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Por que a minha psicoterapeuta não me diz o que devo fazer?

Cara Psicoterapeuta,

Eu sou uma mulher que está prestes a completar os 30, e iniciou a psicoterapia pela primeira vez o ano passado. Eu iniciei porque se tornou evidente que aquilo que eu pensava ser apenas “eu” era realmente “eu com depressão“, e a terapia ajudou-me realmente a reconhecê-lo e a partir daí continuar a avançar. Agora, talvez pela primeira vez na minha vida, eu sei o que é não estar constantemente temperamental (eu pensava que isso era “normal”) e isso foi incrível. O meu argumento é que a terapia tem sido muito útil, até mesmo na forma como olho para a vida – excepto numa coisa.

Não entendo porque a minha terapeuta não me dá conselhos! Obviamente, não quero dizer constantemente, mas acho que em determinadas situações, ela poderia dizer-me o que pensa, mas não. Ela sabe que um dos meus problemas foi a falta de orientação enquanto crescia – que, basicamente, tive que descobrir tudo por minha conta porque os meus pais ou não sabiam o que aconselhar-me (por exemplo, deixaram a escolha do curso superior completamente para mim) ou deram-me conselhos inadequados (uma vez quase perdi um amigo depois de seguir um conselho quando eu era muito jovem para perceber que o conselho era muito mau).

Não é que os meus pais não sejam pessoas bem-intencionadas. Só que em muitas questões não souberam o que fazer. Eles tomaram sempre más decisões nas suas próprias vidas (algumas desastrosas, a ponto de quase perdermos a casa), então, quando se tratava da minha vida – amigos, namoro, faculdade, carreira – eu não tinha modelos ou orientadores nos meus pais como a maioria dos meus amigos.

Para ser justa com a minha terapeuta, eu entendo que já não sou uma criança e que ela quer que eu descubra as coisas sozinha como um adulto, e entendi isso – até certo ponto. Mas se é uma pergunta simples, algo prático ou algo que não é um problema psicológico profundo, porque é que ela não me diz o pensa? Estou a falar do tipo de perguntas que as pessoas da minha idade rotineiramente fazem aos seus pais: Faz sentido comprar uma casa agora, tendo em conta que a posso pagar, ou devo manter-me no meu apartamento arrendado até as coisas estarem mais assentes com a minha família? Ou se devo aceitar sair com um rapaz com quem uma colega de trabalho teve um relacionamento há mais de um ano, podendo ela ficar chateada?

Eu só quero saber o que ela sugeriria – não que eu, necessariamente, fizesse isso, mas pelo menos eu teria a opinião de um adulto estável em quem confio.

Uma vez que você é uma terapeuta com uma coluna num jornal onde dá conselhos, já alguma vez deu conselhos a pessoas em terapia? Você deve ter opiniões sobre se as pessoas devem terminar os relacionamentos, afastarem-se de um amigo, ou comprar uma casa agora ou esperar até as coisas assentarem. Alguma vez compartilhou coisas com os seus pacientes? E se não, por que não dar-lhes a sua perspectiva? Eu acho essa parte da terapia tão frustrante.

 

Atenciosamente,
Se Não for Pedir Muito (SNFPM)

 

 

Cara Se Não For Pedir Muito,

 

Adivinhe?! Vou dar-lhe alguns conselhos. Eis o que eu acho que você deve fazer:

1. Compre uma casa agora.
2. Saia com alguém.

Mas espere – antes de aceitar este conselho, deixe-me dar-lhe um último conselho: não aceite o meu conselho. Porque se fizer isso, é provável que acabe por ficar desapontada comigo como ficou com os seus pais. O meu conselho – como seus pais ou mesmo como sua terapeuta (caso ela dê) – pode ser bem-intencionado, mas não irá ajudá-la da maneira que imagina.

