Mês: Setembro 2015

Hiperatividade Ó tempo volta pra trás. Já. Pedro Martins Psicoterapeuta - Psicoterapia

Hiperatividade: Ó Tempo Volta Pra Trás. Já!

“Foi-se o tempo em que (…) bastava “apenas um olhar do pai” para que as crianças se reposicionassem no seu lugar de filho.

Nesse outro tempo” tínhamos a impressão que tudo tinha o seu “lugar”.

Nessa época não se ouvia falar em hiperatividade.

As crianças eram definidas como seres mal-educados que precisavam de uma educação rígida e rigorosa para se tornarem adultos civilizados.

(…) a religião e a tradição asseguravam o lugar do pai na família. (…) a autoridade do pai era sustentada não apenas pela mãe dentro de casa, mas, na esfera pública e politica, através da religião e dos costumes.

Nesse mesmo lastro residia a autoridade do professor e dos adultos em geral.

Esse cenário começou a mudar a partir de um longo processo de transformações históricas e sociais que assolapou a tradição e a religião enquanto organizadores da família e da sociedade.

A valorização da criança produzida pelo capitalismo, em que a mesma passou a sustentar a promessa de fabricação do adulto de futuro, produziu não apenas a valorização da mulher como mãe, mas, instituiu uma preocupação do estado em limitar e regular cada vez mais os poderes do pai, visando proteger a mulher e os filhos da sua arbitrariedade.

Nessa época não se ouvia falar em hiperatividade, as crianças eram definidas como seres mal-educados.

O filho tornou-se propriedade privada da mulher-mãe.

Ao pai, restou um colchão ao lado da cama do casal, agora ocupado pela mãe e pelo filho.

Quando ele intervém, é logo interpelado pela sua mulher com um “cala a boca, você não sabe nada”.

O homem-pai viu-se reduzido a uma criança que não sabe nada, nem sobre a vida doméstica nem sobre os filhos.

Ela briga com ele como briga com uma criança: “não faça isso! Faça aquilo. Você não sabe de nada!”

Diante dessa mãe omnipotente, o homem viu-se reduzido a uma criança impotente.

Pois bem, se na família patriarcal a autoridade era atribuída ao pai, na família moderna a mãe passou a ocupar esse lugar.

Diante da crise de referências instituída a partir da queda da tradição, o pai, não sabendo qual seu lugar, viu-se reduzido a uma condição infantil, ora toma a mãe como modelo de relação com os filhos, funcionando como uma “segunda mãe”, ora se identifica com a criança, demandando à mãe mais cuidados do que deveria.

Como consequência dessa crise de referências, temos encontrado um cenário muito assustador:

– Crianças que dormem com os pais, ainda usam fraldas apesar da idade, têm dentes mas ainda tomam mamadeira.

São grandes em peso e altura, mas vivem no colo dos pais.

Além de medicar, talvez os médicos pudessem dizer: ”Seu filho precisa limites!!!”.

As crianças não conhecem a frustração.

Privadas da intervenção educativa, pouco a pouco vão-se tornando pequenos monstros assustadores e demandantes: querem “tudo” e ao mesmo tempo “nada”.

As crianças tornaram-se pequenos tiranos e os pais escravos da tirania dos filhos.

Quando essas crianças chegam à escola (…) não conseguem concentrar-se e não aprendem.

Ao não reconhecer a desorganização da criança como proveniente da sua própria renúncia, os pais recorrem a um “outro-especialista” buscando uma resposta sobre o que se passa com o seu filho.

Este por sua vez, capturado numa formação organicista pautada no modelo biomédico – modelo que reduz todo e qualquer problemática humana a um defeito no funcionamento biológico – vê-se obrigado a diagnosticar a má educação da criança como hiperactividade.

Impotentes face à demanda dos pais e das escolas, os médicos medicam.

Aliás, o que poderiam fazer além de medicar? (…) Talvez os médicos pudessem dizer: ”Seu filho precisa limites!!!”.

Mas certamente seriam considerados maus médicos. Pois, ao denunciar a necessidade de limites, denunciariam as renúncias educativas dos pais!

Não sabendo o que fazer com os pequenos tiranos, solicitam à ciência e à medicina algum limite, mesmo que seja químico!

Como sabemos, um adulto precisa aprender a viver e a ter horários para dormir, assim como o adolescente precisa aprender modos de relacionamento com o outro para transar.

Por isso fica a pergunta:

Será que uma criança poderia prescindir dos adultos para se tornar civilizada?

Ou de facto acreditam que uma dose diária da “droga” seria suficiente para educá-la?

Transcrição parcial (adaptada) do artigo: A fabricação da loucura na infância, Michele Kamers

Um entristecido adeus à infância. Pedro Martins Psicoterapeuta - Psicoterapia

Um Entristecido Adeus à Infância

Crescer é abdicar dos sonhos de infância e aceitar o nosso passado com todas as imperfeições que possa ter tido. É viver entre um entristecido adeus à infância – ou seja, a si mesmo e aos objectos do passado – e à superação gradual, ansiosa e esperançada, de muitas barreiras até à entrada no desconhecido mundo da vida adulta.

 

Na adolescência dá-se um corte com as ligações da infância e com a dependência dos pais.

 

O jovem estabelece novos vínculos e adquire capacidade para novas experiências afectivas e sexuais. Desidealiza as figuras parentais e procura novos modelos exteriores.

Na adolescência – onde se vivenciam estados afectivos de luto e paixão – dá-se um corte com as ligações da infância e com a dependência dos pais.

Para além da mudança de objecto de amor, há também mudança de objectivos.

Os interesses deixam de ser quase exclusivamente narcísicos (característicos da infância) para passarem a ser sociais.

O desejo de parar o tempo, a mudança, pode ser considerada uma excepção, que se deve, essencialmente, a uma incapacidade de enfrentar o novo.

No desenvolvimento normal, em contraposição à tendência de manutenção do estado original de fusão, há um impulso à diferenciação e individuação que visa a aquisição e estabelecimento da identidade.

Impossibilitado da fazer a “passagem”, o jovem em desenvolvimento fica amarrado às coisas conhecidas e controláveis (próprias do universo infantil) que produzem um sentimento de segurança.

 

No desenvolvimento normal prevalece a expectativa de uma independência com realizações pessoais e prazeres por satisfazer.

 

Aqueles que não podem desfrutar das coisas transitórias da vida (como acontece na evolução), perder umas para se ganhar outras, são os que na sua história pessoal sentiram as mudanças de forma catastrófica, ao ponto de predominarem os sentimentos de angústia e vivências de perda.

Perante o choque entre forças progressivas e regressivas prevalece a expectativa de uma independência com realizações pessoais e prazeres por satisfazer ao abrigo de uma genitalidade crescente e desejante como impulso para a independência e liberdade.

O desejo que a criança tem de ocupar o lugar do adulto (o lugar entre os adultos) pode finalmente ser realizado, elaborando os sentimentos de perda e deixando-se capturar e fascinar pelos encantos do novo.

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