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Psicoterapia

a arte de se separar ou ficar junto

A difícil arte de estar junto (ou de se separar)

Balint – Ocnofilia e Filobatismo 

Namoros, casamentos, empregos, ideias, relações eróticas, e toda uma variedade de coisas com que nos relacionamos têm fim.

Como pode então uma situação tão à mão de todos os mortais, um assunto tão discutido, do charlatanismo à filosofia, causar desastres quando faz a sua chegada?

Porque não conseguimos deixar os outros partirem, transformando anos, décadas de amor, apego e suporte em ódio, indiferença e vingança?

A “resposta” está relacionada com duas posições básicas que começam no bebé e, cristalizadas, podem às vezes permanecer no adulto, gerando ansiedade, angústia e fazendo com que muitos de nós se transformem em “escravos” nos relacionamentos.

Balint recorre ao mundo infantil (brinquedos e/ou brincadeiras que causam arrepios, como por exemplo a montanha-russa) para nos ajudar a compreender a existência de duas posições no que diz respeito à relação como o objecto – (o objecto é uma representação mental de um objecto externo, um sujeito/outro/pessoa*).

Balint dá particular atenção a uma questão notória: o facto de que para alguns esses brinquedos/brincadeiras são fonte de intenso prazer, enquanto outros mal podem pensar em sentir o tal arrepio e frio na barriga. Guardemos essas duas reacções (aparentemente) antagónicas – elas são a base para o núcleo do pensamento neste trabalho.

Numa clara discordância de Freud (e Melanie Klein), Balint não acredita na existência do narcisismo primário, ou seja, o investimento total do bebé em si mesmo nos primeiros meses de vida de modo a que pense ser o único ser do mundo e o criador de todos os objectos*.

Para Balint, esse mundo inicial já é um mundo de relação com o outro, mas nele os outros atendem às necessidades do bebé de maneira incondicional. Os outros seguram-no, amamentam-no, o sustentam (no sentido físico), suportam a sua existência em toda a sua (do bebé) fragilidade.

Façamos agora a síntese dessas duas proposições:

Quais seriam as reacções possíveis do bebé ao perceber que os objectos* não existem para servi-lo? Que falham, têm vida e desejos próprios.

São duas as reações:

Ou se “penduram” no outro* para não o deixar escapar ou criam mecanismos para viver sem ele.

As duas posições básicas:

Balint dá tanta importância à sua descoberta que propõe duas palavras novas para descrever cada uma das respostas do bebé, às vezes também presentes nos nossos pacientes adultos; duas posições estas que são uma reacção à descoberta dos outros como autónomos.

Para o primeiro caso, a palavra proposta é ocnofilia, que vem de um radical grego que significa pendurar-se, encolher-se, hesitar (implícito aqui de que isso aconteça por medo, vergonha ou pena em relação a um outro. Este é o bebé que não gosta de andar na montanha-russa (metaforicamente falando): ao descobrir que os outros* não o servirão de forma incondicional para o resto da vida ele – cria mentalmente -, a possibilidade de se pendurar neles, quer eles queiram quer não.

Ou seja, para o ocnofílico, as distâncias são desesperantes, uma terrível ameaça e um vazio indizível. Apenas firmemente preso aos outros, ele pode viver e serenar a sua angústia.

A outra posição, advinda do mesmo problema é chamada de filobatismo.

Balint faz um mergulho nos significados arcaicos do radical desta palavra, mas para quem fala português o melhor é pensar no paralelo com a palavra acrobata. Este é o bebé que – cria mentalmente a ideia de que – não precisa dos outros*; melhor dito, que vive melhor sem eles. Ele confia no ambiente e em si e sente que a ameaça vem dos outros* que se aproximam dele. É um mundo inteiro “estruturado por distância segura e visão/observação”.

O filobata confia no mundo, nas distâncias. O problema surge quando necessita negociar com um outro que se impõe. Entretanto ele não despreza o outro: O filobata cuida dos outros. Na verdade ele transforma-os para o seu uso (e por isso cuida deles). O filobata não precisa dos outros, pelo menos, nenhum em particular.

Não parece difícil concordar com o autor: tudo o que é pensado aqui remete para questões muito primárias. O encontro com o mundo externo independente e com a consequente pergunta “e agora, o que vou fazer se o mundo se recusa a atender, de maneira absoluta, todos os meus desejos?”.

As duas saídas propostas são a ocnofílica e a filobática, ambas insatisfatórias, com seus prós-e-contras, se é que podemos falar assim, e que se tornam claras a partir do pensamento dos skills que cada posição desenvolve.

O ocnofílico tem os outros* como objectivo e desenvolve skills visando “um caminho eficiente para se pendurar e talvez (…) um método custoso para ser aceite pelo outro* como um tipo de parasita”. É uma técnica relativamente efectiva. O seu ponto fraco encontra-se no facto de que “o seu verdadeiro desejo nunca pode ser alcançado pelo estar colado ao outro*. O verdadeiro desejo é o de ser seguro pelo outro* e não o de pendurar-se desesperadamente nele”.

Já para o filobata o mundo é bem diferente. Desde que as coisas não fiquem demasiado complicadas, ele, o acrobata, sente-se imensamente seguro voando pelos céus. O risco encontra-se nos outros*, que não podem satisfazê-lo e são, por isso, perigosos.

Encontra segurança em relações em que faz dos outros* equipamentos que estão sempre dispostos a servi-lo nas suas acrobacias e por isso são, pelo filobata, muito bem cuidados.

Agora, claro, dada a característica primitiva das duas posições é inevitável, para Balint e para nós, falar de dois sentimentos também primitivos, avassaladores e conectados: amor e ódio. (brevemente)

 

 

Este post teve por base excertos (modificados) de:

A difícil arte de estar junto (ou de se separar) – Luis Fernando Santos

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