Categoria: Psicoterapia

Personalidade Depressiva e Depressão - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico. Foto Enzo Penna

Personalidade Depressiva e Depressão

O estudo dos estados depressivos mostra-nos que devemos distinguir entre a personalidade depressiva e a depressão propriamente dita.

A personalidade depressiva é caracterizada pela deficiente organização do investimento narcísico – a baixa auto-estima é o seu pano de fundo.

O indivíduo é dominado por um sentimento mais ou menos permanente de frustração, de não realização dos seus planos e projectos.

Podemos olhar para o depressivo como uma espécie de frustrado, em grande parte, em função do seu desejo omnipotente, de uma enorme ambição.

A baixa auto-estima é o pano de fundo da personalidade depressiva.

Mas também em face das decepções sofridas no passado.

Portanto, na depressividade há uma situação de frustração, de falta do desejado; e não bem uma situação de perda.

Mais do que uma situação de perda, é o reconhecimento da impossibilidade de concretização de um desejo e de uma fantasia.

O reconhecimento da limitação imposta pela realidade; mas mal aceite, não elaborado, não “digerido”. Desta forma, uma constante insatisfação marcam o seu humor e o seu destino.

Na depressão propriamente dita, há uma perda.

É evidente que este desejo e fantasia não surgem (como aliás nada) por geração espontânea. Resultam do hiperinvestimento de pais narcísicos, insatisfeitos e frustrados, que investem compensatoriamente nos filhos.

Na depressão propriamente dita, há uma perda. Essa perda é ao mesmo tempo narcísica e acompanhada por sentimentos de culpa. (ver: “Depressão: As Causas e a Cura“)

O núcleo do sofrimento depressivo é o sentimento de falta de afecto, de carência afectiva – essa dolorosa brecha com raízes num passado longínquo.

Como acreditar no amor, se a experiência primeira, a do que é consagrado e sentido como o berço do amor, foi de não-amor, de pouco ou de amor insuficiente?

É uma vida triste. E é-o porque foi; o ferrete do passado marca o destino do presente.

É esse sentimento profundo de que a vida foi e é pobre de afecto, em que no balanço entre a tristeza e a alegria o volume da primeira se mostra sempre maior.

Bibliografia: “A Depressão” – Coimbra de Matos

Porque repetimos os padrões autodestrutivos Pedro Martins Psicoterapeuta

Por que repetimos os padrões autodestrutivos?

É uma experiência frustrante (e comum) repetir constantemente os mesmos padrões autodestrutivos, apesar de desejarmos o contrário.

As variações deste tema são muitas: procrastinação, relacionamentos com parceiros egoístas, compras compulsivas, beber ou comer demais, etc.

Você diz a si próprio que agora vai controlar melhor as coisas e motiva-se para isso.

E, durante algum tempo, tem sucesso, mas para sua surpresa, o esforço dura pouco.

S. Freud chamou-lhe “compulsão à repetição” e compreendeu que isso estava relacionado com o nosso desejo de arrumar algo inquietante e não resolvido do nosso passado.

Originalmente pensou que a tomada de consciência do problema seria o suficiente para o resolver, mas Freud acabou por perceber, provavelmente como você, que, embora esse seja um primeiro passo, geralmente, não é suficiente para quebrar o ciclo.

Por que é que a tomada de consciência do problema não é suficiente para quebrar os ciclos autodestrutivos?

A resposta é: porque o comportamento indesejado é ao mesmo tempo o problema e a solução.

Por exemplo, estamos cientes de que as compras compulsivas são problemáticas.

Mas um olhar mais atento permite perceber que as compras compulsivas também são uma forma de lidar com um outro problema – que permanece escondido ou fora da nossa consciência.

Enquanto permanecer escondido, o ciclo indesejado de comportamentos e o sofrimento emocional associado que ele evoca, persistirão.

O comportamento indesejado é ao mesmo tempo o problema e a solução.

Na psicoterapia psicanalítica, o significado oculto é revelado, permitindo um maior controle sobre o comportamento indesejado.

À medida que a terapia avança, o terapeuta dirige a atenção do paciente para certos aspectos das experiências (das quais o paciente não tem muita percepção, ou desvaloriza), revelando dimensões ocultas que podem estar relacionadas com a questão da impulsividade.

