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Por que a Terapia Funciona Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Por que a Terapia Funciona?

Actualmente a discussão já não anda tanto à volta da eficácia das psicoterapias, mas na razão por que a terapia funciona; quais os factores que estão na base da sua eficácia.

Em 2006, uma equipa de investigadores noruegueses começou a estudar como os psicoterapeutas com vasta experiência ajudam as pessoas a mudar.

Liderada por Michael Rønnestad, professor de psicologia clínica da Universidade de Oslo, a equipa acompanhou cinquenta pares terapeuta-paciente, analisando minuciosamente o que tornou os terapeutas tão eficazes.

Margrethe Halvorsen, uma pós-doutorada na época, teve a função de entrevistar os pacientes no final do tratamento.

Foi assim que conheceu Carrie – uma mulher de quase 40 anos, solteira, sem filhos e fácil de gostar.

Quando criança, Carrie (pseudónimo) tinha sido, de forma repetida, abusada sexualmente às mãos da mãe e dos amigos dela.

Antes de iniciar a terapia, costumava automutilar-se e tentou matar-se várias vezes. O seu corpo apresenta marcas das tentativas de suicídio.

“A história dela estava ali… à minha frente”, refere Halvorsen, depois fica em silêncio enquanto tenta encontrar palavras para transmitir a forte impressão que Carrie lhe causou.

Sete anos depois de se conhecerem, ainda é difícil articular: “Talvez “presença” seja a palavra certa”.

Foi a forma como Carrie falou das atrocidades de que foi vítima – com voz firme e olhos bem abertos – que levou a investigadora a interrogar-se sobre como alguém tão marcado poderia parecer tão vivo e inteiro.

A certa altura da entrevista, quando Halvorsen pediu a Carrie que descrevesse a sua terapia numa imagem ou palavra, ela deixou escapar: ‘Salvou a minha vida’.

Intrigada, convidou três colegas psicólogos para ajudá-la a aprofundar o caso de Carrie e descobrir o que aconteceu na terapia. “Não sabíamos onde estávamos a entrar”, disse-me Halvorsen.

 

Duas pessoas sentam-se numa sala e conversam, todas as semanas, por um período de tempo determinado, e a certa altura uma delas sai uma pessoa diferente. Por quê? Como?

 

Após as entrevistas iniciais com Carrie e com o seu terapeuta, os investigadores obtiveram um total de 242 notas resumidas que os dois tinham escrito após cada sessão ao longo dos três anos do estudo.

A partir desses dados, a equipa seleccionou e transcreveu literalmente 25 sessões que pareciam particularmente importantes. O material final era composto por 500 páginas.

Halvorsen e os seus colegas permaneceram intrigados por mais de dois anos, numa tentativa de entender o que exactamente tinha salvado a vida de Carrie.

Quando mergulhamos na questão de como as pessoas mudam através da terapia podemos ficar com a cabeça às voltas.

Aqui está uma intervenção psicológica que parece funcionar tão bem quanto as drogas (e, sugerem os estudos, provavelmente, melhor a longo prazo), e, no entanto, como é que exactamente isso funciona?

Duas pessoas sentam-se numa sala e conversam, todas as semanas, por um período de tempo determinado, e a certa altura uma delas sai uma pessoa diferente, que já não está atormentada pela dor, refém do medo ou esmagada pelo desespero. Por quê? Como?

As coisas ficam ainda mais intrigantes se você considerar o grande número de terapias disponíveis e os diferentes métodos que elas costumam usar.

Algumas querem que você sinta mais (por exemplo, abordagens psicodinâmicas e focadas na emoção); outras – sentir menos e racionalizar mais (por exemplo, terapias cognitivo-comportamentais ou CBT).

As primeiras veem as emoções difíceis como algo que precisa sair, ser trabalhado, elaborado e re-assimilado; as segundas – como algo a ser estimulado e controlado através da modificação consciente de pensamentos negativos.

Alguns terapeutas falam pouco, deixando espaço para que certos sentimentos ​​dos pacientes venham à superfície; outros dificilmente param entre sequências estruturadas de exercícios e trabalhos de casa.

