Categoria: Infância

Mães emocionalmente indisponíveis

Mãe Emocionalmente Indisponível

Mãe Emocionalmente Indisponível

“Acho que literalmente ansiava por amor e atenção quando era criança.

Quanto mais a minha mãe se afastava, mais frenética me tornava. Comecei a comportar-me mal porque sabia que assim ela me daria atenção, mesmo que isso significasse ser castigada.

Parece estranho, mas foi o que eu fiz. Ao não conseguir ter o amor, lutei para ter a raiva dela. Pelo menos, naqueles momentos, ela estava lá.” – Natália

Outra mulher descreve o que fazia para ter a mãe emocionalmente presente:

“Quando eu era muito jovem percebi que a minha mãe gostava de fazer de enfermeira.

Isso fazia com que se sentisse importante e reconhecida, coisa, que eu acho, não acontecia no seu dia-a-dia.

Alguns dos momentos mais felizes da minha infância estão entrelaçados com bronquite, acredite ou não.

Quando eu estava doente, ela tinha de me incluir na interminável lista de tarefas das quais ela se queixava constantemente.

Mas na maior parte do tempo, ela ignorava-me.”

 

O anseio por amor e atenção da mãe emocionalmente indisponível é a marca registada desta filha

 

Identificar uma mãe emocionalmente indisponível

Os filhos destas mães foram emocionalmente negligenciados, embora possam ter dificuldade em reconhecê-lo, pois as suas necessidades externas não foram apenas satisfeitas adequadamente, mas também, consideradas com atenção.

Estas mães tratam das coisas de forma escrupulosa; as casas impecavelmente organizadas e as crianças bem aprumadas.

Embora possam ser muito boas a tratar da casa e muito activas nas suas comunidades, elas não prestam atenção às necessidades emocionais dos filhos, nem aos seus sentimentos.

Estas mães podem, elas próprias ter uma vinculação evitante ou, simplesmente, não gostarem das exigências da maternidade.

Alexandra refere:

“A minha mãe não respondia às minhas necessidades e quanto mais carente me sentia, menos atenção me dava.

Ela via o choro como um sinal de fraqueza e acusava-nos disso.

Cedo aprendi a pedir pouco porque era realmente melhor quando não fazia exigências.

O meu irmão e eu reagíamos a ela da mesma forma, e só na minha adolescência, quando vi as mães dos meus amigos a agirem é que percebi o quanto a minha mãe era fria.

Eu fiz psicoterapia durante alguns anos e ainda tenho dificuldade em pedir ajuda, carinho ou qualquer outra coisa. Tenho 45 anos e ainda sou muito defensiva.”

 

Como uma mãe emocionalmente indisponível o pode afectar

Ao contrário da mãe controladora ou de uma pessoa com traços narcísicos que deliberadamente faz do filho um satélite a circular à sua volta, a mãe emocionalmente indisponível faz isso sem querer.

Na verdade ela só quer ter uma relação a um nível superficial.

 

Parece estranho, mas foi o que eu fiz. Ao não conseguir ter o amor, lutei para ter a raiva dela. Pelo menos, naqueles momentos, ela estava lá.” – Natália

 

O anseio por amor e atenção da mãe é a marca registada desta filha, e ela lidará com isso eliminando as suas emoções e necessidades emocionais, consciente e inconscientemente, ou tornando-se subordinada a esse anseio.

Aqueles que se revestem de armaduras sofrem de problemas de confiança, dificuldade em manter uma ligação e problemas para identificar sentimentos, e têm um estilo de vinculação evitante.

Aqueles que estão subordinados pelos seus anseios continuam a tentar chamar à atenção das suas mães, por vezes, recorrendo a substitutos pouco saudáveis para preencher o vazio nos seus corações.

Reconhecer a negligência emocional que se sofreu é, frequentemente, um caminho longo, como explicou uma filha de 43 anos:

“Quando eu ouvia as palavras ‘negligência emocional’, imediatamente pensava em alguém que era pobre e morava numa barraca, porque eu pensava que negligência emocional era parte de não ter coisas suficientes.

Mas agora percebo perfeitamente que se pode ser emocionalmente pobre e viver numa casa linda, com piscina e court de ténis.

A minha mãe nunca me deu uma palavra de apoio ou validação e levei vinte anos para perceber que aquilo que sentia em relação à minha infância era real.

Você pode estar esfomeado com o frigorífico cheio de comida e negligenciado com um armário cheio de roupas novas e dinheiro para gastar.

Demorei muito tempo para conseguir acreditar em mim mesma.”

 

Reconhecer a negligência emocional que se sofreu é, frequentemente, um caminho longo.

 

Enredado na confusão

Um dos enigmas para as filhas de mães emocionalmente indisponíveis é o intrigante fenómeno de como a mãe pode estar fisicamente presente e completamente ausente do ponto de vista emocional.

Para a criança pequena, isto é mentalmente confuso e, à medida que a criança amadurece, ela pode permanecer assim e desenvolver uma profunda insegurança.

Provavelmente, perguntará se há algo errado com ela. Ela é demasiado carente ou exigente? Está pedindo demais?

