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Amores Ardentes, Amores Frustrantes. Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Amores Ardentes, Amores Frustrantes

A vida de certas pessoas é marcada por grandes entusiasmos e amores ardentes que rapidamente abandonam, porque rapidamente frustrantes – pela não correspondência ao ideal desejado.

Muito desejado porque nunca obtido – não fora essa a sua falta básica:

– A de um amor materno/paterno de qualidade indiscutível, que as tivesse verdadeiramente preenchido.

Um afecto incondicional, que não dependesse dos seus atributos ou desempenhos; cuja única condição fosse a de existir e ser filho.

Esse amor que só um pai ou uma mãe pode e sabe dar.

Que nenhum homem ou mulher irá oferecer numa relação conjugal;

Que nenhum amigo, colega, mestre ou discípulo preencherá.

Que só quem ama como mãe ou pai pode fornecer;

Ou quem possa entender essa falta essencial – alguém muito empático que a sorte lhe possa trazer.

Habitualmente isso não acontece.

 

Os amores ardentes são frustrantes por não corresponderem ao ideal desejado.

 

Só uma psicoterapia que considere o lado experiencial lhe poderá pôr cobro, pelo encetar de uma relação diferente que o paciente desconhece, e por isso nova.

É um novo vínculo de apego que se estabelece e vai relançar o desenvolvimento normal; e novo, também porque nunca antes verdadeiramente experimentado.

Processo que se inicia na relação terapêutica, mas que passa, se contínua e persiste no quotidiano.

 

São pessoas que, sobretudo, fazem escolhas precipitadas.

 

Nelas impera mais a primeira impressão que um exame cuidadoso, a razão apaixonada que o bom senso, o brilho do outro que a natureza do seu interior.

É uma escolha narcísica – o sujeito reflecte-se no espelhado do outro, no outro que o ecoa ou admira; ou aquece-se ao seu brilho e participa na sua grandiosidade.

Tais relações revelar-se-ão sempre decepcionantes e desprazerosas:

– porque simétricas e não complementares -, trazendo sofrimento e conduzindo a inevitáveis e até a desejadas roturas.

Enquanto persistir o mesmo mecanismo de selecção – o que acontece se a estrutura e o funcionamento mental não mudarem -, o ciclo reinicia-se a cada novo relacionamento amoroso.

Bibliografia: “O Desespero” – A. Coimbra de Matos

O Ressentimento Nas Relações. Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

O Ressentimento nas Relações

A intensidade e a rapidez com que se instala o ressentimento afecta, sobretudo, os relacionamentos afectivos.

Como sabemos, o ressentimento está ligado à vulnerabilidade narcísica.

Estamos a falar de situações em que a pele psíquica é fina e delicada, e, portanto, facilmente ferida.

O ferimento não só desencadeia raiva, como um enorme ressentimento (característico da patologia borderline).

A decepção com alguém ou o desprazer com uma situação leva à rotura do laço afectivo e ao desinvestimento em relação à pessoa ou à situação frustrante.

Em virtude do violento, indomável e duradouro desejo de vingança, dá-se uma retracção narcísica e uma rotura relacional: a rotura por ressentimento.

Trata-se de uma rotura tendencialmente definitiva e dissolvente da representação do outro, que se apaga, quase desaparece.

Consequentemente, surge o sentimento de vazio – fruto da desertificação do mundo interior.

 

o ressentimento está ligado à vulnerabilidade narcísica.

 

O ressentimento resulta do não reconhecimento e insuficiente apreço de que o sujeito foi vítima na infância por parte de pessoas significativas.

E, por vezes, objecto de troça e alvo do ridículo.

O ressentimento é a espinha irritativa que permanentemente espicaça a agressividade destas pessoas.

De realçar que na génese da vulnerabilidade narcísea, está a ausência ou insuficiente confirmação narcísica nos momentos de reaproximação:

– Quando a criança volta à proximidade com as pessoas de referência e espera ver nestas o comportamento de aplauso pelos seus desempenhos.

