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Quão bons foram os seus pais?Pedro Martins Psicoterapeuta / Psicólogo Clínico

Quão bons foram os seus pais?

Estranhamente, parece que nenhum ser humano pode crescer realmente saudável, a não ser que tenha sido amado muito profundamente por alguém (pais) durante os primeiros anos da sua vida.

Mas ainda estamos a aprender o que o amor dos pais pode realmente envolver. Então, quão bons foram os seus pais?

Aqui estão oito princípios de boa paternidade que podem ser usados para os avaliar.

 

1 – Sintonia

Os pais afectuosos descem ao nível da criança – às vezes literalmente, quando se dirigem a ela – para ver o mundo através dos seus olhos.

Eles compreendem que uma criança muito nova não se pode encaixar facilmente nas exigências externas e que, nos primeiros tempos, deve ser-lhe dada prioridade e colocada no centro das coisas, não para a “mimar”, mas para lhe dar uma oportunidade de crescer.

 

2 – Pequenas Coisas

Os pais afectuosos compreendem que a vida dos seus filhos gira em torno de particularidades que são, por qualquer medida adulta, muito pequenas.

As crianças de tenra idade sentir-se-ão enormemente felizes porque podem pôr as mãos numa massa qualquer ou ter a oportunidade de “espetar” uma colher numa tigela de ervilhas com energia ou dizer ‘bah’ muito alto.

E sentir-se-ão extremamente tristes porque o coelho de estimação perdeu um dos seus botões ou uma página do livro seu favorito rasgou-se.

O progenitor suficientemente bom sente que tem recursos suficientes dentro de si para não criticar a criança que está a fazer um grande alarido com o chamado ‘nada’.

Seguirá a criança na sua excitação com uma poça de água e na sua dor por causa de uma meia desconfortável.

 

Os bons progenitores sabem que aqueles que acabam por se apegar com segurança e capazes de tolerar a ausência são aqueles a quem originalmente foi permitido ter tanta dependência e ligação quanto necessário.

 

Compreende que a capacidade futura da criança ser atenciosa para com as outras pessoas e de lidar com desastres genuínos estará criticamente dependente de ela ter recebido por parte dos pais a sua grande cota de simpatia por uma série de tristezas adequadas à idade.

 

3 – Perdão

Os pais afectuosos saberão dar a melhor interpretação possível a um comportamento que possa parecer infeliz e desagradável para os outros:

a criança pequena não é ‘um desordeiro’, mas é claro que ficou muito perturbada com o nascimento do irmão. Não é ‘anti-social’, mas sente-se bem num pequeno círculo de pessoas conhecidas e especialmente reconfortantes.

A capacidade dos pais para dar explicações gentis e criativas continuará a moldar o funcionamento da própria consciência da criança; aprenderá a arte do perdão a si mesma. Não terá de se torturar pelos seus erros.

Não sofrerá as devastações da auto-aversão, nem, quando estragar tudo, será tentada a tirar a sua própria vida.

 

4 – Fases Estranhas

O progenitor afectuoso sentir-se-á suficientemente saudável para permitir que um filho seja esquisito durante algum tempo, sabendo que o chamado esquisito faz parte do desenvolvimento normal.

Não se sentirá nervoso por a criança ter decidido fingir que é um animal ou que quer comer apenas alimentos de cor vermelha ou ter um amigo imaginário a viver numa árvore do jardim.

O adulto terá fé no surgimento da sanidade – e na sabedoria de explorar uma série de opções possíveis antes de optar pela sensatez.

Será capaz de permanecer calmo diante de algumas birras e obsessões intensas, não precisará de desligar a irreverência a cada passo, será paciente em torno da infelicidade e não se deixará abater pelo mau humor do adolescente.

Os pais não atribuirão etiquetas à criança que a possam fixar num papel que estava apenas a experimentar.

 

A recompensa dos pais por todo o seu trabalho nunca será directa; chegará ao fim de muitos anos, observando que o seu filho se tornou ele próprio um bom pai.

 

Terão o cuidado de dizer a uma criança que ela é “a zangada”, “o filósofozinho”, “o sabichão” ou mesmo “a gentil”: isso permitirá à criança o luxo de escolher a sua própria identidade.

 

5 – Apegado

Os bons pais sabem que as crianças podem muito bem apegar-se por muito tempo, e nunca olharão para esta necessidade natural de tranquilidade em termos pejorativos.

Não dirão à criança para se animar e ser um “homenzinho” ou uma “jovem senhora” para sentirem-se orgulhosos.

Sabem que aqueles que acabam por se apegar com segurança e capazes de tolerar a ausência são aqueles a quem originalmente foi permitido ter tanta dependência e ligação quanto necessário.

 

6 – Perfeição

Um bom pai não se apresentará como sendo hollywoodesco, distante ou uma pessoa inalcançável, uma figura que a criança possa ser tentada a idealizar e a contemplar de longe.

Os bons pais saberão estar presentes e mostrar-se pessoas comuns na sua casa; dignos talvez, mas também, por vezes, inquinados, esquecidos, tolos e desejosos de tempo livre sem os filhos.

O bom pai saberá que os pais têm peculiaridades e defeitos para levar a criança a reconciliar-se com a sua própria humanidade – e também, eventualmente, sair de casa e seguir em frente com a sua própria vida.

 

7 – Bondade

Um bom pai saberá como fazer parecer ser monótono. Compreenderá que o que a criança precisa principalmente é de uma fonte de calma fiável, e não de fogos-de-artifício e excitação (tem o suficiente disso dentro da sua própria mente).

 

Os bons pais compreendem que deve ser dada prioridade à criança, não para a “mimar”, mas para lhe dar uma oportunidade de crescer.

 

Deve estar lá, no mesmo lugar, a dizer mais ou menos as mesmas coisas, durante décadas.

Deve ter o cuidado de ser previsível e de editar os seus estados de espírito inesperados, a criança não precisa de uma imagem completa de cada perturbação e tentação que percorre a mente dos seus cuidadores.

Os pais aceitam que ‘mamã’ ou ‘papá’ são papéis, não representações completas; deveria ser um privilégio das crianças não terem de conhecer os seus pais em todos os pormenores.

 

8 – Amor não-correspondido

Os bons pais não estão à procura de uma relação equilibrada. Ficam felizes por dar de forma unilateral. Não precisam que as crianças lhe perguntem como foi o seu dia ou o que pensa das novas medidas do governo.

Sabem que uma criança deve poder tomar um progenitor substancialmente por garantido.

A recompensa dos pais por todo o seu trabalho nunca será directa; chegará ao fim de muitos anos, observando que o seu filho se tornou ele próprio um bom pai.

