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Personalidade Depressiva - Pedro Martins Psicólogo Clínico Psicoterapeuta

Personalidade Depressiva

Paciente mulher com personalidade depressiva

P: Tenho de pensar em mim, preocupar-me/ocupar-me com as minhas coisas. Só penso nos outros, preocupando-me com eles constantemente, ocupo-me apenas com as coisas dos outros. Esqueço-me de comprar roupa para mim, estou sempre a comprar roupa para o Francisco. Cozinho para ele; se estou só, não cozinho, como qualquer coisa que haja em casa.

T: Como há muito lhe venho mostrando

P: É verdade… Mas depois – penso – fico vazia, não tenho nada que me interesse ou motive. Assim ao menos – ocupando-me com os outros – ando entretida, sinto-me mais preenchida.

 

Nunca ninguém reparou que andasse deprimida, nem ela própria disso se apercebia.

Era assim, sempre foi assim; ela e os outros sempre acharam que era normal.

São as derrotas sucessivas que a trazem à terapia. Não percebe porque tal acontece.

Abandona umas vezes, é abandonada outras.

Nos abandonos afectivos, fica algum tempo deprimida – depressão que nem pela intensidade nem pela duração tem características patológicas;

O único aspecto patológico (mas que é importante e significativo) é a ausência de revolta e acusação do objecto abandonante:

– Sente sempre que a culpa/responsabilidade foi toda sua.

Quando é ela a abandonar, o motivo consciente é a saturação e o desinteresse progressivo pela relação.

Interessa-se pouco com si própria. Quando tem uma nova relação amorosa anima-se por algum tempo.

Só que não repara, desconhece a depressão larvar em que se arrasta – a depressividade.

A depressividade é uma certa e específica forma de personalidade depressiva, a mais característica – que se revela pelo abatimento, sintoma patognomónico da doença depressiva (depressão/personalidade depressiva).

Traduz-se a queda/declínio da líbido (sexual lato sensu e narcísica), restando ou exacerbando-se a líbido ideal (dessexualizada) e a ligação de aconchego e dependência;

Numa outra linguagem e perspectiva, a queda da energia psíquica (perda da vitalidade).

 

O abatimento é o sinal nuclear da doença depressiva.

 

Reiteramos: o abatimento é o sinal nuclear da doença depressiva.

A alteração do humor, a tristeza, não é um sintoma essencial.

O certo é que há depressões sem tristeza, mas não existem depressões sem abatimento.

Na depressão normal, que se distingue, não só pela menor intensidade e duração e pela proporcionalidade da alteração à grandeza da perda actual, mas principalmente pelo predomínio da revolta sobre o sofrimento depressivo – há algum abatimento.

Mas o que caracteriza a depressão normal é o ressentimento e a raiva.

Na depressão doença, predomina o sentimento depressivo e a inibição (abatimento) sobre a revolta.

É que na depressão patológica subjaz (mesmo que latente) a depressividade por um lado; pelo outro, são recrutadas/reactivadas perdas afectivas anteriores; por outro ainda, a agressividade está inflectida sobre o próprio.

A partir de a: “Depressividade/Personalidade Depressiva” – Coimbra de Matos

Aprender a usar a Raiva - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Aprender a usar a Raiva

Há muitas razões para acreditar que um dos principais problemas no mundo de hoje é o excesso de raiva.

Mas pode ser bastante mais realista, ainda que estranho, insistir precisamente no oposto.

Qualquer que seja a impressão gerada por uma multidão de enfurecidos, o problema muito mais comum mas invisível (por natureza) é a tendência contrária.

Ou seja, uma incapacidade generalizada das pessoas de se zangar. Uma inépcia em conseguirem queixar-se com eficácia.

Engole-se a frustração e a amargura.

A consequência de não permitir que nenhuma das nossas dores legítimas seja expressa, é o surgimento de sinais (subterrâneos) de depressão.

Por cada pessoa que grita demasiado alto, há pelo menos vinte que perderam (injustamente) a sua voz.

Não estamos aqui a falar de uma raiva delirante que não leva a lado nenhum.