O CASO DE MARY

Mary estava ciente de que fazia demasiadas compras, gastava demais e acabava a sentir remorsos do que tinha feito.

Os remorsos e as dívidas levaram a um ciclo de auto-depreciação ao qual ela reagiu com a destruição dos cartões de crédito e proibindo-se de fazer compras.

Os esforços para controlar as coisas duraram pouco.

Por razões desconhecidas para ela, o impulso para fazer compras ressurgiria de forma muito intensa, à qual ela não conseguia resistir.

Os remorsos desapareciam completamente no imediatismo desses momentos, e só encontrava alívio nas compras. Então, o ciclo doloroso começava novamente.

Mary descreveu a mãe como uma mulher que se definia pela sua beleza.

Os momentos mais intensos, e mais extraordinários de Mary com a mãe giravam em torno das saídas para fazer compras.

Mary lembrava-se bem de sentir-se apaixonada, como se fosse a boneca da sua mãe durante os dias de compras.

As memórias iniciais de Mary sobre esses tempos eram exclusivamente positivas, explicando pouco sobre a sua compulsão para fazer compras.

Progressivamente, o terapeuta foi dirigindo a atenção de Mary para aspectos esquecidos das suas interacções com a mãe, lançando uma nova luz sobre o problema.

As compras compulsivas são também uma forma de lidar com um outro problema que permanece escondido ou fora da nossa consciência.

Por exemplo, Mary lembrou-se de ter ficado perplexa quando a mãe lamentou as formas do corpo de Mary, a cor dos seus cabelos, as suas feições e como ela nunca ficava bem nas roupas.

Mary compreendeu pela primeira vez que tinha começado a odiar-se tanto quanto acreditava que a mãe a odiava.

Por fim, Mary foi capaz de ligar o imediatismo dos seus impulsos para fazer compras aos antigos estados de ódio a si própria.

E quando percebeu que a mãe tinha lutado ineficazmente com os seus próprios problemas de auto-estima e, portanto, foi incapaz de amparar Mary, ela libertou-se da busca inconsciente de aprovação da mãe, falsamente prometida nas idas às compras.

Em resumo, Mary destrinçou os seus verdadeiros sentimentos sobre si mesma daqueles que ela acreditava que a sua mãe sentia, alterando, assim, o ciclo autodestrutivo.

Mary podia agora responder aos problemas de auto-estima de maneira mais produtiva, e se quisesse, poderia fazer compras para o seu próprio prazer.

Freud referia que somos compelidos a repetir até nos lembrarmos.

A compulsão de Mary para fazer compras repetiu-se até que ela se recordou como e porque a sua auto-estima tinha sido afectada.

Embora fosse doloroso recordar isso, permitiu-lhe responder de maneira mais eficiente aos problemas de auto-estima.

A maioria dos comportamentos autodestrutivos, quer seja compulsão para comprar ou compulsão alimentar, acarreta alguma combinação de autodestruição e autoprotecção.

O desafio é descobrir as raízes de ambos os problemas para se encontrar uma resposta mais saudável.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins a partir de:

“Why Can’t I Stop Repeating the Same Stupid Behaviors?”

O-Primeiro-Espelho-Pedro-Martins-Psicoterapeuta - Psicoterapia

O Primeiro Espelho é a Face da Mãe

“No desenvolvimento emocional individual, o precursor do espelho é a face da mãe.” D. W. Winnicott

Quando olhamos nos olhos de alguém, podemos sentir-nos amados, odiados, rejeitados ou compreendidos.

Mesmo enquanto adultos, é muitas vezes uma experiência poderosa e põe-nos em contacto com a ressonância e o eco da infância, e com essa sensação de luta para sermos reconhecidos pelo nosso primeiro espelho – a nossa mãe.

Todos nós enterramos no nosso interior uma memória da experiência de nos vermos reflectidos nos olhos da nossa mãe.

Para quem é mãe pela primeira vez, amamentar e interagir com o bebé pode trazer de volta essa sensação de continuidade, simbiose e conexão – de uma forma boa.

Mas também pode trazer sentimentos assustadores e incoerentes, como o de cair num estado de semi-existência – ou no nada.

No seu artigo inspirado no ensaio de Lacan sobre The Mirror Stage, o psicanalista D.W.Winnicott examina as primeiras experiências de nos sentirmos reflectidos.