Por um lado, apesar das minhas boas intenções, qualquer coisa que eu sugira será mediada pelos meus próprios preconceitos e experiências de vida. Então, enquanto eu considero a sua situação e pensamos a sua vida, também é verdade que a aconselho a comprar uma casa, em parte porque comprei a minha primeira casa nos meus 30 e, em retrospectiva, gostaria de a ter comprado mais cedo. Noutras palavras, o meu conselho está condicionado pelas minhas crenças pessoais sobre questões imobiliárias. Da mesma forma, sugeri que você aceitasse o convite para sair, porque se fosse eu – se eu tivesse quase 30 anos e realmente gostasse de um rapaz e não fosse próxima da mulher que andou a sair com ele há mais de um ano – eu sairia com ele. Mas você pode ter ideias, valores e uma tolerância diferente para lidar com algumas coisas. O que pode ser uma boa ideia para mim pode ser um desastre para si. E, ao dar-lhe conselhos, eu poderia projetar os meus próprios valores e crenças em você, em vez de ajudá-la a construir uma noção mais profunda de si própria.

Haverá sempre uma distância entre o que o psicoterapeuta pode aconselhar e o que é melhor para o paciente. Um terapeuta pode ver um casal e achar que eles devem divorciar-se, mas algumas pessoas preferem estar num casamento altamente conflituoso do que estarem sozinhas, não importa o quanto o terapeuta possa defender pessoalmente que é melhor estar sozinho por um tempo do que num casamento altamente conflituoso, onde o parceiro se recusa a mudar. A vida dos nossos pacientes tem que ser vivida por eles, e não por nós.

Ainda assim, não está sozinha ao querer que a sua terapeuta lhe diga o que fazer. Ao longo do tempo colocaram-me todo o tipo de perguntas: que profissão uma pessoa deveria escolher, se deveria ter outro filho ou congelar os óvulos, e se deveriam ir passar férias a casa da sua família caótica, ou fazer algo mais agradável em vez disso. E quando eu não correspondo a esse desejo sinto que estou sadicamente reter a “resposta” que, na sua opinião, poderia fornecer facilmente, e assim, resolver o seu problema premente.

Uma das surpresas que ser terapeuta me trouxe foi a frequência com que as pessoas querem saber exactamente o que fazer, como se eu tivesse a “resposta correcta” – ou como se as respostas “correctas” ou “erradas” existissem para a maior parte das escolhas que nós fazemos no nosso dia-a-dia. A minha formação como terapeuta prepara-me para compreender as pessoas e ajudá-las a decidir o que querem fazer, mas não posso fazer certas escolhas por elas. Eu não sou uma especialista em imóveis, consultora de orientação profissional ou, o mais importante, adivinha. Parte do que as pessoas querem dos meus conselhos é o alívio da incerteza – se o meu terapeuta diz X, eu não tenho que lidar com minha ansiedade em torno da dúvida. Mas se existe uma coisa certa na vida é a incerteza, e a incapacidade de tolerar a incerteza do que acontecerá se decidirem que X ou Y ou Z impede as pessoas de tomarem decisões.

Aprender a diminuir a velocidade e a reflectir sobre as escolhas e antecipar as possíveis consequências das nossas acções ajuda a diminuir a ansiedade a longo prazo. Receber conselhos de um terapeuta alivia a ansiedade no momento, mas não vai perdurar.

No início da minha formação, senti uma tremenda pressão para dar um conselho de tipo benigno (pelo menos foi o que pensei), até que percebi que as pessoas ficavam ressentidas de lhes dizerem o que fazer. Sim, elas podem perguntar – repetida e categoricamente – mas depois de se lhes realmente responder, o seu alívio inicial é muitas vezes substituído pelo ressentimento. Isso acontece mesmo que as coisas corram bem, porque, em última análise, os seres humanos querem ser responsáveis pelas suas vidas, e é por isso que as crianças passam a infância a implorar para que as deixem tomar as suas próprias decisões, em vez de que as tomem por elas.

Mas se você foi um certo tipo de criança, uma criança como você, SNFPM, uma criança que teve que tomar decisões por si mesma antes de estar pronta – ou porque ninguém lhe ofereceu, ou você não podia confiar nos conselhos que lhe davam – a tomada de decisão com as implicações que a acompanham pode gerar muita ansiedade. Em vez de procurar mais autonomia no caminho da vida adulta, esse tipo de criança provavelmente irá crescer pedindo que essa liberdade lhe seja retirada.