Não se trata de reabilitar a barbárie, trata-se de defender a capacidade de falar, de se manifestar – com dignidade e equilíbrio – para corrigir algo que não está bem, e oferecer àqueles que nos rodeiam outra perspectiva.

O problema é que dizemos a nós próprios – nos relacionamentos ou no trabalho – que os outros devem ter as suas boas razões para se comportarem da forma que se comportam; que devemos ser amáveis e bons e que seria uma afronta aos esforços dos outros manifestarmo-nos sobre um problema que, certamente, nem sequer compreendemos inteiramente.

Temos tendência para carregar a nossa modéstia desde a infância.

É uma excepção permitir que uma criança manifeste a sua frustração. Grande parte dos pais não está disposta a isso. Alguns pais estão mais interessados em ter um “bom menino”.

 

No trabalho, uma preocupação inabalável com a gentileza, a polidez e a deferência pode acabar por proporcionar as condições perfeitas para ser um pau para toda a obra.

 

Desde o primeiro momento, eles fazem saber à criança que ser “travesso” não tem graça e que esta não é uma família onde as crianças podem fazer o que bem lhes apetece com os adultos.

Birras, queixinhas e acesso de raiva não são bem aceites.

Isto certamente garante a obediência a curto prazo, mas paradoxalmente, o bom comportamento imposto inicialmente (contranatura) é geralmente um precursor de várias dificuldades.

Entre elas a dificuldade em respeitar as hierarquias e a figuras de autoridade, e um enorme mal-estar mental na idade adulta.

Sentir-se suficientemente amado para poder zangar-se e responder mal (dentro de certos limites) às figuras parentais pertence à saúde mental.

Pais verdadeiramente maduros têm regras e permitem que os seus filhos (por vezes) as quebrem.

Caso contrário, dá-se uma espécie de morte interior, resultado de ter tido de ser muito bonzinho cedo demais e de se resignar ao ponto de vista do outro sem mostrar a sua perspectiva, uma autodefesa.

Nos relacionamentos, isto pode significar uma tendência para embarcar numa viagem durante muitos anos, não em termos de abuso (embora também isso), mas de aceitar pequenas humilhações, que são uma espécie de dado adquirido nas pessoas que não conseguem mostrar o seu desagrado.

No trabalho, uma preocupação inabalável com a gentileza, a polidez e a deferência pode acabar por proporcionar as condições perfeitas para ser um pau para toda a obra.

Deveríamos – por vezes – reaprender a arte negligenciada de sermos educadamente chatos.

O objectivo é protestar com firmeza, mas de forma controlado: “desculpe-me, mas você está a destruir o que sobrou da minha vida; sinto muito, mas você está arruinar as minhas possibilidades de ser feliz; Peço desculpa, mas chega, não vou permitir que continue…”

 

A consequência de não permitir a expressão da raiva, que nenhuma das nossas dores legítimas seja expressa, é o surgimento de sinais (subterrâneos) de depressão.

 

Pensamos muito em ir de férias e experimentar novas actividades. Há muito entusiasmo em aprender outras línguas e em experimentar pratos estrangeiros.

Mas o verdadeiro exotismo e aventura podem estar mais perto de casa: na esfera emocional, e na coragem e originalidade necessárias para dar um impulso à raiva contida.

Já temos os discursos escritos nas nossas cabeças. É provável que haja um cônjuge, um pai, um colega ou um filho que não tenha ouvido o suficiente de nós durante demasiado tempo – e seria um benefício incalculável para o nosso bem-estar emocional e físico ter uma palavra a dizer.

Os tímidos imaginam sempre que a raiva pode destruir tudo o que é bom.

Esquecem – porque a sua infância os encorajou a fazê-lo – que a expressão raiva também pode ser profundamente libertador e fonte de mudanças.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de Alain de Botton “Learning how to be angry”

Por que a Depressão nos deixa tão cansados? Pedro Martins Psicoterapeuta

Por que a Depressão nos deixa tão fatigados?

A fadiga e o stress tornaram-se estados permanentes para muitas pessoas.

