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Por que não me ama da forma que eu quero Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Por que não me ama da forma que eu quero?

A verdadeira intimidade requer a rendição à forma como o nosso parceiro nos ama.

 

Quando insistimos em que os nossos parceiros mostrem o seu amor da forma que desejamos, podemos estar a evitar ter uma relação verdadeiramente íntima.

Podemos estar com dificuldade em apreciar a forma como o nosso parceiro expressa o seu amor e nos rendermos ao amor que ele oferece.

É possível que nos sintamos carentes quando os nossos parceiros não conseguem demonstrar o seu amor da forma que nós queremos.

Talvez eles não se lembrem do nosso aniversário, não nos tragam flores ou não cozinhem a nossa refeição preferida. Seria assim tão difícil para eles fazerem as coisas que nós queremos?

Provavelmente é difícil para eles, embora não esteja a dizer que não devam tentar. Mas se nos queixamos do que não estamos a receber sem apreciarmos o que recebemos, estamos a rejeitar uma parte muito íntima deles.

E nós não queremos rejeitá-los! Nós amamo-los. Nós amamos que eles nos amem. Queremos apenas que eles expressem o seu amor de forma diferente – da forma como nós queremos.

A forma como uma pessoa ama pode ser a expressão mais íntima de quem ela é; quando isso não é acolhido, pode ser sentido como uma rejeição profunda.

 

As Nossas Fantasias Sobre o Amor

Crescemos com fantasias de como será encontrar o nosso parceiro de vida. Estas ideias ou fantasias sobre o amor são muitas vezes baseadas nas nossas experiências com o amor, à medida que crescemos nas nossas famílias e na nossa cultura.

A partir da infância, desenvolvemos interacções minuto a minuto com os nossos familiares. A forma como somos amados pelos nossos cuidadores lança as bases para o sentimento de nós próprios em relação aos outros – como nos sentimos amados.

 

A verdadeira intimidade requer o reconhecimento de uma outra pessoa separada, com os seus próprios pensamentos, sentimentos, desejos – e formas de demonstrar amor.

 

À medida que crescemos, observamos como os nossos pais se amam; isto proporciona-nos o nosso primeiro modelo de um amor íntimo e romântico.

Mais tarde, ainda, somos empanturrados de representações culturais do amor: canções de amor, programas de televisão, filmes e afins.

Quando a realidade da nossa relação não coincide com as nossas fantasias, podemos ficar desapontados.

Podemos assumir que estamos com a pessoa errada. Ou podemos duvidar se eles nos amam de todo – afinal, se eles realmente nos amassem não fariam como nós desejamos?!

Há sempre um elemento de fantasia nas relações românticas. O romance envolve-nos no âmago do nosso ser, faz-nos recuar até à infância, por isso vai despertar algumas coisas bastante irracionais.

Mas se quisermos uma verdadeira intimidade, ela não será encontrada com alguém que preenche as nossas fantasias ou se encaixe nas nossas ideias de um parceiro “ideal”.

A verdadeira intimidade requer o reconhecimento de uma outra pessoa separada, com os seus próprios pensamentos, sentimentos, desejos – e formas de demonstrar amor.

 

Joana e Filipe

Considere este cenário: A Joana queixa-se que o Filipe não mostra o seu amor. Filipe refuta esta observação, enumerando todas as formas como ele mostra o seu amor.

Ele refere todas as vezes que deixou o que estava a fazer para correr em auxílio de Joana, mesmo quando sabia que ela estava apenas a ser hipocondríaca.

Joana concorda que pode sempre contar com ele, mas insiste que ele nunca lhe diz como ela é maravilhosa e como ele a admira.

Joana sempre imaginou encontrar um homem que a achasse bonita e inteligente.

Quando jovem, ela imaginava ser inundada com as palavras gentis e atenciosas que ouvia dos pais, mas desta vez, de um homem encantador. A família de Joana demonstrou o seu amor através palavras.

 

A forma como uma pessoa ama pode ser a expressão mais íntima de quem ela é

 

Joana está com um homem que não é um muito falador – ele prefere demonstrar o seu amor através de acções.

Quando questionada, Joana concorda prontamente que é amada por Filipe, mas continua a sentir esta ausência como uma pedra no sapato, que a faz questionar se Filipe é o homem certo para ela.