 

O que acontece entre o paciente e o terapeuta vai além da mera conversa e é mais profundo do que o tratamento clínico

 

Em mais de 400 psicoterapias disponíveis actualmente, o seu terapeuta pode assumir a forma de um curandeiro, um confidente, um clínico, um coach, um treinador de condicionamento mental ou qualquer combinação ou derivação disto.

Nos últimos três anos, conversei com dezenas de terapeutas de várias escolas, tentando perceber a eficácia da psicoterapia, como a terapia funciona – e com isso quero dizer – curas.

Ultimamente, ampliei a minha pesquisa para perceber as bases da eficácia terapêutica para incluir investigadores, terapeutas e profissionais da área, mas a maioria dessas conversas fez-me sentir que nem os estudiosos em mudanças terapêuticas, nem os que as efectuavam poderiam, quando pressionados, explicar de maneira convincente como é que as pessoas se curam.

A contragosto, eu voltava novamente ao que Alan Kazdin, professor de psicologia e psiquiatria infantil na Universidade de Yale, referiu em 2009, num artigo amplamente citado:

‘É notável que, após décadas de pesquisa em terapia, não possamos fornecer uma explicação baseada em evidências de como ou porque, até mesmo as nossas intervenções mais estudadas produzem mudanças.’

Para complicar, numerosos estudos nas últimas décadas chegaram ao que parece ser uma conclusão contraintuitiva: que todas as psicoterapias têm efeitos relativamente parecidos.

Isto é conhecido como o “veredicto das aves Dodo” – em homenagem a um personagem de Alice no País das Maravilhas (1865) que declara após um concurso: “Todos ganharam e todos devem ter prémios”.

O facto de nenhuma forma isolada de terapia se ter mostrado significativamente melhor de que as outras pode surpreender os leitores, mas é familiar aos pesquisadores da área.

 

O vínculo emocional e a colaboração entre paciente e psicoterapeuta – chamada aliança terapêutica – emergiram como um forte preditor de melhorias

 

“Há tantos dados para essa conclusão que, se não fosse tão ameaçadora para certas teorias, seria aceite há muito tempo como uma das principais descobertas da psicologia”, escreve Arthur Bohart, professor emérito da California State University, Dominguez Hills, e autor de vários livros sobre psicoterapia.

Mesmo assim, essa alegada equivalência entre várias terapias é um produto da estatística.

Não diz nada sobre o que funciona melhor para cada indivíduo em específico, nem implica que você possa escolher um qualquer tipo de terapia e obter o mesmo benefício.

Talvez algumas pessoas se deem bem com a forma estruturada duma abordagem cognitiva, enquanto outras respondam melhor à exploração aberta e à procura e criação de sentido oferecidas pelas perspectivas psicodinâmicas/psicanalíticas.

Quando agregadas, essas diferenças individuais podem ser anuladas, fazendo com que todas as terapias pareçam igualmente eficazes.

Muitos pesquisadores, no entanto, acreditam que essa não é a única explicação.

Para eles, a razão mais profunda pela qual nenhuma terapia parece oferecer vantagens únicas sobre qualquer outra, é que todas elas são eficazes por causa dos elementos que compartilham.

A principal delas é a relação terapêutica; associada a resultados positivos por uma quantidade de evidências.

O vínculo emocional e a colaboração entre paciente e psicoterapeuta – chamada aliança terapêutica – emergiram como um forte preditor de melhorias, mesmo em terapias que não enfatizam factores relacionais.

Ver: Psicanálise e Psicoterapia Relacional – Uma Introdução

Até recentemente, a maioria dos estudos sobre a aliança terapêutica mostrava que ela se correlacionava apenas com uma melhoria da saúde mental nos pacientes, mas os avanços nos métodos de pesquisa permitiram encontrar evidências através de um nexo de causalidade, sugerindo que a relação terapêutica pode realmente estar na base da cura.