O cansaço extremo e a falta de energia, geralmente, ocorrem após uma experiência exigente do ponto de vista mental/emocional ou fisicamente desgastante.

Mas nem sempre é temporária ou circunstancial.

A fadiga também pode ser um sintoma de um problema maior, como a depressão.

De facto, de acordo com dados de 2018, a fadiga está presente em mais de 90% dos casos de depressão.

Parte da razão pela qual a depressão e a fadiga andam de mãos dadas é porque a depressão afecta os neurotransmissores associados ao estado de alerta e ao sistema de recompensa.

Outra razão tem a ver com o facto de a depressão afectar de forma negativa o sono.

Seja pela dificuldade em adormecer, de ter um sono contínuo, de acordar cedo demais ou, simplesmente, não conseguir dormir profundamente.

De acordo com dados de 2018, a fadiga está presente em mais de 90% dos casos de depressão.

A depressão também prejudica a motivação, uma vez que é física e emocionalmente desgastante realizar tarefas simples.

Além disso, alguém deprimido tem de gastar muito mais energia para tomar decisões e para se concentrar no trabalho.

A relação entre a depressão e a fadiga pode tornar-se cíclica.

As pessoas com depressão, ao fazerem um grande esforço para realizarem as tarefas diárias, podem sentir-se ainda mais fatigadas.

O que, por sua vez, pode fazer com que se sintam ainda mais deprimidas. E o ciclo continua.

É importante dizer que é muito mais provável que a fadiga seja um sintoma de depressão do que a sua causa.

No entanto, doenças crónicas e problemas no sono podem tornar a pessoa mais susceptível à depressão.

Se alguém está sempre cansado por qualquer motivo, é provável que tenha dificuldade em ter uma vida mais rica.

Isso pode levar a menos socialização, menor foco no trabalho e nas rotinas diárias.

Por isso é crucial tomar medidas para melhorar o seu bem-estar geral, caso a fadiga seja devido à depressão ou a outra causa.

Caso você mude as suas rotinas, os seus hábitos de sono e de trabalho, e, ainda assim, se sentir exausto, considere procurar ajuda profissional para determinar se é um caso de depressão e iniciar o tratamento.

A partir de “Why Depression Makes You So Damn Tired All The Time” – Paige Smith

Depressão Sorridente - Pedro Martins Psicoterapeuta

A Depressão Sorridente

Não creio que se possa falar em “Depressão Sorridente” como entidade nosológica.

Mais correcto será dizer que certas pessoas, apesar de deprimidas, apresentam-se “sorridentes”. Mais que sorridentes no sentido literal, mantém-se funcionais: continuam a trabalhar (baixo absentismo), a cuidar do lar, da família, e têm actividade social.

São pessoas que apesar de estarem deprimidas parecem felizes.

Tende a pensar-se que as pessoas com depressão estão impossibilitadas de funcionar, mas não é exactamente assim. Para além disso, não só não existem duas depressões iguais, como cada pessoa vivencia a depressão de forma diferente.

Há casos em que algumas destas pessoas podem nem perceber que estão deprimidas, principalmente se se mantiverem “funcionais”.

Apesar de notarem (principalmente) um cansaço maior do que o habitual, tendem a desvalorizar ou a considerá-lo resultado de qualquer outra coisa. O mesmo acontece quando sentem alguma desmotivação, “preguiça”, ou um desinteresse generalizado.

Pode parecer estranho que alguém possa “andar sorridente” e ao mesmo tempo estar deprimido, mas acontece com frequência.

Aqueles que fazem acompanhar a sua depressão com um “sorriso” são os ficam surpreendidos quando são diagnosticados.

Outros nunca chegam a ser diagnosticados porque o receio de estarem deprimidos é tão grande que se afastam de qualquer coisa que lhes possa trazer essa confirmação.

Apesar de a tristeza ser um dos principais sintomas da depressão, as pessoas podem apresentar ansiedade, medo, raiva, fadiga, irritabilidade, desesperança e desespero.

As pessoas que não admitem estar deprimidas têm receio de se afundarem caso vacilem perante o mal-estar que sentem.

