Mês: Maio 2018

Depressão, Depressividade e Depressibilidade

Depressão, Depressividade e Depressibilidade

1 – Existe uma depressão – dita “reactiva” – que é a depressão normal ou fenómeno do luto:

– Corresponde à perda de alguém significativo.

Neste caso falamos de DEPRESSIBILIDADE: qualidade de se poder deprimir, de ser capaz de fazer um trabalho de luto – o que é um sinal de boa saúde mental.

2 – Falamos em DEPRESSÃO patológica quando os laços afectivos são predominantemente narcísicos.

Assim, verifica-se uma intolerância e uma susceptibilidade particularmente intensas à perda do amor e protecção desse outro fundamental.

Como a relação com o outro é de tipo funcional ou complementar – um instrumento ou prolongamento do próprio -, o sujeito sente, ao perdê-lo, que se destaca e afasta uma parte essencial de si mesmo.

3 – A DEPRESSIVIDADE diz respeito ao esforço defensivo continuo para não se deixar deprimir: ficar deprimido (abatido), ou deprimir-se (sentir-se triste e com sentimentos de solidão) devido a uma perda.

Podemos dizer que são pessoas que jogam à defesa; quanto muito, ao contra-ataque.

O medo é grande, e por isso, a batalha, quando possível, quase sempre evitada.

As depressões manifestas que estes sujeitos apresentam são curtas (ainda que frequentes).

Por um lado, a sua fraqueza não lhes permite correrem o risco de sentirem verdadeiramente a perda de alguém.

A depressividade não é, propriamente, uma depressão:

– O que domina o estado afectivo não é a tristeza e o sentimento de perda, mas um mal-consciencializado sentimento de dependência e opressão.

Um receio de ficar só, uma incapacidade de se visualizar autónomo – numa palavra, uma impossibilidade de verdadeiramente se deprimir, ou seja, de aceitar a perda.

“A depressividade remete para um estado permanente e a depressibilidade para um estado temporário/transitório.”

A depressividade não é, em rigor, um estado de humor, mas uma disposição de fundo – a disposição depressiva; é-se (ou não) depressivo.

Na depressividade falamos em “ser” e na depressão normal em “estar”.

A depressividade remete para um estado permanente e a depressão normal para um estado temporário/transitório.

A relação do depressivo é constantemente ambitendente; quer, e não quer.

O relacionamento oscila entre a submissão e a revolta: uma jamais aceite; a outra, nunca completamente assumida.

“Depressibilidade: Os depressíveis são aqueles que se podem deprimir”

Há, por outro lado, aqueles que sabem e podem perder:

– Fazem o luto do que desapareceu e investem novamente, reparando facilmente a perda narcísica.

É o que designámos no ponto 1 por DEPRESSIBILIDADE (aqueles que são depressíveis, ou seja, que se podem deprimir).

Realizam lutos normais aquando da perda:

– Pois não estão excessivamente dependentes do outro (patologicamente afeiçoados);

– Nem o outro é detentor de partes importantes do Self, arrastando no seu naufrágio partes do próprio.

E este último é um motivo de relevo:

Na personalidade depressiva, o outro é, em grande medida, um prolongamento, um complemento da pessoa – por isso a sua perda é tão dolorosa e incapacitante, deixando uma ferida aberta que equivale a uma verdadeira amputação do próprio.

Acresce que a personalidade normal (o tal depressível) tem uma compleição narcísica razoavelmente sólida, uma auto-imagem suficientemente boa, uma auto-estima capaz de suportar sem afundamento do valor próprio as lesões narcísicas que, mesmo independentemente da acção dos outros, a vida vai provocando: perdas de prestígio, de capacidades, de funções, de situações sociais ou económicas, o envelhecimento, etc., etc., que são inerentes a toda a existência individual.

Bibliografia: Matos, A. C. (2001). A Depressão. Lisboa: Climepsi Editores

FOMO - medo de ficar fora

FOMO – O Medo de Ficar de Fora

FOMO – Fear of Missing Out, em português “medo de ficar de fora”, envolve uma ansiedade de que se possa estar a perder um momento excitante que está a acontecer noutro lugar.

É esse medo que faz com que se esteja sempre a atualizar o feed das redes sociais, para saber o que é que os outros estão a fazer. Não se quer sentir excluído.

O fenómeno, que já existe há vários anos, ganhou maiores proporções por causa das redes sociais — tudo porque agora consegue estar ligado a toda a gente em todos os momentos.