Mas há ainda outro importante aspecto da rotura relacional por ressentimento. Trata-se do seu desastroso resultado:

O sujeito não parte para a luta, não se bate pela conquista ou reconquista do outro, da relação, do seu próprio objectivo. Fica preso na raiva.

A fim de limitar o sofrimento e a decepção, em fase de circunstâncias desagradáveis ou mesmo insuportáveis, retira-se e desinveste.

Trata-se de um desinvestimento temporário, voltando ao fim de algum tempo a investir de novo.

Muitas vezes, na mesma pessoa ou objectivo: o que se tornou hostil e desprezível pode voltar a ser amável e interessante.

Só a resolução de ressentimentos antigos pode pôr fim a este ciclo.

Bibliografia: “O Desespero” – A. Coimbra de Matos

As famílias dos pacientes Borderline - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

As Famílias dos Pacientes Borderline

Nas famílias dos pacientes borderline  temos um dos pontos-chave da etiopatogenia: a insuficiência narcísica dos pais e a sua própria personalidade limite ou próxima.

A necessidade que alguns pais têm de que os filhos preencham as suas lacunas narcíseas, é um dos aspectos mais importantes para o desenvolvimento dos estados limite.

O amor que dedicam ao filho depende de uma condição: que o filho os complete, lhes dê o brilho que eles não têm ou julgam não ter.

O amor que os pais dedicam não é incondicional, mas condicionado.

O filho é, então, uma espécie de prótese, instrumento ou adorno de um ou de ambos os pais. Só é valorizado enquanto tal, quando e como desempenha essa função.

Função tão essencial para o pai, que o filho será maciçamente desprezado e desinvestido se não a executar.

Vemos, portanto, um amor condicionado, não incondicional (é neste sentido que se emprega o conceito de “amor incondicional”; não, como é óbvio, na acepção de um amor exagerado, sem limites – que seria abafante e impeditivo de um desenvolvimento autónomo e diferenciado.

Trata-se de um vínculo de indiferença mais do que propriamente de hostilidade, que empobrece significativamente a interacção e a vida mental.

As pessoas vivem em conjunto mas sem intimidade afectiva; estão próximas, mas pouco comunicantes; dependentes, mas sem densidade de relação. Têm uma necessidade amorosa que jamais satisfazem.

As mães narcísicas e simbiotizantes tratam os filhos como objectos.

A mãe ou pai narcisista apresenta ainda outro aspecto patológico: o seu amor é captativo – na intenção de receber – e não de um amor oblativo como é próprio dos pais mentalmente saudáveis, e, desde logo, promotores de um desenvolvimento normal.

Cria-se então um laço filho-mãe/pai invertido: é o próprio filho que desempenha a função parental.

Se não cumpre este mandato será eternamente acusado de mau filho, sem amor pelos pais, abandonante, filho ingrato.

Em resumo a etiologia da patologia borderline:

– Personalidade borderline dos pais

– Modos anómalos de comunicação intra-familiar (informação paradoxal, abuso da mentira, manipulação).

– Encorajamento e recompensa dos comportamentos de obediência, de pendência, apego/desencorajamento e punição dos comportamentos de espontaneidade, autonomia e desapego.

– Incompetência e incoerência maternas – respostas inadequadas e ditadas, não pelas necessidades da criança, mas pelas variações de humor da mãe.

– Mães narcísicas e simbiotizantes que tratam os filhos como objectos transitivos, não considerando as suas (deles filhos) próprias necessidades – que, portanto não satisfazem – e controlando-os e utilizando-os para e a seu bel-prazer.

– Falência do pai: ausência de um pai que não só preencha as falhas como corrija os erros maternos e ajude na desidealização da mãe.

Assim, podemos considerar duas ordens de factores causais preponderantes:

a) Pais intrusivos, abafantes, controladores, agressivos, e traumatizantes. Famílias fechadas.

b) Pais distantes, abandonantes, negligentes e rejeitantes. Famílias desunidas.