Então, você pergunta ao seu terapeuta: devo fazer isto? Devo fazer aquilo? Vá lá, diga-me: o que você faria?

Por trás destas questões reside a suposição de que a sua terapeuta é um ser humano mais competente do que você. O pensamento é: quem sou eu para tomar decisões importantes na minha vida? Estou realmente qualificada para isso? A sua terapeuta, por outro lado, é considerada especialista, o pai substituto, “Aquele que a Conhece Melhor”. E você é a criança no corpo adulto que fantasia sobre o quão agradável seria sentir-se livre de toda a responsabilidade e deixar um adulto ficar com o peso de fazer as escolhas difíceis. Mesmo que corra mal, ter outra pessoa a decidir parece mais seguro. Que alívio poder culpar outra pessoa por uma decisão errada, de modo que a dor de uma má decisão não seja amplificada por ter sido a única pessoa responsável pelo erro. (Nesse sentido pensa: Oh, Deus, eu sou como os meus pais – tomo decisões horríveis!)

Isso é um tipo de proteção enganadora, porque o conselho do seu terapeuta na verdade, fará com que se sinta com raiva e insegura. Você pode implorar e até persuadir o seu terapeuta, às 7 da tarde de uma longa sexta-feira, a oferecer-lhe o conselho que deseja. E sua primeira reação pode ser: Finalmente! Inicialmente, você pode sentir-se apoiada e cuidada de uma forma que não sentiu com os seus pais.

Mas o que você pode fazer com essa pepita, esse presente terapêutico, esse tão desejado conselho? Apesar de obter exactamente o que você pediu, pode não o pôr em prática. Pode procrastinar, arranjar todo o tipo de desculpas pelas quais ainda não avançou. Então, vai sentir-se mal por ainda não o ter concretizado. E vai começar a pensar, eu sinto-me mal porque a minha terapeuta me fez sentir mal ao tentar dizer-me o que fazer. Como ela ousa! Eu não vou fazer isso só porque ela me disse para fazer. Quem é ela para mandar em mim? E você vai sentar-se no sofá todas as sextas-feiras às sete, sem lhe dizer que não fez o que ela sugeriu, porque está ressentida por ela se intrometer, por fazer você sentir que sua própria opinião não tem valor; e, acima de tudo, você será consumida pela vergonha que sente por desagradá-la ao não fazer o que ela quer. Em tudo isto há uma inversão, pois, na verdade, a sua terapeuta só lhe deu um conselho para lhe agradar a si, e não a ela. No final, ninguém está feliz.

É por isso que receber conselhos não é a solução para os seus problemas, SNFPM. Subjacente a todo esse “empurrão” sobre o que fazer com o seu apartamento e com o rapaz que a convidou para sair, e as dezenas de outros conselhos que você pode ter tentado obter, está a esperança da sua terapeuta de que você a deixará. Não agora, mas quando estiver pronta, e o objectivo dela em cada sessão é ajudá-la a “preparar-se”. Desde o primeiro dia, pensamos em como ajudar os nossos pacientes a deixarem-nos, não porque não nos preocupamos, mas porque é o que nós fazemos. Nós não queremos que você tenha que fazer um grande esforço para se libertar. Queremos que você aprenda a confiar em si mesma. Queremos que você pare de nos pedir para brincar ao Deus com sua vida porque não somos deuses. Somos mortais que fazemos o nosso melhor para entender os nossos modelos e tendências, a nossa dor e os nossos anseios, para que possamos assumir a responsabilidade pelas nossas vidas. E queremos que você faça o mesmo.

Até certo ponto, todos nós travamos essa batalha interna: criança ou adulto? Segurança ou liberdade? E não importa onde nos posicionamos nesse continuum, em última análise, cada decisão que tomamos é baseada em duas coisas: medo e amor. Às vezes ganha o medo, às vezes o amor, e às vezes é sensato ouvir o medo, e outras vezes o amor. Se há uma coisa que a sua terapeuta está a tentar mostrar, é como distinguir os dois. E ela mostra-o através da prática da escuta para que você possa usar os seus sentimentos como uma bússola para a orientar na melhor direcção possível.

