Mês: Janeiro 2018

A crítica Pedro Martins Psicoterapeuta

A Crítica – entre o desagradável e o insuportável

A crítica nunca é fácil.

Lidar com o facto de os outros nos considerarem ridículos, feios, desagradáveis ou incompetentes é um dos aspectos mais desafiadores de qualquer vida.

No entanto, o impacto da crítica é extremamente variável – e depende, em última análise, de um detalhe um pouco inesperado: o tipo de infância que tivemos.

O facto de a crítica ser experimentada como meramente desagradável ou completamente catastrófica depende do que aconteceu connosco há muitos anos com os nossos cuidadores.

O que se entende por uma “infância má” é aqui, simplesmente, uma questão de amor.

Uma criança chega ao mundo com uma capacidade muito limitada para lidar consigo própria.

É a tolerância, o entusiasmo e o perdão do outro que gradualmente nos acomoda à existência.

A forma dos nossos cuidadores nos olharem torna-se na forma como nos vemos.

É por sermos amados pelos outros que adquirimos o dom de olhar com simpatia para nós próprios.

Simplesmente, não está na nossa incumbência acreditar em nós mesmos por conta própria.

Estamos totalmente dependentes de um sentimento interior de termos sido valorizados de forma indirecta por outra pessoa, como uma protecção contra a subsequente negligência do mundo.

Nós não precisamos ser amados por muitos.

Nós não precisamos ser amados por muitos, um bastará, e doze anos podem ser suficientes (idealmente dezasseis).

No entanto, sem esse amor, a contínua admiração de milhões nunca será capaz de nos convencer de que somos bons.

Mas com esse amor, o desdém de milhões é indiferente.

As infâncias más têm a triste tendência:

— De nos levar a procurar situações em que existe uma possibilidade teórica de recebermos uma aprovação excepcional (o que também significa, um alto risco de encontrar uma enorme desaprovação) e por isso fazemos esforços desmesurados na tentativa de sermos famosos e visivelmente bem-sucedidos.

Mas é claro que o mundo em geral nunca dará emocionalmente a confirmação incondicional desejada.

Existirão sempre os discordantes, críticos e pessoas igualmente afectadas pelo seu próprio passado para poderem ser gentis com os outros.

E é para essas vozes que aqueles que tiveram infâncias complicadas se vão direccionar, por mais entusiástica que a multidão possa ser.

Ao longo do caminho podemos constatar que o principal indicador de ser um bom pai é quando um filho, simplesmente, não tem interesse em ser admirado por um grande número de desconhecidos.

Nós não ouvimos todos a mesma coisa quando somos criticados.

Alguns de nós, os sortudos, ouvimos apenas a mensagem superficial do aqui e agora: que nosso trabalho ficou abaixo das expectativas, que devemos esforçar-nos mais nas nossas funções, que o nosso livro, filme ou música não é brilhante. Isso é suportável.

Mas os mais feridos entre nós ouvem muito mais.

A crítica leva-os directamente para a ferida primitiva.

Um ataque no presente entrelaça-se com os ataques do passado e cresce desmesuradamente e de forma incontrolável na sua intensidade. O chefe ou colega pouco amável torna-se o pai que nos decepcionou.

Tudo é questionado. Não só achamos que fizemos um mau trabalho, como somos uma miséria, pois foi assim que nos sentimos naquela época, na nossa mente infantil, frágil e indefesa.

Saber mais sobre a nossa infância proporciona-nos uma via fundamental de defesa contra os efeitos da crítica.

Isso significa que podemos estar atentos, quando nos sentimos atacados e despoletamos a desnecessária auto-depreciação.

Podemos aprender a separar o veredicto de hoje do veredicto emocional que trazemos connosco e que constantemente procuramos confirmar através de eventos do dia-a-dia.

Podemos aprender que, por mais tristes que sejam os ataques que enfrentamos, eles não são nada comparados com a verdadeira tragédia e causa efectiva da nossa tristeza: que as coisas não correram bem naquela época.

Saber mais sobre a nossa infância proporciona-nos uma via fundamental de defesa contra os efeitos da crítica.

E assim podemos dirigir a nossa atenção para onde é realmente precisa; longe das críticas actuais e apontada para aquele pai da nossa infância, pouco convencido do nosso valor.

Podemos perdoar-nos por sermos, neste caso, inocentes, fatalmente sensíveis e, em essência, mentalmente afectados.

Não podemos parar os ataques do mundo, mas podemos – através da exploração das nossas histórias – mudar o que significam para nós.