“O que o bebé vê quando olha para o rosto da mãe? Sugiro que, normalmente, o que o bebé vê é ele mesmo. Noutros termos, a mãe está a olhar para o bebé e aquilo com que ela se parece está relacionado com o que ela vê ali. Tudo isso é facilmente tomado por evidente. Peço que isso, naturalmente, bem realizado por mães que estão a cuidar dos filhos, não seja considerado tão evidente assim. Posso demonstrar a minha proposição referindo o caso de um bebé cuja mãe reflecte o próprio humor dela ou, pior ainda, a rigidez das suas próprias defesas. Em tal caso, o que é que o bebé vê?

Naturalmente, nada se pode dizer sobre as ocasiões isoladas em que a mãe pode não reagir. Muitos bebés, contudo, têm uma longa experiência de não receber de volta o que estão a dar. Eles olham e não se vêm a si mesmos. Há consequências. […] Depois, o bebé se acostuma à ideia de que, quando olha, o que é visto é o rosto da mãe. O rosto da mãe, portanto, não é um espelho. Assim, a percepção toma o lugar da apercepção, toma o lugar do que poderia ter sido o começo de uma troca significativa com o mundo, um processo com duas direcções no qual o auto-enriquecimento se alterna com a descoberta do significado do mundo das coisas vistas”

Embora, claro, isto seja bastante denso, o que eu acho que Winnicott quer dizer é que mães que estão absortas nos seus próprios pensamentos ou estão emocionalmente indisponíveis (devido ao stress, ansiedade, medo ou traumas não resolvidos) não respondem ao bebé de maneira a que ele possa desenvolver um sentimento de self.

Essa falta de resposta impede que o bebé se veja a si mesmo reflectido e respondido no rosto da mãe. O bebé também perde a oportunidade de se envolver em trocas e entender o ambiente social como um lugar de intercâmbio, onde o seu self em desenvolvimento é parte integrante (potencial) dos relacionamentos.

 

“A principal tarefa do terapeuta é ser o espelho que esteve ausente na infância.”

 

Esse espelhamento precoce também é teorizado pelo psicólogo Heinz Kohut (psicologia do Self). Para Kohut, a principal tarefa do terapeuta é fornecer o reflexo que esteve ausente na infância. Ele vê o papel do terapeuta como o “self-objecto” que oferece reconhecimento empático para o “verdadeiro” self, que foi frequentemente negligenciado ou reprimido, e assim permitir que o self fragilizado possa emergir.

Tanto Winnicott como Kohut sublinham o poder dessas experiências – a experiência de ser espelhado. Eles enfatizam que as nossas primeiras experiências sociais podem condicionar a nossa sensação de estarmos vinculados, de nos sentirmos amados – de existir.

Parece um enorme e pesado impacto para algo que a maioria de nós não se lembra.

Pesquisadores contemporâneos encontraram evidências que apoiam as teorias de Winnicott. Por exemplo, no livro sobre a vinculação e os olhos da mãe, a psicanalista Mary Ayres refere que aqueles que não foram espelhados adequadamente podem apresentar um sentimento primitivo de vergonha. Esse sentimento de vergonha é incorporado ao senso de si em desenvolvimento e fornece um núcleo de “não reconhecido” em torno do qual a personalidade é formada. Normalmente não está disponível para o pensamento consciente, mas permanece como uma sensação de se ser incompleto ou de não se ser amado.

Em terapia, procuramos ajuda para questões que se desdobram de sentimentos subjacentes de falta de amor. Um bom terapeuta é aquele que nos oferece o espelhamento que nos fará sentir compreendidos.

Como terapeuta, estou bem ciente de que as palavras muitas vezes fracassam. Mas a compreensão, a empatia e, sim, o amor podem colmatar as lacunas da linguagem.

Para Kohut e outros teóricos, a empatia é a principal força de cura na terapia e, sem ela, apenas fornecemos argumentos intelectuais – palavras e ideias que remetem para feridas mais profundas.

