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Do Domínio ao Abuso Narcisista Pedro Martins Psicólogo Clínico Psicoterapeuta

Do Domínio ao Abuso Narcisista

Mães-Filhas – Do Domínio ao Abuso Narcisista

Toda a mulher que alcança a condição de mãe vê-se confrontada com dois modelos de realização, que correspondem a aspirações geralmente contraditórias: ou mãe, ou mulher.

É verdade que estes dois modelos podem coexistir numa mesma pessoa, numa mesma identidade, num mesmo corpo.

Mas existem mulheres que se tornam quase exclusivamente mães, demitindo-se do seu papel de mulher.

A patologia do apego consiste em dar ao filho (bebé) todo o espaço, exercendo uma omnipotência sobre um ser totalmente dependente, exigindo em troca uma entrega igualmente infinita.

Ruth Klüger: “Só as crianças são mais dependentes que (algumas) as mulheres, é por isso que as mães são muitas vezes tão dependentes da dependência dos seus filhos em relação a elas.”

Devido à dependência total, embora transitória, os bebés de ambos os géneros esperam dedicação total da mãe.

Para a menina a mãe é também sua semelhante.

É por isso que a dependência originária não tem a mesma ressonância e não terá as mesmas consequências para cada um dos géneros.

Por esse mesma razão, observaremos esta questão, maioritariamente, na relação mãe-filha.

Nos primeiros meses de vida, a chegada de uma criança exige muito tempo e atenção, até mesmo uma certa abnegação.

Mas isso não é motivo para que uma mulher tenha por missão dedicar-se exclusivamente à filha, nem, sobretudo, obter a satisfação que deveria sentir ou reencontrar junto do parceiro.

Pelo contrário, muitas encontram a sua razão de viver na simbiose com a filha-espelho, tendo o pai sido reduzido, no melhor dos casos à transparência ou – no pior – à condição de obstáculo a ser removido.

 

O abuso narcisista é também um “abuso identitário” porquanto os filhos são despojados da sua própria identidade

 

Totalmente dedicada à filha – mas sobretudo através da filha, a si mesma e aos seus sonhos de grandeza – afasta-se do parceiro.

O lugar do pai junto da filha é inexistente pois a mãe apropriou-se da criança.

A filha é apenas o brinquedo passivo do abuso narcisista, o objecto indefeso do todo-poderoso amor devorador da mãe.

Protegido pelas virtudes da maternidade, e depois de ter “despachado” o pai, a mãe pode usar a criança para projectar nela as suas próprias fantasias de sucesso – glória e amor total – que ela não conseguiu realizar na sua vida de mulher.

Embora também exista domínio da mãe sobre o menino, é antes de tudo sobre a filha que ela se exerce, nas formas mais obscuras e mais arcaicas, chegando por vezes à violência.

Obrigação de conformidade aos modelos, depreciação do sexo feminino, imposição de segredos, culpabilizações e intrusões de toda a ordem são as formas mais visíveis – entre as quais, a confusão de identidades constitui provavelmente a forma mais subtil, mas também a mais perigosa.

 

A filha é o brinquedo passivo e indefeso do abuso do todo-poderoso amor devorador da mãe.

 

O “abuso narcisista” da criança pelos pais e, em particular, pela mãe, é a projecção do progenitor sobre a criança.

Os dons da criança são explorados, não para desenvolver os seus próprios recursos, mas para satisfazer as necessidades de gratificação dos pais.

Mas, se o abuso narcisista pode adoptar várias configurações:

– pai-filho, mãe-filho, pai-filha, mãe-filha – é no entanto esta última que assume as formas mais puras e devastadoras.

O abuso narcisista é também um “abuso identitário”, sendo que os filhos são colocados num lugar que não é o seu.

E, ao mesmo tempo, despojados da sua própria identidade justamente por aquela – a mãe – que tem a responsabilidade de ajudar a construí-la.

Sejam quais forem as causas, é muito provável que o resultado, para as meninas, seja a reprodução da insatisfação materna.

Pois o sobre-investimento pela mãe vem acompanhado de um défice de amor real, que a criança transforma em falta de auto-estima,

A insaciável busca de reconhecimento e necessidade de amor nunca é apaziguada.