Ou pode perguntar se está apenas a inventar. Essas perguntas podem atormentar uma filha durante a vida adulta, como explicou Laura:

“Uma parte de mim queria que a minha mãe fosse má de maneiras que pudessem ser vistas – barafustando e gritando ou talvez até mesmo bater-me, mas isso nunca aconteceu.

À superfície, ela parecia ser uma óptima mãe e, acredite em mim, toda a gente pensava assim.

Mas ela nunca realmente me ouviu ou se importou verdadeiramente comigo.

 

A minha mãe nunca me deu uma palavra de apoio ou validação e levei vinte anos para perceber que aquilo que sentia em relação à minha infância era real.

 

Ela era inacessível e fria. Eu lutei durante anos, pensando que a culpa, de alguma forma, era minha.

Quando me casei, entrei em choque quando encontrei a família do meu marido pela primeira vez.

Francamente pensei que a mãe dele estava a representar. Mas ao longo do tempo, percebi que aquilo que eu estava a ver eram demonstrações genuínas de amor e carinho. Percebi que, afinal, eu não era louca.”

 

Passos para a cura

A descoberta é o primeiro passo e implica reconhecer a forma como a sua mãe a tratava e, em seguida, começar a ver como você se adaptou a ela.

Comportamentos que você sempre considerou serem partes inatas da sua personalidade, muitas vezes revelam ser o resultado de tentar lidar com o ambiente emocional da sua família de origem.

Independentemente da forma como reagiu à indisponibilidade emocional é importante ter em atenção o peso de certos aspectos:

– Confiar nos outros é um problema na sua vida

– O grau em que você deseja ou desdenha ligações próximas

– Se você tende a isolar-se e a minimizar a importância dos relacionamentos

– Se você está sempre alerta e temerosa num relacionamento e tem problemas com limites saudáveis

– O grau em que você é emocionalmente inteligente e consegue identificar e agir de acordo com os seus sentimentos

– Se você está a repetir o padrão, sentindo-se atraído por amigos e parceiros emocionalmente indisponíveis

 

A recuperação é possível, embora seja preciso tempo e esforço.

A melhor opção é o acompanhamento por um terapeuta experiente.

A boa notícia é que você não precisa permanecer para sempre aquela menina à espera da mãe (que não veio nem virá). Existem outras formas de sair daquele quarto da infância.

 

Traduzido/adaptado por P

Dar Demasiado Colo Estraga a Criança?

Dar Demasiado Colo Estraga a Criança?

“Dar demasiado colo estraga a criança”.

Poucos são os pais que nunca ouviram essa afirmação.

Apesar de ser uma ideia comum na sociedade, os especialistas recomendam:

  • dêem o máximo de colo, amor, carinho e cuidado aos bebés; eles precisam disso.

— Estamos sob a égide do mito de que o colo mima.

A primeira experiência que o bebé tem de “colo” é o útero da mãe.

Nele, a pele do feto está em permanente contacto com a água (liquido amniótico), sentindo-se envolvido.

No parto, o bebé deixa esse espaço contentor e tem uma sensação de “queda”.

O que ele mais quer é ser acolhido imediatamente para retornar àquele sentimento de contenção — refere Vera Laconelli, psicanalista e directora do Instituto Gerar.

O contacto da pele dos bebés com os pais ajuda a estimular o sistema nervoso central da criança.

Nos primeiros momentos de vida, o bebé não reconhece o limite do seu próprio corpo e será a partir do colo, do toque, que essa sensação se formará.

É ao receber o colo que o bebé percebe que é desejado e amado pelos cuidadores.

“Se você deixar o bebé a chorar para ver se ele “se habitua”, a única coisa a que ele vai se acostumar é a sofrer.

Quando o bebé sofre uma experiência de desamparo, ele chora porque esse é o único recurso que tem.

Se alguém acode a esse choro, mesmo que não lhe tire o sofrimento, demonstra à criança que ela não vai estar sozinha na hora da dor.”

As crianças querem ajudar e devemos deixar. Pedro Martins Psicoterapeuta

As crianças querem ajudar e devemos deixar

Tendemos a pensar nas crianças mais como fonte de trabalho extra do que como fonte de ajuda.

Muitas vezes pensamos que levar a que os nossos filhos nos ajudem em casa é trabalho a dobrar.

Também tendemos a pensar que a única forma de obter ajuda das crianças é pressioná-las, através de ameaças de castigo ou “suborno”, que, por boas razões, podemos ser relutantes em fazer.

Geralmente pensamos no trabalho como algo que as pessoas naturalmente não querem fazer, e passamos essa visão aos nossos filhos, que depois a transmitem aos seus filhos.

No entanto, as pesquisas encontraram fortes evidências de que as crianças muito jovens, inatamente, querem ajudar.

E se tiverem permissão para fazê-lo, continuarão a ajudar, voluntariamente, ao longo da infância e até à idade adulta.

 

Evidências do instinto infantil de ajudar

Num estudo clássico, realizado há mais de 35 anos, Harriet Rheingold (1982) observou crianças de 18, 24 e 30 meses a interagir com os pais (mãe em alguns casos, pai noutros) enquanto estes realizavam tarefas domésticas de rotina.

Entre elas estavam: dobrar a roupa, varrer o chão, levantar a loiça da mesa, e arrumar coisas espalhados pelo chão.

 

As pesquisas encontraram fortes evidências de que as crianças muito jovens, inatamente, querem ajudar.