 

Intimidade e a Rendição ao Amor

Rendermo-nos à forma como um parceiro nos ama significa que valorizamos o seu ponto de vista – honramos a legitimidade da forma como pretendem que os seus actos ou palavras sejam recebidos.

Qualquer pessoa pode enviar-nos flores ou fazer-nos um elogio sem nos amar. No amor, é a intenção por detrás do acto que importa.

Quando simpatizamos com a perspectiva do nosso parceiro, achando-a tão válida como a nossa, expandimos o nosso sentido do que é aceitável – estamos em mudança.

Quanto mais aprendemos sobre o nosso parceiro e valorizamos a forma como ele vê as coisas, mais as acolhemos e maior é o nosso sentido de intimidade.

A rendição à forma como o nosso parceiro ama não nos diminui; não abandonamos a nossa própria perspectiva. O amor é aditivo – experimentamos o crescimento ao expandir o nosso sentido do que significa ser amado.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

A partir de: Why Doesn’t My Partner Love Me the Way I Want? – David Braucher

 

Podemos ser só amigos? Pedro Martins Psicoterapeuta

Não Podemos Ser Só Amigos?

Uma das coisas mais docemente amarga de ouvir; dita carinhosamente no final de uma longa e divertida noite, é a proposta de que devemos, afinal, permanecer “apenas bons amigos”.

Tomamos a proposta para uma amizade como sinónimo de uma ofensa, porque a nossa cultura romântica tem continuamente, e desde tenra idade, deixado uma coisa muito clara para nós:

O amor é o propósito da nossa existência; a amizade é o insignificante prémio de consolação.

Deveríamos reflectir um pouco sobre alguns aspectos relacionados com o amor:

– o comportamento, o nível de satisfação e o estado de espírito dos próprios amantes.

Se fôssemos julgar o amor, principalmente, pelos impactos, pela quantidade de lágrimas, pelas enormes frustrações, pela crueldade das ofensas que se desdobram em seu nome, não continuaríamos a avaliá-lo da mesma forma, e, poderíamos até confundi-lo com um transtorno mental.

 

A amizade é o insignificante prémio de consolação.

 

As cenas que tipicamente se desenrolam entre os amantes dificilmente seriam imagináveis ​​noutras relações.

Honramos aqueles que amamos com o nosso pior humor, com as acusações mais injustas e com os insultos mais malignos.

É para os nossos amantes que dirigimos a culpa por tudo o que deu errado nas nossas vidas.

Esperamos que eles saibam tudo o que queremos dizer sem nos preocuparmos em explicar.

É aos seus pequenos erros e mal-entendidos que respondemos com indignação e raiva.

E, em comparação, é na amizade, um estado supostamente inferior, cuja alusão no final de um encontro nos esmaga, que mostramos as nossas maiores e nobres virtudes.

Na amizade somos pacientes, encorajadores, tolerantes, divertidos e, acima de tudo, gentis.

Esperamos um pouco menos e, portanto, temos uma capacidade enorme de perdoar.

Não presumimos que seremos completamente compreendidos e, assim, aceitamos as falhas de uma forma mais leve e humana.

 

Paradoxalmente são os amigos que nos oferecem o verdadeiro caminho para os prazeres que o romantismo associa ao amor.

 

Não imaginamos que os nossos amigos devam admirar-nos sem reservas e apoiar-nos em qualquer coisa que façamos.

E, por isso, esforçamo-nos e comportamo-nos, agradando a nós mesmos e aos nossos amigos ao longo da vida.

Nós somos, na companhia de nossos amigos, os nossos melhores Eus.

Paradoxalmente é a amizade que nos oferece o verdadeiro caminho para os prazeres que o romantismo associa ao amor.

O facto de isto soar surpreendente é reflexo do quanto limitada a nossa visão quotidiana de amizade se tornou.

Mas a verdadeira amizade é algo mais profundo e digno de regozijo:

– É um espaço no qual duas pessoas podem ter uma noção das vulnerabilidades uma da outra;

– Apreciar as loucuras um do outro sem recriminação;

– Tranquilizar-se mutuamente quanto ao seu valor e acolher as tristezas e as tragédias da existência com delicadeza e carinho.