 

(continuação no artigo: Conquistar o Amor da Mãe Narcisista)

Bibliografia: Meres-Filles ; Une Relation A Trois – Caroline Eliacheff e Nathalie Heinich

Ter noção das dificuldades dá confiança. Pedro Martins Psicoterapeuta

Ter Noção das Dificuldades dá Confiança

Uma das maiores fontes de desespero é a crença de que as coisas deveriam ter sido mais fáceis do que, na verdade, acabaram por ser.

Não desistimos somente porque as coisas são difíceis, mas porque não esperávamos que fossem assim.

O grande esforço implicado é interpretado como uma prova humilhadora de que não temos o talento necessário para concretizarmos os nossos desejos.

Tornamo-nos submissos e tímidos e acabamos por nos render, porque sentimos que uma luta tão grande só existe para nós.

Parece que para os outros é tudo mais fácil.

A capacidade de permanecer confiante depende, em grande medida, de se internalizar a narrativa correcta sobre as dificuldades que, provavelmente vamos encontrar.

E, no entanto, infelizmente, as narrativas que temos à mão são – por diversas razões – profundamente enganadoras.

Estamos cercados de histórias de sucesso que conspiram para fazer com que o êxito pareça mais fácil do que de facto é.

Portanto, acaba por involuntariamente destruir a nossa confiança diante dos nossos obstáculos.

 

Parece que para os outros é tudo mais fácil. Mas não é.

 

Algumas das explicações para o predomínio de narrativas optimistas são benignas.

Se disséssemos a uma criança o que lhe está reservado – momentos de solidão, relações instáveis, empregos insatisfatórios, etc., – ela poderia atemorizar-se e desistir.

Preferimos ler-lhe as aventuras do coelhinho “Miffy e os seus amigos”.

De outro ângulo, as razões para o silêncio em torno das dificuldades são um pouco mais egoístas:

– Procurar impressionar as pessoas.

O artista aclamado ou o empresário de sucesso esforça-se para disfarçar a energia implicada, e fazer com que seu trabalho pareça simples, natural e óbvio.

Sem sabermos detalhadamente o que implica desenvolver um projecto, não nos podemos posicionar correctamente em relação às nossas derrotas.

Como não sabemos o suficiente sobre o percurso espinhoso daqueles que admiramos, não perdoamos a forma trágica como correram as nossas primeiras tentativas.

Certas sociedades têm sido mais sábias do que as nossas em evidenciar a nobreza implicada nos esforços.

A confiança não é a crença de que não vamos encontrar obstáculos.

É o reconhecimento de que as dificuldades são uma parte inevitável de todos os projectos importantes.

É necessário que as pessoas saibam que a ansiedade, a dor e o desapontamento estão presentes nas vidas bem-sucedidas.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de Alain de Botton

Por que algumas pessoas têm tanta dificuldade de admitir os seus erros - Pedro Martins Psicoterapeuta

Por que algumas pessoas têm tanta dificuldade de admitir os seus erros?

Todos cometemos erros com alguma regularidade.

Alguns erros são pequenos, como: “Não, não é preciso pararmos no supermercado, há leite que chegue para o pequeno-almoço”.

Alguns maiores, como: “Não é preciso andarmos a correr; temos tempo de sobra para chegar ao aeroporto e fazermos o check-in tranquilamente”.

Outros com grandes implicações, como: “Eu sei que estava escuro e a chover, mas tenho certeza de que foi este homem que arrombou a casa do outro lado da rua”.

Ninguém gosta de estar errado. É uma experiência emocional desagradável.

A questão é:

Como respondemos quando descobrimos que estávamos errados?

Quando não havia leite suficiente para o pequeno-almoço; quando apanhámos trânsito e perdemos o voo, ou quando descobrimos que devido à nossa identificação um homem inocente foi preso.

Alguns de nós admitimos que estávamos errados e dizemos: “Oops, tu estavas certa. Deveríamos ter comprado leite”.

Alguns de nós insinuamos que estávamos errados, mas não o fazemos explicitamente ou de uma maneira que seja satisfatória para a outra pessoa: “Tínhamos muito tempo para chegar ao aeroporto a horas, o problema foi o trânsito estar invulgarmente caótico. Mas tudo bem, para a próxima saímos mais cedo.

Mas algumas pessoas recusam admitir que estão erradas, mesmo diante de evidências esmagadoras: “Eles libertaram-no devido aos testes de DNA e à confissão do responsável? Ridículo! Tenho a certeza que foi ele; eu vi que foi ele!”