Dito de forma simples: o amor é o comportamento atencioso, terno e extremamente paciente demonstrado por um adulto durante muitos anos em relação a uma criança que não pode deixar de estar largamente fora de controlo, confusa, frustrada e desconcertada – para que, com o tempo, possa tornar-se num adulto capaz de tomar o seu lugar na sociedade sem demasiada perda de espontaneidade, sem demasiado terror e com uma confiança básica nas suas próprias capacidades e possibilidades de realização.

Deveria ser uma questão de consternação global que, apesar dos nossos grandes avanços, ainda estamos apenas no alvorecer de saber como assegurar que todos tenhamos a infância amorosa que merecemos.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

A partir de: “ A test to Judge how good your parents were – Alain de Botton

Crescer sem psicoterapia - Pedro Martins Psicoterapeuta - Psicólogo Clínico

Crescer Emocionalmente sem Terapia

Crescer emocionalmente é difícil de conseguir por conta própria.

De vez em quando, encontro alguém que parece ter crescido sem terapia, uma pessoa relativamente equilibrada e satisfeita, pouco sobrecarregada com conflitos internos.

Como psicanalista e psiquiatra, interrogo-me sobre isso. Crescer emocionalmente apresenta tantas dificuldades e desafios que ultrapassá-las com sucesso parece uma tarefa assustadora.

Onde é que a criança tem o guia para desenvolver um senso de autonomia pessoal enquanto também desfruta de relacionamentos com as outras pessoas?

Como é que um filho de três ou treze anos descobre como lidar com a inveja que tem dos outros, as questões da sexualidade, os seus desejos destrutivos e vingativos?

Como é que a criança pode saber que a sua dor de estômago representa ansiedade em ir para a escola, ou que sua preocupação com a escola pode servir para distraí-la de preocupações mais sérias sobre fantasias e acontecimentos que surgem em casa?

Há uma razão para que tantos filmes sobre ou para crianças (como o E.T.) retratem os adultos como pessoas que não compreendem o mundo das crianças: há uma certa verdade nisso.

Mesmo os pais mais intuitivos e empáticos não conseguem compreender completamente o mundo interior de uma criança, mesmo que eles já tenham sido crianças.

No entanto, os seus esforços são importantes e os pais costumam ajudar as crianças a aprender, a aceitar, a entender e a regular os seus sentimentos e desejos.

 

É muito difícil vermos os nossos pontos cegos.

 

Mas há sempre sentimentos de vergonha e culpa que as crianças preferem que os pais não conheçam, e sentimentos e fantasias que os pais não conseguem imaginar.

Uma menina de quatro anos pode dizer descaradamente à mãe que planeia casar-se com o pai, mas esconde o quanto ela adoraria fazer desaparecer o irmão mais novo.

Independentemente da forma como a mãe responde, a menina ainda está muito por sua conta, enquanto tenta discernir a fantasia da realidade.

Com pouco conhecimento ou experiência, as crianças são chamadas a lidar com os seus desejos imperiosos e as autocríticas.

Com os seus corpos em mudança e as exigências dos pais e professores, sem mencionar a existência de doenças, tristezas, rejeições de amigos, e golos falhados.

Os pais podem ajudar a crescer emocionalmente (e também podem magoar), mas há sempre muito mais coisas do que aquelas que eles podem controlar.

Com os seus recursos limitados, as crianças passam por fases onde despontam medos, peculiaridades, crenças, rituais e maneiras de se relacionar com o mundo.

Estas adaptações diminuem e fluem, mudam, ficam inactivas e reaparecem.

Todos nós carregamos pelo menos parte dessa bagagem -eu-estou-a-lidar-com-esta-loucura-o-melhor-que-posso-, para a vida adulta, e normalmente queremos deixar conteúdo da bagagem por analisar.

É tão difícil ver os nossos próprios pontos cegos, e surpreendentemente, a maioria de nós deseja ferreamente apegar-se a eles.

 

Mesmo os pais mais intuitivos e empáticos não conseguem compreender completamente o mundo interior de um filho.

 

No meu consultório vejo constantemente pessoas que se casaram para evitar um envolvimento profundo e depois divorciam-se porque o envolvimento não é suficientemente profundo;

ou que, inconscientemente, estão a fazer um esforço tão grande para serem diferentes dos seus pais, que não conseguem fazer com que o relacionamento funcione com um parceiro;

ou que continuam a fazer jogos e a tentar não se vingar de pequenos ou grandes traumas de infância.

Muitas vezes eles dizem-me: “Eu deveria ter vindo vê-lo há vinte anos”, e eu não discordo.

Por que eles não vieram?

Na maioria das vezes, as pessoas transportam os sentimentos desconfortáveis que têm sobre as suas lutas emocionais da infância para o presente.

As pessoas falam sobre o estigma de procurar ajuda para os problemas emocionais, mas o mais importante e omitido “estigma” são sobretudo, as próprias hesitações e as auto-depreciações.

A afirmação “Preciso de ajuda e vou obtê-la” raramente é mal recebida, mas a vergonha de querer ou precisar de ajuda para estas questões é tão grande que poucas pessoas se sentem à vontade para a verbalizar.

 

Como existe muito do passado no presente, mesmo que invisível, os obstáculos emocionais ao trabalho, ao amor e ao lazer são muitos.

 

Quando eu estava na faculdade, tinha tanta vergonha e medo de precisar de terapia como qualquer outra pessoa, mas existiam coisas que me incomodavam e com as quais eu não conseguia lidar.

Naquela altura, ter feito psicoterapia por um curto período de tempo ajudou-me a reconhecer que compreendia muito pouco sobre mim e sobre os meus sentimentos em relação à minha família – um começo muito útil.

Voltar a fazer psicoterapia quando era estudante de medicina ajudou ainda mais.

Durante a formação para psicanalista fiz uma psicoterapia mais longa que me proporcionou uma sensação tremendamente gratificante de finalmente desatar os nós emocionais mais apertados e ocultos.

Que sorte não me ter sentido obrigado a fingir que era maduro a ponto de me privar da ajuda essencial dos outros.

Freud sugeriu que era desejável que as pessoas pudessem amar e trabalhar, e, alguns, acrescentou, brincar.

Podem parecer coisas simples – amor, trabalho e diversão -, mas exigem equilíbrio emocional e flexibilidade, além de percepções realistas de si mesmo e dos outros.

Como existe muito do passado no presente, mesmo que invisível, os obstáculos emocionais ao trabalho, ao amor e ao lazer são muitos.

Embora algumas pessoas de facto atinjam estes objectivos aparentemente simples, mas realmente muito ambiciosos, é muito mais fácil quando alguém nos ajuda a esclarecer certas percepções erróneas.