Colectiva e culturalmente, cometemos um grande erro que acaba por nos deixar mais solitários e mais decepcionados do que seria necessário.

Num mundo melhor, o nosso objectivo principal não deveria ser encontrar um amante especial que substitua todos os outros humanos, mas colocar a nossa inteligência e energia em descobrir e cultivar um círculo de amigos verdadeiros.

No final de uma noite, quem sabe diríamos, a prováveis futuros companheiros, com um sorriso envergonhado, que os convidámos para entrar – sabendo que isso seria uma rejeição dolorosa – ‘Sinto muito, não poderíamos ser apenas… amantes?

Relações de Dependência - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicoterapia

Relações de Dependência

As relações de dependência estão mais presentes nas personalidades depressivas.

Esta dependência infantil que se prolonga para além da adolescência e que pelo excesso caracteriza todo o período maturativo – sendo portanto já detectável na infância – é-nos frequentemente revelada por expressões como:

– “Fui uma criança muito apegada à família”, “Em jovem foi difícil separar-me dos meus pais”.

Pela vida fora, estes indivíduos colam-se ao amigo, ao parceiro sexual, à religião, ao partido.

Nas personalidades depressivas mais graves predominam as relações de cunho simbiótico, ou mesmo adesivo.

“O estilo relacional do depressivo é o de uma marcada dependência – recebe menos do que dá.”

Num nível evolutivo um pouco superior, vamos encontrar as relações pessoais, ou interpessoais de mera complementaridade:

– Do tipo dominado/dominador e/ou explorado/explorador.

Muitas vezes, quando o paciente já se encontra perto de sair da situação depressiva, ainda vemos relações em que o depressivo recebe menos do que dá.

Ao desempenhar o seu papel de ente esfomeado que não ousa exigir o afecto a que tem direito, mantém, assim,  uma relação de dependência, uma vinculação infantil.

A ameaça de abandono afectivo e, logo, a ansiedade depressiva pairam sempre no horizonte da expectativa.

A esperança no sucesso pessoal, dada a escassez e insuficiência dos comportamentos de autonomia, êxito e progressão evolutiva, é travada pela inibição, ela própria consequência do medo, não só do abandono afectivo como da perda do outro.

Assim, a expectativa confiante no amor do(s) outro(s) – estimulo para a construção relacional, para a organização da constância de amor pelo outro e de plenitude amorosa, do sentimento de felicidade, alegria de viver e vitalidade, tende a diluir-se.

Na palidez da esperança reforça-se a segurança do lado de dependência.

No lugar do amor de que se desiste coloca-se a amizade a que se tem direito; “Foi a minha grande paixão, sou o seu melhor amigo”.

A partir de “Depressão: estrutura e funcionamento” – A. Coimbra de Matos

Como a negligência emocional nos afecta. Pedro Martins Psicoterapeuta

Como a Negligência Emocional nos Afecta

Muitos de nós caminhamos pela vida com numerosos danos emocionais. Os mais comuns são as depressões e a ansiedade; sendo que ambas têm muito impacto nos relacionamentos afectivos.

De onde surgiram estas problemáticas?

Na maioria das vezes da infância, em particular da primeira infância.

A forma como fomos cuidados quando eramos crianças pequenas tem um efeito desmesurado na nossa vida profissional e pessoal.

O que necessitamos é, acima de tudo, pais responsivos: adultos que cuidam das nossas necessidades com sensibilidade e carinho.

Isso, literalmente, define muito das nossas vidas.

Pode não parecer muito importante, mas devido à falta desse amor responsivo, muitas vidas estão aquém do que poderiam e deveriam ser.

“A negligência emocional na infância afecta profundamente o desenvolvimento”

Entre as pesquisas que permitiram demonstrar os efeitos da negligência nas crianças está a “Still Face Experiment” -, efectuada pelo Dr. Ed Tronick, director da Unidade de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard.

 

 

Se uma criança pode ficar tão transtornada após alguns segundos de comportamento frio e insensível por parte da mãe, podemos ficar com uma noção do que pode acontecer se este género de negligência persistir ao longo de anos.