O que é que psicologicamente torna impossível admitir os erros? O Ego

Os dois primeiros exemplos são, provavelmente, familiares para a maioria de nós, porque são respostas típicas aos nossos erros.

Aceitamos a responsabilidade total ou parcialmente (às vezes, muito, muito parcialmente), mas não contrariamos os factos.

Não alegamos que havia leite suficiente quando não havia, ou que não estávamos atrasados para ir para o aeroporto.

Mas o que leva as pessoas a reagir contra os factos; a não admitir que estavam erradas em qualquer circunstância?

O que é que psicologicamente torna impossível admitir que estavam erradas, mesmo quando é óbvio que estavam?

E porque é que sistematicamente não admitem que estavam erradas?

A resposta está relacionada com o seu ego.

Algumas pessoas têm um ego tão frágil, uma auto-estima tão baixa, uma constituição psicológica tão fraca, que admitir que cometeram um erro ou que estavam erradas é insuportável para os seus egos.

Aceitar que estavam errados, lidar essa realidade, seria tão catastrófico psicologicamente, que a mente faz algo notável para evitar isso:

– Literalmente, distorce a percepção da realidade.

Dessa forma protegem o ego frágil, mudando os próprios factos na sua mente, para que não estejam errados ou sejam culpados.

Nesse sentido, fazem afirmações do tipo:

“Eu verifiquei e havia leite suficiente, alguém deve ter bebido”.

Quando lhes é dito que ninguém esteve em casa depois de saírem, logo, ninguém poderia ter bebido o leite, eles insistem:

“Alguém deve ter bebido, porque eu verifiquei e havia leite”.

As pessoas que repetidamente exibem esse tipo de comportamento são, por definição, psicologicamente muito frágeis.

A rigidez psicológica que apresentam não é um sinal de força, antes uma indicação de fraqueza.

Aliás, a rigidez psicológica, é, regra geral, sinal de fragilidade.

Estas pessoas não decidem manter-se firmes; são obrigadas a fazer isso para protegerem os seus egos frágeis.

Para admitir os nossos erros é necessária uma certa capacidade emocional.

Normalmente ficamos aborrecidos quando erramos, mas superamos isso.

Entre os que superam os erros, temos uns que o fazem com muita dificuldade: os perfeccionistas.

Mas quando as pessoas são constitucionalmente incapazes de admitir que erraram, quando não conseguem tolerar a ideia de que podem cometer erros, é porque têm um ego demasiado frágil para superar o sentimento de que falharam.

Daí terem que deformar a própria percepção da realidade e contestar factos óbvios no sentido de se defenderem de forma rígida contra a realidade.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins a partir de:

Why It’s So Hard for Some People to Admit They Were Wrong – Guy Winch

Raiva Narcísica Pedro Martins - Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Raiva Narcísica

A raiva narcísica é uma agressividade maligna, oriunda do ódio ou da hostilidade e geradora da mais temível, destruidora e verdadeira violência – porque uma violência que não pára, dificilmente se esgota e permanentemente se reconstitui.

Esta agressividade é uma reacção ao amor-próprio ferido, ou melhor, à ferida do amor-próprio.

Ao homem não lhe chega ser amado. Precisa não só de amor, como de apreço, admiração, consideração e respeito.

A primeira condição para a organização de uma regular auto-estima, de um normal narcisismo, é o facto – o acontecimento – de ser amado, de ter sido bem-amado. Só tendo sido amado, o indivíduo se ama a si próprio; e amando-se a si mesmo, pode amar o outro.

Mas ao homem não lhe chega ser amado – ter a certeza que tem um lugar no coração daqueles que ama. Precisa – como de pão para a boca -, não só de amor, como de apreço e até de admiração; assim como de consideração e respeito.

Frustrar a pessoa nesta necessidade narcísica é desencadear-lhe uma raiva – dita raiva narcísica – que, inundando toda a personalidade, vai alimentar profundos sentimentos agressivos, traduzidos por inveja, desprezo e desejo de eliminação dos considerados superiores.

O indivíduo com baixa auto-estima é sempre um potencial agressor.

Humilhado, o indivíduo desenvolve uma ferocidade silenciosa mas altamente destruidora e mesmo mortífera.

O acúmulo de ferimentos narcíseos torna o indivíduo mais sensível aos ataques à auto-estima e menos resistente aos seus efeitos devastadores no tónus narcísico (auto-estima básica).