Também podemos e devemos dar uma segunda oportunidade: voltar atrás e corrigir o veredicto original do mundo.

Podemos tomar medidas para nos expormos ao olhar de amigos ou, idealmente, de um bom terapeuta que possa ser um espelho mais benigno e ensinar-nos o que deveriam ter-nos ensinado desde o início:

Como todos os humanos, quaisquer que sejam as nossas falhas, merecemos estar aqui. Este é o nosso lugar.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de “Criticism when you’ve had a bad childhood” – Alain de Botton

A importância do pai

A Importância do Pai

O papel do pai na sociedade tem-se transformado, sobretudo, nas últimas décadas.

A “condição” de Pai evoluiu e contínua em evolução, devido às transformações culturais, sociais e familiares.

É reconhecido o seu papel no desenvolvimento da criança, e a relação entre pai e filho é um dos factores de relevo para o desenvolvimento cognitivo e social, facilitando a capacidade de aprendizagem e a integração da criança na sociedade.

O pai é visto como uma figura de autoridade, mas dele é exigido participação e afecto.

Historicamente, até ao fim do século passado, o pai desempenhava essencialmente a função de educador e disciplinador, segundo códigos frequentemente rígidos e repressivos.

Actualmente o pai já não é aquele sujeito todo-poderoso e assustador, autoritário por excelência.

O pai é visto como uma figura de autoridade, responsável por funções que asseguram o desenvolvimento dos filhos. Dele é exigido participação e afecto.

Quando o bebé nasce a função materna é a mais importante: a função psíquica de contenção dum bebé absolutamente dependente, que necessita de acolhimento e cuidados.

Mas, desde o momento inicial da vida, a função paterna e a função materna estão interligadas e tornam-se complementares.

São funções mentais que não estão directamente relacionadas com um ou outro género sexual.

A função paterna no início da vida do bebé relaciona-se com dar condições de segurança, apoio e estabilidade para que aquele que desempenha a função materna possa fazê-lo integralmente.

Ele é o investimento narcísico daqueles que cuidam do bebé, e o reflexo deste investimento libidinal.

Bebés lindos e mães extenuadas e descuidadas são, muitas vezes, a cara e a coroa de uma mesma moeda.

O bebé e a mãe, nesse sentido, são indistinguíveis. Não existe um bebé independente, destituído de uma função materna que o acompanhe.

Ao longo do crescimento do bebé a função paterna passa a ser menos periférica, assumindo uma maior centralidade na vida da mãe e, também, da criança.

O “não” surge como a primeira expressão nítida e fundamental da função paterna dirigida ao bebé.

O cuidador do bebé precisa lidar com os desenvolvimentos motores e, portanto, com uma maior preocupação com o mundo, já que o bebé passa a adquirir paulatinamente maior autonomia.

Mas ainda não é, de facto, uma verdadeira autonomia; assim o “não” surge como a primeira expressão nítida e fundamental da função paterna dirigida directamente para o bebé.

Ela tem a função de limitar os seus avanços no mundo que surgem naturalmente, mas de modo pouco cuidadoso.

Portanto, a função paterna tem como objectivo apresentar o mundo para a criança pequena, mas um mundo que se torne seguro para ela.

Uma das funções fundamentais do pai é colocar limites nos filhos e aceitar os seus eventuais sentimentos hostis, pois no desenvolvimento infantil é importante ter a quem odiar e a amar – a divisão amor / ódio será superada posteriormente.

Aceitar sentimentos hostis dos filhos significa reconhecer que nas crianças existe agressividade e que elas precisam que essa parte seja acolhida.

O “não” inicial limita certos avanços perigosos da criança, mas é preciso levar em conta que já existiu um “sim” na relação desta criança com o mundo.

A função paterna separa a mãe da criança para incluí-la num mundo mais amplo, o mundo do universo simbólico. A função paterna, portanto, separa para incluir.

A autonomia é a finalidade da realização satisfatória da função paterna e materna na vida mental do filho.

O pai enriquece o mundo infantil ao trazer novidades e as brincadeiras da sua infância.

O mundo paterno é alvo de maior curiosidade, pois a criança está mais ligada à mãe e ao mundo doméstico, de certa forma mais limitado.

A presença da função paterna e materna mantém-se ao longo da vida dos pais, mudando de intensidade e de importância de acordo com as circunstâncias da vida do filho.