 

No estudo, pediu-se a cada pai que trabalhasse relativamente devagar e permitisse que o filho ajudasse se quisesse, mas não pedisse ajuda à criança ou direccionasse a ajuda por meio de instruções verbais.

O resultado foi que todas as crianças (80 no total) ajudaram voluntariamente a fazer o trabalho.

A maioria delas ajudou em mais de metade das tarefas que os pais realizavam, e alguns até iniciaram tarefas antes dos pais.

Além disso, nas palavras de Rheingold, “as crianças realizaram as tarefas com movimentos rápidos e enérgicos, entoações vocais de contentamento, expressões faciais de prazer, e satisfação com a conclusão da tarefa”.

Muitos outros estudos confirmaram o desejo, aparentemente universal, das crianças pequenas em ajudar.

Este comportamento de ajuda não tem por base a obtenção de uma recompensa.

 

As crianças são intrinsecamente motivadas, em vez de motivadas extrinsecamente

 

De facto, Felix Warneken e Michael Tomasello (2008) descobriram que oferecer uma recompensa por ajudar reduz a ajuda subsequente.

Numa experiência, possibilitaram que crianças de 20 meses ajudassem o experimentador de várias maneiras e que algumas crianças fossem recompensadas (com a oportunidade de brincar com um brinquedo atraente) e outras não.

O resultado foi que aquelas que tinham sido recompensadas ​​por ajudar tinham muito menos probabilidade de ajudar do que aquelas que não tinham sido recompensadas.

Apenas 53% das crianças na condição anteriormente recompensada ajudaram, em comparação com 89% na condição não recompensada.

Esta descoberta é uma evidência de que as crianças são intrinsecamente motivadas, em vez de motivadas extrinsecamente, para ajudar.

Isto é, ajudam porque querem ser úteis, não porque esperam algo por isso.

Muitas outras pesquisas mostraram que as recompensas tendem a minar a motivação intrínseca.

Na nossa cultura costumamos cometer dois erros em relação aos desejos das crianças pequenas de ajudar.

Primeiro, pomos de lado as ofertas de ajuda, porque estamos com pressa de fazer as coisas e acreditamos (muitas vezes correctamente) que a “ajuda” da criança vai-nos atrasar ou a criança não vai fazer bem as coisas e nós vamos ter de fazer de novo.

Segundo, se realmente queremos ajuda da criança, oferecemos algum tipo de acordo, alguma recompensa, para fazê-lo.

No primeiro caso, passamos a mensagem à criança de que ela não é capaz de ajudar.

E no segundo caso, passamos a ideia de que ajudar é algo que uma pessoa só fará se receber algo em troca.

 

O seu filho está ajudar, em parte, para reforçar o vínculo consigo.

 

Em resumo, a pesquisa sugere que, se você quiser que o seu filho seja seu parceiro nas tarefas de casa, faça o seguinte:

Assuma que se trata de um trabalho da família, e não apenas seu, o que significa que você não é a única pessoa responsável por fazê-lo.

Deve renunciar a algum controle sobre a forma como o trabalho é feito.

Se você quer que seja feito exactamente do seu jeito, terá que fazer isso sozinho ou contratar alguém para fazê-lo.

Entenda que as tentativas das crianças de ajudar são genuínas e, se você dedicar algum tempo para deixar a criança ajudar, talvez com um pouco uma orientação discreta, ela acabará por se tornar boa nisso.

Evite pedir ajuda, negociar, recompensar ou controlar, pois tudo isso prejudica a motivação intrínseca da criança para ajudar.

Um sorriso de contentamento e um agradável “obrigado” é bom e sabe bem. É o que seu filho quer de si.

O seu filho está ajudar, em parte, para reforçar o vínculo consigo.

A ajuda é boa não só para você, mas também para o seu filho. Ele está a crescer de forma muito positiva, ajudando.

Ao ajudarem os filhos adquirem capacidades e sentimentos de valorização pessoal, auto-estima e de pertença, contribuindo para o bem-estar da família.

Ao mesmo tempo, quando se permite à criança ajudar, o altruísmo inato é nutrido.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de “Toddlers Want to Help and We Should Let Them” – Peter Gray

Sobre o Bullying

A palavra “bullying” foi importada do inglês. Refere-se a alguém que usa a força ou o poder para ferir ou intimidar o outro, agindo como um “Bull/Touro”.

À primeira vista, poderíamos ser levados a pensar que se trata apenas da exacerbação de algo que, com as suas nuances, sempre existiu.

No entanto, a certeza de que culturalmente assistimos a uma mudança na família como instituição e nos modos de subjectivação da infância, faz com que tenhamos de pensar a questão de forma mais profunda.

O bullying ocorre habitualmente num contexto que favorece o seu silenciamento, e no qual a vítima, devido à culpa, é levada a acreditar que por alguma razão que ainda não conhece, algo em si é mau o suficiente para merecer tal castigo.

Numa fase em que a psique ainda está em desenvolvimento a influência da culpa não permite que as crianças entendam que aquilo que estão a sofrer tem a ver com uma causa que as ultrapassa.

Este é talvez um dos aspectos mais dolorosos deste tipo de sofrimento – que compartilha aspectos de outras formas de violência exercidas sobre as crianças como o abuso sexual e a violência parental.