Forma-se uma estrutura narcísica de baixa imunidade e de debilidade narcíseas – com grande intolerância às injúrias ao amor-próprio e um despertar fácil de comportamentos agressivos.

O indivíduo com baixa auto-estima é sempre um potencial agressor. Basta que se conjuguem a provocação e a condição de ser ou se julgar o mais forte.Por aqui se vê quão perigoso é socialmente.

Perigosidade maior porque ataca sempre o mais fraco dado o seu sentimento de inferioridade. É deste terreno que saem os tiranos, os pais violentos e os chefes despóticos.

A criança adquire muito cedo a noção do que é justo ou injusto. Tratada com injustiça, desenvolve um profundo ressentimento.

O ressentimento conduz ao desejo de vingança e à necessidade de reparação (de ser reparado). A acumulação de ressentimento conduz a uma atitude paranóide, querelante e reivindicativa.

DEFINIÇÃO E GÉNESE

A raiva narcísica é a fúria desencadeada pela frustração intolerável. Em face da expectativa enganadora que lhe foi criada pelo outro (falsa promessa), sobretudo quando reiterado, o indivíduo reage com grande sentimento de raiva; sente-se ludibriado.

Muito mais que a privação ou a perda afectiva, o que está em causa na génese do ódio e da raiva é a frustração, designadamente a frustração afectiva: o não aparecimento do amor anunciado.

A vivência repetida ou crónica de frustração afectiva é, por conseguinte, a matriz da hostilidade.

DESENVOLVIMENTO

A desvalorização e desqualificação, a ridicularização e a humilhação vão, seguidamente, condicionar o desenvolvimento da raiva narcísica.

É, com efeito, pela acção destas atitudes do outro ou dos outros que a ferida narcísica se vai alargando, cronicizando, transformando uma verdadeira chaga.

E assim se vai criando um sentimento crónico de orgulho/amor-próprio feridos, alimentando uma raiva constante, sempre pronta a desfechar em violência destrutiva e mortífera.

O homem não nasce violento. É a sociedade que o faz violento.

Porém, pela sua extensa memória, o seu amor-próprio e o seu sentimento de justiça, é potencialmente o ser mais violento.

Está nas mãos da cultura envolvê-lo de afecto, apreço e respeito, e, assim, atacar as raízes da violência.

Bibliografia:

– “Violência Inconsciente” – A. Coimbra de Matos

– “Génese, desenvolvimento e reprodução da violência” – A. Coimbra de Matos

orgulho, vaidade, psicoterapia,

Orgulho ou Vaidade? Descubra as diferenças

O Homem é essencialmente um animal narcísico – que se admira e precisa ser admirado. A sua qualidade é o orgulho; o seu defeito a vaidade.

O bom narcisismo assenta num sentimento de dignidade pessoal. A deficiência narcísica, o sentimento de vacuidade, de vazio e miséria interiores conduz à vaidade.

O orgulho tem brio, porque assume a plenitude do seu ser; senhor do seu amor-próprio e do seu valor social.

O vaidoso pinta-se com tinta brilhante para esconder as mazelas, as máculas da auto-imagem; como é pouco, assenhora-se de apetrechos que o possam fazer brilhar; a sua problemática é a de o ter – para suprimir aquilo que não é.

 

“O orgulhoso tem brio, o vaidoso procura brilhar.”

 

O orgulhoso, seguro de si deixa-se observar; o vaidoso, inseguro mas desejoso de mostrar o contrário, exibe-se. O orgulhoso tem brio, o vaidoso procura brilhar.

Esta distinção entre orgulho e vaidade procura tão-somente salientar o que há de diferente entre o narcisismo positivo (amor a si próprio), decorrente de um bom investimento de si mesmo, e o narcisismo negativo (aversão a si próprio), condicionado por um deficiente investimento de si próprio e que acarreta frequentemente um mecanismo de supercompensação com a construção ilusória de uma auto-imagem grandiosa.

O processo de compensação narcísica pela grandiosidade, pela exaltação ilusória da auto-imagem é como um prémio de consolação que o indivíduo atribui a si mesmo pelo facto de não se ter sentido e sentir suficientemente amado e admirado pelos outros (reconhecido no seu próprio valor).