Em qualquer idade, pode ser difícil crescer emocionalmente, dar o próximo passo no desenvolvimento.

E, os quiproquós no desenvolvimento são resolvidos com muito mais facilidade, e, geralmente, de forma mais profunda, com, do que sem terapia.

No entanto, apesar de existirem outras opções, muitos de nós parecem preferir crescer da maneira mais difícil – sozinhos -.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins
a partir de: Growing Up Without Therapy – Lawrence D. Blum

Dormir na Cama dos Pais Pedro Martins Psicoterapeuta

Dormir na Cama dos Pais

Muito se tem escrito sobre a vontade dos filhos irem dormir para a cama do casal e se os pais devem ou não permitir.

Mas fala-se menos sobre a vontade dos pais terem os filhos a dormir com eles, e, em alguns casos, a permanecer lá durante anos.

De uma maneira geral, aconselha-se que a criança durma sozinha a partir do quarto ou sexto mês de vida, no sentido de favorecer o desenvolvimento da sua autonomia.

Para que a criança possa desenvolver a “capacidade de estar só” – Winnicott -, é importante que os pais a coloquem a dormir sozinha.

O simples facto de a criança dormir sozinha faz com que a “capacidade de estar só” se desenvolva?

A resposta é não.

O desenvolvimento da autonomia está dependente das características do vínculo mãe-bebé. 

O desenvolvimento da “capacidade de estar só” está dependente do vínculo mãe-bebé. São as características deste vínculo que determinam se este processo será mais fácil ou mais difícil.

PAIS QUE DORMEM COM OS FILHOS

Nem sempre são os filhos a ir para a cama dos pais. Há casos em que acontece o contrário.

Devido aos medos que a criança manifesta na hora de adormecer muitos pais (a mãe ou o pai) dormem na cama dos filhos e por lá ficam.

Uns ficam umas horas, outros uns dias.

Mas temos também os pais que, aparentemente, trocaram de forma definitiva, a sua cama pela dos filhos.

O contrário também acontece, com os filhos a permanecer indefinidamente na cama dos pais.

Este funcionamento, de tão prolongado, adquire um carácter de normalidade.

Em ambos os casos a intimidade do casal está ameaçada ou, pelo menos, condicionada.

Muitas vezes, o nascimento de um filho é uma excelente justificação para os pais dormirem separados ou porem os filhos a dormir com eles, contornando, assim, os problemas pré-existentes no casal.

Ao mesmo tempo, o nascimento de um filho mexe, em certos casos, profundamente com a vida do casal:

O cansaço físico e emocional; a mãe que não aceita o seu corpo depois da gravidez, e por isso se afasta para não ter contacto íntimo com o parceiro; o pai que sente ciúmes do tempo que a mãe dedica ao filho; a diminuição do desejo sexual; etc.

Por vezes as mães sentem-se culpadas por continuarem a ser mulheres, depois da maternidade.

É como se o novo papel de mãe, para ser exercido plenamente implicasse recusar a sua feminilidade, e as coisas a ela associadas.

É muito importante que o pai não se afaste como homem e faça sentir à mãe que ela ainda é uma mulher desejada e com desejos.

Isto é importante para o casal como para o filho, na medida em que a mãe não busca somente na criança a gratificação afectiva.

 A presença dos filhos na cama dos pais é uma ameaça à intimidade do casal.

Existem casos em que as mães têm medo de que algo fatal possa acontecer com o bebé se não dormirem com ele.

Passam grande parte da noite acordadas a ouvir o batimento cardíaco do bebé e a respiração, para se assegurarem que continua vivo.

Normalmente, isto está associado a sentimentos de culpa.

Por vezes, a ansiedade, o medo e a angústia dos pais é apaziguada de forma mais cómoda colocando os filhos a dormir com eles na cama do casal.

Nos casos em que um filho passou por uma situação traumática, ou na elaboração de certas perdas, dormir com a criança durante um tempo pode ser importante para recuperar a confiança e, aos poucos, voltar para a sua cama.

FILHOS QUE DORMEM COM OS PAIS

Nos casos em que a cama é compartilhada, é habitual que a criança durma com os pais, sempre ou alternadamente até chegar aos dois ou três anos de vida e depois vá para o seu quarto, sem qualquer implicação emocional para a criança ou para os pais.

Portanto, no nosso caso, a questão não é dormir ou não dormir na cama do casal, mas saber o que leva os pais a fazerem-no.

Em abstracto podemos dizer que as coisas vão bem quando é a criança que quer dormir com os pais e não tanto, quando são os pais que precisam de dormir com os filhos.

10 Traços que Podemos Encontrar nos Pais Tóxicos. Pedro Martins Psicoterapeuta

10 Traços dos Pais Tóxicos

É muito difícil criar filhos e ninguém tem o direito de julgar quando se trata do estilo parental de alguém.

Há uma linha muito ténue entre os erros cometidos pelos pais e o comportamento inadequado dos pais tóxicos.

Este artigo pode ajudar a determinar e lidar com situações tóxicas que prejudicam a nossa vida.

1 – “Sê o melhor, mas não te esqueças que não és nada de especial.”

Os pais tóxicos esperam que os filhos tenham um desempenho ao mais alto nível.

No entanto, todas as realizações da criança são consideradas dentro do esperado, portanto, não valorizadas.

Os comentários desagradáveis podem destroçar a vida das crianças, porque crescem convictas que são uma decepção para os pais.

2 – “Aceite a nossa ajuda, mas pare de se aproveitar.”

Estes pais oferecem algo que os filhos, verdadeiramente, não precisam. Mas qualquer recusa gera ressentimento.

Os filhos pensam: “Os meus pais, provavelmente, querem companhia e sentir que são importantes”. Então, aceitam a ajuda, agradecem aos pais e oferecem algo em troca.

Mas não há final feliz porque os pais estão sempre a recordar aos filhos os “favores” que fizeram por eles.

Os filhos ficam reféns dos pais:
– Caso recusem a ajuda dos pais: os filhos sentem-se mal por recusar a ajuda de um parente
– Caso aceitem a ajuda dos pais: os filhos sentem que devem ser gratos aos pais pelo apoio e devem estar prontos para retribuir a ajuda a qualquer momento.

Quando crescemos com pais tóxicos podemos não reconhecê-los como tal.

3 – “Vá embora, mas não me deixe.”

Nas famílias saudáveis, os pais ajudam os filhos a sair de casa e viver a sua própria vida.

Os pais tóxicos nunca querem que os filhos saiam, mas estão sempre atirar à cara que a casa, o dinheiro e a comida são deles.

Qualquer tipo de objecção e argumentação dos filhos é ignorada.