Pedro Martins afirma que “o FOMO é sentido independentemente da fonte de onde se obtém a informação do evento ou atividade social. Seja por um amigo ou nas redes sociais, o efeito é o mesmo”.

No entanto, com as redes sociais é natural que a ansiedade ainda possa ser maior: não há forma de não ver. “O próprio Facebook faz questão de lembrar que os meus amigos têm um evento, e os eventos que vão acontecer perto de mim”.

O psicoterapeuta Pedro Martins explica que o FOMO acontece porque não se pode estar em todo o lado ao mesmo tempo. Há que fazer escolhas: “A arte de viver é a arte da renúncia, é preciso renunciar a umas coisas para ter outras.”

“Nós temos limites e, de alguma forma, não reconhecer isso é uma via aberta para aumentar a ansiedade e a depressão”.

“Eu tenho de escolher a que festa vou mas, se fico a pensar que estou nesta festa e gostava de estar na outra, na verdade, acabo por não estar em nenhuma e dificilmente consigo tirar alguma satisfação. Se estamos com medo do que estamos a perder, dificilmente ganhamos alguma coisa”.

Para quem tenha este problema, Pedro Martins refere que o importante é perceber que é impossível estar em todo o lado e que há limites: “Pensamos que está alguma coisa mal connosco quando não conseguimos fazer tudo, e isso é uma atitude autodestrutiva e um objetivo impossível. Nós temos limites e, de alguma forma, não reconhecer isso é uma via aberta para aumentar a ansiedade e a depressão”.

Excertos de : “Teste. 10 perguntas para entender o seu nível de FOMO (o medo de ficar de fora do que se está a passar com os amigos). E como superá-lo.” – Conversa que tive com a jornalista Adriana Claro – MAGG

Ler o artigo: https://magg.pt/2018/05/19/teste-10-perguntas-para-entender-o-seu-nivel-de-fomo/

 

 

desejo necessidade psicoterapia

Desejo ou Necessidade?

A necessidade é uma tensão interna gerada pela falta.

Resolve-se pelo encontro do organismo em carência com aquilo que lhe falta. Como exemplo temos a fome e a tensão sexual.

Do encontro do sujeito em carência, em estado de necessidade, com aquilo que lhe falta ou de que precisa (coisa e/ou acção específica do meio) resulta em satisfação.

O que precisa pode ser:

  • uma coisa – um objecto material (como o alimento, quando a necessidade é a fome)
  • uma acção específica de outra pessoa – o comportamento adequado da pessoa adequada (o parceiro sexual, se a necessidade é a de intercurso sexual; o comportamento acolhedor, terno e de carícias quando se faz sentir a necessidade de contacto e conforto corporais)
  •  ou o investimento afectivo e estético – amor e admiração – da pessoa privilegiada (objecto preferencial) no caso de a necessidade premente ser afectiva e narcísica.

Coisa, acção, amor e apreço são os bens necessários e imprescindíveis.

O sujeito, no seu encontro com aquilo que o satisfaz, vive uma experiência de satisfação.

“A necessidade tem origem numa carência do organismo, o desejo na recordação de um prazer.”

O desejo é um sentimento de apetência resultante da reactivação da memória da satisfação já experimentada quando a necessidade de novo se faz sentir.

O desejo é, portanto, sempre secundário, só possível depois de uma primeira experiência de satisfação.

A fome traduz uma necessidade, o apetite é o desejo de algo que o indivíduo já saboreou.

A tensão sexual corresponde a um estado de necessidade sexual, o desejo sexual é o interesse em repetir uma experiência prazerosa.

A necessidade tem origem numa carência do organismo, o desejo na recordação de um prazer.

A necessidade revela-se ao nível psicológico por um estado de tensão e desconforto internos (psíquicos).

O desejo revela-se por um estado de excitação psíquica e uma fantasia de realização do desejo com antecipação representada da satisfação.

Bibliografia: “O inconsciente primário ou virtual e a psicossomática” – A. Coimbra de Matos

Como a negligência emocional nos afecta. Pedro Martins Psicoterapeuta

Como a Negligência Emocional nos Afecta

Muitos de nós caminhamos pela vida com numerosos danos emocionais. Os mais comuns são as depressões e a ansiedade; sendo que ambas têm muito impacto nos relacionamentos afectivos.

De onde surgiram estas problemáticas?

Na maioria das vezes da infância, em particular da primeira infância.