 

Traduzido e adaptado por Pedro Martins

A partir de: “The first mirror” – Amanda Robins

A retoma do desenvolvimento suspenso

A Retoma do Desenvolvimento Suspenso

“Deve-se incluir numa teoria a respeito do desenvolvimento do ser humano a ideia de que é normal e saudável, para o indivíduo, ser capaz de defender o Eu contra fracassos ambientais específicos através do congelamento da situação de fracasso. Junto com isso surge a suposição inconsciente (que se pode tornar uma esperança consciente) de que mais tarde haverá oportunidade para uma experiência renovada, em que a situação de fracasso poderá ser descongelada e reexperimentada, com o indivíduo num ambiente que proporcione uma adaptação adequada.” – Winnicott 1958:281

É através do desenvolvimento de uma nova relação  – desenvolutiva e sanígena – com o terapeuta (relação terapêutica) que o paciente caminha para a cura.

 

Uma das mais importantes finalidades da psicoterapia é que o paciente retome o desenvolvimento suspenso e se apodere da sua pessoa profunda.

 

A nova relação retoma o desenvolvimento outrora suspenso e eventualmente desviado. A cura, é, portanto, um retomar do processo desenvolvimental.

A nova relação é também uma relação de transferência, mas de transferência do desejo – do desejo de um relacionamento empático, responsivo, em que o paciente se sinta reconhecido, compreendido e aceite na sua diferença e originalidade.

Uma das mais importantes finalidades da psicoterapia é que o paciente se apodere da sua pessoa profunda e desenvolva a sua identidade. A psicoterapia psicanalítica pretende que o paciente alcance modificações profundas e estáveis no seu modo de se relacionar com os outros e consigo mesmo.

Depois de uma psicoterapia com sucesso as relações interpessoais e intra-subjectivas do paciente serão completamente diferentes. Uma personalidade substancialmente recalcada dará lugar a uma pessoa mais inteira. As relações fortemente defensivas evoluirão para relações mais abertas e mais límpidas.

A experiência tendencialmente cognitiva e desafectivada enriquece-se por uma experiência que ser quer vivida e sentida.

Tudo isto se consegue por um processo de facilitação do contacto do sujeito consigo próprio e com o outro, que é, ao fim e ao cabo, a finalidade da relação terapêutica, interpretando as resistências que impedem a condutabilidade espontânea e natural do sistema de inter-relação humana.

Acusar e Perdoar em Psicoterapia - Pedro Martins Psicoterapeuta

É Possível Perdoar?

“Acusar, perdoar e reconciliar-se.”

A origem do excesso de agressividade internamente acumulada é um complexo problema etiopatogénico, e importa saber como e porquê se constitui tal acervo de agressividade contida (raiva, ressentimento, ódio, desejo de retaliar).

Ao mesmo tempo, é preciso saber quando e de que maneira o paciente pode assumir os seus afectos constrangidos, elaborar a dor e o sentimento de injustiça e reparar os danos e prejuízos sofridos.

Como e em que tempo pode ele acusar, perdoar e reconciliar-se.

É costume ouvir-se dizer – “perdoei mas não esqueci”. Nada de mais errado psicologicamente, e portanto produto de uma convicção ilusória.

“Perdoar é necessário à saúde mental.”

O animal homem esquece, mas raramente perdoa. E simplesmente perdoar as ofensas sofridas não é a atitude psicológica mais correcta e saudável.

Contudo, o perdão é necessário à saúde mental. Como resolver então este aparente paradoxo?

Parece complicado, mas não o é de todo.

Para perdoar é preciso previamente ter acusado. Só depois de acusar, mover o processo de inculpação, é possível o perdão, a amnistia, a clemência.

Acusar não é condenar; é esclarecer.

A reconciliação com o inimigo de outrora só é viável após a libertação do ódio e ressentimento contidos.

Com falso perdão ou pseudo-reconciliação não se constrói bem-estar psíquico nem bom relacionamento.

Aquele que foi agressivo, abandonante, negligente, explorador ou desqualificante tem que ser “acusado” perante o terapeuta, juiz neutro e benevolente.

Só depois poderá ser compreendido nas suas dificuldades e patologia, e entendida a relação (interna e externa) agressiva e patogénica que com o sujeito estabeleceu.

Então, mas só então virá o perdão.

No entanto, há ofensas que não se podem nem devem perdoar – o respeito por si próprio e a dignidade a que cada um tem direito traçarão o limite do perdoável.

Nem sempre o perdão é necessário à saúde mental e, em algumas circunstâncias, pode ser inconveniente.

Bibliografia: “Mais Amor, Menos Doença” – A. Coimbra de Matos

Devaneio psicoterapia

O Sintoma como trampolim para o devaneio

Thomas Ogden descreve a psicoterapia como uma oportunidade para o devaneio. Ele cita R.M. Rilke (1904)

“I hold this to be the highest task of two people; that each should stand guard over the solitude of the other.”