O que estes pais realmente querem? Querem que os filhos sejam submissos e permaneçam ao seu lado!

4 -“Faz o que eu te digo, mas culpa-te a ti próprio se falhares.”

Neste caso, os pais tratam os filhos como um objecto: fazem os seus próprios planos e esperam que os filhos os acompanhem.

A propósito, eles não se importam com as consequências de controlar completamente a vida dos filhos. Se algo der errado, a culpa não é deles.

“Eu fiz tudo por ti”. Frase típica dos pais tóxicos.

5 – “Progrida mas esqueça os seus planos para o futuro.”

Os pais querem que os filhos sejam bem-sucedidos, mas não consideram a forma como isso será feito.

Por exemplo, podem esperar que os filhos construam uma carreira de sucesso desde que nunca saiam de casa.

Os pais narcisistas ficam entusiasmados com as conquistas dos filhos por dois motivos:
– Gostam de se gabar do sucesso (que sentem como seu) dos filhos para que os outros os invejem.
– Filhos bem-sucedidos garantem uma vida melhor para os pais.

Ao mesmo tempo, existem outros pais que estão sempre a lembrar aos filhos que existe uma enorme distância entre os seus desejos a realidade.

Aos poucos os filhos vão interiorizando o pensamento dos pais: “Para quê sonhar alto se os sonhos não se podem realizar?!”

6 – “Confie em mim, mas… cuidado”

Vida privada? Espaço pessoal? Não existem para os filhos de pais tóxicos.

Se você tentar restringir o acesso dos seus pais ao seu “território pessoal”, eles vão acusá-lo de não confiar neles.

Mesmo na sua própria casa um filho adulto não está protegido, uma vez que estes tipos de pais não usam as chaves sobresselentes apenas em caso de emergência.

Os filhos devem responder a todas as perguntas – “Porque não lavaste a chávena?” ou “Porque gastaste dinheiro nessa porcaria?”

Estes pais não respeitam as vidas e as decisões pessoais dos filhos.

7 – “Nem vale a pena tentares porque não chegas lá.”

Quanto mais baixa a auto-estima de uma criança, mais fácil é controlá-la.

Os pais tóxicos discorrem sobre as falhas e os defeitos dos filhos e, na maioria dos casos, comentam a sua aparência, porque é uma das questões mais delicadas, principalmente, nos adolescentes.

Se não existem “defeitos óbvios”, os pais, simplesmente, inventam-nos, e com isso, os filhos vão desenvolvendo sentimentos de inferioridade.

São pais que têm muita dificuldade em aceitar o sucesso e a força de vontade dos filhos.

Relacionamentos com pais tóxicos podem ser difíceis de cortar. Você pode precisar de se distanciar para criar os limites que não consegue estabelecer directamente com eles.

8 – “Partilha comigo, mas não te sintas ridicularizada.”

Os pais narcísicos obrigam os filhos a contar-lhes tudo e às vezes fazem-nos sentir culpados por não compartilharem os seus sentimentos.

Mais tarde, essa mesma informação é usada contra os próprios filhos.

Parentes, vizinhos e outras pessoas estão a par de tudo o que a adolescente compartilhou com os pais. E, os pais, realmente, não vêm nada de errado nisso.

9 – “Você tem que lidar com os problemas dos adultos, mas ainda não tem direitos.”

Nas famílias tóxicas, os pais compartilham os seus problemas e as suas responsabilidades com os filhos.

As crianças são arrastadas para situações para as quais não estão preparadas.

Os adolescentes são obrigados a ouvir as queixas dos pais, ajustar-se a uma “situação complicada”, colocar-se no lugar dos pais, ajudar, tolerar e consolar.

Infelizmente, nestes casos, os filhos não têm o direito de expressar a sua opinião. Só são considerados maduros para aquilo que interessa aos pais.

10 – “Tenha medo de mim, mas ame-me.”

Para os pais tóxicos, um ataque emocional é sinónimo de amor e atenção.

Nestas famílias, as crianças conseguem perceber o estado de espírito dos pais pelo som que fazem ao pousar as chaves quando chegam a casa, ou pela forma como arrastam os pés ao caminhar.

Estas crianças vivem em constante medo e apreensão.

Estes pais, geralmente, ficam ofendidos quando as suas acções (supostamente) amáveis são olhadas com desconfiança.

Recorrem com frequência ao: “Eu fiz tudo por ti, e tu és tão ingrato”.

Os pais tóxicos não querem que os filhos saiam de casa, mas estão sempre atirar à cara que a casa, o dinheiro e a comida são deles.

Como lidar com pais tóxicos?

É muito difícil libertar-se de uma atmosfera tóxica – mesmo para adultos!

No entanto, aqui ficam algumas sugestões que podem ajudar a proteger os limites pessoais e a salvar um relacionamento.

Primeiro, precisamos perceber os seguintes factos:

Nós não podemos mudar o passado.

Um relacionamento tóxico é como uma espécie de doença crónica – é muito difícil curá-la, então é melhor evitar qualquer tipo de complicação.

As recomendações baseiam-se no entendimento de que cada pessoa tem dos seus próprios direitos e necessidades.

Você tem o direito de:

Viver na sua própria casa com as suas próprias regras.

Não tomar parte na resolução de problemas de outros parentes.

Limitar o acesso ao seu espaço.

Pensar pela sua cabeça e ignorar seus pais quando eles disserem “Eu sei o que é melhor para ti”.

Gerir os seus recursos: dinheiro, tempo e esforço.

Escolher os seus interesses pessoais em detrimento dos dos seus pais.

Adaptado a partir de “10 traits of toxic parents who ruin their children’s lives without realizing it”

Illustrated by Marat Nugumanov for BrightSide.me

Pais Tóxicos - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Pais Tóxicos – Descubra como lidar com eles

Se é complicado estar com os seus pais e os evita, há grande probabilidade de eles serem tóxicos.

Não só os relacionamentos tóxicos podem incluir a relação com pais narcísicos, como muitas das relações tóxicas em que nos envolvemos têm como matriz relações familiares disfuncionais.

Quando crescemos com pais tóxicos podemos não reconhecê-los como tal.

Normalmente, os pais tóxicos não respeitam os filhos como indivíduos. Não se comprometem, não assumem a responsabilidade pelos seus comportamentos, nem pedem desculpa.

Os pais tóxicos podem prejudicar os filhos ao ponto de impedirem o seu crescimento, assim como os movimentos no sentido da retoma do desenvolvimento suspenso, da autonomia e da independência.

Quando crescemos com pais disfuncionais, podemos não reconhecê-los como tal. Tudo parece normal.

