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Por que é tão difícil parar de consumir álcool e drogas Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Por que é tão difícil parar de consumir álcool e drogas?

Estar sobre o efeito de drogas pode permitir o aparecimento de partes de si que estão escondidas.

 

Os programas de tratamento de dependências têm uma taxa de insucesso alarmante, frequentemente atribuída aos poderosos efeitos químicos das drogas e do álcool.

No entanto, muitos consumidores nunca se tornam viciados – mesmo após um consumo prolongado.

Uma das razões pelas quais algumas pessoas recaem repetidamente é que, para elas, estar sobre o efeito de drogas permite-lhes expressar sentimentos que estão fora da consciência quando estão sóbrios.

Este aspecto é frequentemente negligenciado nos programas de tratamento: na sua luta para estarem sóbrios os toxicodependentes não só sentem falta de estarem “pedrados”, como também da forma como a substância facilita que partes despojadas do “eu” se possam exprimir.

 

O que são Partes Despojadas do Eu?

À medida que a nossa identidade se desenvolve, tendemos a sentir-nos mais confortáveis na expressão de certas partes de nós próprios-emoções e menos confortáveis com outras.

Na nossa cultura a expressão da agressividade é favorecida aos homens; já a vulnerabilidade não é muito bem vista.

Isto não significa que os homens não se sintam vulneráveis, mas não tomam muita consciência disso.

Uma pessoa criada numa família em que a agressividade não é bem aceite pode ter a tendência de negar sentimentos de zanga e de raiva, e comportar-se como se nada a atingisse.

O que acontece aos sentimentos que estamos relutantes em reconhecer?

Bem, eles não desaparecem simplesmente; ficam fora da consciência e muitas vezes não sabemos que eles continuam lá. Estas são as partes despojadas do Eu.

 

Estar sobre o efeito de drogas permite a expressão das partes despojadas do Eu

As drogas e o álcool podem libertar as nossas inibições, permitindo-nos expressar partes de nós próprios; sentimentos que normalmente escondemos.

 

Estar sobre o efeito de drogas facilita a expressão de sentimentos

 

Pense no cliché do homem macho que depois de uma “noite de copos” fica com os olhos em lágrimas, abraça o seu melhor amigo e diz-lhe o quanto gosta dele.

Neste cenário, a bebida permite a expressão de sentimentos que normalmente residem fora da consciência.

A pesquisa sobre o uso médico de várias drogas como a Ketamina, o LSD e o MDMA procura saber como estas drogas permitem o acesso a partes da personalidade que, de outra forma, estariam “sequestradas”.

Quando estes medicamentos são administrados num contexto terapêutico, ajudam as pessoas a compreender e a integrar partes do seu Eu que, de outra forma, seriam despojadas.

 

Beatriz

Beatriz é uma médica de sucesso que dedica muitas horas a tratar os seus pacientes.

Em casa, é a “pessoa de referência” para a sua família alargada; sempre que os seus familiares têm alguma dificuldade é a ela que recorrem para obter conselhos.

Quando está sóbria, Beatriz orgulha-se do seu importante papel na família, embora deseje secretamente ficar sozinha a ler um bom livro.

Quando bebe, Beatriz já não tem de assumir o papel da “forte”. À noite costuma ligar aos amigos e fica ao telefone com eles durante horas.

Diz-lhes como se sente sozinha e que não há ninguém que se preocupe e olhe por ela.

Quando está embriagada, Beatriz é capaz de expressar o seu anseio e desejo de ser cuidada.

Quando bebe consegue chorar por sentir-se sozinha, e pode sentir pena de ter crescido numa família onde era a mais velha de seis irmãos, e onde a mãe não chegava para todos.

 

O consumo de substâncias pode libertar as nossas inibições, permitindo-nos expressar partes de nós próprios

 

Sóbria, ela não tem acesso a esses sentimentos. Quando dizem a Beatriz sobre o que se conversou quando estava bêbeda, ela não se lembra.

 

Miguel

Miguel é um profissional de sucesso a trabalhar numa das empresas mais competitivas do seu ramo.

Ele está numa relação de “começa-acaba” com a sua namorada Joana.

Quando Miguel está sóbrio expressa com frequência o seu amor por Joana.

Embora esteja consciente da sua insatisfação em relação à entrega emocional da namorada, ele não se queixa.

Devido ao medo de ser abandonado, evita começar uma discussão.

A discórdia na casa dos pais de Miguel acabou por levar à dissolução do casamento.

Quando Miguel está sobre o efeito de uma combinação de álcool e marijuana, consegue facilmente expressar o seu descontentamento com a relação.

De volta ao medo de perder a Joana, ele desconsidera as partes zangadas e insatisfeitas de si mesmo.

Ele é incapaz de expressar as suas legítimas preocupações quando está sóbrio, uma altura em que seria mais capaz de ter uma discussão construtiva.

 

Para onde vamos a partir daqui

Apesar das repetidas tentativas de parar de consumir, Beatriz e Miguel caem frequentemente no mesmo.