A forma como fomos cuidados quando eramos crianças pequenas tem um efeito desmesurado na nossa vida profissional e pessoal.

O que necessitamos é, acima de tudo, pais responsivos: adultos que cuidam das nossas necessidades com sensibilidade e carinho.

Isso, literalmente, define muito das nossas vidas.

Pode não parecer muito importante, mas devido à falta desse amor responsivo, muitas vidas estão aquém do que poderiam e deveriam ser.

“A negligência emocional na infância afecta profundamente o desenvolvimento”

Entre as pesquisas que permitiram demonstrar os efeitos da negligência nas crianças está a “Still Face Experiment” -, efectuada pelo Dr. Ed Tronick, director da Unidade de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard.

 

 

Se uma criança pode ficar tão transtornada após alguns segundos de comportamento frio e insensível por parte da mãe, podemos ficar com uma noção do que pode acontecer se este género de negligência persistir ao longo de anos.

Não é de admirar que alguns de nós não nos sintamos muito bem interiormente. Basta ter passado por situações idênticas  às do vídeo durante os primeiros anos da nossa vida (ou mais) para que marcas – profundas ou leves -, nos acompanhem.

“O amor é imprescindível para a estabilidade emocional”

Mas aperceber-nos de como somos vulneráveis não nos deve entristecer. Pelo contrário, podemos compreender melhor como fracassamos e estabelecer um elo entre o passado e as nossas dificuldades presentes.

Experiências como a “Still Face Experiment” são uma preciosa ajuda para nos compreendermos emocionalmente, e lançam uma luz científica sobre as origens dos nossos problemas.

Esta experiência prova algo inquestionável: o amor é imprescindível para a sanidade mental. A quantidade, mas principalmente, a qualidade desse amor, é determinante para uma vida que se deseja emocionalmente rica.

 

Acusar e Perdoar em Psicoterapia - Pedro Martins Psicoterapeuta

É Possível Perdoar?

“Acusar, perdoar e reconciliar-se.”

A origem do excesso de agressividade internamente acumulada é um complexo problema etiopatogénico, e importa saber como e porquê se constitui tal acervo de agressividade contida (raiva, ressentimento, ódio, desejo de retaliar).

Ao mesmo tempo, é preciso saber quando e de que maneira o paciente pode assumir os seus afectos constrangidos, elaborar a dor e o sentimento de injustiça e reparar os danos e prejuízos sofridos.

Como e em que tempo pode ele acusar, perdoar e reconciliar-se.

É costume ouvir-se dizer – “perdoei mas não esqueci”. Nada de mais errado psicologicamente, e portanto produto de uma convicção ilusória.

“Perdoar é necessário à saúde mental.”

O animal homem esquece, mas raramente perdoa. E simplesmente perdoar as ofensas sofridas não é a atitude psicológica mais correcta e saudável.

Contudo, o perdão é necessário à saúde mental. Como resolver então este aparente paradoxo?

Parece complicado, mas não o é de todo.

Para perdoar é preciso previamente ter acusado. Só depois de acusar, mover o processo de inculpação, é possível o perdão, a amnistia, a clemência.

Acusar não é condenar; é esclarecer.

A reconciliação com o inimigo de outrora só é viável após a libertação do ódio e ressentimento contidos.

Com falso perdão ou pseudo-reconciliação não se constrói bem-estar psíquico nem bom relacionamento.

Aquele que foi agressivo, abandonante, negligente, explorador ou desqualificante tem que ser “acusado” perante o terapeuta, juiz neutro e benevolente.

Só depois poderá ser compreendido nas suas dificuldades e patologia, e entendida a relação (interna e externa) agressiva e patogénica que com o sujeito estabeleceu.

Então, mas só então virá o perdão.

No entanto, há ofensas que não se podem nem devem perdoar – o respeito por si próprio e a dignidade a que cada um tem direito traçarão o limite do perdoável.

Nem sempre o perdão é necessário à saúde mental e, em algumas circunstâncias, pode ser inconveniente.

Bibliografia: “Mais Amor, Menos Doença” – A. Coimbra de Matos

Ciúme e Inveja Psicoterapia

O Ciúme e a Inveja. Descubra as diferenças

O ciúme é um sentimento vivido na relação triangular (a três) originado no receio de perder o objecto de amor; a dificuldade no ciúme é a repartição do amor do outro.

O indivíduo pretende ser único e exclusivo depositário desse amor.