Desta forma, a criança fica confusa em relação ao lugar que ocupa perante o outro.

A busca de amor coloca as crianças numa situação de extrema fragilidade, e desta forma numa posição de sujeição ao outro.

Esta profunda desprotecção ocorre, então, numa completa ignorância de que a sociedade é quem deve garantir-lhes os cuidados.

 

No bullying, devido à culpaa vítima, é levada a acreditar que por alguma razão que ainda não conhece, algo em si é mau o suficiente para merecer tal castigo.

 

A “criança imperador” do nosso tempo tem direitos que antes não tinha e é acusada de se exceder no seu exercício.

De qualquer forma, não tem interiorizado quais são os direitos que nunca deveriam ser violados.

Segundo Freud, as questões relacionadas com a construção da moralidade contribuem para o desenvolvimento da cultura, uma vez que o sentimento de culpa promove a inibição dos impulsos primários, que, geralmente consistem em obter prazer, mesmo à custa do outro.

No entanto, os aspectos ligados, essencialmente, à elaboração das condições para se viver em sociedade sem nos andarmos a matar uns aos outros, não fazem parte do código genético humano e, como tal, dependem da criação de certas condições específicas de produção, numa fábrica humana altamente complexa e mutável chamada “família”.

A psicanálise diz-nos que depois de um período claramente definido de subjectividade, que ocorreria entre os 0 e 5/6 anos, surgem, se nada tiver falhado, o que Freud chamou de “diques morais”.

Os “diques morais” referem-se, precisamente, ao aparecimento na criança do pudor, da moralidade, da vergonha e do asco, bem como o desaparecimento concomitante da crueldade.

Mas esse avanço, que claramente dota a criança de credenciais válidas para o vínculo social nem sempre ocorre.

 

A busca de amor coloca as crianças numa situação de extrema fragilidade, e desta forma numa posição de sujeição ao outro.

 

O bullying pode ser visto como uma penetração na subjectividade do outro sem reconhecer limites.

Neste ponto, é interessante pensar em como certos significantes que circulam socialmente contribuem para construir sentidos compartilhados: “Red Bull dá-te asas”, diz o conhecido slogan de uma bebida energética que promete termos o corpo sempre disponível apesar da fadiga.

Desta forma, retorna aqui um significado que é culturalmente fortalecido e que faz referência a que debaixo de certas formas de ser e estar no mundo, essencialmente ligadas ao consumo e ao prazer sem limites, o outro não funciona como um limite diante dos nossos próprios impulsos, neste caso, ante os impulsos do bull-ying.

Este é apenas um dos aspectos ligado ao modo como se dispõe do outro em favor do próprio prazer e seria excessivo desenvolver aqui as condições da sua gestação.

No entanto, podemos dizer que os pilares da constituição subjectiva, denominados função materna e paterna e dos recursos psicológicos da família, estão na base da criança ser capaz de aceitar o diferente, suportar a alteridade, reconhecer que o desejo é inevitavelmente condicionado pelo outro.

 

Que tipo de autoridade é exercida pelas instituições se uma mãe pode bater na professora por esta ter criticado o comportamento do filho?

 

Entendemos, então, que o ser humano não só nasce sem poder andar ou alimentar-se sozinho, mas também necessitado de apoio para se desenvolver psiquicamente. A presença estável, sólida e afectuosa de pessoas que ocupam os papéis materno e paterno são fundamentais.

No bullying, a falha na construção da auto-estima, e do outro como alguém que se deve cuidar e respeitar é evidente tanto para a criança que agride como para o que é agredida.

O primado do impulsivo sem a mediação da palavra é então um efeito do enfraquecimento gradual da função de autoridade dos pais do nosso tempo.

Assistimos a uma versão social do pai desautorizado, que não se autoriza a si mesmo.

Além do mais, muitas vezes acaba por confundir a lei com a censura, e autoridade com autoritarismo.

Noutras palavras, a autoridade de um pai é constituída na medida em que o seu filho reconhece a sua palavra por admirar o seu conhecimento e não por temê-lo.

Dito isto, seria ingénuo considerar o problema do bullying isolado de outras manifestações que têm um significado semelhante.

Que tipo de autoridade é exercida pelas instituições se:

– Uma mãe pode bater na professora por esta ter criticado o comportamento do filho?

– Um dos pais puder bater noutra criança que anteriormente bateu no seu filho?

Tendo em mente, que o bullying não corresponde a um conflito localizado, mas sim a uma falha sistémica, a complexidade que este conflito envolve actualmente confronta-nos com a questão da responsabilidade que nos cabe como adultos.

Se as crianças são os touros, então, devemos evitar ir para a frente delas com uma capa vermelha.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de: Sobre el Bullying – Gerado Quiess

 

Borderline - Entre a Dependência e a simbiose. Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Borderline – Entre a Dependência e a Simbiose

A síndrome Borderline, em qualquer idade que se apresente – infância, adolescência ou adultícia -, traduz um conflito intrapsíquico não resolvido.

Esse conflito está relacionado com a separação, isto é, a dolorosa fixação do paciente num estado de certa dependência/simbiose da figura materna.