Os terapeutas podem não dar conselhos, mas damos orientação. E se há uma coisa que seu psicoterapeuta sabe, é que as verdades mais poderosas – as que as pessoas tomam mais a sério – são aquelas que elas obtiveram por conta própria.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins a partir de:

“Why Won’t My Therapist Just Tell Me What to Do?” – Lori Gottlieb

 

 

Mudar é doer. Sofrimento em psicoterapia. Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Mudar é doer. Sofrimento em psicoterapia

Ao ler o artigo “Mudar é doer” lembrei-me de algo que se passou há uns anos. Um amigo meu estava a considerar iniciar uma psicoterapia mas antes quis conversar comigo para esclarecer algumas questões. Falei-lhe superficialmente do processo, os moldes e os objectivos.

Como me atrasei a dar-lhe um contacto ele marcou com o psicoterapeuta de uma amiga. Saiu de lá em choque porque nada do que eu lhe tinha dito batia com o que acabara de ouvir. Entre elas estavam as coisas que encontrei no artigo: “Mas se tiver coragem de enfrentar esse estado de coisas; de dor insuportável, mas necessária, verá o incrível milagre da vida acontecer diante dos seus olhos.”

O que podemos encontrar nesta frase?

Em primeiro lugar temos uma espécie de sedução/manipulação por parte do psicoterapeuta: – É corajoso ou não é? Se não for pode ir embora. Aqui só há lugar para corajosos. Mas eu sinto que você é corajoso para enfrentar as coisas.

Depois de a coragem estar à flor da pele, aplica-se o segundo golpe – Não pode fugir à dor insuportável, porque, obviamente, ela é necessária. Para quê? Para ver um incrível milagre acontecer! Nesse caso vale bem a pena. Quando é que começamos?

Perante esta aceitação tácita, o paciente está condenado às atrocidades que estão para vir. Se não as suportar é porque não é corajoso, e o milagre da vida não quer nada com os fracos. Moral da história: Se as coisas correrem mal a culpa é sua!

Vamos passar ao lado do adjectivo “insuportável”, porque a dor em si é quanto baste. Introduzir mais dor em pessoas que certamente passaram por muitas ou que as vivem neste momento é mais que maldade, é uma perversão (caso esta pessoa não tenha perdido para sempre a esperança na psicoterapia, terá mais um problema quando entrar no gabinete do novo terapeuta).

A psicoterapia não é, nem pode ser uma fonte de dor, muito menos insuportável. Há coisas que custam, que são difíceis, mas não o são porque fazemos terapia – já o eram muito antes. Na verdade, é por essa razão que as pessoas decidem fazer psicoterapia: superar os bloqueios que as impedem de ter uma vida melhor.

psicoterapia

Como Funciona a Psicoterapia e Porquê

O contacto contínuo entre nós e o terapeuta, as sessões semanais que podem continuar durante meses ou anos, contribuem para a criação de algo que soa, num contexto profissional, particularmente estranho: uma relação.

Estamos quase certos que procuramos um terapeuta em primeiro lugar porque, de alguma forma, tornou-se difícil ter relações e não percebermos muito bem porquê:

– Talvez tentemos agradar às pessoas e garantir a sua admiração, mas acabamos por nos sentir pouco autênticos e interiormente entorpecidos e recuamos.

– Talvez nos apaixonemos muito intensamente, mas então, acabamos sempre por descobrir um grande defeito no parceiro que nos faz acabar com a história e reiniciar o ciclo.

A relação com o psicoterapeuta pode ter muito pouco em comum com o tipo de ligações que temos na vida quotidiana.

Não vamos fazer compras juntos nem ver televisão na cama. Mas, inevitavelmente levamos para os encontros com o terapeuta as nossas próprias tendências, que emergem nas nossas relações com outras pessoas das nossas vidas.

Na terapia também podemos ser sedutores, e de seguida frios; ou cheios de idealizações que são seguidas de impulsos para fugirmos.