“O ciúme é um sentimento altamente perturbador e está na origem dos mais variados dramas passionais.”

No ciúme o sujeito luta pela posse total e exclusiva do amor do outro, sabendo de antemão que isso não é possível pela consciência que tem da existência de um terceiro.

Presente nos mais variados quadros clínicos, é sobretudo característico da estrutura obsessiva.

Trata-se de um sentimento forte e altamente perturbador que está na origem dos mais variados dramas passionais e portanto, traz muitos pacientes para a terapia.

Costuma-se distinguir entre ciúmes neuróticos (que corresponde à breve descrição que fizemos), os ciúmes mórbidos ou patológicos e os ciúmes delirantes, conforme o grau de maior ou menor crítica; os ciúmes patológicos ligam-se com a estrutura depressiva; o delírio de ciúme com a paranóia.

A inveja é um sentimento vivido na relação binária (a dois) e que traduz uma incompletude narcísica. É um sentimento de falta, experimentado na comparação com o outro; e condiciona o desejo de possuir os atributos desse outro.

O sentimento de inveja vai operar pela vida fora em todas as circunstâncias em que a consciência de défice se agudiza e a idealização do outro se avoluma, sendo portanto fácil de estalar em toda a estrutura narcisicamente tocada e em toda a relação em que o outro se torna demasiado importante para a segurança do sujeito.

Se o outro demonstra ou exibe aos olhos do sujeito, por qualquer forma, a sua qualidade de superior, a inveja duplica. Passa de um ressentimento e desejo de apoderar-se das posses e atributos do outro (que caracteriza genuinamente a inveja) para o desejo de o destruir; é nesta sequência se organiza o desejo de poder.

“No ciúme e na inveja o amor-próprio é altamente atingido.”

Enquanto na inveja conta um sentimento de falta e um desejo de apoderar-se, no ciúme está em causa um sentimento de perda ou ameaça de perda e um desejo de reter.

Em ambos os casos, a agressividade e o ódio jogam um papel predominante na relação com o outro. Num e noutro caso, o amor-próprio é altamente atingido; na inveja, sobre a forma de ressentimento; no ciúme, de humilhação. À revolta no invejoso, corresponde a depressão no ciumento.

Na inveja há um défice narcísico e no ciúme um ferimento narcísico; o invejoso sente-se pobre, o ciumento empobrecido.

Centrado no sentimento de perda, o ciumento oscila entre os pólos da depressão e da raiva: quanto mais agressivo, menos deprimido.

Enquanto o invejoso jamais se sente suficientemente poderoso, o ciumento nunca se sente completamente amado.

Na inveja o tom afectivo básico é a insatisfação; no ciúme a tristeza. O ciumento sente-se desvalorizado, é tímido e submisso; o invejoso ambiciona e luta (isto numa visão extremada, é evidente).

Estas descrições – da inveja e do ciúme – são notoriamente esquemáticas e intencionalmente forçadas, para bem distinguir os cambiantes típicos dos afectos (as suas estruturas) em causa. Na vida afectiva real, o que encontramos é uma mistura dos dois sentimentos, polarizando-se mais num sentido do que noutro.

A partir de “A inveja e o ciúme.” A. Coimbra de Matos

A Mãe Possessiva Pedro Martins Psicoterapeuta

A Mãe Possessiva

Fala-se, em psiquiatria e em psicologia (e noutros meios), com extrema frequência da mãe possessiva.

Mas nem sempre esta frase significante traduz, na expressão de quem a emprega, o significado correcto da mãe concreta de características possessivas.

“O traço caracterológico mais típico da mãe possessiva é a insuficiência narcísica.”

Este tipo psicológico de mãe é, sobretudo, uma mãe que se apodera de um filho como um objecto de propriedade privada:

– Para benefício da sua (da mãe) segurança pessoal e na razão (da mãe, ainda) da sua insegurança intrínseca, constitutiva e fundamental.

É esta insegurança – esta insuficiência narcísica – o traço caracterológico mais típico, e essencial, das chamadas “mães possessivas”.

A mãe possessiva “ama” o filho de uma forma narcísica, como um prolongamento de si própria.

Mais ainda: como uma peça fundamental e imprescindível do seu equilíbrio dinâmico.

O filho é um suporte do seu equilíbrio instável, um pilar na sua organização psíquica deficitária.