Com efeito, observou-se que as perturbações na fase do desenvolvimento afectivo-relacional – na subfase de reaproximação do processo de separação-individuação – são das mais influentes na génese da perturbação borderline.

A simbiose está em franco declínio, quase extinção, sendo assim um período sensível (crítico) à desafinação, delonga ou precipitação, omissão ou paradoxalidade das respostas de amparo, auxilio, atenção e reabastecimento narcísico.

Uma resposta desadequada ou estimulação inoportuna repetidas – mesmo que de pouca monta – instalam a falta de confiança nos outros e no próprio, e a instabilidade narcísea.

A relação patogénea (micro traumatismos acumulados), que destrói insensivelmente (água mole em pedra dura tanto bate até que fura”), é a causa mais frequente e em regra a mais grave que os grandes traumatismos isolados – porque menos reconhecível e por isso menos combatida ou evitada.

Os pais gratificam a simbiose/dependência e atacam os desejos, impulsos e comportamentos autónomos da criança.

Simbiose ou dependência, dissemos. Porquanto, algumas vezes é de verdadeira simbiose que se trata.

O outro elemento da díade (mãe/pai), fortemente unida, é também um simbionte em ligação simbiótica e simbiotizante com o filho.

Noutros casos, é uma dependência parasitária ou simplesmente passiva de uma pessoa que reduz a ansiedade.

De facto, a frequência com que encontramos, nestes doentes, uma mãe (pai ou ambos) com características simbiônticas – desejando, e vivendo predominantemente em simbiose – é enorme.

Isto leva-nos a considerar a importância etiológica na personalidade borderline do objecto maternante.

Assim, a simbiose da qual o paciente tem dificuldade em sair – ou na qual reentra por regressão – não é só produto de um período simbiótico infantil insuficiente ou insuficientemente vivido – por carência sistemática, abandono drásticos ou frequentes -, mas também da traça simbiôntica dos pais, que impede o desprendimento evolutivo e favorece o laço simbiótico.

São mães/pais que gratificam a simbiose/dependência e atacam os desejos, impulsos e comportamentos autónomos e autonomizantes da criança.

Toda a sua conduta de exploração e autonomia é sistematicamente reprovada e reprimida, ao mesmo tempo que é estimulado, valorizado e premiado o comportamento de aproximação e apego.

Logo, o percurso evolutivo é travado e distorcido por um predomínio do sistema de apego sobre o sistema de exploração.

É, vemo-lo, uma verdadeira colonização dos filhos; uma fábrica de gente casta, obediente, humilde e pobre. Mas que se revolta.

Submisso e rebelde, eis a dupla face do borderline.

À excessiva (em extensão e/ou intensidade) simbiose com a mãe, soma-se a carência paterna – por ausência ou indisponibilidade afectiva. O que, como é óbvio, não facilita a separação; pelo contrário, reforça a simbiose.

Bibliografia: “O Desespero” – A. Coimbra de Matos

Génese, desenvolvimento e reprodução da violência. Pedro Martins Psicoterapeuta - Psicólogo Clínico

Génese, desenvolvimento e reprodução da violência

Da Agressividade Natural à Génese, Desenvolvimento e Reprodução da Violência

Existe uma agressividade estrutural, endógena ou constitucional porque se admite fazer parte intrínseca da constituição biopsíquica do indivíduo.

É uma agressividade natural, em princípio benigna, posta ao serviço da construção da identidade, autonomia individual e estabelece normas para a vida em grupo.

A agressividade estrutural alimenta várias funções, possibilitando a realização de outras tantas finalidades:

– Aproximação, preensão e controlo daquele que desejamos;

– Defesa do território e do estatuto;

– Afastamento de rivais;

– Afirmação pessoal ou assertividade;

– Competição com os pares e os mais fortes e poderosos.

Esta força agressiva é, pois, um instrumento necessário à adaptação e útil ao desenvolvimento.

A agressividade reactiva é uma reacção à agressão do meio, designadamente do outro.

É desencadeada, quer pela agressão sofrida quer pela agressão prevista ou imaginada.

Surge, portanto, como resposta imediata ao ataque ou como ataque preventivo.

O homem é um animal ético por natureza porque se identifica com a vítima, o sofredor e o desvalido.

Esta forma de violência ou de agressividade, necessária à sobrevivência, é mitigada pelas regras do convívio social.

Na sua contensão, o medo do castigo, a culpa, a vergonha e os sentimentos de compaixão desempenham um papel importante.

Os sentimentos de compaixão pelo outro, derivados da capacidade de empatia e de identificação projectiva – poder sentir o que o outro sente, colocar-se na pele do outro, são as verdadeiras raízes da consciência moral.

Por isso, o homem é um animal ético por natureza – porque se identifica com a vítima, o sofredor e o desvalido.

Não precisa, a bem dizer, de uma moral ditada pelo exterior. Ele próprio a constrói.

Só aqueles que – por infeliz experiência infantil – não tiveram pessoas empáticas e disponíveis aquando do processo de identificação primária apresentam mais tarde incapacidade de empatia perante os fracos ou necessitados.

E por tal se tornam frios, perversos e criminosos; abusam do poder e exploram os outros; maltratam, negligenciam, abandonam.

Mal-amados, são incapazes de amar.