Bibliografia: “O Desespero” – A. Coimbra de Matos

Personalidade Depressiva e Depressão - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico. Foto Enzo Penna

Personalidade Depressiva e Depressão

O estudo dos estados depressivos mostra-nos que devemos distinguir entre a personalidade depressiva e a depressão propriamente dita.

A personalidade depressiva é caracterizada pela deficiente organização do investimento narcísico – a baixa auto-estima é o seu pano de fundo.

O indivíduo é dominado por um sentimento mais ou menos permanente de frustração, de não realização dos seus planos e projectos.

Podemos olhar para o depressivo como uma espécie de frustrado, em grande parte, em função do seu desejo omnipotente, de uma enorme ambição.

A baixa auto-estima é o pano de fundo da personalidade depressiva.

Mas também em face das decepções sofridas no passado.

Portanto, na depressividade há uma situação de frustração, de falta do desejado; e não bem uma situação de perda.

Mais do que uma situação de perda, é o reconhecimento da impossibilidade de concretização de um desejo e de uma fantasia.

O reconhecimento da limitação imposta pela realidade; mas mal aceite, não elaborado, não “digerido”. Desta forma, uma constante insatisfação marcam o seu humor e o seu destino.

Na depressão propriamente dita, há uma perda.

É evidente que este desejo e fantasia não surgem (como aliás nada) por geração espontânea. Resultam do hiperinvestimento de pais narcísicos, insatisfeitos e frustrados, que investem compensatoriamente nos filhos.

Na depressão propriamente dita, há uma perda. Essa perda é ao mesmo tempo narcísica e acompanhada por sentimentos de culpa. (ver: “Depressão: As Causas e a Cura“)

O núcleo do sofrimento depressivo é o sentimento de falta de afecto, de carência afectiva – essa dolorosa brecha com raízes num passado longínquo.

Como acreditar no amor, se a experiência primeira, a do que é consagrado e sentido como o berço do amor, foi de não-amor, de pouco ou de amor insuficiente?

É uma vida triste. E é-o porque foi; o ferrete do passado marca o destino do presente.

É esse sentimento profundo de que a vida foi e é pobre de afecto, em que no balanço entre a tristeza e a alegria o volume da primeira se mostra sempre maior.

Bibliografia: “A Depressão” – Coimbra de Matos

Borderline - Entre a Dependência e a simbiose. Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Borderline – Entre a Dependência e a Simbiose

A síndrome Borderline, em qualquer idade que se apresente – infância, adolescência ou adultícia -, traduz um conflito intrapsíquico não resolvido.

Esse conflito está relacionado com a separação, isto é, a dolorosa fixação do paciente num estado de certa dependência/simbiose da figura materna.

Com efeito, observou-se que as perturbações na fase do desenvolvimento afectivo-relacional – na subfase de reaproximação do processo de separação-individuação – são das mais influentes na génese da perturbação borderline.

A simbiose está em franco declínio, quase extinção, sendo assim um período sensível (crítico) à desafinação, delonga ou precipitação, omissão ou paradoxalidade das respostas de amparo, auxilio, atenção e reabastecimento narcísico.

Uma resposta desadequada ou estimulação inoportuna repetidas – mesmo que de pouca monta – instalam a falta de confiança nos outros e no próprio, e a instabilidade narcísea.

A relação patogénea (micro traumatismos acumulados), que destrói insensivelmente (água mole em pedra dura tanto bate até que fura”), é a causa mais frequente e em regra a mais grave que os grandes traumatismos isolados – porque menos reconhecível e por isso menos combatida ou evitada.

Os pais gratificam a simbiose/dependência e atacam os desejos, impulsos e comportamentos autónomos da criança.

Simbiose ou dependência, dissemos. Porquanto, algumas vezes é de verdadeira simbiose que se trata.