 

Bowlby percebeu que “o vínculo mãe-bebé não é puramente gerado pelo desejo de agarrar o seio como fonte de alimento, mas também é motivado pela ideia de ligação ao outro”

 

Da mesma forma, a investigação sobre os traços dos psicoterapeutas que apresentam bons resultados revelou que a maior experiência ou a adesão mais rigorosa a uma abordagem específica não resulta em maior eficácia, ao passo que a empatia, a afectividade, a esperança e a expressividade emocional se traduz em melhorias.

Tudo isso sugere uma alternativa tentadora à visão da terapia, tanto do profissional quanto do leigo: que o que acontece entre o paciente e o terapeuta vai além da mera conversa e vai mais fundo do que o tratamento clínico (propriamente dito).

A relação é superior e mais primitiva, e compara-se aos avanços no desenvolvimento que ocorrem entre mãe e bebé, e que ajudam a transformar um bebé envolto num turbilhão de sensações e emoções, numa pessoa normal e saudável.

Estou a referir-me à vinculação.

Para levar a analogia ainda mais longe, e se, pergunta a teoria da vinculação, a terapia lhe der a oportunidade de voltar atrás e reparar os seus primeiros laços emocionais e corrigir o funcionamento nocivo que está na base do seu sofrimento mental?

A teoria da vinculação foi desenvolvida pelo psicanalista britânico John Bowlby, que na década de 1950 combinou a teoria evolutiva e a psicanálise num corajoso novo paradigma.

Agastado com a falta de rigor académico na sua profissão, Bowlby voltou-se para a etologia.

Experiências com macacos recém-nascidos (algumas tão cruéis que nenhum conselho de ética as permitiria hoje) desafiaram a noção predominante de que os bebés veem as mães, principalmente, como fonte de alimento.

Bowlby percebeu que “o vínculo mãe-bebé não é puramente gerado pelo desejo de agarrar o seio como fonte de alimento, mas também é motivado pela ideia de ligação ao outro”, diz Jeremy Holmes, professor britânico de terapias psicológicas (agora aposentado) e co-autor do livro Attachment in Therapeutic Practice (2018).

 

As pesquisas sobre a teoria da vinculação sugerem que as interacções precoces com os cuidadores podem afectar drasticamente as crenças sobre si mesmo

 

Bowlby demonstrou que a busca por uma ligação ou segurança é uma necessidade inata: evoluímos para procurar um vínculo com os cuidadores ‘mais velhos e mais sábios’ para nos proteger do perigo durante o longo período de desamparo conhecido como infância.

A figura do apego, geralmente um ou ambos os pais, torna-se uma base segura a partir da qual explorar o mundo, e um porto seguro para o qual retornar para ser revigorado.

Segundo Holmes, Bowlby viu na teoria da vinculação “o começo de uma ciência dos relacionamentos íntimos” e a promessa de que ’se pudéssemos estudar pais e filhos, e a maneira como eles se relacionam, poderíamos começar a compreender o que acontece entre paciente e terapeuta’.

As pesquisas sobre a teoria da vinculação sugerem que as interacções precoces com os cuidadores podem afectar drasticamente as crenças sobre si mesmo, as expectativas em relação aos outros, a maneira como você processa as informações, lida com o stress e regula as emoções enquanto adulto.

Por exemplo, filhos de mães com sensibilidade – do tipo afectuoso e tranquilizante – desenvolvem uma vinculação segura, aprendem a aceitar e expressar sentimentos negativos, pedem ajuda e apoiam-se nos outros, e confiam na própria capacidade de lidar com o stress. 

Por contraste, filhos de cuidadores que não são responsivos ou são insensíveis desenvolvem uma vinculação insegura.

Eles tornam-se ansiosos e angustiados ao menor sinal de separação da sua figura de vinculação.

Os filhos de mães severas ou depreciadoras desenvolvem um padrão de vinculação inseguro evitante; suprimem as suas emoções e lidam sozinhos com o stress.

Finalmente, crianças com cuidadores abusivos ficam desorganizadas; elas alternam entre o evitante e o ansioso, envolvem-se em comportamentos estranhos e, como Carrie, geralmente têm comportamentos auto-destrutivos.