Podemos estar em negação e não perceber que fomos maltratados emocionalmente, principalmente, quando as nossas necessidades materiais foram satisfeitas.

 

Comportamentos Tóxicos

Aqui estão algumas questões que deve colocar em relação ao comportamento dos seus pais. Se a conduta deles é persistente, pode ser tóxica para a sua auto-estima.

1 – Eles tendem a exagerar ou a fazer cenas?

2 – Eles fazem chantagem emocional?

3 – Eles fazem exigências frequentes e/ou irracionais?

4 – Eles tentam controlar?

5- Eles criticam ou comparam você?

6 – Eles ouvem com interesse?

7 – Eles manipulam, usam a culpa, ou fazem-se de vítima?

8 – Eles culpam ou atacam você?

9 – Eles assumem a responsabilidade e pedem desculpa?

10 – Eles respeitam os seus limites físicos e emocionais?

11- Eles desconsideram os seus sentimentos e necessidades?

12 – Eles invejam ou competem consigo?

 

Separar-se dos pais tóxicos: Seja assertivo e defina limites

A autonomia e a independência do ponto de vista emocional não têm uma relação directa com distância/proximidade física. Mesmo que fisicamente se afaste bastante, a ligação emocional disfuncional pode persistir.

Relacionamentos com pais tóxicos podem ser difíceis de cortar

É mais difícil não reagirmos aos nossos pais do que aos nossos amigos e parceiros, com quem estamos em pé de igualdade. Os pais podem facilmente mexer com os filhos; eles sabem onde está o botão que faz desencadear certo tipo de reacções.

Uma vez que os limites nos foram impostos pela família, quando fazemos certos movimentos que ponham em causa esses limites, a família, em particular os pais, sentem necessidade de nos mostrar que não os devemos ultrapassar.

É muito complicado estabelecer novos limites com os pais, principalmente se você tenha uma mãe que liga (ou “exige” que você ligue) todos os dias; se queixa com frequência de problemas de saúde; diz sentir-se sozinha; faz chantagem emocional, e, dessa forma, provoca sentimentos de culpa.

À medida que os movimentos de autonomização são sentidos pelos pais, como reacção, começam a desferir ataques ao terapeuta, amigos ou companheiro, responsabilizando-os pelo estabelecimento dos novos limites.

Relacionamentos com pais tóxicos podem ser difíceis de cortar. Você pode precisar de se distanciar deles para criar os limites que não consegue estabelecer directamente com eles.

Algumas pessoas cortam com a família por esse motivo.

Os cortes podem ser necessários em casos de pais tirânicos. No entanto, embora reduzam a tensão emocional, os problemas subjacentes permanecem e podem afectar todos os relacionamentos.

É muito melhor, para o seu crescimento emocional, aprender a responder aos ataques.

Superar um relacionamento tóxico começa em si

Quando visitar os seus pais, preste atenção às regras não expressas; aos limites e aos padrões de comunicação. Tente comportar-se de uma forma diferente daquela que tinha quando era jovem.

Preste atenção aos hábitos e defesas que usa para gerir a sua ansiedade.

Pergunte a si mesmo: “Do que tenho medo?” Lembre-se de que, embora possa sentir-se como uma criança quando está com os seus pais, você já não é uma criança. Agora você é um adulto. Se quiser pode ir-se embora, ao contrário de quando era criança.

Superar um relacionamento tóxico começa em si – nos seus sentimentos e atitudes -, e termina em si. A expectativa que os seus pais vão mudar vai diminuindo, até que finalmente percebe que eles nunca vão mudar, mas você vai.

 

Aspectos a ter em mente em relação aos seus pais:

1 – Não é necessário que os seus pais mudem para você ficar bem.

2 – Você não é os seus pais. Eles são uma coisa, você é outra.

3 – Você não é aquilo que eles dizem que você é.

4 – Não é obrigatório gostar dos seus pais, no entanto, pode estabelecer uma nova relação com contornos diferentes e amá-los.

5 – Você não pode mudar os seus pais.

O que você pode fazer

Inicie uma psicoterapia, fortaleça a sua rede de apoio/amigos e procure obter uma independência financeira.

Porque os pais também devem colocar limites a si próprios. Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Os pais também devem colocar limites a si próprios

O medo do mundo exterior leva os pais a querer controlar a vida dos filhos. Mas será que os pais não deveriam colocar limites a si próprios?

“Eu não sei com quem meu filho namora, ou o que ele faz quando não está em casa. Eu gostaria de saber com quem conversa e quem conhece na internet.

Cada vez que chega a casa eu me pergunto o que ele fez o dia todo mas ele não me explica nada. Fecha-se em copas.

Às vezes eu mexo nas coisas dele ou entro no computador dele.” Estes são apenas alguns dos comentários repetidos entre pais de adolescentes.

A razão pela qual muitos pais fazem extensos interrogatórios aos seus filhos tem a ver com os medos gerados pelo mundo exterior.

Pode ser resumido no medo de que algo de mau aconteça aos filhos. O mundo, a rua ou a internet estão cheios de perigos.

Ao longo da adolescência, os jovens realizam duas operações que estão intimamente ligadas e que são necessárias.

Por um lado, ao sentir a necessidade de criar o seu próprio espaço eles recolhem-se na sua própria privacidade, livre da tutela dos pais que controlam tudo e, por outro, precisam explorar o mundo para alcançar a exogamia, que lhes permitirá formar uma família, sair de casa, ou assumir as suas próprias responsabilidades e viver em sociedade.

Há uma geração atrás, os adolescentes faziam estas duas operações rompendo com os pais numa mudança radical.

Tinham outros interesses, ouviam outra música, vestiam-se de maneira diferente. Num dado momento, havia uma ruptura, fruto de uma crise, e o jovem afastava-se dos pais e iniciava uma vida mais autónoma. Falava-se em rebeldia da juventude.

Para evitar que o adolescente tenha frustrações os pais acabam por super-proteger os filhos.

Actualmente, apesar da ilusão de que não há diferença entre uma geração e a outra, ela manifesta-se de outras maneiras. É algo estrutural em cada geração, mesmo que tenha novas formas.

Em relação às gerações passadas, agora tudo é mais subtil. Os pais esforçam-se para ouvir a mesma música, vestem-se da mesma forma, são pais “modernos”.

Mas, ao mesmo tempo, assim como com os seus próprios pais, eles tentam impedir os filhos de se separarem e acabam por recorrer à superprotecção.

O argumento usado é o de evitar que o adolescente tenha frustrações. No entanto, os pais fazem isso pelos filhos ou por eles?

Verificamos, ouvindo os adolescentes, que eles têm dificuldade em criar espaços de intimidade porque os pais estão muito em cima deles.