O outro elemento da díade (mãe/pai), fortemente unida, é também um simbionte em ligação simbiótica e simbiotizante com o filho.

Noutros casos, é uma dependência parasitária ou simplesmente passiva de uma pessoa que reduz a ansiedade.

De facto, a frequência com que encontramos, nestes doentes, uma mãe (pai ou ambos) com características simbiônticas – desejando, e vivendo predominantemente em simbiose – é enorme.

Isto leva-nos a considerar a importância etiológica na personalidade borderline do objecto maternante.

Assim, a simbiose da qual o paciente tem dificuldade em sair – ou na qual reentra por regressão – não é só produto de um período simbiótico infantil insuficiente ou insuficientemente vivido – por carência sistemática, abandono drásticos ou frequentes -, mas também da traça simbiôntica dos pais, que impede o desprendimento evolutivo e favorece o laço simbiótico.

São mães/pais que gratificam a simbiose/dependência e atacam os desejos, impulsos e comportamentos autónomos e autonomizantes da criança.

Toda a sua conduta de exploração e autonomia é sistematicamente reprovada e reprimida, ao mesmo tempo que é estimulado, valorizado e premiado o comportamento de aproximação e apego.

Logo, o percurso evolutivo é travado e distorcido por um predomínio do sistema de apego sobre o sistema de exploração.

É, vemo-lo, uma verdadeira colonização dos filhos; uma fábrica de gente casta, obediente, humilde e pobre. Mas que se revolta.

Submisso e rebelde, eis a dupla face do borderline.

À excessiva (em extensão e/ou intensidade) simbiose com a mãe, soma-se a carência paterna – por ausência ou indisponibilidade afectiva. O que, como é óbvio, não facilita a separação; pelo contrário, reforça a simbiose.

Bibliografia: “O Desespero” – A. Coimbra de Matos

Borderline - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Borderline – Uma Introdução

A baixa tolerância à frustração no borderline, enraizada em frustrações precoces e repetidas sem envolvimento afectivo compensador e reconfortante, está na origem de uma das características da sua personalidade – a passagem ao acto.

A relativa incapacidade de controlo dos impulsos e a ansiedade tendencialmente invasiva não são mais que derivados da referida inconstância da estrutura mental.

Na tendência ao acto impulsivo e não pensado ou realização imediata do cenário fantasmático que a resposta instintiva constrói (encenação agida, acting-out) pesa, por conseguinte, como significativo factor condicionante a insuficiente antecipação a médio e longo prazo.

 

O Borderline vive permanentemente em stress e ansiedade

 

É esta quase ausência de antecipação do futuro ou previsão – de mentalização antecipatória -, que explica o comportamento borderline.

Assim andará ao sabor das marés do humor (das antecipações negativas ou positivas momentâneas, do curto prazo) e dos ventos dos estímulos (dos factores do meio não processados por um programa pessoal de vida preexistente).

O Borderline vive permanentemente em stress e ansiedade: submetido a forças externas deformantes (stressores) e com medo do que vai acontecer.

Nesta situação, ou condição de existência, nada faz de construtivo; apenas reage para conservar o equilíbrio.

Deste modo não aprende com a experiência; repete e repete-se: dá a mesma resposta – de fuga/luta ou adaptação (consoante domina a disposição activa ou passiva) – e permanece no seu estilo bidimensional – retirada/eliminação ou conformismo; jamais elaboração mental e a construção do novo: o pensamento e a criação.

Uma das características nucleares da personalidade-limite é a ausência de relações complementares.

As relações, no borderline, são de completação e não de complementaridade. Alguém faz-me falta para me sentir completo, inteiro; mas não para formar uma nova unidade, o par.

O que falhou? – Uma relação de vinculação em que, sendo alguém para outro alguém, o fizesse alguém de significativo e de significante.

 

Bibliografia: “O Desespero” – A. Coimbra de Matos

A Depressão na Adolescência - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico.

A Depressão na Adolescência

A depressão adolescentil instala-se habitualmente a meio ou para o fim da adolescência.