Também podem ter problemas com o sono, falta de satisfação em certas actividades prazerosas (até então) e perda de libido. A experiência é diferente para cada um. É possível ter apenas um ou vários destes sintomas.

As pessoas que sofrem da chamada depressão sorridente – as que não admitem estar deprimidas – têm um receio não muito consciente de se afundarem caso vacilem perante o mal-estar que sentem.

Por isso usam capas rígidas atrás das quais “escondem” dos outros, mas principalmente de si, os sinais de depressão.

Algumas destas depressões acabarão por ser ultrapassadas com o tempo.

Em alguns casos pode tratar-se de uma personalidade depressiva em vez de uma depressão propriamente dita. (Ver: Personalidade Depressiva e Depressão)

Outras terão uma boa evolução se reconhecidas pelo próprio e pela família e amigos. Dado serem ligeiras poderão ser ultrapassadas sem recurso a terapia.

As mais profundas necessitam de tratamento.

Caso conheça alguém que tenha dificuldade em aceitar que está deprimido e procura ajudar essa pessoa, evite colocar a questão de forma muito directa. A resposta será um rotundo não.

Destapar à força a depressão que alguém procura tapar, não só é ineficaz, como contraproducente e até cruel.

Compartilhar sentimentos é a melhor forma de ajudar.

Personalidade Depressiva e Depressão - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico. Foto Enzo Penna

Personalidade Depressiva e Depressão

O estudo dos estados depressivos mostra-nos que devemos distinguir entre a personalidade depressiva e a depressão propriamente dita.

A personalidade depressiva é caracterizada pela deficiente organização do investimento narcísico – a baixa auto-estima é o seu pano de fundo.

O indivíduo é dominado por um sentimento mais ou menos permanente de frustração, de não realização dos seus planos e projectos.

Podemos olhar para o depressivo como uma espécie de frustrado, em grande parte, em função do seu desejo omnipotente, de uma enorme ambição.

A baixa auto-estima é o pano de fundo da personalidade depressiva.

Mas também em face das decepções sofridas no passado.

Portanto, na depressividade há uma situação de frustração, de falta do desejado; e não bem uma situação de perda.

Mais do que uma situação de perda, é o reconhecimento da impossibilidade de concretização de um desejo e de uma fantasia.

O reconhecimento da limitação imposta pela realidade; mas mal aceite, não elaborado, não “digerido”. Desta forma, uma constante insatisfação marcam o seu humor e o seu destino.

Na depressão propriamente dita, há uma perda.

É evidente que este desejo e fantasia não surgem (como aliás nada) por geração espontânea. Resultam do hiperinvestimento de pais narcísicos, insatisfeitos e frustrados, que investem compensatoriamente nos filhos.

Na depressão propriamente dita, há uma perda. Essa perda é ao mesmo tempo narcísica e acompanhada por sentimentos de culpa. (ver: “Depressão: As Causas e a Cura“)

O núcleo do sofrimento depressivo é o sentimento de falta de afecto, de carência afectiva – essa dolorosa brecha com raízes num passado longínquo.

Como acreditar no amor, se a experiência primeira, a do que é consagrado e sentido como o berço do amor, foi de não-amor, de pouco ou de amor insuficiente?

É uma vida triste. E é-o porque foi; o ferrete do passado marca o destino do presente.

É esse sentimento profundo de que a vida foi e é pobre de afecto, em que no balanço entre a tristeza e a alegria o volume da primeira se mostra sempre maior.

Bibliografia: “A Depressão” – Coimbra de Matos

A Depressão na Adolescência - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico.

A Depressão na Adolescência

A depressão adolescentil instala-se habitualmente a meio ou para o fim da adolescência.

Habitualmente, após um período de uma separação-autonomia e individuação insuficientemente assumidas.

São casos em que aparentemente o pré-adolescente se autonomizou, mas durante o qual inconscientemente permanece fortemente ligado à infância.

“Um indivíduo jovem sai da adolescência quando a angústia dos seus pais não produz nenhum efeito inibidor.” F. Dolto

Um dos elementos de diagnose desta pseudo-independência é a ligação que o adolescente estabelece com o círculo relacional próximo da família:

–  Há um desejo de não se afastar, mas apenas de alargar o grupo familiar.