Não é de admirar que alguns de nós não nos sintamos muito bem interiormente. Basta ter passado por situações idênticas  às do vídeo durante os primeiros anos da nossa vida (ou mais) para que marcas – profundas ou leves -, nos acompanhem.

“O amor é imprescindível para a estabilidade emocional”

Mas aperceber-nos de como somos vulneráveis não nos deve entristecer. Pelo contrário, podemos compreender melhor como fracassamos e estabelecer um elo entre o passado e as nossas dificuldades presentes.

Experiências como a “Still Face Experiment” são uma preciosa ajuda para nos compreendermos emocionalmente, e lançam uma luz científica sobre as origens dos nossos problemas.

Esta experiência prova algo inquestionável: o amor é imprescindível para a sanidade mental. A quantidade, mas principalmente, a qualidade desse amor, é determinante para uma vida que se deseja emocionalmente rica.

 

depressão inferioridade culpa

Depressão – Sentimento de Culpa e Inferioridade

No que diz respeito à depressão é importante olharmos a natureza e a qualidade da perda que origina o fenómeno depressivo lato sensu:

1 – Natureza da Perda: o doente depressivo não perdeu uma pessoa significativa (por morte ou retirada), mas o afecto de pessoas significativas, ou seja, a perda do amor de pessoas e não a perda de pessoas.

2 – Qualidade da Perda: Na depressão* o afecto que o indivíduo perdeu, foi o amor: o amor dedicado, generoso e oblativo.

Na depressão anaclítica ou borderline perdeu-se a protecção e assistência do cuidador.

Na depressão* pode permanecer a função de cuidar, mas falta o amor, o desejo de estar/conviver com o outro. (* designada depressão verdadeira)

A Depressão estrutura-se através da inferioridade e da culpa

A culpa resulta de duas origens convergentes:

1 – Idealização do “outro” – com a respectiva tendência a desculpabilizá-lo.

2 – Indução da culpa pelo “outro” – o qual, ao mesmo tempo se idealiza e se faz idealizar.

O sujeito projecta (coloca no outro) a sua bondade e introjecta (recebe do outro) a maldade.

Neste caso verifica-se um processo de inversão da experiência vivida no qual é influenciado pelo outro.

É este processo de despojamento da sua bondade e assimilação da maldade que conduz ao erro de avaliação da realidade pelo depressivo:

– “Eu sou mau, ele é bom”.

Há um erro lógico (cognitivo) de apreciação da realidade – erro em que é induzido pelo “outro”, o qual projecta a sua culpa no sujeito e absorve a bondade deste.

A relação depressígena (causadora de depressão) consiste precisamente nisto: culpar e idealizar-se a si mesmo.

A depressão pode ser vista como a relação que se estabelece com a pessoa depressígena:

– Que não desculpa mas culpa, que não ama mas capta o amor do outro; Trata-se de uma pessoa culpabilizante e desamante.

Por isso a culpa depressiva é uma culpa patológica e ilógica (erro lógico).

É este erro que o terapeuta tem que corrigir: fazer com que o paciente recupere o investimento perdido na idealização do “outro” e re-direccionar a culpa para o verdadeiro responsável; isto é, processar uma inversão do processo patológico.

O mesmo se passa para a inferioridade. A pessoa depressígena é aquela que inferioriza o outro e engrandecendo-se a si próprio. No grau máximo, é alguém que humilha.

Não há depressão sem culpa e sobretudo sem inferioridade, porque a retirada do amor – a causa prínceps da depressão – é só por si desnarcisante.

Por isso um dos sintomas da depressão é a baixa auto-estima.

Bibliografia: Matos, A. C. (2001). A Depressão. Lisboa: Climepsi Editores

psicoterapeuta

O Terror de Ser Amado

É muito claro que todos queremos amor – mas estranhamente, uma das coisas mais difíceis de fazer é não empurrá-lo quando verdadeiramente retribuem os nossos sentimentos.

Pode ser muito difícil não sentir que aqueles que nos oferecem amor estão equivocados, são frágeis ou carentes.

Que de alguma forma têm qualquer coisa de errado.

Ficamos um pouco enjoados com a proximidade e desejo de nos abraçarem e acarinharem; com as palavras ternas e pela capacidade de encontrar pequenas coisas em nós que os fascina.