Habitualmente, após um período de uma separação-autonomia e individuação insuficientemente assumidas.

São casos em que aparentemente o pré-adolescente se autonomizou, mas durante o qual inconscientemente permanece fortemente ligado à infância.

“Um indivíduo jovem sai da adolescência quando a angústia dos seus pais não produz nenhum efeito inibidor.” F. Dolto

Um dos elementos de diagnose desta pseudo-independência é a ligação que o adolescente estabelece com o círculo relacional próximo da família:

–  Há um desejo de não se afastar, mas apenas de alargar o grupo familiar.

A este período (que se caracteriza por um estado eufórico, de dinamismo e de entusiasmo) de aparente separação da família, às vezes com um distanciamento comportamental evidente e escolha de padrões e valores diferentes dos dos pais, segue-se um período de manifesta regressão aos objectos e objectivos infantis.

Trata-se de um reencontro em novos moldes com a família, na vigência do qual o adolescente, de arisco e rebelde, se torna terno e simpático com os pais.

É quando se apercebe de que está abdicar dos seus projectos mais pessoais, defendendo activamente a submissão ao esquema parental, que o adolescente acorda da ilusão relacional euforizante.

Nessa altura tenta mais decididamente o luto da infância e das imagos parentais e a escolha de um objecto heterossexual verdadeiramente exogâmico e bem marcadamente seleccionado pelo seu desejo próprio, que a depressão autêntica, vivida –e, por vezes, séria – da adolescência se instaura.

Foi-se a alimentada ilusão de um retorno disfarçado à infância.

O caminho da desvinculação do passado e da aventura afirma-se como o mais válido e o único que conduz à realização criativa do homem.

No entanto, a nostalgia do passado, o luto inacabado da infância, a fixação e regressão infantis impedem-no de o trilhar com decisão.

A partir de “Audácia, Narcisismo e Sexualidade” – A. Coimbra de Matos

Raiva Narcísica Pedro Martins - Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Raiva Narcísica

A raiva narcísica é uma agressividade maligna, oriunda do ódio ou da hostilidade e geradora da mais temível, destruidora e verdadeira violência – porque uma violência que não pára, dificilmente se esgota e permanentemente se reconstitui.

Esta agressividade é uma reacção ao amor-próprio ferido, ou melhor, à ferida do amor-próprio.

Ao homem não lhe chega ser amado. Precisa não só de amor, como de apreço, admiração, consideração e respeito.

A primeira condição para a organização de uma regular auto-estima, de um normal narcisismo, é o facto – o acontecimento – de ser amado, de ter sido bem-amado. Só tendo sido amado, o indivíduo se ama a si próprio; e amando-se a si mesmo, pode amar o outro.

Mas ao homem não lhe chega ser amado – ter a certeza que tem um lugar no coração daqueles que ama. Precisa – como de pão para a boca -, não só de amor, como de apreço e até de admiração; assim como de consideração e respeito.

Frustrar a pessoa nesta necessidade narcísica é desencadear-lhe uma raiva – dita raiva narcísica – que, inundando toda a personalidade, vai alimentar profundos sentimentos agressivos, traduzidos por inveja, desprezo e desejo de eliminação dos considerados superiores.

O indivíduo com baixa auto-estima é sempre um potencial agressor.

Humilhado, o indivíduo desenvolve uma ferocidade silenciosa mas altamente destruidora e mesmo mortífera.

O acúmulo de ferimentos narcíseos torna o indivíduo mais sensível aos ataques à auto-estima e menos resistente aos seus efeitos devastadores no tónus narcísico (auto-estima básica).

Forma-se uma estrutura narcísica de baixa imunidade e de debilidade narcíseas – com grande intolerância às injúrias ao amor-próprio e um despertar fácil de comportamentos agressivos.

O indivíduo com baixa auto-estima é sempre um potencial agressor. Basta que se conjuguem a provocação e a condição de ser ou se julgar o mais forte.Por aqui se vê quão perigoso é socialmente.

