

E para a sobremesa, talvez:

– Uma generosa fatia de cumplicidade com chocolate derretido.
Ou:
– Enternecidos momentos de compaixão, acompanhados com lágrimas de compreensão (especialidade da casa)

Por outras palavras, não é comida que desejamos.

Os menus dos nossos restaurantes (apesar de tentadores) conduzem-nos em direcções muito limitadas e restritas. Eles entendem – e respondem – apenas a um segmento estreito dos nossos verdadeiros apetites.

Na verdade, falamos muito de comida e tão pouco do que necessitamos. Não é de marisco, queijo da serra ou picanha do Brasil que nós precisamos, mas de amizades onde possamos confessar as nossas ansiedades, sermos ouvidos e perdoados; Precisamos de ajuda para nos acalmar em momentos-chave, assegurando que podemos suportar o pior que possa estar a acontecer. Precisamos de alguém que nos possa ajudar a descobrir os nossos verdadeiros talentos no local de trabalho e oferecer-nos um guia para alcançar nosso verdadeiro potencial.

Sabemos que não é num pacote de batatas fritas ou numa fatia de pizza que está a resolução do problema mas não sabemos para onde nos virar e temos, pelo menos, uma satisfação imediata.

A tragédia não está no nosso apetite insaciável, mas na dificuldade em ter acesso às coisas emocionais e psicológicas para alimentar as nossas almas desnutridas.

A indústria alimentar tem travado os sintomas da nossa infelicidade, não as suas causas – e, portanto, as soluções que oferece são frágeis e temporárias.

Há umas centenas de anos era quase impossível para a maioria das pessoas a encontrar algo delicioso para comer. Desde então, uma grande quantidade de engenho humano tem sido dedicado a seduzir o paladar. Nós conseguimos ir muito além das nossas expectativas. Mas em tantas outras áreas, mal começámos a suprir o que ansiamos consumir, que são, para dizer mais claramente: compreensão, ternura, perdão, reconciliação e proximidade.

Nós não comemos muito porque somos insaciáveis, mas porque vivemos num mundo onde as prateleiras ainda estão vazias dos ingredientes que verdadeiramente desejamos.

Adaptado e traduzido por Pedro Martins a partir
de Alain de Botton

o perigo das crianças perfeitas

Os perigos das crianças perfeitas

As crianças “perfeitas” fazem os trabalhos de casa a tempo e horas, mantêm o quarto arrumado, são um bocadinho tímidas, estão sempre prontas para ajudar os pais e são muito cautelosas nas suas brincadeiras.

Uma vez que não levantam muitos problemas, tendemos a assumir que está tudo bem com as crianças bem comportadas.

Não são razão para uma preocupação particular. Essa atenção é dirigida às crianças que fazem asneiras.

As pessoas imaginam que as crianças bem comportadas estão bem porque fazem tudo o que se espera delas.

E é precisamente aí que está o problema. As tristezas secretas – e as dificuldades futuras – da menina ou menino bonzinho começam com a excessiva necessidade de satisfizer.

As crianças “perfeitas” não são “perfeitas” por um capricho da natureza, mas porque não têm outra opção.

A sua bondade é uma necessidade ao invés de uma escolha.

Assumimos que está tudo bem com as crianças bem comportadas porque não levantam problemas.

Muitas das crianças “perfeitas” são boas por amor a um pai deprimido que não consegue lidar com mais complicações ou dificuldades.

Ou talvez sejam muito bem comportadas para acalmar um pai violento que se poderia tornar insuportavelmente assustador perante qualquer sinal de conduta menos do que perfeita.

Ou talvez os pais sejam muito ocupados e distraídos e só sendo muito boa criança, poderia esperar conseguir atenção dos pais.

Embora a repressão de emoções produza uma obediência agradável a curto prazo, armazena uma enorme quantidade de dificuldades na vida adulta.

Os educadores e os pais mais experientes devem detectar os sinais de gentileza exagerada – e lidar com eles de acordo com o risco que representam.

As crianças “perfeitas” dizem palavras adoráveis e são especialistas em satisfazer as expectativas dos seus públicos, mas os seus pensamentos e sentimentos reais permanecem soterrados.

Nesse sentido, podem viver numa amargura corrosiva, apresentar sintomas psicossomáticos e surtos repentinos.

Os educadores e os pais mais experientes devem detectar os sinais de gentileza exagerada.

O problema da criança boazinha é que ela não tem a experiência de que as outras pessoas são capazes de tolerar a sua maldade.

Elas perderam um privilégio vital concedido à criança saudável:

– O de ser capaz de mostrar os seus lados invejosos, gananciosos, ego-maníacos e, apesar disso, ser tolerada e amada.

As pessoas do género “irrepreensível”, normalmente, apresentam problemas particulares em torno da sexualidade.

Em criança podem ter sido elogiadas por serem puras e inocentes.

No entanto, quando se tornam adultos, como todos nós, descobrem os arrebatamentos do sexo.

E podem encontrar excitação em situações que aos seus olhos podem ser repugnantes e perversas mas indescritivelmente prazerosas.