A este período (que se caracteriza por um estado eufórico, de dinamismo e de entusiasmo) de aparente separação da família, às vezes com um distanciamento comportamental evidente e escolha de padrões e valores diferentes dos dos pais, segue-se um período de manifesta regressão aos objectos e objectivos infantis.

Trata-se de um reencontro em novos moldes com a família, na vigência do qual o adolescente, de arisco e rebelde, se torna terno e simpático com os pais.

É quando se apercebe de que está abdicar dos seus projectos mais pessoais, defendendo activamente a submissão ao esquema parental, que o adolescente acorda da ilusão relacional euforizante.

Nessa altura tenta mais decididamente o luto da infância e das imagos parentais e a escolha de um objecto heterossexual verdadeiramente exogâmico e bem marcadamente seleccionado pelo seu desejo próprio, que a depressão autêntica, vivida –e, por vezes, séria – da adolescência se instaura.

Foi-se a alimentada ilusão de um retorno disfarçado à infância.

O caminho da desvinculação do passado e da aventura afirma-se como o mais válido e o único que conduz à realização criativa do homem.

No entanto, a nostalgia do passado, o luto inacabado da infância, a fixação e regressão infantis impedem-no de o trilhar com decisão.

A partir de “Audácia, Narcisismo e Sexualidade” – A. Coimbra de Matos

A erotização do contato - Pedro Martins Psicoterapeuta, Psicólogo clínico

A Erotização do Contacto

É difícil viver o defeito narcísico, por isso o depressivo o mascara. Ao mesmo tempo, as defesas contra o afecto depressivo são uma das principais causas do agravamento da estrutura depressiva.

O depressivo, duramente inferiorizado, esconde as vergonhas. O essencial, para ele, é salvar a face narcísica; mesmo que o interior continue ferido e a humilhação bem sentida.

É precisamente nos deprimidos que encontramos a maior resistência à reabertura do ferimento narcísico, falsamente cicatrizado.

A erotização do contacto é um mecanismo antidepressivo por excelência.

A dificuldade de relacionar-se, a que a inferioridade conduz (e que com ela se reforça), tem outra saída: a erotização do contacto.

A erotização do contacto é um mecanismo antidepressivo por excelência. A ansiedade relacional é erotizada e a inibição na relação curto-circuitada.

A ausência de uma figura de amor, a perda não reparada do amor dessa figura – (causa primeira e fundamental do sofrimento depressivo) é negada.

Na relação erótica o investimento no outro é substituído pelo investimento no acto; uma relação funcional e parcial vicariante da relação total de amor  – tida e considerada, como impossível.

Mas sabemos bem a miséria que esconde, a insatisfação que comporta, a monotonia em que se traduz, o aborrecimento a que conduz – a depressão que se iludiu e que cada vez mais se vai tornando mais funda.

“Fugir à depressão é agravar a depressividade”

Fugir à depressão e ao afecto depressivo da perda e ao tempo de depressão que é necessário para elaborar e fazer o trabalho do luto é agravar a depressividade.

Sem esse trabalho não é possível conquistar um novo amor – única cura da depressão-doença -, reorganizando uma relação vital (não há vida mental saudável sem uma constância de amor).

O poder sentir, reconhecer e viver o vazio – de forma temporária – conduz, lógica e necessariamente, ao preenchimento, a novo encontro ou reencontro, e assim, substitui-se o vazio – que quando ignorado, caminha para o definitivo.

Caso contrário, é a morte da esperança, com a idealização do prazer. Parafraseando Samuel Johnson, diremos que: a vida não é um salto de prazer em prazer, mas um voo de esperança em esperança.

A relação biológica, animal, é ditada pelo instinto, mas a relação humana, pessoal, é nutrida pelo afecto.

A partir de: “Compensação narcísica e erotização do contacto” – A. Coimbra de Matos

Relações de Dependência - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicoterapia

Relações de Dependência

As relações de dependência estão mais presentes nas personalidades depressivas.