Resulta, pois, da necessidade de reparar pelos seus próprios meios o insuficiente investimento que recebeu e que recebe dos outros – não amado nem admirado, é ele próprio a amar e admirar a sua imagem reflectida pelo espelho: necessariamente má porque, à partida, não apreciada pelo olhar do outro (não desencadeou o espanto e o desejo) e que, por isso mesmo, ele procura artificialmente valorizar (retoques, exibição) para retomar a finalidade primeira, ser desejado.

Em última análise, o narcísico enamora-se de si mesmo em razão de não ser ou não se sentir objecto do enamoramento do outro.

 

Bibliografia: Matos, A. C. (2001). A Depressão. Lisboa: Climepsi Editores

Triste e sem saber porquê Pode estar deprimido psicoterapia

Triste e sem saber porquê? Pode estar deprimido

A tristeza aparece quando se perde algo ou alguém a que se estava fortemente ligado.

Quando esse algo que se perdeu era já tido como uma posse incerta ou duvidosa, só mantida por uma convicção ligada a certa omnipotência, a tristeza é sentida, mas negada a realidade da perda – ou, mais precisamente, negado o sentimento de perda.

“A Depressão é a negação do sentimento de perda.”

E assim se instala a depressão. A depressão é, pois, a negação do sentimento de perda; está-se triste sem se saber porquê.

Quando se perdeu alguém de quem se estava dependente, mas cuja dependência era sentida como uma inferioridade pessoal, da mesma forma a tristeza é sentida, mas negado o sentimento de perda. E, pela mesma razão, se instala um quadro depressivo.

Por conseguinte, a depressão é uma tristeza cujo o motivo se procura negar para manter incólume o narcisismo, a auto-imagem.

Mas negando o sentimento de perda, o trabalho de luto não se faz: a tristeza mantém-se, a depressão arrasta-se.

A cura da depressão passará, portanto, pela realização de um trabalho de luto que está bloqueado: pela consciencialização, aceitação e elaboração da perda; sobretudo, pela vivência e aceitação do sentimento de perda.

Portanto, enquanto no luto normal há propriamente uma perda de alguém, na depressão ou luto patológico há uma perda narcísica, uma perda de auto-estima.

O depressivo é um indivíduo em deficiência narcísica. O seu mundo – das coisas e das pessoas – serve para confirmar ou infirmar, avaliar, medir o seu valor próprio: é o espelho da sua auto-representação. O indivíduo vê-se no efeito que produz à sua volta, no reflexo da circunstância, na admiração e amor que desperta nos outros.

O défice narcísico, em consequência, acompanha-se sempre de uma faceta exibicionista. Ainda que de um exibicionismo tímido, envergonhado, dado o sentimento de inferioridade que caracteriza a estrutura depressiva.

Compreendemos agora melhor a reacção à perda nestas personalidades: a perda é negada para evitar o ferimento narcísico, para evitar o sentimento de lesão da auto-estima.

A auto-estima já de si pobre não pode expor-se a novo empobrecimento; por isso a consciência procura ignorá-lo. Mas a realidade impõe-se, e lá está a depressão para o evidenciar.

E, por micro-depressões sucessivas, o quadro de depressão crónica – latente, manifesta ou mascarada – vai-se agravando. Esta é a história existencial da personalidade depressiva.

 

Bibliografia: Matos, A. C. (2001). A Depressão. Lisboa: Climepsi Editores

Elogio – melhor que receber só mesmo merecer

Elogio – melhor que receber só mesmo merecer

Há coisas onde as crianças não diferem muito dos adultos: a satisfação de receber um elogio. Em ambos os casos o elogio pode não ser merecido, mas no que diz respeito aos filhos, os pais têm sempre um elogio “gratuito” para um poema horrível, para uma performance musical de arrepiar ou para um golo a 20 metros da baliza.

Confiança -, dizem. – É preciso que ganhem auto-confiança para triunfarem na vida. Será que o elogio incondicional gera confiança ou dependência?

As crianças e os jovens gostam de sonhar com conquistas mirabolantes e aplausos intermináveis. No entanto, fazem-no muito mais pelo prazer do devaneio do que pelo desejo real de concretização. Por seu lado, os pais, investem (por vezes na pior acepção da palavra) de corpo e alma nos sonhos dos filhos (ou seus) exponenciando os seus dotes de forma desmesurada.

Os pais estão convencidos que para os filhos triunfarem precisam confiar cegamente nas suas qualidades, esquecendo que sem esforço nada se consegue. Assim, mesmo sem se justificarem, os pais desfazem-se em aplausos.