Mas também são funções que se transmitem, de modo que um jovem adulto pode ter o seu próprio filho e valer-se das funções materna e paterna prontas para serem desempenhadas com uma nova criança. Quando isso acontece, o filho pode “prescindir” dos seus pais.

A autonomia, portanto, é a finalidade da realização satisfatória da função paterna e materna na vida mental do filho.

Os filhos, desse ponto de vista, podem ir adiante, fazendo com que os pais se tornem menos importantes.

Deixar ser suplantado, tornado desimportante e poder orgulhar-se da autonomia do filho e da possibilidade de ser desimportante é o último bastião da função paterna.

Trata-se de confiar que aquilo que foi transmitido poderá ser retransmitido nas futuras gerações.

verdadeiro e falso self

O Verdadeiro e o Falso Self

O Verdadeiro e o Falso Self

Uma das explicações mais surpreendentes e impactantes, sobre o porquê de nós como adultos, podermos ter problemas psicológicos, está ligada ao facto de nos nossos primeiros anos nos ter sido negada a possibilidade de sermos plenamente nós mesmos.

Ou seja, não foi permitido sermos obstinados e difíceis; não pudemos ser suficientemente exigentes, agressivos, intolerantes e egoístas como precisávamos ser.

Como os nossos cuidadores estavam demasiado preocupados ou afectados com algo, foi naturalmente necessário ajustarmo-nos a eles, sentindo que era preciso agir de acordo para sermos aceites e amados.

Um desenvolvimento saudável requer que possamos experimentar o incomensurável luxo de um período em que não precisamos de nos preocupar com os sentimentos e opiniões daqueles que cuidam de nós.

Fomos “obrigados” a ser Falso Self antes de termos tido a possibilidade de nos sentirmos verdadeiramente vivos – Self Verdadeiro.

E, como resultado, muitos anos depois, sem entendermos muito bem como, corremos o risco de nos sentirmos pouco consistentes, frágeis internamente, e, de alguma forma, relativamente ausentes.

A teoria do Verdadeiro e Falso Self resulta do trabalho de um dos maiores pensadores do século XX, o pedopsiquiatra e psicanalista inglês Donald Winnicott.

Numa série de trabalhos dos anos sessenta e com base em observações cuidadas dos seus pacientes (adultos e crianças), Winnicott desenvolveu a tese de que um desenvolvimento saudável requer que, invariavelmente, possamos experimentar o incomensurável luxo de um período em que não precisamos de nos preocupar com os sentimentos e opiniões daqueles que cuidam de nós.

Podemos ser inteiramente e, sem qualquer sentimento de culpa, o nosso Verdadeiro Self, porque aqueles que nos rodeiam – durante um período – adaptam-se inteiramente às nossas necessidades e desejos, por mais inconvenientes e difíceis que estes possam ser.

O verdadeiro Eu do bebé, na formulação de Winnicott, é, por natureza, associal e amoral. Não está muito interessado nos sentimentos dos outros.

O bebé grita quando precisa – mesmo a meio da noite ou num comboio cheio de passageiros.

Pode ser agressivo, mordendo e – aos olhos de um apreciador simpatizante das boas maneiras ou apreciador da higiene – chocante e um pouco nojento. Expressa-se onde e como quer.

Pode ser doce, é claro, mas nos seus próprios termos, e não para atrair ou regatear o amor.

Se uma pessoa tem sensação de se sentir autêntico como adulto, então deve ter desfrutado o imenso privilégio emocional de ter sido verdadeiro à sua maneira: exigir das pessoas a seu belo prazer, pontapear quando está com raiva, gritar quando está cansada, morder quando se sente irritada.

O verdadeiro Eu da criança deve ter a possibilidade de fantasiar destruir os pais quando está em fúria – e depois testemunhar que o pai sobreviveu; o que garante à criança um sentido vital e imensamente reconfortante de que não é de facto omnipotente, e que o mundo não colapsa perante os seus desejos destrutivos.

Quando as coisas correm bem, de forma gradual e voluntária, a criança desenvolve um Falso Selfcapacidade de se comportar de acordo com as exigências da realidade externa.

Isto é o que permite que uma criança se submeta às regras da escola, se torne adulto e tenha uma vida profissional.

Quando nos foi dada a possibilidade de ser Verdadeiro Self, não precisamos de nos insurgir e manifestar as nossas necessidades constantemente.

Podemos seguir as regras porque, durante algum tempo, conseguimos ignorá-las inteiramente.

Infelizmente, muitos de nós não tivemos o começo ideal.