Esta dependência infantil que se prolonga para além da adolescência e que pelo excesso caracteriza todo o período maturativo – sendo portanto já detectável na infância – é-nos frequentemente revelada por expressões como:

– “Fui uma criança muito apegada à família”, “Em jovem foi difícil separar-me dos meus pais”.

Pela vida fora, estes indivíduos colam-se ao amigo, ao parceiro sexual, à religião, ao partido.

Nas personalidades depressivas mais graves predominam as relações de cunho simbiótico, ou mesmo adesivo.

“O estilo relacional do depressivo é o de uma marcada dependência – recebe menos do que dá.”

Num nível evolutivo um pouco superior, vamos encontrar as relações pessoais, ou interpessoais de mera complementaridade:

– Do tipo dominado/dominador e/ou explorado/explorador.

Muitas vezes, quando o paciente já se encontra perto de sair da situação depressiva, ainda vemos relações em que o depressivo recebe menos do que dá.

Ao desempenhar o seu papel de ente esfomeado que não ousa exigir o afecto a que tem direito, mantém, assim,  uma relação de dependência, uma vinculação infantil.

A ameaça de abandono afectivo e, logo, a ansiedade depressiva pairam sempre no horizonte da expectativa.

A esperança no sucesso pessoal, dada a escassez e insuficiência dos comportamentos de autonomia, êxito e progressão evolutiva, é travada pela inibição, ela própria consequência do medo, não só do abandono afectivo como da perda do outro.

Assim, a expectativa confiante no amor do(s) outro(s) – estimulo para a construção relacional, para a organização da constância de amor pelo outro e de plenitude amorosa, do sentimento de felicidade, alegria de viver e vitalidade, tende a diluir-se.

Na palidez da esperança reforça-se a segurança do lado de dependência.

No lugar do amor de que se desiste coloca-se a amizade a que se tem direito; “Foi a minha grande paixão, sou o seu melhor amigo”.

A partir de “Depressão: estrutura e funcionamento” – A. Coimbra de Matos

Tipos-de-Reacção-à-Perda-do-Amor-Pedro-Martins-Psicoterapeuta - Psicoterapia

Tipos de Reacção à Perda do Amor

A aflitiva, catastrófica perda do “outro” – no psicótico – resulta de que neste tipo de estrutura psicopatológica do Eu o outro é absolutamente único; e, consequentemente, na sua perda, fica completamente só e perdido no nada.

Na estrutura depressiva o “outro” – um outro especial – é bastante mais importante que os outros; podemos dizer, o único verdadeiramente importante. Quando o perde o depressivo sente-se sem verdadeiro objecto de amor.

Na organização neurótica há um “outro” privilegiado, mas há vários outros importantes e amados. Quando se perde esse outro privilegiado, não fica nem só nem sem amor – e esta distinção é fundamental.

Podemos acrescentar que o sujeito normal/neurótico tem um número de pessoas investidas com intensidades e formas variadas.

 

A desesperança resultante da perda, o sentimento de que não poderá conquistar um novo amor, organiza a estrutura depressiva.

 

Em regra, a uma série de perdas e desilusões, o indivíduo pode perder a confiança na sua capacidade de amar e/ou na sua qualidade para ser amado, e então perde a esperança e deprime-se verdadeiramente.

Já não é só o sofrimento pela perda havida mas também a desesperança, o sentimento de que não poderá conquistar novo amor e é esta desesperança que organiza a estrutura depressiva.

Na história do depressivo raramente há uma só perda, mas uma sucessão de perdas que estruturam um sentimento de incapacidade de conquistar o amor do outro.

As novas perdas de afecto são cada vez mais intoleráveis, não só porque diminuem as reservas narcísicas, como esgotam o debilitado capital de esperança.

Por outro lado, as relações amorosas, vividas sob o signo da inibição (e muitas vezes na desconfiança da sinceridade do amor do outro), são insatisfatórias. Quando perdidas deixam o sabor amargo do que não foi e podia ter sido, a perda do que ainda não tinha sido ganho – o desespero, a tristeza, a frustração de ter perdido o que apenas se saboreara parcialmente. É a morte antes da vida; a tristeza que se segue à tristeza e não à alegria.