Perigosidade maior porque ataca sempre o mais fraco dado o seu sentimento de inferioridade. É deste terreno que saem os tiranos, os pais violentos e os chefes despóticos.

A criança adquire muito cedo a noção do que é justo ou injusto. Tratada com injustiça, desenvolve um profundo ressentimento.

O ressentimento conduz ao desejo de vingança e à necessidade de reparação (de ser reparado). A acumulação de ressentimento conduz a uma atitude paranóide, querelante e reivindicativa.

DEFINIÇÃO E GÉNESE

A raiva narcísica é a fúria desencadeada pela frustração intolerável. Em face da expectativa enganadora que lhe foi criada pelo outro (falsa promessa), sobretudo quando reiterado, o indivíduo reage com grande sentimento de raiva; sente-se ludibriado.

Muito mais que a privação ou a perda afectiva, o que está em causa na génese do ódio e da raiva é a frustração, designadamente a frustração afectiva: o não aparecimento do amor anunciado.

A vivência repetida ou crónica de frustração afectiva é, por conseguinte, a matriz da hostilidade.

DESENVOLVIMENTO

A desvalorização e desqualificação, a ridicularização e a humilhação vão, seguidamente, condicionar o desenvolvimento da raiva narcísica.

É, com efeito, pela acção destas atitudes do outro ou dos outros que a ferida narcísica se vai alargando, cronicizando, transformando uma verdadeira chaga.

E assim se vai criando um sentimento crónico de orgulho/amor-próprio feridos, alimentando uma raiva constante, sempre pronta a desfechar em violência destrutiva e mortífera.

O homem não nasce violento. É a sociedade que o faz violento.

Porém, pela sua extensa memória, o seu amor-próprio e o seu sentimento de justiça, é potencialmente o ser mais violento.

Está nas mãos da cultura envolvê-lo de afecto, apreço e respeito, e, assim, atacar as raízes da violência.

Bibliografia:

– “Violência Inconsciente” – A. Coimbra de Matos

– “Génese, desenvolvimento e reprodução da violência” – A. Coimbra de Matos

Génese, desenvolvimento e reprodução da violência. Pedro Martins Psicoterapeuta - Psicólogo Clínico

Génese, desenvolvimento e reprodução da violência

Da Agressividade Natural à Génese, Desenvolvimento e Reprodução da Violência

Existe uma agressividade estrutural, endógena ou constitucional porque se admite fazer parte intrínseca da constituição biopsíquica do indivíduo.

É uma agressividade natural, em princípio benigna, posta ao serviço da construção da identidade, autonomia individual e estabelece normas para a vida em grupo.

A agressividade estrutural alimenta várias funções, possibilitando a realização de outras tantas finalidades:

– Aproximação, preensão e controlo daquele que desejamos;

– Defesa do território e do estatuto;

– Afastamento de rivais;

– Afirmação pessoal ou assertividade;

– Competição com os pares e os mais fortes e poderosos.

Esta força agressiva é, pois, um instrumento necessário à adaptação e útil ao desenvolvimento.

A agressividade reactiva é uma reacção à agressão do meio, designadamente do outro.

É desencadeada, quer pela agressão sofrida quer pela agressão prevista ou imaginada.

Surge, portanto, como resposta imediata ao ataque ou como ataque preventivo.

O homem é um animal ético por natureza porque se identifica com a vítima, o sofredor e o desvalido.

Esta forma de violência ou de agressividade, necessária à sobrevivência, é mitigada pelas regras do convívio social.

Na sua contensão, o medo do castigo, a culpa, a vergonha e os sentimentos de compaixão desempenham um papel importante.

Os sentimentos de compaixão pelo outro, derivados da capacidade de empatia e de identificação projectiva – poder sentir o que o outro sente, colocar-se na pele do outro, são as verdadeiras raízes da consciência moral.