Talvez a nossa mãe estivesse deprimida e o pai frequentemente irritado, talvez houvesse um irmão mais velho ou mais novo a viver uma crise e exigisse toda a atenção.

O resultado foi termos aprendido a cumprir cedo demais, e assim, tornado obedientes às custas da nossa autenticidade.

Nos relacionamentos podemos ser polidos e norteados para as necessidades dos nossos parceiros, mas não somos capazes de amar adequadamente.

No trabalho, podemos ser cumpridores, mas pouco criativos e originais.

Nestas circunstâncias, e esta é a sua genialidade, a psicoterapia oferece-nos uma segunda oportunidade.

Nas mãos de um bom terapeuta é-nos permitido a regredir até ao momento em que começámos a ser Falso Self.

Na sala do psicoterapeuta, contidos em segurança pela sua circunspeção, podemos aprender – mais uma vez – a sermos autênticos.

Podemos ser excessivos, difíceis, despreocupados, egoístas, agressivos, chocantes e irascíveis.

O terapeuta irá aceitar-nos – e, assim, ajudar-nos a experimentar uma nova sensação de vitalidade, que deveria ter lá estado desde o princípio.

A exigência de ser Falso Self, nunca desaparece, mas torna-se mais suportável, porque regularmente nos permitem, na privacidade da sala do terapeuta, uma vez por semana ou mais, ser Verdadeiro Self.

Winnicott era extremamente calmo e generoso com os seus pacientes quando eles estavam a tentar reviver o seu Verdadeiro Self.

Um deles partiu o seu jarrão favorito, outro roubou-lhe dinheiro e um terceiro insultava-o sessão após a sessão.

Mas Winnicott era imperturbável, sabendo que isso fazia parte de uma jornada de regresso à saúde, longe da fadiga mortal que aflige esses pacientes.

Podemos agradecer a Winnicott por nos recordar que o prazer e o sentimento de autenticidade devem passar por estágios de egoísmo e por certo tipo de comportamentos. Simplesmente, não existe outra forma.

Nós temos que ser autênticos antes de podermos ser vantajosamente, um pouco “falsos” – e se nunca tivemos permissão, então a nossa ansiedade, a nossa depressão vão dar nota de que precisamos dar um passo atrás, e a terapia está lá para isso.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de: “The True and the False Self” – Alain de Botton

Elogio – melhor que receber só mesmo merecer

Elogio – melhor que receber só mesmo merecer

Há coisas onde as crianças não diferem muito dos adultos: a satisfação de receber um elogio. Em ambos os casos o elogio pode não ser merecido, mas no que diz respeito aos filhos, os pais têm sempre um elogio “gratuito” para um poema horrível, para uma performance musical de arrepiar ou para um golo a 20 metros da baliza.

Confiança -, dizem. – É preciso que ganhem auto-confiança para triunfarem na vida. Será que o elogio incondicional gera confiança ou dependência?

As crianças e os jovens gostam de sonhar com conquistas mirabolantes e aplausos intermináveis. No entanto, fazem-no muito mais pelo prazer do devaneio do que pelo desejo real de concretização. Por seu lado, os pais, investem (por vezes na pior acepção da palavra) de corpo e alma nos sonhos dos filhos (ou seus) exponenciando os seus dotes de forma desmesurada.

Os pais estão convencidos que para os filhos triunfarem precisam confiar cegamente nas suas qualidades, esquecendo que sem esforço nada se consegue. Assim, mesmo sem se justificarem, os pais desfazem-se em aplausos.

O problema é que os elogios incondicionais em vez de produzirem auto-confiança provocam dependência: os filhos ficam dependentes da aprovação dos pais e, mais tarde, dos outros. Escravos desta situação, invertem as prioridades: em vez de se esforçarem na concretização dos seus desejos, buscam os elogios.

Hoje, os filhos são o centro da vida de muitos pais e, ainda que encontremos aí um enorme altruísmo, na verdade, está também um grande vazio, que os pais procuram preencher através dos filhos. Isto acaba por gerar uma  dependência desigual: os filhos tornam-se importantes para os pais e os pais indispensáveis para os filhos. Cada passo que o filho dá tem que ser antecedido de um sms de autorização/aprovação.

A visão actual sobre as crianças é muito diferente e, como normalmente acontece, para as compensar de todo o mal que lhes provocámos, passa-se para o outro extremo: endeusamento. Talvez as coisas não sejam assim tão simples e esse endeusamento tenha um preço elevado e, já lhes esteja a ser cobrado.

