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depressão infantil

Depressão Infantil. Direito à Tristeza e à Alegria

Depressão Infantil. Direito à tristeza e à Alegria

A organização psíquica do homem faz-se a partir de dois fenómenos de base: a angústia e a depressão. São estas duas situações que, por assim dizer, nos ensinam a viver. Um indivíduo, que no curso da sua evolução não se angustiasse, não organizava convenientemente as suas defesas. Um indivíduo que não se deprimisse tornar-se-ia rigidamente sempre igual.

A alegria e a tristeza aprendem-se na relação com a mãe, mas quando os ritmos e os equilíbrios entre as duas formas de estar não são favoráveis a uma resolução mental, a criança aprende a esconder a tristeza com a falsa alegria da instabilidade, com comportamentos provocatórios ou doenças várias.

Se a aprendizagem da relação afectiva com a mãe, e a resolução mental da depressão se não fazem adequadamente antes da escola, a criança não pode aceitar o que lá se ensina, porque apenas vê nela uma tralha informe de instrumentos que a torturam e que não servem as suas necessidades afectivas. Ela quer ser amada e encontrar quietação num ambiente tranquilizador, e fornecem-lhe matérias desafectadas, como as letras e os algarismos, as canetas e os papéis.

A criança é espontaneamente alegre quando é aceite e compreendida nas suas reacções afectivas e, entre estas, a sua tristeza.

O bloqueio afectivo e intelectual pode ser uma forma de tentar dominar a depressão.

A alegria é a descoberta do Eu e da autonomia do pensar. A tristeza é o que pode, em termos psicológicos, conduzir à depressão normal, que possibilita as mudanças evolutivas de estrutura psíquica, ou à depressão patológica, que se descarrega sobre os outros, sobre a forma de comportamento, ou sobre os órgãos, sobre a forma de doença psicossomática. O bloqueio afectivo e intelectual pode ser uma forma de tentar dominar a depressão.

Da tristeza e da paixão tem a criança de aprender o que dela fazer. Sem que ninguém lhe ensine… porque estar triste é olhar para dentro e reflectir sobre o próprio Ser. Os estados de tristeza e de paixão são, na vida da criança e do Homem, momentos de reflexão e, portanto, de criatividade.

Estar apaixonado é olhar para fora, para um ser que nos permite criarmo-nos a nós próprios como Seres humanos.

Nada de criativo existe no homem sem o Eu e o Outro…, mas a criança do Homem está a ser devorada na sua espiritualidade. Há que proclamar o direito da criança a agitar-se, manifestar sinais e sintomas de sofrimento psíquico, físico e moral, sem ser submetida a tratamentos medicamentosos ou a medidas repressivas. A cultura não se ensina, aprende-se no convívio dos homens, na livre descoberta que cada um possa fazer do amor dos outros.

Um sintoma de fundo que se observa em grande número destes sintomas reactivos é o da depressão infantil, que nem sempre se revela por inibições, como a gaguez; por compensações, como o furto; por conversão histérica, como a enurese; ou por angústia, como os terrores nocturnos. Às vezes, revela-se por tristeza manifesta, turbulência e por muitos actos, geralmente designados nos manuais por perturbações da conduta.

Todos os sintomas da idade escolar, mesmo que tenham conotações com perturbações somáticas, têm que ver com formas reactivas da criança lutar contra a depressão e a ansiedade. Como dissemos anteriormente, no fundo dos problemas das crianças em idade escolar há sempre a ansiedade e a depressão, uma e outra, às vezes inaparentes no exame superficial.

Tem uns escassos decénios a descoberta que há depressões infantis, e os educadores, ainda hoje, reagem a essa ideia, na convicção de que as crianças não têm o direito de estar deprimidas porque eles, adultos, fazem tudo por elas.

 

João dos Santos

Vida, Pensamento e Obra de João dos Santos

Maria Eugénia Carvalho e Branco

chorar

Chorar é o melhor remédio

É realmente curioso como as pessoas da nossa cultura são tão chatas, que às vezes dizem aos outros, quando eles estão tristes: não chores, deixa lá, não é caso para chorar.

Não há melhor remédio para a tristeza do que chorar. As pessoas que não choram quando estão tristes nem sequer se apercebem do seu estado de tristeza, e isso ainda é pior!

Chorar é o melhor remédio e eu posso contar como descobri isso…

No princípio da minha carreira de psiquiatra fui chamado para ver uma senhora que estava num estado de depressão, de angústia, de perplexidade, de sideração extremamente impressionante. Tinha-lhe morrido um filho com leucemia depois de um longo sofrimento.

Acontecia que o filho dessa senhora tinha a idade de um dos meus filhos e eu fiquei bastante desarmado perante aquilo, sem saber o que havia de fazer.