Pode ser mais fácil quando não se é correspondido.

Quando a nossa principal preocupação era o enorme medo de que não reparassem em nós.

Era mesmo bastante mais fácil (embora não o disséssemos aos nossos amigos) quando estávamos numa relação muito tempestuosa com uma pessoa que nunca se comprometeu connosco, que nos desprezou e que parecia estar permanentemente noutro lugar.

Mas agora que finalmente não existem dúvidas e é muito claro que eles gostam de nós, as coisas complicam-se.

O amor pode ser difícil de receber quando não achamos que somos capazes de suscitar o amor do outro.

Foi bom das primeiras vezes, claro, quando a memória da anterior ambiguidade ainda estava viva na mente, mas agora eles tornaram-se cada vez mais honestos, e disseram claramente que nos querem – e sentimo-nos, simplesmente, um pouco enfadados.

Estamos tentados a dizer que estávamos equivocados: que eles não são as pessoas admiráveis que pensávamos.

Mas a verdadeira questão não está no que fazer com eles.

Está num lugar completamente diferente: está em nós e na relação connosco mesmos.

O carinho deles parece suspeito, incompreensível e gera uma certa repulsa, porque, de alguma forma, não estamos acostumados. Não encaixa com a visão que temos de nós mesmos.

O amor pode ser difícil de receber quando não estamos particularmente convencidos de que somos capazes de suscitar o amor do outro.

Passamos o tempo à procura daqueles que nos podem fazer sofrer de maneiras que nos são familiares.

E torna-se natural supor que um amante atencioso está equivocado;

Não está a ver bem as coisas – e, talvez, então, nos comportemos de forma muito desagradável, para nos certificarmos que realmente percebem que não somos quem realmente pensaram que éramos, e, portanto, colocam fim à relação.

Ficamos magoados, mas de alguma forma, psicologicamente, mais tranquilos.

A esperança reside em contrariar as conclusões que tirámos das nossas histórias passadas, e que nos levam a sabotar as novas relações.

Mas temos que permitir considerar outras opções.

Talvez o carinho que estamos a receber não seja um sinal de que nosso amante está enganado ou que não tem outra opção.

Talvez seja um sinal de que viu algo em nós que, tragicamente, ainda não conseguimos ver e nunca nos permitimos acreditar, tendo em conta o passado: que merecemos o amor.

A esperança reside na nossa capacidade de confiar mais nos nossos amantes do que confiamos nos nossos impulsos auto-destrutivos.

Em interpretar o amor deles não como um sinal da sua ilusão ou fraqueza, mas como evidência de que somos capazes de despertar o amor do outro, e ao termos coragem de aceitá-lo, contrariar as conclusões que tirámos das nossas histórias passadas que nos levam a sabotar as novas relações.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins a partir de:
The Terrors of Being Loved – Alain de Botton

psicólogo clínico dinheiro

A função do dinheiro em Psicoterapia

Luciano Lutereau refere que o dinheiro na psicoterapia* tem uma função particular. O pagamento de uma sessão não corresponde à simples troca de um honorário por um serviço. O tempo não pode ser comprado.

O pagamento da psicoterapia não corresponde à mera troca de um honorário por um serviço porque o tempo não pode ser comprado.

Lembro-me de uma situação em que um homem, em certa ocasião, queria incluir a sua psicoterapia nos seus bens de consumo (era um homem rico) e disse: “Se eu aqui pago…” e eu respondi ” O que está a pagar? Está a pagar por uma coisa certa, mas creio que não saiba do que se trata; mas pelo meu tempo não é, vale mais do que uma fortuna e não o dou a troco de nada, mas porque eu quero”.

Dar tempo é dar o que não se tem. Falta sempre tempo, por isso dar tempo afasta a terapia da questão monetária, porque, antes de mais, o terapeuta oferece amor.

A relação com o terapeuta é uma relação amorosa, como qualquer outra. Alguns pacientes começam a irritar-se, em determinados momentos, com o uso de dinheiro para pagar as sessões. Eles sentem que o amor se degrada (e, portanto, às vezes incluem algum outro presente para que o dinheiro não seja tudo: um livro, um vinho ou um simples “obrigado” para dizer adeus).