 

Impulsionadas por uma necessidade desesperada de segurança, as pessoas com vinculação insegura procuram “fundir-se” com os seus parceiros

 

Estilos de vinculação insegura ansiosa, insegura evitante e desorganizada desenvolvem-se como respostas a cuidados inadequados; um caso de: ‘tirar o melhor proveito de uma situação má’.

As interacções repetidas com figuras de vinculação não responsivas podem ser codificadas de maneira neutra e, mais tarde na vida, subconscientemente activadas, especialmente na intimidade e em situações stressantes.

É assim que os padrões de vinculação na infância se podem solidificar numa parte corrosiva da personalidade, distorcendo a forma como a pessoa se vê, experimenta o mundo e interage com os outros.

O psicólogo Mario Mikulincer, do Centro Interdisciplinar Herzliya em Israel, é um dos pioneiros da moderna teoria da vinculação, estudando precisamente os efeitos em cascata.

Em várias experiências ao longo de duas décadas, ele descobriu que, enquanto adultos, as pessoas ansiosas têm baixa auto-estima e são facilmente dominadas por emoções negativas.

Eles também tendem a aumentar os perigos e a duvidar da sua capacidade de lidar com eles.

Impulsionadas por uma necessidade desesperada de segurança, essas pessoas procuram “fundir-se” com os seus parceiros e podem ficar desconfiadas, com ciúmes ou com raiva deles, geralmente, sem uma causa objectiva.

Se os ansiosos entre nós desejam a conexão, as pessoas evitantes lutam pela distância e pelo controlo.

Eles desapegam-se de emoções fortes (positivas e negativas), retiram-se dos conflitos e evitam a intimidade.

A autoconfiança deles significa que se veem fortes e independentes, mas essa imagem positiva é fabricada às custas de manter uma visão negativa dos outros.

Como resultado, os seus relacionamentos íntimos permanecem superficiais, frios e insatisfatórios.

E embora ficar emocionalmente entorpecido possa ajudar as pessoas evitantes nos desafios do dia-a-dia, a pesquisa mostra que, no meio de uma crise, as suas defesas podem desmoronar e deixá-las extremamente vulneráveis.

Não é difícil ver como esses padrões de vinculação podem prejudicar a saúde mental.

 

O bom terapeuta torna-se uma figura de apego temporária

 

Tanto os que têm uma vinculação insegura ansiosa como insegura evitante têm sido associados a um maior risco de desenvolver ansiedade, depressão, solidão, distúrbios alimentares, dependência do álcool, abuso de substâncias e violência.

A forma de tratar esses problemas, dizem os teóricos da vinculação, é através de um novo relacionamento.

Nesta perspectiva, o bom terapeuta torna-se uma figura de apego temporário, assumindo as funções de uma mãe nutridora, reparando a confiança perdida, restaurando a segurança e desenvolvendo duas das principais capacidades geradas por uma infância normal: a regulação das emoções e uma intimidade saudável.

Quando Carrie começou a terapia, ficou claro que ela seria uma paciente que colocaria vários desafios.

A carta do seu médico pedia alguém “corajoso” para tratá-la, e podemos ver porquê: ela insistia em manter o direito de se auto-mutilar e de se suicidar.

“Tive a sensação de que ela se poderia matar a meio da terapia mas tive de correr esse risco”, disse o terapeuta aos investigadores no final do estudo.

Então, como é que ele conseguiu trazer Carrie de volta?

Ao analisar algumas respostas da enorme quantidade de dados recolhidos, Halvorsen e a sua equipa descobriram um padrão entre Carrie e o terapeuta análogo às interacções mãe-bebé.

Primeiro, Carrie desvalorizava-se e afundava-se mais, depois o terapeuta reconhecia as suas emoções negativas, e de imediato interpretava as suas tendências destrutivas como um mecanismo de sobrevivência que ela usara em criança para se proteger do trauma, mas que a prejudicavam enquanto adulta.