Não ia dar um remédio a uma pessoa que estava magoada com a morte de um filho, não ia dar-lhe palavras de conforto que eu sabia que não faziam sentido nenhum, como não faziam para mim, não iria dizer-lhe que não tinha importância nenhuma morrer-nos um filho com leucemia, de maneira que fiquei ali, com vontade de chorar talvez, ou pelo menos muito impressionado, a ouvir a senhora.

Eu ouvi-a ouvia-a, muito tempo, muito tempo, muito tempo, até que ela começou a chorar… E então ela contou-me que já não chorava havia muitos meses, desde que tinha sido feito o diagnóstico e ela sabia que o filho ia morrer. E então de certa maneira agradeceu-me por eu lhe ter permitido chorar, por a ter deixado chorar.

Um mau serviço que se presta às pessoas, é convencê-las de que não se deve chorar. O normal quando se está triste, é chorar!

 

João dos Santos

“Se não sabe porque é que pergunta? – Conversas com João Sousa Monteiro”

fobia escolar

Fobia Escolar

A fobia escolar é um quadro ansioso que surge já depois de vencido o medo normal da entrada para a escola, e quando a criança se encontra aparentemente adaptada.

Em nosso entender a “fobia escolar” é uma situação equivalente à da neurose de angústia e, portanto, um quadro dominado pela angústia e pela perspectiva ansiosa.

A “fobia de escola” é um medo sem objecto, duma criança já adaptada ao ambiente escolar.

Um motivo aparente atribuído pela criança e pelos pais a uma causa que parece fútil impede-a de frequentar a escola, devido às situações de pânico e de angústia que se desencadeiam, quando tem que se separar da mãe para se deslocar para o local dos seus estudos. Como em todas as situações de fobia, há uma forte participação da mãe e do resto da família da criança atingida (…).

Os motivos fúteis a que acima me refiro dizem respeito a acidentes vários a que a criança assistiu, histórias que ouviu, ameaças de companheiros ou de professores, etc.

Para alguém que tenha competência e experiência para fazer avaliação dos sintomas duma criança com “fobia escolar”, é evidente que os motivos apresentados, mesmo que logicamente plausíveis, não podem justificar uma angústia com as dimensões, como a que efectivamente se verifica.

Trata-se de uma crise relacionada com a evolução psicossexual em que a criança procura transformar as suas fantasias infantis, relacionadas com a “cena primitiva”, em algo cujo valor simbólico seja suportável. Não estando a criança preparada, através dos seus mecanismos de defesa, para sonhar, vivenciar ou compensar o seu erotismo genital, dá-se a eclosão da crise de angústia que exige uma intervenção terapêutica (…).

É situação rara que surge em crianças intelectualmente muito avançadas de meio sociocultural elevado.

 

“Vida, pensamento e obra de João dos Santos”

Maria Eugénia Carvalho e Branco

psicoterapia

O direito a estar triste. Entre a tristeza e a paixão

“Há um fenómeno social, que se vê muito na família e na escola, e que a mim me impressiona particularmente, que é o não reconhecimento por parte dos adultos que as crianças têm direito de estar tristes, ou a ter tristezas, ou a ter desgostos, ou a sofrer com as suas tristezas.”

A recusa do adulto em reconhecer a tristeza da criança corresponde à recusa do adulto em reconhecer a sua própria tristeza infantil e até a sua tristeza actual.

Quer dizer, ele também foi vítima disso, ele também teve tristezas que teve de esconder, que teve de disfarçar, que teve de resolver de uma certa maneira, porque os adultos, no seu tempo de criança, também já não lhe concediam o direito à sua tristeza.

Porque a tristeza conduz a uma reflexão sobre a própria pessoa, sobre o próprio eu, leva-nos a olhar para dentro e a procurarmos ver o que se passa dentro de nós.

Enquanto, que na paixão, por exemplo, a pessoa está toda voltada para fora e só vê o objecto amado, o objecto de amor.

Quando se está apaixonado por uma pessoa, ou por uma ideia, ou seja lá o que for, a pessoa está toda voltada para fora.

Na tristeza, pelo contrário, a pessoa está toda voltada para dentro.

E na cultura ocidental nós recusamos muito a depressão, ao contrário do que acontece muito com os orientais que aproveitam muito para meditar, para pensar, para reflectir, para atingir o discernimento das coisas.

A palavra discernimento creio que significa compreender sentindo.

Corresponde mais a descobrir do que propriamente a compreender no sentido racional.

E a tristeza dá um discernimento, uma compreensão, nesse sentido, de que aliás todos nós nos apercebemos se voltarmos um pouco atrás e virmos o que foi a nossa vida.

A pessoa cresce, desenvolve-se e aperfeiçoa-se à custa desses movimentos de voltar para fora e de voltar para dentro o seu olhar.

Vemos que os momentos de tristeza nos conduziram a modificações importantes na vida.

Muitas vezes há essa reflexão, esse olhar para dentro de que às vezes a gente não se apercebe, de que não damos conta por isso, mas a verdade é que ele existe, porque a pessoa está voltada para dentro.