O problema é que os elogios incondicionais em vez de produzirem auto-confiança provocam dependência: os filhos ficam dependentes da aprovação dos pais e, mais tarde, dos outros. Escravos desta situação, invertem as prioridades: em vez de se esforçarem na concretização dos seus desejos, buscam os elogios.

Hoje, os filhos são o centro da vida de muitos pais e, ainda que encontremos aí um enorme altruísmo, na verdade, está também um grande vazio, que os pais procuram preencher através dos filhos. Isto acaba por gerar uma  dependência desigual: os filhos tornam-se importantes para os pais e os pais indispensáveis para os filhos. Cada passo que o filho dá tem que ser antecedido de um sms de autorização/aprovação.

A visão actual sobre as crianças é muito diferente e, como normalmente acontece, para as compensar de todo o mal que lhes provocámos, passa-se para o outro extremo: endeusamento. Talvez as coisas não sejam assim tão simples e esse endeusamento tenha um preço elevado e, já lhes esteja a ser cobrado.

As crianças são o futuro, é incontestável. Não quererá isso também dizer que lhes colocamos a responsabilidade de compensarem as nossas falhas e fracassos? Não andaremos à procura de um orgulho retroactivo?

psicólogo clínico

A diferença entre Auto-estima e Narcisismo

Um elevado narcisismo não é o mesmo que uma elevada auto-estima. “Entre eles existe apenas uma fraca relação”.

Brummelman e seus colegas descobriram que quando as mães e os pais são calorosos e afectuosos, passam tempo com os seus filhos e mostram interesse pelas suas actividades, “as crianças gradualmente interiorizam a crença de que são indivíduos meritórios – o núcleo da auto-estima -, e isso não se transforma em narcisismo.

Em contrapartida, a sobrevalorização dos pais – colocar as crianças num pedestal – promove traços narcisistas. Nesse sentido, é melhor os pais dizerem às crianças: “fizeste um bom trabalho”, em vez de: “mereceste ganhar” ou “porque é não foste tão bom quanto ela?”

Um foco precoce e pronunciado sobre o sucesso pode levar a um apego inseguro entre os pais e os filhos. Pode fazer com que os filhos apreendam que o amor e a atenção de uma mãe ou de um pai só estão disponíveis se as expectativas elevadas forem atingidas.

As crianças que sentem que nunca conseguem corresponder aos desejos dos pais podem tornar-se adultos com um ego frágil e ficarem presos a pensamentos e comportamentos narcisistas de forma a suster o ego.

Ludden refere que os pais que criam narcisistas, “apresentam aos seus filhos um mundo onde tudo é uma competição : Há vencedores e perdedores e tu tens que ser o vencedor.” Uma abordagem mais saudável seria ensinar as crianças que “elas não têm que ser o melhor, mas apenas o melhor que podem ser.”

psicoterapia

As Várias Caras do Narcisismo

As várias caras do narcisismo

A cultura popular recorre há muito tempo a traços narcisistas para construir personagens problemáticos, desde Dorian Gray (Oscar Wilde) a Don Draper (série Mad Man). Gaston de “A Bela e o Monstro” apresenta um modelo apatetado, mas razoavelmente válido de grandiosidade, provavelmente a característica mais reconhecível em pessoas com um elevado narcisismo ou com Distúrbio Narcísico da Personalidade – NPD.

Esse fanfarrão corajoso – Gaston – canta: “Como espécime, sim, sou intimidador!… Como vês, eu tenho bíceps de sobra!… Eu sou especialmente bom a cuspir!… E não há bocadinho de mim que não esteja coberto de cabelo. ” Os narcisistas podem realmente ver-se como estando no topo – em termos de talento, aparência e sucesso.

Mas é um erro supor que todos os narcisistas são assim tão óbvios. “Nem todos os narcisistas se preocupam com a aparência, a fama ou o dinheiro”, refere Malkin. “Se nos concentrarmos muito no estereótipo, perdemos muitas características que não têm nada a ver com a vaidade ou com a ganância”.

Alguns narcisistas, por exemplo, podem ser da variedade “comum”, e na verdade dedicarem as suas vidas a ajudar os outros.

Podem até concordar com declarações como: “Eu sou a pessoa mais prestativa que eu conheço” ou “Eu serei recordado pelas boas acções que fiz”. “Todos nós temos conhecimento de mártires grandiosamente altruístas, abnegados até o ponto de não suportarmos estar com eles”, refere Malkin.