Consequentemente, o filho é utilizado – com feroz egoísmo e num medo constante de o perder (o que conduz a não lhe permitir a sua independência progressiva, logo a formação como ser) -, persistente e indefinidamente, como objecto que preenche o funcionamento deficiente da mãe.

E nada perturba mais o desenvolvimento infantil do que este tipo de investimento em que a criança não é considerada um autêntico sujeito, ou, numa outra linguagem, objecto portador de desejos próprios.

Ao filho atormentado, tímido e culpabilizado, submisso e cumpridor, sem energia nem originalidade, é exigida uma lealdade a toda a prova, um amor (pela mãe) indefectível, uma gratidão sem limites.

“Estas mães apelam constantemente para os “sacrifícios” que fazem e fizeram pelos filhos.”

A mãe possessiva é descrita pela psiquiatria fenomenológica como ansiosa, fóbica, deprimida ou hiperactiva, ambivalente e dominadora.

No cerne da sua estrutura psicopatológica define-se por sentimentos de desvalorização pessoal e pela necessidade constante de compensação.

Estas mães apelam, passo a passo, para os “sacrifícios” que fazem e fizeram pelos filhos: numa persistente atitude de reparação da auto-imagem de insuficiência e de culpa (inconscientes).

Mas o apregoado sacrifício é uma falsificação da realidade.

De sacrifício tem apenas a aparência, pois, no íntimo, a sua atitude foi sempre ditada pelo benefício egoísta a retirar:

– Receber mais tarde os favores que agora dispensa.

Cronicamente dominadora – física, emocional ou moralmente, conforme a idade do filho e as circunstâncias -, esta mãe tentacular, que tem razão, é como uma espécie de Deus omnisciente e omnipresente.

Portanto, a sua influência crítica conselheiral, perdura na consciência do filho, ultrapassando as barreiras do espaço e do tempo (para além, portanto, da sua presença concreta).

É uma espécie de “supermãe”, que, com o álibi da protecção, superintende em toda a vida do filho.

Estas mães são tanto mais patogénicas, quanto menos se fez sentir a presença do pai.

É o que pode acontecer na situação da “mãe como educadora única”(mãe solteira, viúva, ausência prolongada do pai, etc.), ou quando o pai é uma figura apagada ou passiva.

Nestas situações falta ao filho um importante elemento de contraste, uma necessária figura de identificação secundária, o contraponto da realidade exterior (exterior à relação binária mãe-filho – gratificante e construtiva, mas também frustrante e devoradora).

É apoiando-se no modelo paterno que a criança suprime paulatinamente, a dependência da mãe; tornando-se autónoma e responsável.

Excertos do artigo “A Mãe Possessiva” – A. Coimbra de Matos

amar-se a si mesmo

Até Onde Pode Amar-se a Si Mesmo?

“A melhor defesa ou reparação da depressão é o amar-se a si mesmo.”

Quando o indivíduo não se sente amado, deprime-se. E a melhor defesa ou reparação dessa depressão é o amar-se a si mesmo, o investir-se narcisicamente.

Simplesmente, este processo tem limites – se o sujeito continua a não ser amado, esgota-se a energia amorosa para amar-se a si próprio (pois o amor nasce e desenvolve-se apenas na relação amorosa).

Mas do amor também se constituem reservas. E a maior reserva amorosa forma-se na infância, pelo amor que os pais dedicam aos filhos.

Se esta reserva não foi constituída ou é pequena, o indivíduo tem necessidade constante de ser amado e deprime-se em face da mais leve perda de amor ou da sua mais curta ausência. E só um forte amor posterior o poderá curar dessa carência.

O trágico é que o indivíduo que não foi amado não aprendeu a amar. E enquanto não souber amar dificilmente poderá vir a ser amado. A sua sede de amor é muito grande, mas o seu ódio à relação amorosa ou a sua descrença no amor levam-no a estragá-la ou a nunca a conquistar – pela relação ambivalente e depressivante à qual adere.

Só um verdadeiro amor, uma paixão, seja ela na vida ou na relação terapêutica, pode fazer uma renovação do sentir conduzindo a um renascimento do ser. É no estado nascente do enamoramento, no movimento amoroso, que se curam as feridas de amor.

“Ninguém se cura enquanto não adquirir um sentimento de ser capaz de merecer e atrair o amor de outrem.”

O poder ser objecto de amor é fundamental: ninguém se cura enquanto não adquirir um sólido sentimento de ser uma pessoa capaz de merecer e atrair o amor de outrem; vale dizer, enquanto não reparar a sua ferida narcísica, desfizer o sentimento de inferioridade ou menor valor.