Excepto que agora, na presença do terapeuta, as nossas tendências têm a possibilidade de serem testemunhadas, discutidas, exploradas com simpatia e – nas suas manifestações mais prejudiciais – superadas.

A relação com o terapeuta é um protótipo do comportamento que temos com as pessoas de forma geral e, assim, permite-nos, com base numa maior autoconsciência, modificar e melhorar a forma como nos relacionamos com os outros.

Na psicoterapia os nossos hábitos e tendências são reconhecidas e podem ser faladas – não como reprovações, mas como informações importantes sobre o nosso carácter do qual merecemos tomar consciência.

O terapeuta (com bondade) assinala que estamos a reagir como se tivéssemos sido atacados, quando ele fez apenas uma pergunta, e pode chamar a nossa atenção para a prontidão com que parecemos querer dizer-lhe coisas que impressionem (ainda que gostem de nós de qualquer maneira), ou como parecemos apressar-nos a concordar ou discordar dele quando está apenas a tentar explorar uma ideia que ele próprio tem dúvidas que esteja certa; sinaliza a nossa propensão a determinar as atitudes ou perspectivas que realmente não tem; pode dar nota de como parecemos estar acometidos pela ideia de que ele está desapontado connosco, ou nos considera chatos.

Com grande discrição, o psicoterapeuta vai salientar a nossa tendência para colocar as pessoas do presente em papéis que derivam do passado e vai procurar connosco as origens das emoções, que provavelmente sentimos em relação às pessoas importantes que cuidaram de nós – e que agora se tornaram naquilo que esperamos de todos.

A relação terapêutica actua como um microcosmos das nossas relações em geral e, portanto, pode ser usada como uma via particular para aprender sobre as nossas tendências mais imperceptíveis.

Ao revivermos os problemas relacionais com um outro empático que não responde como as pessoas comuns, que não gritará connosco, que não se vai queixar, ficar calado ou ir embora, pode ajudar-nos a entender o que andamos a fazer e assim, desenvolvermos novos padrões relacionais.

A relação com o terapeuta torna-se num modelo para a forma como podemos estabelecer relações com os outros no futuro, livres das manobras e dos pressupostos de fundo que carregamos dentro de nós desde a infância, e que nos podem magoar e limitar no presente.

A relação terapêutica pode ser para nós a primeira relação verdadeiramente saudável que temos, onde aprendemos a impedir que se imponham os nossos pressupostos sobre os outros e possamos confiar neles o suficiente para os deixar ver a realidade maior e mais complexa de quem somos, sem vergonha ou constrangimento.

Torna-se um modelo – adquirido numa situação altamente incomum – que começamos a aplicar no mais corriqueiro, até acabar por fazer parte da nossa forma de ser e de estar com os outros.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins a partir de:
“How therapy works and why” – Alain de Botton

psicólogo clínico dinheiro

A função do dinheiro em Psicoterapia

Luciano Lutereau refere que o dinheiro na psicoterapia* tem uma função particular. O pagamento de uma sessão não corresponde à simples troca de um honorário por um serviço. O tempo não pode ser comprado.

O pagamento da psicoterapia não corresponde à mera troca de um honorário por um serviço porque o tempo não pode ser comprado.

Lembro-me de uma situação em que um homem, em certa ocasião, queria incluir a sua psicoterapia nos seus bens de consumo (era um homem rico) e disse: “Se eu aqui pago…” e eu respondi ” O que está a pagar? Está a pagar por uma coisa certa, mas creio que não saiba do que se trata; mas pelo meu tempo não é, vale mais do que uma fortuna e não o dou a troco de nada, mas porque eu quero”.

Dar tempo é dar o que não se tem. Falta sempre tempo, por isso dar tempo afasta a terapia da questão monetária, porque, antes de mais, o terapeuta oferece amor.

A relação com o terapeuta é uma relação amorosa, como qualquer outra. Alguns pacientes começam a irritar-se, em determinados momentos, com o uso de dinheiro para pagar as sessões. Eles sentem que o amor se degrada (e, portanto, às vezes incluem algum outro presente para que o dinheiro não seja tudo: um livro, um vinho ou um simples “obrigado” para dizer adeus).