Gentilmente, mas com firmeza, ele desafiou a auto-aversão de Carrie, reestruturando o que ela via como condenável e inaceitável em si mesma, em algo humano e compreensível.

Frequentemente, ele pedia que ela pensasse na “criança na escada”, referindo-se a uma memória que Carrie tinha compartilhado numa sessão anterior.

 

Não entendemos as nossas experiências internas até vê-las acontecer nas reacções dos cuidadores

 

“É uma cena realmente perturbadora”, disse-me Halvorsen – em que a mãe de Carrie fica enfurecida com ela. – A mãe encheu uma mala com algumas das roupas da menina e mandou-a embora.

E a menina ficou sentada na escada por longas horas, sem saber o que fazer ou para onde ir.

Halvorsen notou que o terapeuta voltava a essa cena repetidamente, tentando evocar a auto-compaixão de Carrie e combater a sua implacável autocrítica.

Este padrão empático com reenquadramento e restruturação parece-se com as trocas de espelhamento e mitigação entre mãe e bebé nos primeiros anos de vida.

Esteja algum tempo junto de um recém-nascido e você verá que, quando ele chora, a mãe entra, pega-o ao colo e depois a sua expressão facial imita exageradamente a angústia do bebé.

De acordo com o psicanalista Peter Fonagy, da University College London, este espelhamento amplificado da mãe, esta imagem que devolve ao bebé, constitui uma parte fundamental para a criança poder desenvolver um senso de si e um controlo emocional.

“A ansiedade, por exemplo, é para o bebé uma mistura confusa de mudanças físicas, ideias e comportamentos”, refere Fonagy. ‘Quando a mãe reflecte, ou espelha a ansiedade da criança, ele agora ‘sabe’ o que está a sentir.’

Fonagy refere que este conhecimento não vem pré-instalado em nós. Não entendemos o significado das nossas experiências internas até vê-las exteriorizadas ou representadas nos rostos e nas reacções dos nossos cuidadores.

“Paradoxalmente, mesmo que agora eu saiba perfeitamente bem quando me sinto ansioso”, explica Fonagy numa entrevista em vídeo de 2016, “a ansiedade que reconheço como minha ansiedade não é propriamente a minha própria ansiedade, mas é a imagem da minha mãe a olhar para trás quando eu, em bebé, me senti ansioso.

 

A imagem que a mãe devolve ao bebé, constitui uma parte fundamental para este poder desenvolver um senso de si e um controlo emocional.

 

A mãe sensível capta o estado mental e emocional do bebé e espelha-o. Desta forma a criança aprende a reconhecer a sua experiência interna como “tristeza” ou “ansiedade” ou “alegria”.

As sensações anteriormente caóticas agora tornam-se coerentes e integradas no senso de quem ele é, permitindo que as emoções sejam processadas, previstas e manejadas adequadamente.

Mas a mãe não se limita a espelhar a dor emocional do bebé; ela acalma-o.

Embalando o bebé nos braços ou murmurando com uma voz suave, a mãe responsiva sustem o choro e contém os sentimentos negativos do bebé.

A angústia, escreve Holmes em 2015, “é transmitida do bebé para mãe, “metabolizada”, ou seja, pré-digerida, e devolvida ao bebé com menor intensidade e num formato que ele possa digerir.

O terapeuta de Carrie também a ajudou a assimilar os seus sentimentos mais dolorosos. Ao aprender a tolerar estados negativos, ela poderia desenvolver resiliência face às suas experiências internas mais sombrias.

Ele encorajou-a a deixar sair a vergonha e a raiva, e devolveu-as empaticamente de uma forma que a fizesse sentir-se vista e reconhecida.

Mas ele também conteve e transformou essas emoções para ela, devolvendo-as em termos de adaptação, protecção e sobrevivência.

Como uma boa mãe, pré-digeriu a angústia de Carrie, dando-lhe um sentido, um significado e uma explicação.

O terapeuta transformou-as em algo que agora poderia ser aceite e suportado.

Eventualmente, a co-regulação das emoções entre mãe e filho, ou terapeuta e paciente, abre o caminho para o auto-domínio e auto-regulação.