Isto pode contrastar radicalmente com a imagem do que eles estão “autorizados” a ser.

Podem, em resposta, negar os seus desejos, ficarem frios e desprendidos dos seus corpos – ou cederem aos seus anseios apenas de uma forma desproporcional, que seja destrutiva para outras partes das suas vidas.

As crianças “perfeitas” são especialistas em satisfazer as expectativas dos outros.

No trabalho, o adulto exemplar também vai ter problemas. Tal como as criança, eles seguem as regras.

Nunca arranjam problemas e tomam muito cuidado para não irritar ninguém.

Mas, como sabemos, quem segue todas as regras não chega muito longe na vida adulta.

Quase tudo o que é interessante, que vale a pena fazer, vai encontrar um certo grau de oposição.

Estar devidamente maduro envolve uma relação franca e sem medo com a própria escuridão, complexidade e ambição.

Envolve aceitar que nem tudo o que nos faz felizes agradará aos outros ou será honrado como particularmente “agradável” pela sociedade -, mas, apesar de tudo, pode ser importante para nos mantermos ligados.

O desejo de ser bom é uma das coisas mais bonitas do mundo, mas para ter uma vida verdadeiramente boa, às vezes precisamos ser (com os padrões da boa criança) frutífera e corajosamente mauzinhos.

Traduzido/Adaptado por Pedro Martins
a partir de Alain de Botton

auto-sabotagem psicoterapia

Auto-Sabotagem

É normal assumir que vamos procurar de forma activa a nossa felicidade, especialmente, em duas grandes áreas que nos podem conferir grande satisfação:

– os relacionamentos e a carreira profissional.

Daí ser estranho e até um pouco irritante descobrir que com muita frequência, alguns de nós, agimos como se estivéssemos deliberadamente a tentar arruinar as nossas hipóteses de obter aquilo que queremos.

Quando saímos em encontros amorosos com pessoas que nos parecem bons candidatos, por vezes, de forma súbita, iniciamos um comportamento demasiado opinativo, ou confrontador de forma desnecessária.

Não temos grande dificuldade em ser charmosos com pessoas pelas quais não temos assim tanto interesse.

No entanto, podemos afastar os nossos parceiros através da repetição de acusações ou explosões de raiva, como se de alguma forma desejássemos criar uma situação desagradável e triste, em que os nossos amados, exaustos e frustrados, se vissem forçados a abandonar-nos.

Apesar de gostarem de nós são incapazes de aturar tanto drama.

Podemos preferir escolher o que nos é familiar, mesmo que seja mau, em detrimento daquilo que é bom.

No trabalho podemos prejudicar a hipótese de sermos promovidos quando, sem motivo aparente, depois de muitos anos promissores, entramos em conflito com as chefias, ou falhamos na elaboração atempada de relatórios importantes.

Esse comportamento não pode ser explicado como sendo produto do azar.

Ele merece uma designação mais forte e intencional: Auto-Sabotagem.

O que pode explicar esse comportamento auto-destrutivo?

Em grande medida, a forma como a simples e enervante felicidade, por vezes, nos faz sentir.

Ainda que a felicidade seja claramente aquilo que fundamentalmente desejamos, para muitos de nós ela não corresponde àquilo que nós conhecemos:

– – Nós crescemos e aprendemos a acalmar-nos noutros cenários.

A possibilidade de sermos felizes, quando finalmente se concretiza, pode, por esse motivo, parecer contra-intuitiva e até mesmo assustadora.

Não corresponde ao que nos é familiar, e, não nos faz “sentir em casa”.

Podemos por isso preferir escolher o que nos é confortável e familiar, mesmo que seja pior, em detrimento daquilo que se apresenta como, estranhamente, satisfatório ou bom.

Atingir aquilo que desejamos pode ser insuportavelmente arriscado. Deixa-nos à mercê da fé, de nos entregarmos à esperança e à subsequente possibilidade de perda.

A Auto-Sabotagem pode causar tristeza, mas ao mesmo tempo fazer-nos sentir seguros por estarmos a controlar as coisas.

Pode ser útil recordar e usar o conceito de Auto-Sabotagem quando interpretamos o comportamento bizarro dos outros ou o nosso.

Devemos suspeitar sempre que nos apercebemos que estamos a comportar-nos de forma errática na companhia de pessoas que no fundo gostamos ou às quais queremos causar boa impressão.

Para além disso, quando confrontados com certas atitudes cruéis ou irresponsáveis por parte dos outros devemos ter a coragem de imaginar que as coisas, possivelmente, não são o que aparentam ser.

Podemos estar a observar não um opositor malévolo mas alguém ferido – de forma quase comovente – a praticar Auto-Sabotagem, e que, por isso, merece alguma paciência da nossa parte. Ao mesmo tempo, ser gentilmente persuadido a parar com a agressão contra si próprio.

Devemos tranquilizar-nos e a ajudar os outros a ver quão complicado e irritante pode ser a aproximação às coisas que verdadeiramente desejamos.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de Alain de Botton

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