A atitude do obsessivo é o oposto: ele gosta dessa degradação. E, assim, procura depreciar o amor de que se sente dependente. É possível receber amor sem sentir dependência? Não é o paciente que ama, mas o terapeuta. Eventualmente pode acontecer que o paciente desencadeie uma forma de amor (e não apenas a paixão) pelo terapeuta, mas, nestes casos, é uma defesa contra o amor do terapeuta.

Uma certa forma de gratidão também pode ser entendida como defesa. Quando um paciente diz: “com tudo o que eu lhe devo”, temos uma questão a resolver, pois a terapia pode encaminhar-se para algo que a mãe lhe disse: “tudo que eu fiz para ti”.

A psicoterapia vai em sentido contrário dessa gratidão. Por isso é que o dinheiro é necessário. A função do dinheiro na terapia é parcializar a dívida que se sente com o amor do terapeuta. E é desejável que a dívida seja paga com dinheiro, porque se não for paga em dinheiro, terá custos mais elevados para paciente e terapeuta.

Assim pode entender-se porque é necessário, eventualmente, o aumento dos honorários. Não é uma indexação de acordo com a inflação do país, mas a alteração (que nem sempre é um aumento, também pode ser uma diminuição) tem como lógica intervir na dívida para com o terapeuta.

Vejamos outras situações: aqueles que, por vezes, fazem terapia sem pagar, e voltam um pouco mais tarde para nos pagarem. O dinheiro está a queimar-lhes nas mãos! Porque se não pagarem com dinheiro, temem ser capturados pelo amor do terapeuta. Por isso se compreende que alguns pacientes não possam suportar ter uma dívida com o psicoterapeuta, mas também existem outros pacientes que precisam dela!

Numa psicoterapia analisa-se a posição do paciente a respeito do amor do psicoterapeuta. Suas formas defensivas de responder a esta oferta (porque todos os terapeutas trabalham de graça!), e como se concretizam essas defesas através do pagamento (que podem ser em dinheiro ou equivalente). Se paga para que essa dívida com o amor não seja insuportável, e, onde essa dívida não ocorre, a terapia fica coxa.

Certa vez fui procurado por uma pessoa que definiu que viria falar comigo duas ou três vezes. No final fez o pagamento e, como não tenho o hábito de contar o dinheiro, só mais tarde verifiquei que me tinha pago a mais. Liguei-lhe para o informar do sucedido. Disse-me que não se tinha enganado, que tinha feito de propósito. Apesar de neste caso ser pouco provável, gostava que ele regressasse e pudesse compreender o propósito, a sua forma de lidar com o amor.

* Psicoterapia Psicodinâmica

psicoterapia lisboa

O seu psicoterapeuta é demasiado simpático?

O artigo Is your therapist to nice? fez-me recordar uma expressão que vem dos tempos da faculdade: “Terapia de Chá e Bolinhos”, e que diz respeito às psicoterapias em que os pacientes saem sempre felizes e contentes da sessão; com o sentimento de estarem em perfeita sintonia com o psicoterapeuta e de receberem excelentes conselhos para resolver os seus problemas.

O seu terapeuta concorda sempre consigo? Está constantemente a elogiá-lo? Sorri e gesticula com frequência em sinal de aprovação? Já reparou que sai quase sempre bem-disposto da sessão? Estes podem ser sinais de que o seu terapeuta é solidário, empático, cuidador e preocupado com o que se passa consigo, ou, sinais de que o seu terapeuta é excessivamente amável.

Se o seu psicoterapeuta é demasiado simpático talvez esteja na altura de procurar um novo.

Consideremos os riscos para a terapia resultantes de ter um terapeuta demasiado simpático:

É muito gratificante termos alguém que concorda sempre connosco, principalmente se ao longo da vida fomos sistematicamente contrariados. Esta atitude do terapeuta pode ir ao encontro do nosso desejo de finalmente termos alguém que concorde connosco, mas assim que surgir alguma pessoa que discorde voltará tudo à estaca zero. Isto acontece porque as atitudes do terapeuta não passam de “festinhas ao ego” não produzindo qualquer tipo de mudança estrutural.