Na terapia tentam “aprender” a tolerar sentimentos desconfortáveis.

Em vez de rejeitarem estas partes de si mesmos como sendo apenas “confusas”, têm de perceber que os seus sentimentos são legítimos – de facto, são aspectos muito importantes de quem eles são.

Se conseguirem encontrar uma forma de expressar as partes escondidas e despojadas de si próprios quando estão sóbrios, poderão mais facilmente sustentar a sobriedade.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

A partir de: Why Drugs and Alcohol Can Be So Hard to Quit – David Braucher

Procrastinação: dificuldade em gerir tempo ou emoções? Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Procrastinação: dificuldade em gerir tempo ou emoções?

A investigação tem procurado esclarecer se a procrastinação é uma dificuldade em gerir o tempo ou em lidar com as emoções.

Tim Pychyl, de Carleton University, no Canadá, e a sua colaboradora Fuschia Sirois, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, propuseram que a procrastinação é uma dificuldade em lidar com as emoções, e não o tempo.

Adiamos uma tarefa porque ela faz-nos sentir mal – talvez seja chata, complicada ou estamos com medo de não a conseguirmos fazer bem, ou seja, do fracasso – e para nos sentirmos melhor (nesse momento) começamos a fazer outra coisa.

Uma das primeiras investigações a relacionar as emoções com a procrastinação foi publicada em 2001 por pesquisadores da Case Western Reserve University, no Ohio.

Ao pedirem às pessoas que lessem histórias tristes (tarefa) induziram-lhes sentimentos negativos.

Posteriormente, verificaram que isso aumentava a sua tendência para procrastinar,

Isso levou os participantes a distraíram-se com quebra-cabeças ou a jogar videojogos em vez de se prepararem para o teste de inteligência que estava incluído na investigação e do qual foram previamente informados.

Estudos subsequentes da mesma equipa mostraram que os sentimentos negativos só aumentam a procrastinação se estiverem disponíveis actividades agradáveis para se distraírem, e apenas se as pessoas acreditarem que podem mudar o seu humor.

Em investigações onde os sujeitos não contemplavam possibilidade de alterar o seu humor, não se verificou um adiamento da tarefa.

 

A tendência a procrastinar está associada à dificuldade em lidar com as emoções

 

A teoria da regulação emocional da procrastinação faz sentido de forma intuitiva.

A perspectiva da procrastinação como regulador emocional ajuda a explicar alguns novos e estranhos fenómenos, como a moda de assistir a vídeos de gatinhos, que tiveram milhões de visualizações no YouTube.

Uma pesquisa envolvendo milhares de pessoas, efectuada por Jessica Myrick, da Universidade de Indiana, confirmou a procrastinação como um motivo comum para ver os vídeos de gatos e que vê-los levou a uma melhoria do humor.

A pesquisa de Myrick também destacou outro aspecto emocional associado à procrastinação – a culpa.

Muitos dos inquiridos sentiam-se culpados depois de verem os vídeos dos gatos.

Isso mostra como a procrastinação é uma estratégia de regulação emocional ineficaz.

Embora possa trazer alívio a curto prazo, ela apenas adia os problemas para mais tarde.

Em certos casos, ao retardar o trabalho as pessoas começam a sentir mais stress, culpa e frustração.

Talvez não cause admiração que a pesquisa de Fuschia Sirois tenha mostrado que a procrastinação sistemática está associada a uma série de consequências na saúde física e mental, incluindo ansiedade, depressão, infecções e doenças cardiovasculares.

Sirois acredita que a procrastinação tem estas consequências adversas através de duas vias:

  1. a) – É stressante continuar a adiar tarefas importantes e não cumprir os objectivos
  2. b) – A procrastinação geralmente retarda comportamentos saudáveis, tais como fazer exercício físico ou consultar um médico.

Ao longo do tempo, o stress elevado e a ausência de comportamentos saudáveis teem um efeito negativo na saúde.

Isto significa que superar a procrastinação pode ter um impacto positivo na vida das pessoas.

A pesquisa de Sirois sugere que “diminuir a tendência de procrastinar sistematicamente em 1 ponto [numa escala de 5 pontos de procrastinação] significaria (potencialmente) que o seu risco de ter problemas de saúde cardíaca se reduziria em 63%”.

 

A procrastinação é uma estratégia de regulação emocional ineficaz

 

Outro dado importante das pesquisas indica que aqueles que procrastinam mais tendem a ter uma inflexibilidade psicológica:

– definida como o domínio rígido de certas reacções psicológicas sobre os valores pessoais na orientação das acções.

O estudo de Nikolett Eisenbeck e seus colegas, publicado no Journal of Contextual Behavioral Science, indica que os níveis mais altos de procrastinação estavam relacionados com um elevado sofrimento psicológico.

Tanto a procrastinação como a angústia foram associadas à inflexibilidade psicológica.

Além disso, a inflexibilidade psicológica mediou a relação entre o sofrimento psicológico e a procrastinação.