O acumular de experiências traumáticas – privações, castigos, humilhações – gera agressividade, ou propensão para desencadear comportamentos hostis e destrutivos.

Uma vez carente, magoado e ressentido, o indivíduo reage facilmente por agressão às ameaças, ataques e ofensas; o medo, o furor e a raiva narcísica impõem-na.

A frustração da expectativa de receber afecto, apreço e reconhecimento é, de entre todas, a que mais hostilidade e revolta provoca.

O homem, porque conhece o outro e se conhece, necessita de amor e reflexão.

Sem entrada de estima só se produz ódio. Ferido no seu orgulho o animal humano enraivece-se. É este o destino do que não foi amado: a violência.

Bibliografia:

– “Violência Inconsciente” – A. Coimbra de Matos

– “Génese, desenvolvimento e reprodução da violência” – A. Coimbra de Matos

Porque-escolhemos-pessoas-problemáticas-para-amar-Pedro-Martins-Psicoterapeuta

Por que Escolhemos Pessoas Problemáticas para Amar?

O que nos leva a escolher pessoas difíceis para amar?

Em teoria, somos livres para escolher o tipo de pessoa que amamos.

Não nos impuseram uma pessoa. Ninguém combinou o casamento por nós como acontecia no passado.

Mas, na realidade, a nossa escolha é muito menos livre do que imaginamos.

Poderosas restrições sobre quem podemos amar e sentir-nos verdadeiramente atraídos vêm de um lugar para o qual, talvez, não nos ocorra olhar: as nossas infâncias.

A nossa história psicológica predispõe-nos fortemente para amar certos tipos de pessoas.

Nós amamos ao longo de sulcos formados na infância. Procuramos pessoas que, de muitas maneiras, recriam os sentimentos de amor de quando éramos pequenos.

O problema é que o amor que absorvemos na infância provavelmente, não é só composto de generosidade, ternura e bondade.

É provável que o amor estivesse entrelaçado com certos aspectos dolorosos:

– Um sentimento de não se ser suficientemente bom; um amor por um pai que era frágil ou estava deprimido; uma sensação de que não era possível ser vulnerável junto dos pais.

Isso predispõe-nos a procurar na vida adulta parceiros que não sejam necessariamente gentis connosco, mas que – mais importante – nos proporcionem um sentimento familiar.

O que pode ser visto como uma coisa subtil, mas da maior importância.

Podemos ser obrigados a desviar o olhar de possíveis candidatos porque eles não satisfazem o anseio pelas complexidades que associamos ao amor.

Podemos descrever alguém como “pouco sexy” ou “aborrecido” quando na verdade queremos dizer: é improvável que me faça sofrer da maneira que preciso sofrer para sentir que esse amor é real.

É comum aconselhar as pessoas que são atraídas por candidatos complicados a deixá-los e encontrar alguém mais saudável.

Isso é teoricamente tentador mas ao mesmo tempo, praticamente impossível.Não podemos alterar magicamente as fontes de atracção.

Em vez de procurar mudar o tipo de pessoas pelas quais somos atraídos, pode ser mais sensato ajustar a forma como reagimos e nos comportamos com as pessoas complicadas para as quais o nosso passado nos empurra.

Tendemos a procurar na vida adulta parceiros que nos proporcionam um sentimento familiar.

Os nossos problemas são frequentemente gerados porque continuamos a responder às pessoas que nos atraem da maneira que aprendemos a nos comportar enquanto crianças em torno dos nossos modelos.

Por exemplo, talvez os nossos pais ficassem furiosos com frequência e começassem a gritar.

Como os amávamos, reagíamos sentindo que quando estavam enfurecidos, devia ser por nossa culpa. Dessa forma, fomos ficando tímidos e submissos.

Agora, se um parceiro (por quem estamos magneticamente atraídos) se cruza connosco, respondemos como crianças esmagadas e com a testa franzida:

– Sentimos que a culpa é nossa, que somos merecedores de críticas, e assim vamos desenvolvendo ressentimentos.

Talvez nos sintamos atraídos por alguém com um pavio curto – que por sua vez nos faz explodir.

Ou, caso os nossos pais fosse muito vulneráveis e ficassem magoados com facilidade, acabamos por encontrar um parceiro também ele um pouco frágil e que exige que cuidemos dele.

Mas depois ficamos frustrados com a fraqueza dele – andamos em bicos de pés e tentamos encorajá-los e tranquilizá-los (como fizemos quando éramos pequenos), mas ao mesmo tempo, condenamos essa pessoa por não ser merecedora do que fazemos por ela.

“Não podemos mudar os nossos modelos de atracção, mas podemos mudar de um padrão de resposta infantil para um mais adulto.”

Provavelmente, não podemos mudar os nossos modelos de atracção.

Mas, em vez de procurar reprogramar radicalmente os nossos instintos, podemos tentar aprender a reagir a candidatos desejáveis, não como fazíamos quando éramos crianças, mas de uma maneira mais madura e construtiva, própria de um adulto racional.

É possível mudarmos de um padrão de resposta “infantil” para um mais adulto em relação às dificuldades pelas quais somos atraídos.

É possível que estejamos com alguém com um conjunto particularmente complicado de questões que desencadeiam os nossos desejos e os nossos movimentos defensivos infantis.