Por isso, o homem é um animal ético por natureza – porque se identifica com a vítima, o sofredor e o desvalido.

Não precisa, a bem dizer, de uma moral ditada pelo exterior. Ele próprio a constrói.

Só aqueles que – por infeliz experiência infantil – não tiveram pessoas empáticas e disponíveis aquando do processo de identificação primária apresentam mais tarde incapacidade de empatia perante os fracos ou necessitados.

E por tal se tornam frios, perversos e criminosos; abusam do poder e exploram os outros; maltratam, negligenciam, abandonam.

Mal-amados, são incapazes de amar.

O acumular de experiências traumáticas – privações, castigos, humilhações – gera agressividade, ou propensão para desencadear comportamentos hostis e destrutivos.

Uma vez carente, magoado e ressentido, o indivíduo reage facilmente por agressão às ameaças, ataques e ofensas; o medo, o furor e a raiva narcísica impõem-na.

A frustração da expectativa de receber afecto, apreço e reconhecimento é, de entre todas, a que mais hostilidade e revolta provoca.

O homem, porque conhece o outro e se conhece, necessita de amor e reflexão.

Sem entrada de estima só se produz ódio. Ferido no seu orgulho o animal humano enraivece-se. É este o destino do que não foi amado: a violência.

Bibliografia:

– “Violência Inconsciente” – A. Coimbra de Matos

– “Génese, desenvolvimento e reprodução da violência” – A. Coimbra de Matos

A erotização do contato - Pedro Martins Psicoterapeuta, Psicólogo clínico

A Erotização do Contacto

É difícil viver o defeito narcísico, por isso o depressivo o mascara. Ao mesmo tempo, as defesas contra o afecto depressivo são uma das principais causas do agravamento da estrutura depressiva.

O depressivo, duramente inferiorizado, esconde as vergonhas. O essencial, para ele, é salvar a face narcísica; mesmo que o interior continue ferido e a humilhação bem sentida.

É precisamente nos deprimidos que encontramos a maior resistência à reabertura do ferimento narcísico, falsamente cicatrizado.

A erotização do contacto é um mecanismo antidepressivo por excelência.

A dificuldade de relacionar-se, a que a inferioridade conduz (e que com ela se reforça), tem outra saída: a erotização do contacto.

A erotização do contacto é um mecanismo antidepressivo por excelência. A ansiedade relacional é erotizada e a inibição na relação curto-circuitada.

A ausência de uma figura de amor, a perda não reparada do amor dessa figura – (causa primeira e fundamental do sofrimento depressivo) é negada.

Na relação erótica o investimento no outro é substituído pelo investimento no acto; uma relação funcional e parcial vicariante da relação total de amor  – tida e considerada, como impossível.

Mas sabemos bem a miséria que esconde, a insatisfação que comporta, a monotonia em que se traduz, o aborrecimento a que conduz – a depressão que se iludiu e que cada vez mais se vai tornando mais funda.

“Fugir à depressão é agravar a depressividade”

Fugir à depressão e ao afecto depressivo da perda e ao tempo de depressão que é necessário para elaborar e fazer o trabalho do luto é agravar a depressividade.

Sem esse trabalho não é possível conquistar um novo amor – única cura da depressão-doença -, reorganizando uma relação vital (não há vida mental saudável sem uma constância de amor).

O poder sentir, reconhecer e viver o vazio – de forma temporária – conduz, lógica e necessariamente, ao preenchimento, a novo encontro ou reencontro, e assim, substitui-se o vazio – que quando ignorado, caminha para o definitivo.

Caso contrário, é a morte da esperança, com a idealização do prazer. Parafraseando Samuel Johnson, diremos que: a vida não é um salto de prazer em prazer, mas um voo de esperança em esperança.

A relação biológica, animal, é ditada pelo instinto, mas a relação humana, pessoal, é nutrida pelo afecto.

A partir de: “Compensação narcísica e erotização do contacto” – A. Coimbra de Matos

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