Uma forma de isso acontecer nos primeiros anos, escreve Mikulincer, em 2003, é internalizando o cuidador:

A voz e a atitude do cuidador tornam-se parte de si e, quando você se depara com uma fase difícil, começa a usar as mesmas falas, o mesmo tom, que a sua mãe costumava usar para o acalmar.

 

O bom terapeuta sintoniza inconscientemente os estados internos dos quais o paciente pode nem estar ciente

 

Ao mesmo tempo, a progressiva emancipação da dependência emocional na infância passa pelo crescimento dos seus próprios recursos internos, enfrentando e aprendendo com os desafios.

Ao fazer um movimento para o exterior a jovem criança enfrenta o risco inevitável do fracasso.

“Com o apoio, a segurança, a orientação e o incentivo de uma figura de apego cuidadosa e afectuosa, as crianças podem lidar melhor com o fracasso, persistir na tarefa apesar dos obstáculos, e inibir outros impulsos e distracções”, referiu Mikulincer.

Dessa forma, as crianças aumentam a sua tolerância a emoções negativas e desenvolvem capacidades preciosas para lidar com os problemas por conta própria.

Um processo semelhante ocorre na terapia. Passado algum tempo, os pacientes internalizam o afecto e a compreensão do seu terapeuta, transformando-o num recurso interno para obter força e apoio.

Uma voz nova e compassiva cintila na vida, silenciando a do crítico interno – ele próprio um eco de figuras insensíveis de apegos anteriores.

Mas esta transformação não é fácil. Como escreveu o poeta W H Auden em The Age of Anxiety (1947): ’Preferimos estar arruinados a mudar…’

É função do terapeuta é orientar os pacientes enquanto viajam por águas desconhecidas, ajudando-os a permanecer esperançosos e a persistir através da dor, tristeza, raiva, medo, ansiedade e desespero que possam ter de enfrentar.

Isso acontece não apenas através das conversas, mas também no silêncio.

De facto, de acordo com o psicólogo Allan Schore, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que estudou o apego do ponto de vista da neurobiologia nos últimos 20 anos, a mudança na terapia não ocorre tanto na comunicação verbal entre paciente e terapeuta, mas de uma maneira mais imperceptível – através de uma diálogo entre dois cérebros e dois corpos.

Talvez este modo de vinculação predomine nas terapias que procuram aprofundar as emoções.

 

A mãe sensível capta o estado mental e emocional do bebé e espelha-o. Desta forma a criança aprende a reconhecer a sua experiência interna

 

Mais uma vez, o processo espelha a boa prestação de cuidados no início da vida.

Muito antes da fala, mãe e bebé comunicam-se por meio de vias não-verbais – expressão facial, contemplação mútua, nuances vocais, gestos e toques.

A mãe sensível “lê” os estados emocionais do filho e responde apropriadamente através do seu próprio corpo.

Estas comunicações não-verbais, escreve Schore, são registadas e processadas pelo hemisfério direito do bebé, moldando os sistemas neuronais nascentes, envolvidos no processamento emocional e nas respostas automáticas ao stress.

Os sinais não-verbais da mãe são codificados como estratégias inconscientes implícitas que o hemisfério direito do bebé mais tarde activará inconscientemente para regular as suas emoções.

Mais uma vez, algo semelhante ocorre na terapia. O bom terapeuta sintoniza subconscientemente as emoções não verbalizadas; estados internos dos quais o paciente pode nem estar ciente.

Momento a momento, o terapeuta ajusta a sua própria linguagem corporal em resposta aos ritmos internos do paciente, envolvendo-os num tipo de dança na qual ambos os parceiros se sincronizam e se influenciam mutuamente.

De acordo com Schore, com o tempo, as comunicações não-verbais do terapeuta podem ficar impressas no hemisfério direito do paciente, examinando os padrões de coping guardados, e dando origem a padrões mais flexíveis e adaptáveis.

Para Fonagy, um factor igualmente fundamental na terapia para a restauração do bem-estar é a aprendizagem social.