A resposta não é terminar o relacionamento, mas passa por nos empenharmos em lidar com os desafios que nos colocam, e fazer uso do conhecimento que não dispúnhamos quando estávamos com as figuras de amor da nossa infância.

Não temos muita responsabilidade nas nossas escolhas, mas somos responsáveis por nos comportarmos de maneira mais consciente em torno das áreas menos maduras do nosso parceiro.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de: “Why We’re Compelled to Love Difficult People” – Alain de Botton

A Criança Aprende a Dar -Amor- Recebendo

A Criança Aprende a Dar -Amor- Recebendo

Toda a criança, para um desenvolvimento afectivo normal, precisa de: Amor, Consideração; Apreço

Qualquer carência ao nível destas necessidades afectivas básicas conduz a um sentimento depressivo de falta; a qual, se não for preenchida, provoca a insuficiência narcísica.

A dor da privação ou da perda deixa como cicatriz a deficiência. Por isso, as carências ou perdas precoces não apresentam um bom prognóstico.

As privações ou perdas posteriores – depois da adolescência – já não têm a mesma influência sobre a organização narcísica; a não ser que reactivem feridas anteriores que tenham sido mal curadas.

De contrário, a solidez da compleição narcísica não se deixa facilmente abalar, mesmo que as carências ou perdas actuais sejam importantes.

Até mesmo as situações de humilhação ou de grande insucesso raramente atingem de forma depressivante a auto-imagem e o amor-próprio; provocam uma revolta sadia e eficiente e uma adaptação fácil.

Incidências psicopatológicas da falta de Amor, Consideração; Apreço

– A falta de amor, por indiferença ou rejeição da parte do outro, conduz, preferencialmente, ao bloqueio afectivo e à atitude agressiva.

– A falta de consideração, com atitude possessiva por parte do outro, e esmagamento dos desejos e dos direitos da criança, tende a produzir um desenvolvimento masochista.

– A falta de apreço, por desvalorização e, algumas vezes, troça por parte do outro, provoca uma deterioração da auto-imagem, repercutindo-se a lesão narcísica principalmente ao nível da auto-imagem sexuada. É aqui que o sentimento de inferioridade vais morder mais o amor-próprio.

A criança aprende a dar (amor) recebendo.

É importante sublinhar que a criança aprende a dar (amor) recebendo. Só, portanto, pais suficientemente amantes dos filhos – dando-lhes uma amor sereno, equilibrado, espontâneo e natural, humano e autêntico, mais oblativo que captativo, no intuito de apoiar o florescimento da personalidade genuína da criança e não no desejo normativo de a encaixar no modelo que eles concebem ou no desejo egoísta que o filho preencha as suas próprias carências ou realize, por delegação, os seus projectos frustrados – poderão ensinar a amar.

A criança vai-se direccionando mais para o outro, na medida em que vai aprendendo – intuindo, pois é uma aprendizagem predominantemente afectiva -, que amando o outro reforça o amor que dele recebe. É o circulo do amor ou da relação amorosa, que, pela reciprocidade do afecto, se vai desenvolvendo e aperfeiçoando até atingir uma maturidade genital.

Bibliografia: “A Depressão” – Coimbra de Matos

depressão infantil

Depressão Infantil. Direito à Tristeza e à Alegria

Depressão Infantil. Direito à tristeza e à Alegria

A organização psíquica do homem faz-se a partir de dois fenómenos de base: a angústia e a depressão. São estas duas situações que, por assim dizer, nos ensinam a viver. Um indivíduo, que no curso da sua evolução não se angustiasse, não organizava convenientemente as suas defesas. Um indivíduo que não se deprimisse tornar-se-ia rigidamente sempre igual.

A alegria e a tristeza aprendem-se na relação com a mãe, mas quando os ritmos e os equilíbrios entre as duas formas de estar não são favoráveis a uma resolução mental, a criança aprende a esconder a tristeza com a falsa alegria da instabilidade, com comportamentos provocatórios ou doenças várias.

Se a aprendizagem da relação afectiva com a mãe, e a resolução mental da depressão se não fazem adequadamente antes da escola, a criança não pode aceitar o que lá se ensina, porque apenas vê nela uma tralha informe de instrumentos que a torturam e que não servem as suas necessidades afectivas. Ela quer ser amada e encontrar quietação num ambiente tranquilizador, e fornecem-lhe matérias desafectadas, como as letras e os algarismos, as canetas e os papéis.

A criança é espontaneamente alegre quando é aceite e compreendida nas suas reacções afectivas e, entre estas, a sua tristeza.

O bloqueio afectivo e intelectual pode ser uma forma de tentar dominar a depressão.

A alegria é a descoberta do Eu e da autonomia do pensar. A tristeza é o que pode, em termos psicológicos, conduzir à depressão normal, que possibilita as mudanças evolutivas de estrutura psíquica, ou à depressão patológica, que se descarrega sobre os outros, sobre a forma de comportamento, ou sobre os órgãos, sobre a forma de doença psicossomática. O bloqueio afectivo e intelectual pode ser uma forma de tentar dominar a depressão.

Da tristeza e da paixão tem a criança de aprender o que dela fazer. Sem que ninguém lhe ensine… porque estar triste é olhar para dentro e reflectir sobre o próprio Ser. Os estados de tristeza e de paixão são, na vida da criança e do Homem, momentos de reflexão e, portanto, de criatividade.