Uma mãe disse-me: “Eu quero que minha filha sinta que eu sou amiga dela”.

Efectivamente há perigos na sociedade e há jovens que fazem coisas delicadas. De qualquer forma, esta época não é pior do que outras em termos de perigos.

No entanto, já não vemos crianças na rua a brincar sozinhas – quando no passado era a coisa mais normal do mundo.

Na era da informação, tudo é amplificado. Algo que acontece no Bornéu pode servir para assustar os pais e pensar que isso certamente pode acontecer com os seus filhos.

Tudo isto esconde outra questão que o psicanalista Jacques Alain Miller define como “a intromissão do adulto na criança”. O que significa isto?

A intrusão tem a ver com querer moldar as crianças à nossa imagem, baseada em ideais, o que é verdadeiramente impossível e está na base do conflito geracional.

Os pais devem permitir que o adolescente possa experimentar e encontrar os seus próprios limites.

O adolescente deixa de ser transparente aos olhos dos seus pais e fecha-se mais sobre si mesmo.

A reacção dos pais é de mais controlo, opinar sobre a sua vida, interferir nos estudos, nas amizades, nos momentos de diversão, pressioná-lo para que saia ou deixe de sair, imiscuir-se sobre o que lhes convém.

A reacção lógica dos adolescentes é geralmente o silêncio ou o negativismo, o que gera um círculo vicioso de impotência e mal-estar.

Provavelmente ajuda recordar que nós adultos fomos adolescentes e que passámos por situações de confusão, momentos difíceis e que há algo inevitável em tudo isso.

Nas associações de pais, geralmente insiste-se em falar sobre como colocar limites nos filhos.

Podemos brincar com isso e pensar se os pais não precisam de se limitar para intervir menos na vida dos filhos.

Pense nos limites como uma separação. Separar-se deles para poder acompanhá-los melhor na jornada que, definitivamente, é deles.

A nossa é a nossa. Aproveitar isto para fazer uma introspecção sobre a nossa vida como adultos.

São muitos os pais que pensam que os filhos têm de viver as suas próprias experiências, cometer erros, serem mais autónomos.

Como se diz em francês: “faire confiance”, que nada mais é do que permitir que o adolescente possa experimentar e encontrar os seus próprios limites.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins a partir de “Por qué los padres también deberían ponerse límites en la relación con sus hijos” – Mario Izcovich

pais filhos

Porque os bons pais têm filhos mal comportados

Pais / Filhos

Imagine dois tipos muito diferentes de famílias, cada uma na sua própria mesa de jantar numa noite habitual.

Na Família 1: As crianças são muito bem comportadas: dizem que a comida é muito boa, falam sobre o que aconteceu na escola, ouvem os pais com atenção e no fim terminam os trabalhos de casa.

Na Família 2: É bastante diferente. Chamam nomes à mãe, resmungam e gozam quando o pai diz algo; fazem um comentário ligeiramente indecente que revela uma falta de vergonha sobre os seus corpos; Se os pais perguntam se já fizeram os trabalhos de casa, dizem que a escola é uma porcaria viram costas e batem a porta.

Parece que tudo vai muito bem na Família 1 e muito mal na Família 2. Mas se olharmos para dentro da mente da criança, podemos ter uma imagem muito diferente.

Na Família 1, os chamados bons filhos têm dentro de si toda uma série de emoções que retêm longe da vista, não porque queiram, mas porque sentem que não podem ser tolerados como realmente são. Sentem que não podem deixar os seus pais ver que estão com raiva ou entediados, porque parece que os pais não têm recursos internos para lidar com a realidade deles; Devem reprimir as suas partes mais corporais, mais rudes e mais voláteis. Qualquer crítica a um adulto é (imaginam) tão devastadora que não pode ser proferida.

Na Família 2, os chamados filhos mal comportados sabe que as coisas são sólidas. Eles sentem que podem dizer que a mãe é uma idiota, porque nos seus corações sabem que ela os ama e que eles a amam e que um ataque de raiva não destruirá isso. Eles sabem que o pai não se desintegrará ou se vingará por ser gozado. O ambiente é quente e forte o suficiente para absorver a agressão, a raiva, a troça ou o desapontamento da criança.

No final, temos um resultado inesperado: o bom filho está com problemas na vida adulta, tipicamente relacionados com concordância excessiva, rigidez, falta de criatividade e uma consciência insuportavelmente pesada que pode levar a pensamentos suicidas. E a criança impertinente caminha saudavelmente para a maturidade, onde se encontra a espontaneidade, a resiliência, a tolerância ao fracasso e o sentimento de auto-aceitação.

O que chamamos de maldade é na verdade uma exploração inicial da autenticidade e da independência. Tendo sido crianças impertinentes, podemos ser mais criativos porque podemos experimentar ideias que não necessitam imediatamente de aprovação; podemos cometer um erro, meter-nos numa embrulhada ou parecer ridículos e não será um desastre. As coisas podem ser reparadas ou aperfeiçoadas. A nossa sexualidade é aceitável para nós e, portanto, não precisamos sentir-nos excessivamente embaraçados ao apresentá-la a um parceiro. Podemos ouvir críticas a nós mesmos e conseguir lidar com o que é verdade e rejeitar o que é maldade.

Devemos aprender a ver crianças malcriadas, algumas cenas caóticas e levantar de voz ocasionais como pertencentes à sanidade, em vez da delinquência – e, ao mesmo tempo, a temer pessoas que não causam qualquer problema.

E, se tivermos momentos ocasionais de felicidade e bem-estar, devemos sentir-nos especialmente agradecidos pelo facto de ter havido, certamente alguém, num passado distante, que optou por olhar com os olhos do amor para algum comportamento profundamente desproporcionado e desagradável da nossa parte.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

A partir de Why good parents have naughty children – Alain de Botton

A crítica Pedro Martins Psicoterapeuta

A Crítica – entre o desagradável e o insuportável

A crítica nunca é fácil.

Lidar com o facto de os outros nos considerarem ridículos, feios, desagradáveis ou incompetentes é um dos aspectos mais desafiadores de qualquer vida.

No entanto, o impacto da crítica é extremamente variável – e depende, em última análise, de um detalhe um pouco inesperado: o tipo de infância que tivemos.

O facto de a crítica ser experimentada como meramente desagradável ou completamente catastrófica depende do que aconteceu connosco há muitos anos com os nossos cuidadores.

O que se entende por uma “infância má” é aqui, simplesmente, uma questão de amor.

Uma criança chega ao mundo com uma capacidade muito limitada para lidar consigo própria.

É a tolerância, o entusiasmo e o perdão do outro que gradualmente nos acomoda à existência.