Do ponto de vista da evolução, podemos estar desconfiados das outras pessoas, porque um viés negativo serve para a sobrevivência.

No entanto, para uma espécie intensamente social como a nossa, estar constantemente à defesa não é um bom presságio.

Como, então, confiamos, cooperamos e conectamos com as outras pessoas, além de nos protegermos da ameaça que elas podem representar?

 

O principal valor da psicoterapia reside no seu potencial de reavivar a nossa confiança epistémica

 

A teoria da pedagogia natural, proposta em 2011 por Gergely Csibra e György Gergely, professores de ciências cognitivas da Universidade da Europa Central em Budapeste, sugere uma resposta.

Nesta visão, a evolução criou um mecanismo sofisticado para relaxar a nossa vigilância natural, para que possamos aprender com os outros.

Para reconhecer fontes de informação relevantes e confiáveis, confiamos em certas pistas ou sinais visuais e verbais.

Na infância, escreve Fonagy em 2014, estes sinais são os mesmos que estão subjacentes a uma ligação segura (as vocalizações ‘maternais’, por exemplo).

Noutras palavras, os bebés estão preparados para confiar no cuidador sensível, que, por sua vez, os ensina a confiar nos outros e a navegar no mundo social.

Um estudo da Universidade de Harvard em 2009 mostra que crianças seguramente vinculadas são juízes exigentes e credíveis – confiam na mãe quando ela está a ser razoável, mas seguem os seus próprios julgamentos quando as posições desta são contrárias à realidade.

A segurança em si e nos outros transforma as crianças em adultos abertos a novas informações, confortáveis ​​com a incerteza e flexíveis para mudarem de opinião à luz de novos dados.

O oposto verifica-se para os que têm uma vinculação insegura.

As pessoas ansiosas tendem a distorcer os sinais sociais e exagerar as ameaças, e isso pode induzi-las a ver os seus parceiros como não confiáveis, solidários ​​ou desinteressados.

As pessoas com o padrão evitante de vinculação estão concentradas em proteger-se, o que pode fazer com que se agarrem a estereótipos negativos dos outros face a amplas evidências em contrário.

Por exemplo, no estudo de Mikulincer em 2003, casais avaliavam o comportamento dos seus parceiros ao longo de três semanas.

 

A angústia é transmitida do bebé para mãe, “metabolizada”, ou seja, pré-digerida, e devolvida ao bebé com menor intensidade e num formato que ele possa digerir.

 

Enquanto as pessoas ansiosas deram classificações mais altas quando os seus cônjuges eram objectivamente mais solidários, as pessoas com o padrão evitante inseguro falharam completamente em registar as mudanças positivas dos seus parceiros.

Aparentemente, o apego inseguro perpetua a nossa suspeita natural, mantendo-nos fechados e não receptivos a informações socialmente relevantes.

Fonagy chama a isto “desconfiança epistémica” e, para ele, pode ser o denominador comum de muitos problemas de saúde mental, explicando a sua gravidade e persistência.

O principal valor da terapia reside no seu potencial de reactivar a nossa confiança epistémica e impulsionar a capacidade de aprendermos com os outros no nosso ambiente social.

Ao restaurar a vinculação segura, a terapia reduz a nossa vigilância social e abre-nos a possibilidade confiar numa pessoa – o terapeuta – que eventualmente nos permite sair para o mundo e confiar nas outras pessoas.

A importância deste reconhecimento é tal que mesmo nas sessões de CBT, quando os terapeutas são bombardeados pelos sentimentos perturbados dos pacientes, eles mudam temporariamente o foco ou postura habitual para empatizar com o sentimento presente e depois voltam a enfatizar os temas cognitivos e controle racional da experiência emocional.

A restauração da vinculação segura foi o que aconteceu com Carrie.

Nas últimas sessões, ela percebeu que não estava realmente sozinha. Ela tinha um amigo em quem podia confiar e uma irmã que compartilhou as suas memórias de infância.