A questão deve ser olhada de outro ângulo. Devido a vários impedimentos não conseguimos reagir da forma desejada contra as pessoas que invariavelmente fizeram com que as suas ideias, valores e escolhas se sobrepusessem às nossas, e dessa forma, contribuíram para o desenvolvimento de sentimentos de inferioridade. O importante é encontrar uma maneira de respondermos a essa desconsideração e assim recuperar a auto-estima que foi sendo esmagada.

Ao mesmo tempo, esta atitude do terapeuta faz aumentar os sentimentos de dependência negativa (também existe a positiva). Uma vez que as coisas acontecem a um nível superficial o paciente está sempre necessitado de um reforço positivo. É como se estivesse a comer alimentos pouco nutritivos (chá e bolinhos) e por isso está constantemente com fome. Não lhe é dado um alimento afectivo que o possa deixar saciado por mais tempo.

Por outro lado, se pensarmos objectivamente, a constante concordância não existe na vida real. Logo é uma fraude que põe em causa um dos pilares da psicoterapia: A Verdade.

Se o paciente teve pais muito intrusivos, excessivamente preocupados, que tinham opiniões sobre tudo e sobre nada, é natural que o seu Eu tenha sido formatado de forma muito rígida. Mas isso quer também dizer que está desejoso que o terapeuta lhe diga o que deve fazer, afinal foi assim que viveu toda a vida – a seguir as escolhas dos outros.

Nesse sentido é importante criar um espaço de liberdade que permita antes de mais questionar, abrir a porta à dúvida, considerar outros ângulos, outras perspectivas. Na maioria das vezes o paciente constrói uma narrativa que contraria a que lhe foi imposta, a única que tinha sobre si mesmo.

Muitos de nós tivemos pais que ficaram muito aquém do desejável. Nalguns casos podemos mesmo falar em maus pais. De qualquer forma, essa questão não se ultrapassa com novos pais (de preferência bonzinhos), mas reconhecendo que na maioria das vezes a maldade dos pais ficou a dever-se a algo que existia neles e que não foi provocado pela nossa maldade.

Chá e Bolinhos sabem muito bem. Sabem ainda melhor em boa companhia.
Mas a vida é muito mais do que isso. E a terapia também!

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A escolha de um terapeuta no Google

As ondas provocadas pelo artigo publicado no New York Times – What brand is your therapist?, onde Lori Gottlieb dá conta das dificuldades no exercício da sua profissão de terapeuta, têm-se feito sentir na comunicação social e noutros espaços ligados aos “psis”.

Após a sua formação Lori tinha a expectativa de poder estabelecer-se, iniciar a sua prática clínica e colher os frutos do investimento pessoal e financeiro: satisfação no trabalho e remuneração justa. Não foi preciso muito tempo para que as suas expectativas fossem goradas pela falta de pacientes que, concluiu, se alargava até aos terapeutas mais antigos e experientes. Isso, devia-se em parte, às seguradoras que tinham deixado de reembolsar os gastos com as terapias.

Uma nova realidade esperava por Lori; Branding consultants for therapists. Vários colegas seus tinham recorrido ao auxílio de branding consultants para através de estratégias de marketing conseguirem distinguir-se dos concorrentes, tornando-se visíveis ao grande público.

No meio de um conflito entre questões técnicas e éticas acabou por procurar um destes profissionais. Segundo ele, as pessoas já não estavam interessadas nas terapias convencionais, desejavam soluções rápidas e fáceis para os seus problemas e, estavam susceptíveis a propostas mais atraentes. Os terapeutas generalistas – old-school – estavam ultrapassados e o que atraía as pessoas eram especialistas, por exemplo, em cyberbullying e sexting.

Para além disso, para evitar ser considerado frio e distante, era sugerido que o terapeuta, juntamente com o anúncio da actividade profissional, expusesse a sua vida pessoal na redes sociais, principalmente os seus problemas, para que os pacientes se identificassem com eles e assim criassem uma proximidade.