Ogden recorda-nos que não só temos partes sexuais do corpo que são privadas, como também temos processos mentais privados, que podem ser compartilhados, ou não, como assim entendermos. A concepção da psicoterapia como promotora do devaneio e da presença de um mundo interno privado, contrasta com uma das regras fundamentais de Freud de que devemos instruir os nossos pacientes a dizerem-nos o que está na sua mente.

Pelo contrário, refere Ogden, nós temos que ajudar os nossos pacientes a expandir os seus devaneios e, em seguida, escolher o que desejam compartilhar connosco. Ogden vê essa regra de Freud como contra-terapêutica, pois o nosso objectivo como terapeutas é incentivar e orientar em vez de ditar o que deve ser feito. Pacientes deprimidos, ansiosos, obsessivos e histéricos não conseguem ter devaneios, porque os sintomas sequestraram o seu cérebro de tal forma que eles estão restringidos no que “escolher” para poder ser pensado.

Aqui, a escolha da palavra implica uma escolha inconsciente, onde, por razões misteriosas, o cérebro do paciente está em shut-down e, como tal, estão limitados na capacidade de aceder ao seu próprio cérebro. É como se tivessem uma casa muito grande, mas todos os quartos estão fechados, e o paciente tem medo de encontrar a chave, pois ele teme o que vai encontrar, de modo que circunscreve-se a um pequeno quarto, onde sabe o lugar de tudo.

Ao conseguirem a chave os pacientes vêem a exploração da casa, do cérebro, como um devaneio, como uma fonte de mais pensamento, ao invés de um lugar que temem, tão doloroso que possam ficar presos na dor. A ironia aqui é que os pacientes estão presos, mas temem avançar, pois podem ficar presos de uma forma diferente e a mudança é assustadora.

O conceito de devaneio está associado a um espaço de interesse, de curiosidade e de livre flutuação de ideias, em vez de dor e sofrimento. Ser curioso é pensar, enquanto sentir a dor é o estreitamento, é ser autocentrado. Orientar os pacientes para a curiosidade, longe do seu foco no sintoma, é o coração da psicoterapia. Outros tipos de psicoterapia trabalham ao contrário, concentram-se nos sintomas e desencorajam a curiosidade. Pode dizer-se que eles se complementam e os pacientes podem beneficiar de ambos. Ogden refere, que seria tentado a concordar, mas o alívio a longo prazo vem do pensar sobre o pensar e de desafiar os nossos pacientes a questionar o que os sintomas significam para eles, de forma a usar o sintoma como um trampolim para devaneio.

sentimentos de culpa

Sentimentos de Culpa – O Passado é agora

Megan, quarenta e um anos, não consegue lidar com os sentimentos de culpa pelo divórcio dos pais,  devido ao terríveis comportamentos que teve depois do seu irmão ter morrido subitamente, quando ela tinha quatro anos e o irmão dois.

Por um lado, Megan sabe que estava a sofrer devido à morte do irmão, e que, numa idade tão tenra, o sofrimento manifestou-se através de horrendos ataques raiva mas, por outro lado, ela acredita que as suas birras e acessos de raiva causaram tanto stress que o pai saiu de casa para viver com a sua assistente que não tinha filhos.

A lógica da situação é clara para Megan. A forma do pai lidar com a morte do seu irmão foi deixar a família e procurar refúgio noutra vida. Mas a compreensão de Megan não altera o seu sentimento de profunda responsabilidade pela depressão subsequente da mãe. Megan acredita que se ela fosse mais solidária durante aquele período sensível, os seus pais permaneceriam casados ​​e mãe não teria ficado deprimida.

Terapeuta – “Talvez isso a ajude a pensar que poderia ter feito algo para mudar o rumo da história. No entanto, talvez seja preferível sentir-se completamente devastada com o facto de o seu irmão ter morrido, os seus pais se terem divorciado e sua mãe ter ficado deprimida.”

Digo-lhe, salientando que o sentimento de culpa é muitas vezes um substituto do sentimento de desamparo.

Megan – “Sim, mas isso não muda o facto de que eu vivo a minha vida sentindo-me horrível comigo mesma pelo meu comportamento.”