 

A partir de “Psicopatologia Dinâmica” – A. Coimbra de Matos

Depressão, Depressividade e Depressibilidade

Depressão, Depressividade e Depressibilidade

1 – Existe uma depressão – dita “reactiva” – que é a depressão normal ou fenómeno do luto:

– Corresponde à perda de alguém significativo.

Neste caso falamos de DEPRESSIBILIDADE: qualidade de se poder deprimir, de ser capaz de fazer um trabalho de luto – o que é um sinal de boa saúde mental.

2 – Falamos em DEPRESSÃO patológica quando os laços afectivos são predominantemente narcísicos.

Assim, verifica-se uma intolerância e uma susceptibilidade particularmente intensas à perda do amor e protecção desse outro fundamental.

Como a relação com o outro é de tipo funcional ou complementar – um instrumento ou prolongamento do próprio -, o sujeito sente, ao perdê-lo, que se destaca e afasta uma parte essencial de si mesmo.

3 – A DEPRESSIVIDADE diz respeito ao esforço defensivo continuo para não se deixar deprimir: ficar deprimido (abatido), ou deprimir-se (sentir-se triste e com sentimentos de solidão) devido a uma perda.

Podemos dizer que são pessoas que jogam à defesa; quanto muito, ao contra-ataque.

O medo é grande, e por isso, a batalha, quando possível, quase sempre evitada.

As depressões manifestas que estes sujeitos apresentam são curtas (ainda que frequentes).

Por um lado, a sua fraqueza não lhes permite correrem o risco de sentirem verdadeiramente a perda de alguém.

A depressividade não é, propriamente, uma depressão:

– O que domina o estado afectivo não é a tristeza e o sentimento de perda, mas um mal-consciencializado sentimento de dependência e opressão.

Um receio de ficar só, uma incapacidade de se visualizar autónomo – numa palavra, uma impossibilidade de verdadeiramente se deprimir, ou seja, de aceitar a perda.

“A depressividade remete para um estado permanente e a depressibilidade para um estado temporário/transitório.”

A depressividade não é, em rigor, um estado de humor, mas uma disposição de fundo – a disposição depressiva; é-se (ou não) depressivo.

Na depressividade falamos em “ser” e na depressão normal em “estar”.

A depressividade remete para um estado permanente e a depressão normal para um estado temporário/transitório.

A relação do depressivo é constantemente ambitendente; quer, e não quer.

O relacionamento oscila entre a submissão e a revolta: uma jamais aceite; a outra, nunca completamente assumida.

“Depressibilidade: Os depressíveis são aqueles que se podem deprimir”

Há, por outro lado, aqueles que sabem e podem perder:

– Fazem o luto do que desapareceu e investem novamente, reparando facilmente a perda narcísica.

É o que designámos no ponto 1 por DEPRESSIBILIDADE (aqueles que são depressíveis, ou seja, que se podem deprimir).

Realizam lutos normais aquando da perda:

– Pois não estão excessivamente dependentes do outro (patologicamente afeiçoados);

– Nem o outro é detentor de partes importantes do Self, arrastando no seu naufrágio partes do próprio.

E este último é um motivo de relevo:

Na personalidade depressiva, o outro é, em grande medida, um prolongamento, um complemento da pessoa – por isso a sua perda é tão dolorosa e incapacitante, deixando uma ferida aberta que equivale a uma verdadeira amputação do próprio.

Acresce que a personalidade normal (o tal depressível) tem uma compleição narcísica razoavelmente sólida, uma auto-imagem suficientemente boa, uma auto-estima capaz de suportar sem afundamento do valor próprio as lesões narcísicas que, mesmo independentemente da acção dos outros, a vida vai provocando: perdas de prestígio, de capacidades, de funções, de situações sociais ou económicas, o envelhecimento, etc., etc., que são inerentes a toda a existência individual.

Bibliografia: Matos, A. C. (2001). A Depressão. Lisboa: Climepsi Editores

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