As crianças são o futuro, é incontestável. Não quererá isso também dizer que lhes colocamos a responsabilidade de compensarem as nossas falhas e fracassos? Não andaremos à procura de um orgulho retroactivo?

tendências suicidas

Tendências suicidas tratadas em Psicoterapia

O caso de uma paciente com tendências suicidas tratada em psicoterapia

A Sra. F. recorreu à medicação como substituto da falta de “apoio” das pessoas, quando começou a sentir que a sua auto-suficiência começava a desmoronar. Ela necessitava que alguém lhe desse mais do que qualquer um parecia poder dar-lhe. Portanto, tornou-se cada vez mais dependente da medicação como substituto para essa situação. No fim tentou suicidar-se com uma dose excessiva de comprimidos – e (inconscientemente) punir aqueles que falharam em ficar do seu lado quando mais precisava deles.

A Sra. F. (50 anos) foi-me enviada pelo hospital depois de uma tentativa de suicídio. Por pouco não morreu. Ocorreu num período em que se sentia muito angustiada e via aqueles que a rodeavam afastarem-se do contacto com o que ela estava a sentir.

Quando comecei a segui-la, disseram-me que existiam razões de ordem prática pelas quais ela só poderia vir uma vez por semana. Ela continuava medicada para os seus estados de ansiedade e insónia; e continuava com dificuldades para dormir. Mesmo quando conseguia dormir, acordava regularmente com crises de ansiedade que costumavam chegar ao ponto do terror.

Numa determinada sessão a Sra. F. pediu-me para eu falar com o psiquiatra que a enviou para mim para que ele mudasse ou aumentasse a medicação, dizendo que precisava tomar alguma coisa para amenizar aqueles sentimentos que estavam, outra vez, a tornar-se insuportáveis. Estava convencida que nem eu nem o Dr. Y (psiquiatra) tínhamos noção dos horrores que ela passava todos os dias. E não existia nada que melhorasse essa situação. Lamentava profundamente que no hospital tivessem conseguido salvar a sua vida.

Concordei em discutir o problema com o Dr. Y, mas não prometi qualquer mudança na sua medicação. Disse-lhe que não estava convencido de que era de mais comprimidos que ela, realmente, precisava.

Paciente: “Você, obviamente, não entende. Não está a ver que é insuportável? Você tem que fazer alguma coisa. Eu, simplesmente não posso continuar a viver com esta ansiedade e estes terrores, e sem conseguir dormir. EU PRECISO DE MAIS COMPRIMIDOS.”

Terapeuta:Vejo que existe algo de que você precisa mais. Não creio que sejam comprimidos, mas, sim, o que eles estão a substituir. Acredito que em certas alturas você precisou de uma pessoa que estivesse mais disponível para você, mas sentiu essa pessoa relutante ou incapaz de enfrentar a intensidade dos seus sentimentos. Então, em vez disso, você tem procurado sufocar esses sentimentos com comprimidos.”

Paciente: “Eu não posso continuar assim. Você tem que pedir ao Dr. Y que me dê mais comprimidos, ou mais fortes.”

Terapeuta: “Vou falar com o Dr. Y; mas gostaria de sugerir que você considerasse vir mais vezes esta semana. Poderia vê-la 3 vezes por semana se você estivesse preparada para vir.”

A Sra. F. disse que viria a uma sessão extra. Entretanto falei com o Dr. Y, que concordou que seria um retrocesso ceder ao pedido de aumentar a medicação. Estava claro que ela era depende da eliminação dos seus sentimentos., em vez de ousar experimentá-los e partilhá-los com outra pessoa de modo a compreendê-los.

Três dias depois a Sra. F. veio à sessão. Estava mais calma e parecia um pouco embaraçada. Explicou o que acontecera.

Depois da última sessão, emergiram várias coisas. Ela tinha separado o segundo comprimido para tomar depois da meia-noite se não conseguisse dormir (como era seu hábito fazer). De manhã viu que tinha dormido sem necessidade do comprimido.

Contou-me, então, sobre um período da sua infância, quando tinha cerca de três anos e a sua mãe estava ocupada com a irmã mais nova. A Sra. F. costumava ir a uma loja na esquina de onde morava, e o homem que ficava atrás do balcão tinha por hábito dar-lhe um chupa. A sua mãe não concordava e costumava tirá-lo, mas o homem da loja dava-lhe outro sempre que ela pedia.