A forma dos nossos cuidadores nos olharem torna-se na forma como nos vemos.

É por sermos amados pelos outros que adquirimos o dom de olhar com simpatia para nós próprios.

Simplesmente, não está na nossa incumbência acreditar em nós mesmos por conta própria.

Estamos totalmente dependentes de um sentimento interior de termos sido valorizados de forma indirecta por outra pessoa, como uma protecção contra a subsequente negligência do mundo.

Nós não precisamos ser amados por muitos.

Nós não precisamos ser amados por muitos, um bastará, e doze anos podem ser suficientes (idealmente dezasseis).

No entanto, sem esse amor, a contínua admiração de milhões nunca será capaz de nos convencer de que somos bons.

Mas com esse amor, o desdém de milhões é indiferente.

As infâncias más têm a triste tendência:

— De nos levar a procurar situações em que existe uma possibilidade teórica de recebermos uma aprovação excepcional (o que também significa, um alto risco de encontrar uma enorme desaprovação) e por isso fazemos esforços desmesurados na tentativa de sermos famosos e visivelmente bem-sucedidos.

Mas é claro que o mundo em geral nunca dará emocionalmente a confirmação incondicional desejada.

Existirão sempre os discordantes, críticos e pessoas igualmente afectadas pelo seu próprio passado para poderem ser gentis com os outros.

E é para essas vozes que aqueles que tiveram infâncias complicadas se vão direccionar, por mais entusiástica que a multidão possa ser.

Ao longo do caminho podemos constatar que o principal indicador de ser um bom pai é quando um filho, simplesmente, não tem interesse em ser admirado por um grande número de desconhecidos.

Nós não ouvimos todos a mesma coisa quando somos criticados.

Alguns de nós, os sortudos, ouvimos apenas a mensagem superficial do aqui e agora: que nosso trabalho ficou abaixo das expectativas, que devemos esforçar-nos mais nas nossas funções, que o nosso livro, filme ou música não é brilhante. Isso é suportável.

Mas os mais feridos entre nós ouvem muito mais.

A crítica leva-os directamente para a ferida primitiva.

Um ataque no presente entrelaça-se com os ataques do passado e cresce desmesuradamente e de forma incontrolável na sua intensidade. O chefe ou colega pouco amável torna-se o pai que nos decepcionou.

Tudo é questionado. Não só achamos que fizemos um mau trabalho, como somos uma miséria, pois foi assim que nos sentimos naquela época, na nossa mente infantil, frágil e indefesa.

Saber mais sobre a nossa infância proporciona-nos uma via fundamental de defesa contra os efeitos da crítica.

Isso significa que podemos estar atentos, quando nos sentimos atacados e despoletamos a desnecessária auto-depreciação.

Podemos aprender a separar o veredicto de hoje do veredicto emocional que trazemos connosco e que constantemente procuramos confirmar através de eventos do dia-a-dia.

Podemos aprender que, por mais tristes que sejam os ataques que enfrentamos, eles não são nada comparados com a verdadeira tragédia e causa efectiva da nossa tristeza: que as coisas não correram bem naquela época.

Saber mais sobre a nossa infância proporciona-nos uma via fundamental de defesa contra os efeitos da crítica.

E assim podemos dirigir a nossa atenção para onde é realmente precisa; longe das críticas actuais e apontada para aquele pai da nossa infância, pouco convencido do nosso valor.

Podemos perdoar-nos por sermos, neste caso, inocentes, fatalmente sensíveis e, em essência, mentalmente afectados.

Não podemos parar os ataques do mundo, mas podemos – através da exploração das nossas histórias – mudar o que significam para nós.

Também podemos e devemos dar uma segunda oportunidade: voltar atrás e corrigir o veredicto original do mundo.

Podemos tomar medidas para nos expormos ao olhar de amigos ou, idealmente, de um bom terapeuta que possa ser um espelho mais benigno e ensinar-nos o que deveriam ter-nos ensinado desde o início:

Como todos os humanos, quaisquer que sejam as nossas falhas, merecemos estar aqui. Este é o nosso lugar.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de “Criticism when you’ve had a bad childhood” – Alain de Botton

Why We’re All Messed Up By Our Childhoods

Por que somos todos marcados pela nossa infância?

Ninguém pretende que isso aconteça, é claro, mas em qualquer lugar da nossa infância, a nossa trajectória em direcção à maturidade emocional foi sendo constrangida.

Mesmo que cuidem de nós com sensibilidade e carinho, não escapamos aos primeiros anos das nossas vidas sem sofrer algum tipo de ferimento psicológico – ao qual podemos chamar “ferida primordial”.

As causas da nossa ferida primordial raramente são dramáticas, mas o seu efeito é importante e duradouro.

A infância abre-nos ao dano emocional, em parte porque, ao contrário de outros seres vivos, o Homo sapiens tem um desenvolvimento muito longo e estruturalmente claustrofóbico.

Um potro está em pé trinta minutos depois de nascer. Aos dezoito anos já passámos cerca de 25 mil horas na companhia dos nossos pais.

Mesmo a baleia azul, o maior animal do planeta, é sexualmente madura e independente aos cinco anos de idade.

Mas nós somos mais demorados.

Pode levar um ano até darmos os nossos primeiros passos e dois para verbalizarmos uma frase completa.

São precisas duas décadas para sermos classificados como adultos.

E, entretanto, estamos à mercê dessa instituição altamente particular a que chamamos lar, com supervisores bastante peculiares: os nossos pais.

Ao longo dos Verões e Invernos da nossa infância fomos intimamente moldados pela maneira de ser daqueles que nos rodeiam.

Conhecemos as suas expressões favoritas, os seus hábitos, como reagem quando estão atrasados e a maneira como se dirigem a nós quando estão irritados.

Nós memorizamos as texturas dos tapetes e os cheiros dos armários.

Na meia-idade ainda podemos recordar o sabor de um biscoito que gostávamos de comer depois da escola.

Durante a nossa longa gestação, num sentido físico, estamos completamente à mercê dos nossos cuidadores.

Somos tão frágeis que podemos ser derrubados por um galho. O gato da família é como um tigre.

Precisamos de ajuda para atravessar a estrada, vestir o casaco e escrever o nome.

Mas a nossa vulnerabilidade é essencialmente emocional.

Tal é a nossa fragilidade na infância, que qualquer coisa que nos tenha acontecido é suficiente para nos afectar interiormente de forma profunda.

Não podemos começar a entender as nossas estranhas circunstâncias:

– Quem somos, de onde vêm os nossos sentimentos, por que estamos tristes ou furiosos, como os nossos pais se encaixam num esquema mais amplo e porque se comportam de certa forma.