A raiz dos sentimentos de inferioridade está no passado, na infância; nos insucessos infantis e adolescenciais; e na prisão às regras e aspirações da família de origem, no juízo crítico dos pais e educadores que sempre apontaram exemplos de perfeição, estabelecendo comparações deprimentes para o sujeito ou lamentado as suas imperfeições.

Designadamente, esta última atitude é altamente danificante da auto-imagem: o sujeito interioriza essa pena, essa mágoa, lamentando-se eternamente daquilo que é (“se eu fosse mais bonita… Se eu fosse mais forte… Se tivesse ouvido para a música… Se tivesse jeito para dançar”… etc.)

“Só muda quem se apaixona, quem se entusiasma, quem ama outra coisa, outro ser.”

Normalmente, o depressivo é aquele que vive no passado, prisioneiro do passado, do que foi. E ninguém pode viver no passado! Todos temos de ir para a frente.

Viver no passado é viver no purgatório, a expiar culpas; e na sombra, admirando os resplandecentes. Mas viver, propriamente viver, é saltar para o “paraíso”, dando-se a si mesmo o direito ao acesso ao prazer e deixando-se banhar pelo sol que é de todos! Podemos queimar-nos no inferno da decepção e do desaire, mas também atingir o éden da paixão. E só vivida apaixonadamente a vida tem sentido.

Só na paixão amorosa encontramos a verdade do outro e a nossa própria verdade. É a porta de entrada no mundo da autenticidade.

O depressivo deixou de se apaixonar (é isso a depressão), tem medo de se apaixonar, não quer (por raiva contra o outro e o mundo, e que se vira contra si próprio) apaixonar-se.

Toda a terapia que mereça esse nome passa por um movimento de rotura com o passado e com o presente, um movimento de renovação, um renascimento, um nascimento para uma nova vida, em moldes diferentes, com outros horizontes.

Esta rotura processa-se através de um movimento emocional, afectivo, por uma paixão por outra coisa, por outra pessoa. Só muda quem se apaixona, quem se entusiasma, quem ama outra coisa, outro ser – para se tornar ele próprio “outra pessoa”.

Bibliografia: Matos, A. C. (2001). A Depressão. Lisboa: Climepsi Editores

prazer felicidade psicoterapia

Felicidade vs. Prazer. Descubra as Diferenças

A felicidade é a longo prazo, aditiva e generosa. É dar. Está ligado à serotonina.

O prazer é de curto prazo, aditivo e egoísta. É receber. Está ligado à dopamina.

Esta não é apenas uma questão semântica, é uma diferença fundamental que se pode ver nos nossos circuitos neuronais. Parece que o prazer e a felicidade se substituem um ao outro, que são maneiras diferentes de obter o mesmo. Mas não são. Pelo contrário, são coisas que se podem confundir quando se trata do curto prazo, mas, no longo prazo, não poderiam ser mais diferentes.

São ambos constructos culturais. Ambos respondem aos impulsos físicos directos, mas cada vez mais, aos culturais.

Os comerciantes e as campanhas de marketing apontam para a venda de prazer. Esse é um atalho para o sucesso, uma receita que se repete. Fazer com que as pessoas fiquem dependentes da satisfação oferecida pela cafeína, tabaco ou açúcar é um modelo de negócio. Mas para além do uso de certas substâncias, actualmente, os “social media” estão a fazer uso da relação entre a raiva e a dopamina (a raiva é uma das emoções mais presente nas redes sociais) para construir um novo tipo de dependência.

 

“A felicidade é mais difícil de atingir. Requer mais paciência e mais planeamento.”

 

Por outro lado, a felicidade é algo mais difícil de adquirir. Requer mais paciência e mais planeamento. É possível encontrar a felicidade na visão infantil do mundo, mas é mais provável encontrá-la numa série consciente e madura de escolhas, a maioria das quais relacionadas com a generosidade e com a procura de ligações afectivas.

Mais do que nunca, controlamos nossos cérebros controlando o que colocamos neles. Os “media” que escolhemos, as interacções que desenvolvemos e as substâncias que ingerimos condicionam a forma como vivenciamos as coisas.

É difícil resistir à satisfação imediata, sempre tão sedutora e cumpridora da promessa de prazer. Mas, quem sabe, conseguimos resistir estoicamente e escolher a felicidade.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de “The pleasure/happiness gap” – Seth Godin

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