E há narcisistas altamente introvertidos, ou “vulneráveis”. Esses indivíduos sentem que são temperamentalmente mais sensíveis do que os outros. Reagem mal (até) a pequenas críticas e precisam de reafirmação constante. A forma como se sentem especiais pode ser negativa: podem ver-se como a pessoa mais feia da festa ou sentir-se como um génio incompreendido num mundo que recusa reconhecer os seus dons.

O que todos os subtipos de narcisistas têm em comum, refere Malkin, é “auto-aprimoramento”. Os pensamentos, comportamentos e as suas posições separam-nos dos outros, e esse sentimento de distinção acalma-os, porque eles estão em luta com um entendimento instável que fazem de si mesmos.

“Os narcisistas sentem-se superiores aos outros”, refere Brummelman, “mas não estão, necessariamente, satisfeitos consigo mesmos como pessoa”.

Uma ligação à Depressão

A luta entre sentirem-se superiores e ao mesmo tempo insatisfeitos consigo mesmos, está no cerne de uma nova concepção de narcisismo, centrada tanto na depressão quanto na grandiosidade.

“A hipótese que se coloca é que os narcisistas são propensos a altos mais altos e baixos mais baixos”, refere Seth Rosenthal ” tem a constante necessidade de ter a sua grandeza verificada pelo mundo à sua volta. Mas quando contactam com a realidade, podem ficar deprimidos.”

Um retrocesso, como a perda de emprego, um divórcio, ou até mesmo o desprezo por algo que tinham planeado, afecta a auto-imagem cuidadosamente polida do indivíduo narcisista, “este é um verdadeiro ataque contra quem ele é”, refere Steven Huprich. “Alguém que ele pensava que iria confiar nele presentemente não o aprecia muito e não está disposto a suportá-lo mais. Não é de estranhar que ele se encontre mais em baixo e deprimido.”

Naturalmente, mesmo pessoas com estados mentais saudáveis lutam para lidar com tais mudanças dramáticas, refere Huprich, “mas para as personalidades narcisistas, a perda é realmente muito difícil, porque sugere vulnerabilidade e fraqueza. Isso indica que você não está realmente imune aos desafios da vida, os altos e baixos.”

Nesses momentos o narcisista também pode exibir uma atitude defensiva e de raiva. “Quando não recebem a admiração que desejam, sentem-se envergonhados e atacam agressivamente”, refere Brummelman. Outros, provavelmente, não terão o mesmo tipo de explosões agressivas.

Quando uma decepção rasga a camada espessa de grandiosidade narcísica e auto-promoção, e penetra no seu núcleo, a melancolia resultante ou a fúria explosiva pode motivá-los a procurar ajuda externa.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), de facto, aconselha os clínicos que indivíduos com NPD podem apresentar um humor deprimido. No entanto é raro procurarem tratamento para o seu narcisismo. “Eu nunca ouvi ninguém dizer, ‘Eu acho que sou uma personalidade narcisista'”, refere Huprich.

Isso não significa que os narcisistas não têm consciência do seu traço. Um estudo de 2011 publicado no Journal of Personality and Social Psychology com um título provocador, “Você, provavelmente, acha que este artigo é sobre si” – relatou que os narcisistas tinham uma percepção sobre a sua personalidade: Eles descreveram-se como arrogantes e sabiam que os outros os viam de forma menos positiva do que eles próprios se viam.

Mas geralmente não vêem isso como um problema, e a questão continua sobre se a sua grandiosidade reflecte uma crença rígida na sua superioridade ou mascara uma ausência subjacente da auto-confiança.

Ao longo de anos de pesquisa, Huprich e os seus colegas desenvolveram um conceito que pode ter uma relação com o narcisismo. Designaram-no de: “auto-estima maligna”. É uma explicação potencial para uma constelação de transtornos de personalidade não diagnosticáveis clinicamente com características sobrepostas, incluindo estilos de personalidade depressiva, auto-destrutiva e masoquista.

Aplicada mais amplamente aos subtipos narcisistas, a teoria sugere que a insegurança profundamente arraigada sobre o Eu e um senso extremamente frágil de auto-estima pode levar a pensamentos e comportamentos desajustados.

“As pessoas podem desenvolver uma auto-estima maligna no contexto dos seus relacionamentos.”