Nessas alturas, quer seja na adolescência quer seja na idade adulta, está de facto, a reflectir sobre todos os seus problemas, os mais íntimos, os mais pessoais, e menos voltada para as coisas de fora e para os problemas dos outros.

Esse discernimento corresponde mais a um fazer-se luz dentro de nós e portanto a compreendermo-nos melhor através de um fechar de olhos ao que está para fora e voltar o nosso olhar, a nossa compreensão das coisas para dentro.

Isso na infância é fundamental para que a pessoa cresça.

A pessoa cresce de facto, desenvolve-se, aperfeiçoa-se à custa desses movimentos de voltar para fora e de voltar para dentro o seu olhar.

De uma certa maneira são, movimentos de paixão e movimentos de tristeza.”

“Eu agora quero-me ir embora”
João dos Santos
Conversas com
João Sousa Monteiro

Saúde Mental

Um dia, a mãe do Miguel, preocupada porque o via muitas vezes triste, perguntou-lhe:

– O que é que tens, Miguel, o que se passa contigo?
– Não me apetece viver – respondeu o miúdo.
A mãe, surpreendida com aquela resposta assim tão inesperada, e ao mesmo tempo tão directa, tão verdadeira perguntou-lhe:
– Porque é que não te apetece viver?
– Porque não gosto de mim – respondeu o Miguel.

Contou-me a mãe mais tarde que às vezes, quando estava sozinha com ele e o via triste, perguntava-lhe porque ele estava triste, e o Miguel respondia-lhe, naquela sua maneira directa e verdadeira de sempre: – Já sabe o que é, é sempre pela mesma razão, não gosto de mim.

João dos Santos – O que é importante é que isso que o Miguel sente e diz, revela uma grande saúde mental da parte dele. Para nós, psicanalistas, a saúde mental não consiste num indivíduo ser sólido assim como o granito, ou rígido como uma estátua. A saúde mental consiste na pessoa ser capaz de se movimentar livremente dentro de si, e os movimentos de tristeza são tão importantes como os movimentos de alegria.

In “João dos Santos – Se não sabe porque é que pergunta?
conversas com João Sousa Monteiro.”

 

Psicologização. Psi quê? Importa-se de repetir? Pedro Martins Psicoterapeuta - Psicoterapia

Psicologização. Psi quê? Importa-se de repetir?

Em virtude do aumento da presença da psicologia e dos psicólogos na vida quotidiana, começou a ouvir-se falar de psicologizar; psicologizante; psicologização.

Em meu entender, esse termo, nos exemplos em que era usado, referia-se a uma atitude passiva e permissiva dos pais/educadores em relação ao comportamento das crianças e dos adolescentes.

“Agora fazem tudo o que querem”; “Psicologia para aqui, psicologia para ali, não sei onde isto vai parar”;

“Agora não se pode tocar nas criancinhas”; “No meu tempo levavam umas palmadas e acabava-se logo com as parvoíces”; “são uns delinquentes, deixam-nos fazer tudo”.

A propósito da psicologização, ocorreu-me uma “conversa” que o Dr. João dos Santos teve com João Sousa Monteiro:

«Uma mãe desejava falar-me e trazia o filho de 8 ou 9 anos. O miúdo queria assistir à conversa.

Era uma família de elevado nível social e cultural, e tinham conversas muito intelectuais com os filhos.

A mãe queria conversar comigo porque tinha um problema qualquer com o miúdo, e o miúdo dizia que também queria assistir à conversa, que não queria ficar de fora.

Eu disse-lhe: “Não não, tu agora esperas aí porque eu preciso falar com a tua mãe, ela tem umas coisas para me dizer que não quer que tu oiças, portanto esperas aí fora”.

E o miúdo disse-me assim: “mas eu posso ouvir tudo, porque eu até sei o que é o superego”.

E eu disse-lhe: “tu não sabes nada o que é o superego, o superego não é nada disso que tu imaginas, é isto que eu te vou mostrar”.

Agarrei-o por um braço e disse-lhe: “se tu não vais já lá para fora, levas dois estalos e então ficas logo a saber o que é o superego».

“Agora fazem tudo o que querem, não se pode tocar nas criancinhas”

É inimaginável que um psicólogo exerça algum tipo de violência sobre um paciente/criança.

Aqui não se trata de violência mas de relocalização no espaço – cada um deve ter o seu lugar.

É bastante tranquilizador para a criança que já tem capacidade de distinguir os espaços, saber qual é o seu e qual é o do outro.

Mas mais importante que isso, é a criança sentir que quando entra em espaços alheios (apesar de muito desejados), existe alguém que lhe põe um limite e a impede de pisar certos terrenos.

Actualmente, as crianças são vistas de forma muito diferente e a psicologia deu o seu contributo ao emprestar uma maior compreensão deste “ser complexo”.

Daí resultaram, como resultam sempre, várias interpretações e respectivas aplicações. A psicologização parece ser uma delas.

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