Estar apaixonado é olhar para fora, para um ser que nos permite criarmo-nos a nós próprios como Seres humanos.

Nada de criativo existe no homem sem o Eu e o Outro…, mas a criança do Homem está a ser devorada na sua espiritualidade. Há que proclamar o direito da criança a agitar-se, manifestar sinais e sintomas de sofrimento psíquico, físico e moral, sem ser submetida a tratamentos medicamentosos ou a medidas repressivas. A cultura não se ensina, aprende-se no convívio dos homens, na livre descoberta que cada um possa fazer do amor dos outros.

Um sintoma de fundo que se observa em grande número destes sintomas reactivos é o da depressão infantil, que nem sempre se revela por inibições, como a gaguez; por compensações, como o furto; por conversão histérica, como a enurese; ou por angústia, como os terrores nocturnos. Às vezes, revela-se por tristeza manifesta, turbulência e por muitos actos, geralmente designados nos manuais por perturbações da conduta.

Todos os sintomas da idade escolar, mesmo que tenham conotações com perturbações somáticas, têm que ver com formas reactivas da criança lutar contra a depressão e a ansiedade. Como dissemos anteriormente, no fundo dos problemas das crianças em idade escolar há sempre a ansiedade e a depressão, uma e outra, às vezes inaparentes no exame superficial.

Tem uns escassos decénios a descoberta que há depressões infantis, e os educadores, ainda hoje, reagem a essa ideia, na convicção de que as crianças não têm o direito de estar deprimidas porque eles, adultos, fazem tudo por elas.

 

João dos Santos

Vida, Pensamento e Obra de João dos Santos

Maria Eugénia Carvalho e Branco

como construímos a nossa identidade

Como construímos a nossa Identidade

A construção da Identidade passa por um processo de identificação.

O termo identificação em psicologia presta-se a uma certa dificuldade porque é utilizado em dois sentidos:

1 – Identificação como operação mental de reconhecimento, como actividade gnóstica; identificar um objecto ou uma pessoa consiste em caracterizá-lo e reconhecê-lo, sendo portanto uma acção intelectual de abstracção e generalização e de comparação, uma operação lógico-dedutiva que enriquece a experiência sensório-motora e a actividade da senso-percepção.

2 – Identificação como movimento construtivo da personalidade, consistindo numa transformação do próprio por apropriação de características do outro.

A identificação – construção da identidade – nem sempre se faz pela interiorização de qualidades e atributos do outro, designada de identificação positiva. A identificação também se processa no sentido oposto: modificação do próprio pela criação de características opostas às do modelo; é a chamada identificação negativa (neste caso é mais um objecto de contraste do que de identificação).

Na identificação positiva está em causa uma relação amorosa com o objecto de identificação; na identificação negativa, uma relação de agressividade (“gosto tanto dele que quero ser como ele” , odeio-o tanto que quero ser bem diferente”).

Por isso a identidade positiva é estável e tranquilizadora, e a identidade negativa, instável e inquietante. A identidade negativa é um importante factor na génese do comportamento dissocial, mas também – em certa medida – da diferenciação individual.

Não se nasce com uma identidade psíquica; ela é uma construção pessoal.

Não se nasce com uma identidade psíquica; construímos a nossa identidade subjectiva. A identidade é, pois, uma construção pessoal. Até porque a percepção de que nós temos (quem somos e para onde tendemos), que temos do outro e que o outro tem de nós, é indicada pela introjecção do que necessitamos e pela projecção daquilo que desejamos; pois na compreensão das pessoas e de nós próprios a descriminação e avaliação cognitivas têm como suporte prínceps a qualificação emocional.

Parte-se, é certo, da identidade biológica, objectiva e de um programa genético para o seu desenvolvimento. Mas – sublinho – de um programa aberto: que permite um leque relativamente amplo de evoluções possíveis, mesmo da própria constituição biológica; muito mais, da organização mental.

O meio, sobretudo o ambiente afectivo-humano e socio-cultural, modela-nos e, até certo ponto, pode transformar-nos. As relações pessoais (interpessoais) significativas – na sua essência, relações intersubjectivas -, são a base e o veículo da construção identificativa que nos forma e, a todo o tempo, transforma. Somos, pelo menos em certa medida, uma criação do sistema relacional em que vivemos e convivemos – vale dizer, da relação afectiva em que fomos envolvidos e nos envolvemos: seja, uma criatura do outro e para o outro.

Porém, e sobremaneira, somos também – e desde o início – criadores activos (passe a redundância), espontâneos e livres do nosso ser psíquico, da identidade peculiar que nos vai definindo e diferenciando. Ser intencional por excelência, o homem constrói-se – mais que é construído. Para além de sermos – é preciso dizê-lo -, nós próprios, os construtores do mundo – e únicos obreiros, com os outros (em colaboração, abraço humano), do universo civilizacional e político que psicologicamente habitamos.

É esta posição eminentemente intencional e transformadora – de mim e do outro, meu parceiro de relação – e que nos distingue dos bichos.

E é no vínculo com o semelhante, na relação de apego e intimidade – relação biunívoca de amor e de descoberta – que me conheço e reconheço: sei quem sou e o que valho.

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