Megan explica-me que na sua mente, a imagem negativa que tem de si própria, decorre desse tempo extremamente traumático da sua vida.

Terapeuta – “É bom, de certa forma, ser capaz de fortalecer a sua debilitada auto-imagem, considerando a sua longa e extensa vida, onde você fez tantas coisas, boas e más.”

Refiro, lembrando-a que, embora a morte do seu irmão tenha sido um momento muito significativo na vida dela, ela fez muitas outras coisas, como casar-se, construir uma carreira, ter os seus próprios filhos, e se ela puder interiorizar esses eventos, podem contribuir para consolidar o sentimento de si mesma.

Megan – “É difícil ver as coisas dessa forma porque eu vivo com medo, sabendo que a vida pode mudar repentinamente.”

Terapeuta – “Sim, administrar essa ansiedade, que para você está tão viva, é um enorme desafio.”

Refiro, lembrando-a que, a um certo nível, todos nós percebemos a incerteza da vida, mas muitos de nós, somos capazes de saber isso sem que esse facto nos afete tão profundamente.

Megan – “Eu sei que vivo no passado. Eu sei que meu irmão morreu há muitas décadas. Eu sei que é particularmente difícil para mim encontrar a paz nisso. Você é a única pessoa com quem posso conversar porque sei que o meu marido, os meus amigos e a minha família não entendem as minhas ansiedades.”

Megan sublinha que se sente sozinha com seus sentimentos, em parte, porque ela não encontra legitimidade neles.

Terapeuta – “É difícil ter sentimentos que vêm tão lá de trás na sua vida. É difícil para você sentir que é onde está agora.”

Digo-lhe, tentando ajudá-la a aceitar que neste momento a sua mente está presa lá atrás.

Megan – “Sim, eu queria que as coisas fizessem mais sentido para mim…

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

A partir de “Childhood guilt” – Shirah Vollmer

dores do crescimento psicólogoclínico

As dores do Crescimento

As dores do crescimento

Luke, vinte e quatro anos, faz duas sessões por semana há seis anos. Ele dedicou-se, com o apoio financeiro dos pais, a “trabalhar em si mesmo”. Nunca chega atrasado; nunca se esquece da sessão, apesar das várias alterações de horário devido ao meu trabalho e à escola dele.

Ao longo dos últimos seis anos ele “odiou-me”, “amou-me” e sentiu que eu era “irritante e muito maternal” com ele.

Sentimentos positivos, sentimentos negativos, sentimentos neutros não parecem mudar o seu compromisso com o nosso processo. Ele quase desistiu do ensino secundário, já que mal conseguia sair da cama para ir à escola, mas agora está a estudar medicina, em breve vai ajudar outros que precisam dele. Os pais disseram-me que temiam que, com tanta psicoterapia, ele quisesse ser psiquiatra, como se isso fosse uma má escolha. Para sorte deles, ele está a caminho de ser cirurgião.

Como ele diz: “Tenho pouco interesse em falar com as pessoas. Eu odiaria ter que lidar com pessoas como eu que berram e gritam consigo, como se fosse a mãe deles.” Eu quase senti que era um pedido de desculpa por tempos muito difíceis que passámos juntos, mas ele não tem razão para remorsos. Nós concordámos em trabalhar juntos e empenhados numa luta honesta, e a frustração e a raiva, são inevitáveis. Ambos tivemos comportamentos que nos fazem desejar que tivéssemos sido mais ponderados e controlados.

“Porque é que eu quero ver você todos os dias”, Luke pergunta-me de uma maneira doce, cativante e desafiadora. “Você está a avançar e com isso surgem as dores do crescimento”, digo-lhe, explicando que ele agora está no meio de um grande crescimento emocional, e a tentar decidir entre tantos encontros com raparigas, com quem ele deseja ter um relacionamento mais sério a longo prazo. Com um enorme sorriso, ele diz: “Bolas! Obrigado Dra. Vollmer, fico tão feliz de ouvir isso.”

De repente, eu enquadrei a dor de Luke como um meio para um fim mais profundo, e de repente ele deixou de se sentir mal com a sua indecisão, para se sentir bem quanto à forma como estava a considerar as coisas. Luke teve muitos problemas com os relacionamentos. Não tanto por as raparigas não gostarem dele, mas por não aprofundar os seus sentimentos em relação a elas. Consequentemente, cresceu insatisfeito com a maioria das suas experiências íntimas.