Sugeri à Sra. F. que os chupas que o homem lhe costumava dar representavam a sua mãe, de quem ela estava a precisar, mas tendo que abrir mão. Parecia que a mãe não reagia aos sinais de angústia que a Sra. F. apresentava quando buscava os chupas como forma de dizer à mãe que precisava de mais tempo com ela. Então, quando a mãe lhe tirava os chupas sem lhe dar mais atenção a Sra. F. pode ter começado a sentir que aquilo que ela precisava era de mais chupas. Querer mais comprimidos agora era como querer mais chupas para a criança ansiosa que existia dentro dela.

A Sra. F. contou-me então que se surpreendera com uma lembrança na noite em que dormiu sem o comprimido extra. “Era tão nítida que parecia uma experiência real do presente.” Ela teve a sensação de estar na cama com a sua mãe (o que acontecia por vezes quando era pequena) e de sentir “as costas grandes e fortes” da mãe ali ao lado dela. Essa costumava ser uma das suas experiências infantis mais felizes; ser capaz de ficar perto da mãe quando dormia.

Eu disse que essa pode ter sido das poucas vezes em que ela se sentiu capaz de se abrigar na mãe. De fazer-lhe exigências ocultas enquanto esta dormia, já que não havia perigo de a mãe a censurar ou de se afastar dela. A Sra. F. concordou e começou a chorar. Tornou-se, então, evidente que encontrava alívio em relação à angústia primeva ao ser capaz de expressar a situação através do choro na presença de alguém que estava preparado para ficar em contacto com o que ela estava a sentir.

Toda a vida a Sra. F. fora considerada uma pessoa forte e auto-confiante; em quem toda a gente se podia apoiar. Ela sentia que não poderia nunca deixar alguém conhecer o seu Eu assustado e dependente. Em vez disso, geralmente tentava escondê-lo, a fim de preservar algum contacto com os outros, pois sabia, por experiência própria, que a abandonavam quando mostrava sinais de carência. Usava a medicação para encobrir essa parte. Quando a supressão não era suficiente para bloquear os seus sentimentos, aumentava a dose a ponto de quase se bloquear a si mesma. A sua tendência para o suicídio era, então, uma tentativa de eliminar os sentimentos que não conseguia dominar sozinha.

Se eu tivesse seguido o próprio diagnóstico da Sra. F., de que as pessoas não podiam lidar com ela quando se sentia mais carente, e que, portanto, ela precisava de medicação mais forte, eu estaria a ser conivente com a sua fantasia sobre a qualidade ingovernável dos seus sentimentos mais difíceis. Em vez disso, fez mais sentido desafiar a sua própria limitação a uma sessão por semana. Numa altura em que mais esperava que eu relutasse em permanecer em contacto com o que ela estava sentindo, ofereci mais disponibilidade. Na sua terapia tinha a oportunidade de reexperimentar o período da carência infantil negada, sendo que eu representaria a mãe que se afastaria dela. Isto fez surgir novas lembranças, que tinham a ver com a sua busca de substitutos para a presença da mãe (chupas), e com o facto de ela encontrar segurança na presença adormecida da sua mãe – uma dependência secreta que lhe parecia segura porque a mãe não estava ciente dela.

Aos poucos a Sra. F. ousou sustentar-se na minha disponibilidade de forma aberta em vez de secreta, e o efeito dessa “sustentação pelo relacionamento” foi espantoso. Começou a descobrir que os seus sentimentos de angústia mais difíceis poderiam ser contidos dentro de um relacionamento. É claro que tivemos que trabalhar bastante a partir desse novo movimento hesitante em direcção a permitir a si mesma confiar outra vez em alguém. Não obstante, tornou-se claro que a minha firmeza acerca da sua necessidade de mais tempo com uma pessoa ajudou-a a sentir-se apoiada em mim, em vez de buscar alívio, unicamente, através dos medicamentos.

Num período de vários meses a Sra. F. começou a desenvolver um tipo diferente de segurança, agora baseada no seu uso de uma dependência de fora que ela podia internalizar e consolidar dentro de si mesma. Essa recém-encontrada força era diferente da sua permanente auto-suficiência. A sua antiga maturidade precoce, adquirida defensivamente para proteger a mãe sobrecarregada, pode agora dar lugar a uma maturidade mais sólida, conseguida ao seu próprio ritmo e não ao ritmo dos outros.

 

 

Taduzido/adaptado por Pedro Martins a partir de:

On Learning from the Pacient – Patrick Casement

 

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