Este papel mediador foi observado nos três estados emocionais negativos: depressão, ansiedade e stress.

Estes resultados indicam a existência de uma ligação entre que os estados emocionais negativos e a procrastinação.

Outras pesquisas, mas também a experiência vivida, mostram muito claramente que, uma vez começada uma tarefa, normalmente somos capazes de continuar. Começar não é tudo, mas pode ser uma grande ajuda.

Aborde os verdadeiros motivos pelos quais procrastina e é provável que comece a alcançar os seus objectivos de forma mais rápida e menos angustiante.

psicoterapia

Processar as Emoções

É um capricho das mentes que nem todas as nossas emoções sejam plenamente reconhecidas, compreendidas ou mesmo, verdadeiramente sentidas.

Existem sentimentos que se encontram numa forma “não processada” dentro de nós.

Muitas inquietações podem, por exemplo, permanecer sem autorização de acesso e de interpretação. Nesse caso, é possível que se manifestem sobre a forma de ansiedade generalizada.

Sob a sua influência, podemos sentir medo de passarmos tempo sozinhos, uma compulsiva necessidade de permanecermos ocupados, ou ficarmos presos a actividades que garantam que nos mantemos afastados do que nos assusta.

Um tipo semelhante de desaprovação pode acontecer em torno da mágoa.

Alguém pode ter abusado da nossa confiança e levar-nos a duvidar da sua bondade, ou afectado a nossa auto-estima.

A dor está algures dentro de nós, mas à superfície adoptamos uma frágil alegria; entorpecemo-nos quimicamente ou então adoptamos um tom de cinismo generalizado que mascara a ferida que nos foi infligida.

Pagamos caro por não “processar” os nossos sentimentos.

As nossas mentes crescem apreensivas quanto ao seu conteúdo. Não conseguimos dormir porque durante o dia não processámos certos sentimentos – a insónia é a vingança dos pensamentos que por serem omitidos, não foram processados durante dia.

Ficamos deprimidos com tudo, porque não podemos ficar tristes com nada.

Evitamos processar emoções porque o que sentimos é tão contrário à nossa auto-imagem, tão ameaçador para as ideias que a nossa sociedade tem de normalidade e tão em desacordo com quem gostaríamos de ser.

Uma atmosfera propícia ao processamento seria aquela em que as dificuldades do ser humano fossem calorosamente reconhecidas e amavelmente aceites.

Não é por preguiça ou desleixo que não nos conhecemos, mas porque tememos que seja doloroso.

Processar emoções requer bons amigos, psicoterapeutas competentes e momentos para reflectir.

Então, podemos baixar as nossas defesas (normais) de forma segura e permitir que o material venha à superfície e seja explorado.

Muitas vezes tomamos consciência que, numa área ou outra, a vida não é o que gostaríamos que fosse. Mas só aceitando e processando essas emoções, o nosso estado anímico pode melhorar.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins
a partir de Alain de Botton – Unprocessed Emotion

inveja

Inveja: a emoção que existe, mas ninguém tem

A inveja é considerada uma emoção secundária e um dos sete pecados mortais. Há sobre ela anedotas, citações, textos inteiros, teses académicas, mas quando se sai à rua parece que ninguém a conhece. Afinal o que é a inveja e por que a temos? E poderá ter um lado bom?

“No jargão chamam-lhe«dor de cotovelo» e não será por acaso. Recentemente, recorrendo à análise de imagens de ressonância magnética, o investigador japonês Hidehiko Takahashi, publicou na revista Science um estudo que mostra que sentir inveja ativa o córtex singulado anterior, a zona cerebral que processa a dor física. Mais, a dor da inveja é tão forte que – concluiu este ano um grupo de investigadores da Bradley University, nos Estados Unidos da América, e da Nanyang Technological University, em Singapura – pode levar a uma tristeza extrema e causar mesmo depressão.”

Tive muito gosto em responder às perguntas da jornalista Sofia Teixeira para a “Notícias Magazine”, podem continuar a ler aqui

Tristeza ou Depressão. Pedro Martins Psicoterapeuta - Psicoterapia

Tristeza ou Depressão

Onde havia sentimentos hoje há sintomas. Onde havia tristeza hoje há depressão. Onde havia uma reacção “normal” (egossintónica) hoje há patologia.

Ao abolir-se a reacção “normal” perante vivências inevitáveis da nossa vida, como por exemplo, a tristeza pela morte de alguém, transformando-a em sintoma, estamos a amputar a experiência humana e a enriquecer as estatísticas.

O ser humano, cada vez mais alfanumérico e menos ser-humano, trilha caminhos que o conduzirão à loucura, quando, paradoxalmente, foge dela. A coragem, humilde e primária da procura, deu lugar à arrogância do pseudo-conhecimento.

Este falso conhecimento assente em construções delirantes sobre o próprio e sobre o outro, mais não é que uma autofagia. Distorcendo a realidade, somos isto e somos aquilo, até deixarmos, simplesmente, de ser.

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