Não era que essas pessoas estivessem ausentes anteriormente; ela simplesmente não as estava a ver, ou talvez não pudesse confiar no que estava bem à sua frente.

Mas a sua crescente confiança – primeiro no terapeuta, depois na boa vontade do mundo e na sua própria capacidade de navegar – permitiu-lhe ver os outros, ‘mais como oportunidades de contacto social do que como ameaças’.

 

Passado algum tempo de terapia, os pacientes internalizam o afecto e a compreensão do seu terapeuta, transformando-o num recurso interno ao qual podem recorrer

 

A terapia de Carrie não a curou: o seu trauma era demasiado profundo. Mas ela foi salva. Agora estava pronta para viver e continuar o processo de cura.

Na sua última sessão, Carrie deixou um presente de despedida para o terapeuta – um mosquetão (anel metálico usado em desportos que usam cordas, como por exemplo, a escalada).

É assim que nas montanhas, dois alpinistas ficam presos/vinculados com segurança por uma corda, de modo que, se um escorrega, o vínculo impede o outro de cair no precipício.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de Cradled by Therapy – Elitsa Dermendzhiyska

 

relação psicoterapia

Adiar o início da Psicoterapia

Caminhando entre as insondáveis razões que levam as pessoas a adiar o começo de uma psicoterapia, deparamos com várias que, apesar de reconhecerem a necessidade, optam por coisas, digamos, menos convencionais. Tenho algo contra? Nada a opor, se forem uma ajuda. Na maioria das vezes não são uma ajuda, e quando o são, por norma é temporária (o seu efeito é proporcional à relação que se estabelece). Porque as pessoas optam por elas? Posso pensar que as considerem mais rápidas, mais baratas, mais eficazes, etc. Mas pode ser que uma das razões possa assentar no tipo de relação que se estabelece (ou não).

Recordo uma jovem mulher que recebi e que se mostrou muito interessada em discutir a minha orientação. Ainda que de forma superficial conhecia as principais correntes psicoterapêuticas. Para além disso conversamos um pouco sobre ela e sobre a sua vida. Ao falar-me das suas relações compreendi melhor o grande interesse sobre a minha orientação e até que ponto eu fazia uso das teorias.

Para ela se sentir segura era fundamental que existisse algo que a pudesse manter separada dos outros. Um muro de betão, um vidro ou uma fina película, conforme o género de relação.

No nosso caso queria assegurar-se que entre mim e ela existiria uma teoria que nos separava. Ficaria mais segura em saber que não era eu (a nossa relação) que a estava a ajudar mas a teoria.

As suas relações (defeituosas, intrusivas, insuficientes) levaram a que as conexões emocionais se fossem reduzindo e sujeitas a um grande escrutínio. Antes de entrar precisava saber o que ia encontrar. Por norma não é possível saber o que vai acontecer, antes de acontecer. Na ausência desse conhecimento fazia uso do conhecimento adquirido, supondo que, seguramente – para o bem e para o mal – se ia repetir.

Mas por muitas voltas que se dê, aquilo que foi estruturado na interacção com o “outro” só na relação com o “outro” pode ser modificado, através de uma nova, fresca e sadia via de conexão emocional.

mudança psíquica

Mudança Psíquica no Processo Terapêutico

Mudança Psíquica

O que chamamos de carácter (Cordech, 2010) de uma pessoa, a sua maneira de ser, a forma como se comporta perante a vida e com os outros em geral depende deste estrato profundo da mente, cujo conjunto é o que consideramos o inconsciente de procedimento ou não reprimido.

E é este nível básico da vida mental que é modificado mediante a interacção e a experiência intersubjectiva que o paciente e terapeuta vivem durante o processo terapêutico, produzindo-se, como consequência disto, a mudança psíquica.

Isto não deveria causar-nos estranheza, pois é totalmente espectável que a mente que foi estruturada através da interacção do sujeito com o meio ambiente, apenas possa, através da interacção, ser modificada. (Loewld, 1960, 1979).

 

 

Realidad, Interracción y cambio psíquico
La prática de la psicoterapia relacional
Joan Coderch de Sans

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