A atitude do obsessivo é o oposto: ele gosta dessa degradação. E, assim, procura depreciar o amor de que se sente dependente. É possível receber amor sem sentir dependência? Não é o paciente que ama, mas o terapeuta. Eventualmente pode acontecer que o paciente desencadeie uma forma de amor (e não apenas a paixão) pelo terapeuta, mas, nestes casos, é uma defesa contra o amor do terapeuta.

Uma certa forma de gratidão também pode ser entendida como defesa. Quando um paciente diz: “com tudo o que eu lhe devo”, temos uma questão a resolver, pois a terapia pode encaminhar-se para algo que a mãe lhe disse: “tudo que eu fiz para ti”.

A psicoterapia vai em sentido contrário dessa gratidão. Por isso é que o dinheiro é necessário. A função do dinheiro na terapia é parcializar a dívida que se sente com o amor do terapeuta. E é desejável que a dívida seja paga com dinheiro, porque se não for paga em dinheiro, terá custos mais elevados para paciente e terapeuta.

Assim pode entender-se porque é necessário, eventualmente, o aumento dos honorários. Não é uma indexação de acordo com a inflação do país, mas a alteração (que nem sempre é um aumento, também pode ser uma diminuição) tem como lógica intervir na dívida para com o terapeuta.

Vejamos outras situações: aqueles que, por vezes, fazem terapia sem pagar, e voltam um pouco mais tarde para nos pagarem. O dinheiro está a queimar-lhes nas mãos! Porque se não pagarem com dinheiro, temem ser capturados pelo amor do terapeuta. Por isso se compreende que alguns pacientes não possam suportar ter uma dívida com o psicoterapeuta, mas também existem outros pacientes que precisam dela!

Numa psicoterapia analisa-se a posição do paciente a respeito do amor do psicoterapeuta. Suas formas defensivas de responder a esta oferta (porque todos os terapeutas trabalham de graça!), e como se concretizam essas defesas através do pagamento (que podem ser em dinheiro ou equivalente). Se paga para que essa dívida com o amor não seja insuportável, e, onde essa dívida não ocorre, a terapia fica coxa.

Certa vez fui procurado por uma pessoa que definiu que viria falar comigo duas ou três vezes. No final fez o pagamento e, como não tenho o hábito de contar o dinheiro, só mais tarde verifiquei que me tinha pago a mais. Liguei-lhe para o informar do sucedido. Disse-me que não se tinha enganado, que tinha feito de propósito. Apesar de neste caso ser pouco provável, gostava que ele regressasse e pudesse compreender o propósito, a sua forma de lidar com o amor.

* Psicoterapia Psicodinâmica

psicólogo clínico

Boas razões para ficar num relacionamento mau

Tendo consciência de que o nosso relacionamento é insatisfatório, por que ficamos? A pesquisa em psicologia pode ajudar a explicar a nossa tendência para iniciar e manter relacionamentos com parceiros que não respondem às nossas necessidades.

Porque mantemos relacionamentos maus

1. Podemos estar satisfeitos com relacionamentos insatisfatórios

Em pesquisas recentes que exploram as decisões das mulheres sobre permanecer ou sair dos seus relacionamentos, o factor mais importante nas decisões das mulheres para permanecer na relação foi a satisfação no relacionamento (Edwards et al., 2011). Como podemos estar satisfeitos com relacionamentos insatisfatórios? Alguns indivíduos, especialmente aqueles que têm baixa auto-estima ou aqueles que se consideram menos atraentes, têm baixos “níveis de comparação” (Thibaut e Kelley, 1986; Luciano e Orth, 2017; Montoya, 2008). O nível de comparação pode ser entendido como um “padrão”: aquilo que se espera receber num relacionamento. Indivíduos com baixos níveis de comparação não esperam muitos benefícios dos seus relacionamentos, mas esperam muitas dificuldades. Se você tem um baixo nível de comparação, pode manter-se num relacionamento ruim porque está de acordo com as suas baixas expectativas. Os indivíduos com baixa auto-estima são mais propensos a envolverem-se em relacionamentos de menor duração e sofrem novas diminuições de auto-estima quando os seus relacionamentos terminam (Luciano e Orth, 2017). Da mesma forma, as mulheres que sofreram abusos em criança relatam mais satisfação nos relacionamentos de menor qualidade (Edwards et al., 2011).