Ao explorarmos os seus próprios desejos num relacionamento, ele tornou-se mais cauteloso ao entrar em assuntos amorosos quando se tratava de gostar mais profundamente de uma rapariga.

Agora, Luke tem que tolerar a solidão da qual se defendeu através de constantes relacionamentos insatisfatórios.

A sua vontade de me ver diariamente é reflexo do seu novo desafio e da gestão desses sentimentos difíceis. Ao termos compreendido a necessidade de Luke me querer ver com mais frequência, e de a pensarmos à luz do seu crescimento emocional, não foi necessário aumentar o número de sessões.

 

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

A partir de “Why do I want to see you everyday” – Shirah Vollmer

bullying

Bullying – Quando o pai é um “Bully”

Bullying – O que acontece quando o seu pai é um “Bully”? Isso significa que você será intimidado no recreio? Ou, isso significa que você vive uma vida com medo da humilhação? Ou, isso significa que o medo domina a sua existência de tal forma que se sente sem vida?

Estas são as perguntas que me coloco enquanto penso em Sue, trinta e três anos, tímida e com um pensamento fragmentado. As suas capacidades para resolver problemas estão muito limitadas.

Diz-me constantemente que não tem muito por onde escolher na sua vida, mas olhando de fora, parece que ela tem mais oportunidades do que a maioria das pessoas jamais terá.

O “pai-bully” é um tipo particular de abuso infantil que, por um lado, é subtil, na medida em que não há provas para ninguém, além da mãe, de que esse abuso está a ocorrer.

O “pai-bully” deixa claro que Sue não é capaz de pensar por ela própria, e assim deve seguir aquilo que o pai acha que é melhor para ela. Como resultado, Sue, não só se sente inibida, como não faz ideia de que se sente inibida de viver. Ao mesmo tempo, não alimentou suficientemente a mente para que as ideias possam romper.

É triste, mas há esperança de que na terapia Sue possa perceber que este obstáculo a impede de crescer e, em seguida, ultrapassá-lo.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

A partir de “When Your Father Is A Bully” – Shirah Vollmer

Inconsciente, transferência, sintomas

Inconsciente, Transferência – conceitos da Psicoterapia

Inconsciente, Transferência, Sintomas – Conceitos-chave da Psicoterapia

A psicoterapia é uma das invenções mais importantes dos últimos cem anos, com um poder excepcional para aumentar os nossos níveis de bem-estar emocional, melhorar os relacionamentos, restabelecer a atmosfera familiar e ajudar-nos a extrair mais do nosso potencial profissional.

Mas também é profundamente incompreendida e alvo de fantasias, esperanças e suspeitas. A sua lógica raramente é explicada e a sua voz raramente ouvida com suficiente franqueza.

Entre os conceitos-chave da psicoterapia temos: Sintomas e Causas, Trauma de infância, Inconsciente, Regra fundamental, Acto falhado, Sexualidade, Transferência, Mecanismos de defesa, Verdadeiro e Falso Self, Sublimação, Superego, Luto.

 

Aqui estão pequenos resumos sobre alguns conceitos-chave da psicoterapia:

 

Sintomas e Causas

De uma maneira geral, as pessoas iniciam a terapia quando já não conseguem suportar certos sintomas cujas causas desconhecem. Porque estão sempre tão tristes? Porque – não tendo feito nada de errado de forma objectiva – estão tão receosos de serem despedidos? Porque já não conseguem ter relações sexuais?

O objectivo da terapia é ir além da superfície do “problema visível” para localizar (e tratar) o que está realmente em jogo. Sigmund Freud, o pai da psicanálise e da sua irmã gémea – a psicoterapia -, merece um lugar na história do século XX por causa da sua compreensão extremamente subtil da forma “diabólica” como os sintomas se desconectam das suas causas reais.

Não conseguimos estabelecer uma relação ou facilmente imaginar o que nos está afectar e, portanto, não podemos fazer nada de efectivo para ultrapassar o problema. À superfície podemos estar prisioneiros de um desejo incontornável de limpar a casa com uma intensidade maníaca, mas ao longo da terapia, podemos perceber que inconscientemente queremos expurgar a sensação de sermos indesejados e “maus”; legado de um pai que nos desprezou na primeira infância.