Nós, necessariamente, tomamos o que as pessoas grandes que nos rodeiam dizem como uma verdade inquestionável.

Estamos condenados a estar enredados nas suas atitudes, ambições, medos e inclinações.

Sendo crianças, não temos como evitar isso. Nós somos muito frágeis. Se um pai nos gritar, as fundações da terra tremem.

Não podemos dizer que algumas das palavras ásperas não foram inteiramente justificadas, ou tiveram origem num dia complicado no trabalho ou são repercussões da própria infância do adulto.

Simplesmente sentimos como se um gigante todo-poderoso tenha decidido, por boas razões (ainda que desconhecidas) que devemos ser passados a ferro.

Nem podemos entender, quando um pai vai embora no fim-de-semana, ou se desloca para outro país, que não nos deixaram porque fizemos algo errado ou porque não merecemos o seu amor, mas porque nem sempre os adultos controlam os seus próprios destinos.

Se os pais estão na cozinha a falar num tom mais alto, pode parecer que essas duas pessoas se odeiam.

A altercação que as crianças ouvem pode ser sentida como catastrófica, como se tudo o que é seguro se estivesse a desintegrar.

Não há evidências em nenhum outro lado da compreensão da criança de que as discussões são uma parte normal dos relacionamentos.

E que um casal pode estar totalmente comprometido na relação ao longo da vida e, ao mesmo tempo, expressar com força o desejo de que o outro possa ir para o inferno.

As crianças são igualmente impotentes diante das várias teorias dos pais.

Elas não conseguem entender a resistência dos pais a juntarem-se com outras famílias da escola, ou a forma particular de se vestirem, ou porque se preocupam tanto com as limpezas e com os atrasos e como elas representam uma compreensão muito parcial das prioridades.

As crianças não têm emprego. Elas não podem ir para outro lugar. Elas não têm uma rede social alargada. Mesmo no seu melhor, a infância é uma espécie de prisão aberta.

Como resultado das peculiaridades desses primeiros anos, adquirimos a nossa maneira de ser.

Uma das características dos desequilíbrios que decorrem de feridas na infância é que não revelam de forma clara as suas origens.

As coisas dentro de nós começam a crescer em direcções estranhas.

Sentimos que não podemos confiar facilmente, ou temos que manter a sala limpa, ou ficamos incomodados com pessoas que levantam a voz.

Não é preciso que alguém faça algo particularmente chocante, ilegal, sinistro ou perverso para fazermos grandes distorções.

As causas da nossa ferida primordial raramente são dramáticas, mas o seu efeito é importante e duradouro.

Tal é a nossa fragilidade na infância, que qualquer coisa que nos tenha acontecido é suficiente para nos afectar interiormente de forma profunda.

Conhecemos bem a questão através das tragédias. Nos trágicos contos dos antigos gregos, não são os enormes erros e deslizamentos que desencadeiam o drama: são os erros mais ínfimos e inocentes.

A partir de pontos de partida aparentemente menores, as consequências terríveis desenrolam-se.

As nossas vidas emocionais são igualmente trágicas na estrutura. Todos à nossa volta podem estar a tentar fazer o melhor para nós como crianças e, no entanto, acabamos agora, como adultos, a tratar de grandes feridas que continuam a impedir-nos de ser o que poderíamos ser.

Por último, e de forma mais pungente, uma das características dos desequilíbrios que decorrem de feridas na infância é que não revelam de forma clara as suas origens, nem para as nossas próprias mentes, nem para o mundo em geral.

Não temos a certeza das razões porque fugimos tanto, ou porque ficamos chateados com tanta frequência, ou porque temos um ar orgulhoso e arrogante, ou nos subjugamos ou apegamos excessivamente às pessoas que amamos. Simplesmente, assumimos que é assim que somos.

Uma vez que as fontes dos nossos problemas nos escapam, não conseguimos compreender porque as pessoas são como são e assim perdemos uma fonte vital da simpatia.

Os nossos problemas começam com uma ferida que, se fosse conhecida e explicada de forma adequada, favoreceria, naturalmente, uma terna compreensão.

Mas porque as consequências que gera tendem a ser muito menos atraentes e faltam explicações, ficamos abertos ao desdém, ao sarcasmo e à auto-desvalorização.

A nossa ferida pode ter começado com um sentimento de invisibilidade, mas agora parece que somos apenas show-off.

Talvez tenha começado com uma decepção, mas agora queremos controlar tudo loucamente.

Talvez tenha começado com um bullying, um pai competitivo, mas agora parece que estamos simplesmente sem forças.

Nós tornamos as nossas vidas mais difíceis do que deveriam ser, porque insistimos em olhar para as pessoas, nós mesmos e os outros, como um mal e um meio, em vez de as vermos como vítimas, tal como nós, de uma história inicial extremamente complicada.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins a partir de:
“Why We’re All Messed Up By Our Childhoods” – Alain de Botton

psicólogo clínico

Deficit – Na Prespectiva da Saúde Mental

No seu sentido habitual o termo deficit significa insuficiência ou carência de algo. Do ponto de vista mental referimo-nos à insuficiente recepção ou fornecimento de algo que o sujeito deveria ter recebido por parte dos seus pais ou cuidadores, numa determinada etapa evolutiva da sua vida.

Este ponto de vista encontra-se vinculado à convicção de que todo o sujeito para o seu adequado desenvolvimento mental e para a harmonia e coerência do seu self, deve receber uma razoável dose de cuidados entre os quais se incluem amor, ternura, aprovação, confiança, aceitação, tolerância e segurança num regime de coerência e continuidade.

Quando essas contribuições não são suficientes produz-se um deficit.

Como é natural, aquilo que provoca o deficit não é somente ausência do que se necessita, do positivo, mas também a presença do que é prejudicial, que é negativo: ódio, agressividade, incoerência, instabilidade, desleixo, maus tratos físicos, patologia dos pais, instabilidade, etc.

Quando falamos de deficit podemos estar a referirmo-nos ao comportamento dos cuidadores, um facto objectivo, mas em si mesmo, o deficit não é um facto objectivo mas uma experiência subjectiva: a experiência de fragilidade, de incoerência, instabilidade, caos interno, sentimento de vazio, sensação de carência, etc.

A isso soma-se o sentimento de não se ser escutado, de não se ser amado, de não se ser reconhecido, de não se receber atenção, de ser abandonado, etc.

O grau em que esta experiência subjectiva coincide ou não com o que usualmente se denomina de “realidade objectiva” é sempre, salvo casos extremos de negligência e abandono, muito difícil ou impossível de precisar, porque a suposta realidade objectiva varia muito dependendo do observador.

Adaptado de Joan Coderch
“La prática de la psicoterapia relacional”

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