2. Mudança nas Prioridades

Os mecanismos comuns que ajudam a manter os nossos relacionamentos são o “aprimoramento dos parceiros” e as “ilusões positivas”. Ambos os termos referem-se ao facto de que tendemos a ver os nossos companheiros de forma positiva, às vezes irrealisticamente (Morry et al., 2010; Conley et al., 2009). Nos casais gays e lésbicas, bem como nos casais heterossexuais, aqueles que vêem os seus parceiros mais positivamente também relatam mais satisfação no relacionamento (Conley et al., 2009). Como podemos ver nossos parceiros de forma positiva quando estamos em relacionamentos indesejáveis? A pesquisa mostra que valorizamos as características positivas que os nossos parceiros apresentam mais do que outras características (Fletcher et al., 2000). Por exemplo, se o seu parceiro é generoso, mas não introspectivo, você pode vir a valorizar mais a generosidade do que a introspecção ao longo do seu relacionamento. Quando os nossos parceiros revelam características negativas, podemos reduzir a importância dessas características e aumentar a importância dos traços positivos que possuem (Fletcher et al., 2000).

3. Alternativas de baixa qualidade

Se você está numa relação indesejável, pode considerar alternativas a essa relação, incluindo estar sozinho ou começar um relacionamento diferente (Thibaut e Kelley, 1986). Se perceber que uma alternativa pode ser preferível à sua situação actual, é mais provável que abandone o seu relacionamento, mas se entender que as alternativas são de menor qualidade, é mais provável que permaneça, apesar de tudo, num relacionamento insatisfatório. Pesquisas recentes mostram que afigurar alternativas ruins para o relacionamento aumenta a probabilidade de ficar com um parceiro indesejável, e que as mulheres com baixa auto-estima percebem menos alternativas desejáveis aos seus relacionamentos actuais (Edwards et al., 2011). Além disso, o divórcio é mais comum nos países onde as mulheres conseguem mais independência económica e em que a proporção de homens para mulheres é maior, sugerindo que as mulheres são mais propensas a divorciar-se se tiverem os meios económicos para viver de forma independente, bem como se existir uma abundância de outros possíveis parceiros (Barber, 2003).

4. Manipulação

Se o seu parceiro está ciente de que você deseja terminar o relacionamento, ele ou ela podem usar diferentes métodos de manipulação para forçá-lo a permanecer. A manipulação emocional, como o rebaixar, desprezar ou mesmo ameaças de violência contra futuros parceiros, podem ser usadas para conservar o relacionamento (Buss e Shackelford, 1997; Primos e Fugère, no prelo). Os homens com baixa auto-estima, bem como aqueles que se sentem menos atraentes que os seus parceiros, podem ser mais propensos a usar manipulações para evitar que seus parceiros terminem a relação (Buss e Shackelford, 1997; Holden et al., 2014). A angústia associada ao abuso emocional ou às implicações físicas da violência do parceiro são fortes impedimentos para aqueles que procuram terminar um relacionamento. Edwards et al. (2011) sugerem que as mulheres que estão psicologicamente angustiadas podem não sentir que têm a capacidade de deixar os seus parceiros.

5. Investimento

Outros obstáculos importantes para pôr fim a um relacionamento mau incluem os investimentos compartilhados com os companheiros (Adams, 1965). Como Copp et al. (2015) referem, investir muito tempo num relacionamento ou compartilhar investimentos, como uma casa ou filhos, torna os casais mais propensos a ficarem juntos. De acordo com Rego et al. (2016), quando já investimos muito tempo, esforço ou recursos num relacionamento, muitos de nós continuamos esse investimento mesmo quando pode não ser o melhor para nós; Temos tendência para continuar relacionamentos infelizes quando investimos neles. Os autores também explicam que, ao tomar decisões no que diz respeito ao relacionamento, muitas vezes dependemos mais de emoções do que de deliberações racionais. O que nos leva ao última razão, porque muitas vezes ficamos em relacionamentos ruins …