Os narcisistas extrovertidos exibem uma grandiosa procura de atenção. Os narcisistas vulneráveis, no entanto, simplesmente sucumbem à sua auto-imagem danificada. “Não são capazes de manter uma percepção coerente de quem são, então, quando são atacados, em vez de lutar, que é a primeira reacção do grandioso narcisista, eles têm uma reacção imediata de tristeza, de depleção e depressão” refere Huprich.

As pessoas podem desenvolver uma auto-estima maligna no contexto dos seus relacionamentos. Estes indivíduos podem ter tido experiências inconsistentes com os seus pais, relacionadas, em particular, com a forma como o sucesso e realização foram reconhecidos.

Os pais poderiam ter-se recusado a reconhecer ou a desencorajar as conquistas, tirando os óculos cor-de-rosa do narcisismo saudável que poderiam ter facilitado o caminho para os novos desafios na vida da criança.

As experiências da infância podem ter um papel primordial, mas os níveis elevados de traços de narcisismo ou NPD resultam da influência combinada da natureza e do ambiente.”Existem traços de personalidade que vêm ao mundo connosco”, refere Kali Trzesniewski. O ambiente pode enfraquecer ou fortalecer esses traços.

Os resultados de um estudo com gémeos indicaram que o narcisismo era um traço altamente hereditário. Noutro estudo verificou-se que as crianças em idade pré-escolar agressivas e que procuravam atenção eram mais propensas a tornarem-se adultos narcisistas.

Os estilos parentais, a influência de outras relações e os ambientes sociais e culturais podem encorajar (ou deter) o seu desenvolvimento.

Um elevado narcisismo não é o mesmo que uma elevada auto-estima. “Entre eles existe apenas uma fraca relação”.

Brummelman e seus colegas descobriram que quando as mães e os pais são calorosos e afetuosos, passam tempo com os seus filhos e mostram interesse pelas suas actividades, “as crianças gradualmente interiorizam a crença de que são indivíduos meritórios – o núcleo da auto-estima -, e isso não se transforma em narcisismo.

Em contrapartida, a sobrevalorização dos pais – colocar as crianças num pedestal – promove traços narcisistas.

Para evitar o aumento de narcisistas, é melhor os pais dizerem às crianças: “fizeste um bom trabalho”, em vez de: “mereceste ganhar” ou “porque é não foste tão bom quanto ela?”

Um foco precoce e pronunciado sobre o sucesso pode levar a um apego inseguro entre os pais e os filhos. Pode fazer com que os filhos apreendam que o amor e a atenção de uma mãe ou de um pai só estão disponíveis se as expectativas elevadas forem atingidas.

As crianças que sentem que nunca conseguem corresponder aos desejos dos pais podem tornar-se adultos com um ego frágil e ficarem presos a pensamentos e comportamentos narcisistas de forma a suster o ego.

Ludden refere que os pais que criam narcisistas, “apresentam aos seus filhos um mundo onde tudo é uma competição: “Há vencedores e perdedores e tu tens que ser o vencedor.” Uma abordagem mais saudável seria ensinar as crianças que “eles não têm que ser o melhor, mas apenas, o melhor que podem ser.”

Traduzido/adaptado por Pedro Martins
A partir de “The Real Narcissists” – Rebecca Webber

Narcisismo compensação narcísica. Pedro Martins Psicoterapeuta - Psicoterapia

Narcisismo: Compensação Narcísica

A prótese narcísica é uma forma de compensação por sentimentos (principalmente) de inferioridade.

Através desta estratégia de compensação o sujeito procura criar uma nova imagem de si através da correcção da falha (narcísica).

Uma vez que a falha se situa ao nível interno, este processo está condenado ao fracasso.

Por muitos pincéis e tintas que se use para retocar a imagem, por baixo ela mantém-se inalterada.

Esta tentativa de engrandecimento não passa de uma luta inglória, porque, apesar do esforço continuado, é uma espécie de remar contra a maré.

Os recursos em vez de serem colocados ao serviço do próprio são desperdiçados em manobras, muitas vezes desesperadas, de esconder – desse sujeito que se pretende grandioso – todas as imperfeições.

Ao não compreender mais profundamente os sentimentos de inferioridade não poderá ultrapassá-los.

Assim, vive confinado entre a imagem negativa e distorcida de si (porque só consegue ver-se parcialmente) e a imagem desejada de grandeza.

Flutuando entre uma coisa e outra, dará à costa trazido pela maré.

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