Não deixa de ser relevante o facto de Freud ter sido médico de formação. Na medicina, o factor decisivo por trás do sofrimento físico é muitas vezes (à primeira vista) inesperado; uma dor num dedo do pé pode estar ligada a um problema no abdómen. Freud adoptou esse modelo e aplicou-o ao sofrimento mental, propondo que os nossos problemas emocionais (actuais) geralmente são sintomas de problemas localizados nas cavernas, raramente visitadas, das memórias de infância. A psicoterapia é a disciplina que nos guia de volta ao passado problemático para nos dar, uma vez que podemos abordar as causas reais dos nossos sofrimentos, a possibilidade de um futuro com menos ansiedade, mais livre e esperançoso.

 

Inconsciente

A ideia de inconsciente é fundamental para a psicoterapia. A mente é representada como estando dividida em duas zonas. Uma área pequena e intermitente chamada consciência e um terreno vasto, complexo, obscuro e intemporal chamado inconsciente.

Uma vez que é da natureza da mente consciente ser extremamente susceptível, esquecemos constantemente ou ignoramos incidentes cruciais que afectam o nosso comportamento e estado de espírito no aqui e agora. Estes, no entanto, vivem no escuro contínuo do inconsciente.

Um episódio traumático – uma rejeição ou humilhação – que aconteceu quando nós ainda éramos pequenos vai continuar fresco no nosso inconsciente como se tivesse acontecido ontem e o seu efeito sobre o nosso comportamento actual pode ser muito maior do que podemos supor.

O nosso Eu inconsciente pode continuar a tentar apaziguar um pai irritado ou escapar da prudência excessiva de uma mãe. Uma parte de nós pode continuar a temer a repetição de uma coisa negativa (as desgraças que tememos no futuro são geralmente aquelas que já nos aconteceram no passado). E essas batalhas, de um passado esquecido, podem ter um impacto terrível na vida adulta.

O objectivo central da terapia é reencontrar-nos adequadamente com as nossas histórias “esquecidas”: dar-nos domínio sobre regiões dispersas da vida mental e ampliar o nosso conhecimento sobre as nossas experiências inconscientes. A terapia pretende facilitar a redescoberta íntima de emoções aparentemente distantes, para que possamos repensá-las com as nossas faculdades adultas e libertar-nos da sua postura frequentemente enigmática e espinhosa sobre nós.

 

Transferência

A transferência refere-se à forma como, começamos a “actuar”, ou a transferir para a relação terapêutica dinâmicas que decorrem das nossas próprias histórias psicológicas.

Por exemplo, podemos convencer-nos de que o terapeuta não é muito bom, que é muito feliz (ou muito infeliz), casado, snobe, ou que nos admira muito ou que é sistematicamente hostil – qualquer uma destas possibilidades tem, provavelmente, pouca relação com a vida real do terapeuta e com os seus pensamentos (sobre quem é suposto sabermos pouco).

Ao invés de tentar desmontar essas fantasias, a terapia faz uso delas. O terapeuta irá mostrar-nos onde temos tendência a ver atitudes ou perspectivas que realmente eles não têm – e dessa forma, a relação terapêutica será usada como um veículo particular para compreendermos as nossas tendências emocionais mais imperceptíveis.

O terapeuta (com bondade) tentará assinalar que estamos a reagir como se tivéssemos sido atacados, quando ele colocou apenas uma pergunta; pode chamar à atenção para a prontidão com que parecemos querer contar-lhe coisas impressionantes, ou como parecemos apressar-nos a concordar ou a discordar com ele quando está apenas a tentar verificar uma hipótese sobre a qual não tem muita certeza.

O relacionamento com o terapeuta torna-se um modelo para a forma como podemos estabelecer relações com os outros, livres das manobras e pressuposições de fundo que trazemos dentro de nós desde a infância, e que nos podem limitar tão dolorosamente no presente.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

A partir de “Twenty Key Concepts from Psychotherapy” – Alain de Botton

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Actualmente a discussão já não anda tanto à volta da eficácia das psicoterapias, mas na razão por que a terapia funciona; …

Procrastinação: dificuldade em gerir tempo ou emoções? Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Procrastinação: dificuldade em gerir tempo ou emoções?

A investigação tem procurado esclarecer se a procrastinação é uma dificuldade em gerir o tempo ou em lidar com as emoções. …