6. Amor

Os psicólogos distinguem entre três diferentes componentes: a componente cognitiva ou pensamentos, a componente afectiva ou sentimentos, e a componente comportamental ou acções (Kassin et al., 2011). Frequentemente, essas componentes não estão alinhadas umas com as outras. Por exemplo, no caso de um relacionamento ruim, os seus pensamentos podem ser negativos, dizendo que seu parceiro não é bom para você, mas os seus sentimentos ainda podem ser positivos. Podemos continuar a amar os nossos parceiros, embora reconheçamos conscientemente que estamos envolvidos em relacionamentos ruins. Também é possível que fortes sentimentos positivos e negativos em relação a um parceiro possam coexistir (Zayas e Shoda, 2015).

Traduzido/adaptado por Pedro Martins
a partir de “The Good Reasons We Stay in Bad Relationships” – Madeleine A. Fugère

psicoterapeuta

Os três estados do Amor

O amor é o nosso valor mais elevado, o que todos desejamos e acreditamos, nos torna fundamentalmente humanos. No entanto, também é fonte de considerável ansiedade. Principalmente porque estamos preocupados em saber se amamos de forma correcta.

A sociedade é subtil e altamente prescritiva a este respeito. Isso sugere que, para sermos uma pessoa conforme, devemos estar disponíveis para o sexo e, além disso, devemos “amar” de uma maneira muito particular: devemos estar constantemente entusiasmados com a presença do nosso parceiro, devemos estar ansiosos por vê-lo depois de cada ausência, devemos querer mantê-lo nos nossos braços, beijar e ser beijados e – acima de tudo – desejar fazer sexo quase todos os dias. Por outras palavras, devemos seguir o roteiro do êxtase romântico ao longo das nossas vidas.

Isso é bonito em teoria mas extremamente punitivo na prática. Se quisermos definir este amor como estando de acordo com a normalidade, a maioria de nós terá que admitir (com considerável constrangimento) que não está muito por dentro do amor – e, portanto, não se encontra entre as pessoas saudáveis ou normais.

Criámos um culto do amor que contrasta radicalmente com a maioria das nossas verdadeiras experiências dos relacionamentos.

É aí que os antigos gregos nos podem ajudar. Eles cedo perceberam que existem muitos tipos de amor, cada um com as suas respectivas fases e virtudes.

Os gregos atribuíram aos poderosos sentimentos físicos que muitas vezes experimentamos no início de um relacionamento a palavra ‘eros’ (ἔρως). Eles sabiam que o amor não está necessariamente acabado quando essa intensidade sexual diminui, como quase sempre ocorre após um ano ou mais de relacionamento.

Os nossos sentimentos podem evoluir para outro tipo de amor que eles resumiram com a palavra “philia” ( φιλία ), normalmente traduzido como “amizade”, embora a palavra grega seja muito mais calorosa, mais leal e mais tocante; Podemos estar dispostos a morrer por ‘philia’. Aristóteles recomendou que superássemos o eros na juventude e, em seguida, alicerçar os nossos relacionamentos – especialmente os casamentos – numa filosofia de philia.

Os gregos tinham uma terceira palavra para o amor: “agape” ( ἀγάπη), que pode traduzida como um amor caridoso. É o que podemos sentir em relação a alguém que se comportou mal, ou que está triste devido às suas falhas de carácter – mas por quem ainda sentimos compaixão. É o que um Deus pode sentir pelo seu povo, ou o que o público pode sentir por uma personagem trágica numa peça de teatro. É o tipo de amor que experimentamos em relação à fraqueza de alguém. Isso lembra-nos que o amor não é apenas sobre a admiração pelas virtudes, é também sobre simpatia e generosidade em relação ao que é frágil e imperfeito em nós.

Tendo estas três palavras à mão – eros, philia e agape – ampliamos poderosamente a nossa compreensão do amor. Os gregos antigos eram sábios em dividir o amor nas suas partes constituintes.

Sob a sua tutela, podemos ver que provavelmente temos muito mais amor nas nossas vidas do que nosso vocabulário actual reconhece.

Traduzido e adaptado por Pedro Martins
a partir de Alain de Botton – Why We Need the Ancient Greek Vocabulary of Love

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