O artigo de Lori é extenso e merece uma leitura atenta porque foca aspectos até aqui pouco abordados e com enormes implicações. Acredito que a escolha de um terapeuta no Google passe pela capacidade de sedução da mensagem, seja através da falsa intimidade ou pelo milagre prometido, e, quiçá, uma atraente foto da terapeuta numa praia das caraíbas, mas temo que o processo nasça inquinado.

Se o terapeuta estiver mais interessado nos seus proveitos financeiros do que no paciente, então, aconselho uma profissão mais leve e rentável. Isto não implica que se ignore o drama que se está a colocar aos terapeutas, que tanto investiram na sua formação para estarem aptos ajudar e se vêem numa situação desesperante. No entanto, há limites, não vale tudo.

Os terapeutas, para além de serem pessoas como as outras e terem que pagar as suas contas, têm também a responsabilidade de impedir, no mínimo, não contribuir, para que as psicoterapias passem a ser vistas como fórmulas/produtos de consumo, propiciadores de bem-estar imediato e constante, negando a realidade numa atitude delirante.

Desde os tempos idos do início das psicoterapias, mérito seja dado a Freud, até hoje, várias mudanças se verificaram. Actualmente, sabe-se que o poder “curativo” está na relação – autêntica – com o outro. Os estudos com bebés mostram que desde o nascimento, aquele pequeno “Ser” procura o outro – a relação –. É a partir do outro que verdadeiramente se nasce e se faz o homem.

Mascarada de múltiplas formas, lá está, a patologia dos nosso dias – o vazio -. A ilusão do preenchimento para esconder a incompletude fornecida por qualquer gadget é efémera, dura até sair o modelo seguinte.

As responsabilidades não devem ser atribuídas exclusivamente à publicidade que vende prazer imediato e a fantasia de que tudo é possível com um cartão de crédito, elas são também de todos nós que fomos sendo alegremente corrompidos pelo desenfreado consumismo como forma de alienação.

Se tiver que ficar para trás por não acompanhar os novos tempos, ficarei. Ficarei com as minhas convicções, com aquilo que acredito e do lado certo da história.

(Post publicado originalmente em 2012)

Psicoterapia, Terapeuta e Teoria. Pedro Martins Psicoterapauta - Psicoterapia

Psicoterapia, Psicoterapeuta e Teoria

O entendimento corrente do provérbio “Se deres um peixe a um homem faminto, vais alimentá-lo por um dia. Se o ensinares a pescar, vais alimentá-lo por toda a vida”(Lao Tsé), não é muito diferente daquele que muitos psicoterapeutas fazem. Alguns pacientes precisam que lhes seja dado o peixe, precisam ser alimentados, ali, naquele momento. Refugiando-se na teoria/técnica, o terapeuta foca-se no “ensinar a pescar” e deixa para segundo plano o que é prioritário, vital, cuidar do paciente, procurando saciar a sua fome.

Ao contrário dos bebés, a maioria dos pacientes não revelam que têm fome. Por vezes escondem. Ficam calados. Na melhor das hipóteses pedem que os ensinem a pescar. Outros, nem se apercebem que têm fome, ou, de tanta fome, perderam a vontade de comer. Para alguém que viveu a experiência de não ter recebido o alimento afectivo de que necessitava, pedir, está, praticamente, fora de questão. Se não (nos) oferecemos podemos estar a alimentar a fome.

Como uma mãe atenta, o psicoterapeuta deve colocar-se num posição materna e através do seu sentir tentar compreender o que o paciente precisa naquele momento. Quando o terapeuta não reconhece as necessidades do paciente, dá-se um desencontro. Mais um.

O movimento de aproximação ao Outro, ao encontro das suas necessidades afectivas, permite o estabelecimento de uma relação – nutritiva – profunda. Através do afecto nutriente saciam-se as “fomes” , tantas vezes sinónimo de tristeza, frustração, insegurança e ansiedade.

Retomado o crescimento (suspenso), é possível ver além do horizonte limitado por medos e dificuldades que se sobrepõem umas às outras. A esperança no Outro renova-se, e com ela, a possibilidade de criação de um novo sentido.

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