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Compreender a Ansiedade Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico.

Compreender a Ansiedade (parte II)

ANSIEDADE EXISTENCIAL

E se a ansiedade não estiver ligada a nenhuma situação recente, mudança ou evento stressante?

E se de alguma forma a ansiedade surgir do nada? Na verdade, às vezes, a ansiedade pode surgir inesperadamente quando certas situações nos levam a reflectir sobre “o estado” da nossa vida.

Inevitavelmente, todas as pessoas terão que considerar a sua morte. É mais provável que isso aconteça após uma situação em que alguém se viu confrontado com a morte; aquando da perda de um ente querido ou, simplesmente, de olhar para o futuro.

No entanto, a ansiedade existencial também pode surgir em circunstâncias agradáveis.

Por vezes, o nervosismo pode surgir com a tomada de consciência de que nenhum momento dura para sempre, e até o momento mais feliz acabará.

Como seres humanos, apreciamos tanto esses momentos que “deixá-los ir” pode gerar ansiedade.

A ansiedade existencial também pode surgir em circunstâncias agradáveis.

Mesmo que não estejamos a reflectir sobre questões de vida/morte, a ansiedade existencial pode surgir quando pensamos sobre os nossos objectivos, valores, ou planeamos o futuro.

Queremos que as coisas que fazemos e desejamos na vida tenham um propósito e um significado.

Quando os empregos, hobbies, relacionamentos ou objectivos pessoais começam a perder o propósito, a angústia e o mal-estar podem aparecer.

Pode parecer estranho, mas além das coisas desagradáveis que ansiedade existencial nos faz sentir, também está a enviar-nos uma mensagem importante.

Imaginemos que o João seguiu o desejo do pai de que ele também fosse advogado.

O João não questionou essa decisão nem pensou se esse objectivo estava de acordo com os seus desejos e valores. Apenas o seguiu diligentemente, convencido de que era isso que queria.

No entanto, após vários anos a exercer, sente-se cada vez mais nervoso, preocupado com coisas insignificantes e incapaz de dormir à noite, não encontrando nenhuma razão concreta para as insónias.

O trabalho é pouco gratificante. Ele esperava que ao atingir o objectivo (ser advogado) se sentiria completo, mas sente-se mais vazio do que nunca.

Neste caso, os sentimentos de ansiedade existencial, embora dolorosos, podem ser uma ajuda, encaminhando-o na direcção da auto-reflexão:

Quais são os meus objectivos? Ser advogado encaixa naquilo que desejo? É verdadeiramente significativo para mim? Que acções ou papéis marcantes estão a faltar na minha vida?

A ansiedade existencial pode ser comparada a um simpático bichinho que vive na nossa consciência.

Às vezes é esse bichinho que (no pior momento possível!) nos vem lembrar que a vida pode ser mais do que um conjunto de tarefas rotineiras e mundanas, e que uma vida com propósito e com objectivos é muito importante.

Essencialmente, a ansiedade existencial:

Pode, ou não, ser desencadeada por uma situação ou por um evento stressante. É um sentimento que surge, para a maioria das pessoas, de vez em quando.

Não há necessariamente um problema óbvio ligado à ansiedade existencial. No entanto, isso pode ajudar-nos a reflectir sobre questões importantes:

Porque faço isto? Porque o meu trabalho é importante para mim? O que é verdadeiramente significativo para mim? O que eu valorizo? Que pessoa quero ser nos relacionamentos? Etc.

Compartilhar a ansiedade existencial com os outros pode fazer com que nos sintamos menos sozinhos e mais capacitados para fazer escolhas de acordo com as nossas convicções.

No entanto, a vida trará sempre novas questões sobre as quais reflectir.

Criar conexões significativas e fazer escolhas consistentes com os nossos valores, são algumas das coisas que podem ajudar a combater a ansiedade existencial.

Agora que falámos um pouco sobre exemplos em que a ansiedade pode ser desconfortável, mas ao mesmo tempo útil, vamos falar sobre o que acontece quando a ansiedade se torna tão intensa que começa a atrapalhar mais do que a ajudar.

Neste caso podemos designá-la de ANSIEDADE DISFUNCIONAL

Em última instância até a ansiedade disfuncional tem alguma utilidade. No entanto, é preciso considerar os custos/benefícios.

A ansiedade disfuncional pode impedir-nos de atingir os nossos objectivos com mais frequência do que nos ajuda a alcançá-los.

É como se fosse um alarme de incêndio que faz um barulho ensurdecedor e que não se desliga. Tanto faz que se tenha queimado uma torrada ou que a casa esteja a arder: os sensores estão desligados, por isso não consegue avaliar a dimensão do problema.

A Ansiedade disfuncional pode impedir-nos de atingir os nossos objectivos.

As ameaças e os perigos são sentidos em todos os lugares, mesmo nos lugares seguros.

Existem maneiras diferentes disso se manifestar. Temos, por exemplo, padrões específicos de ansiedade (disfuncional) que surgem repetidamente, como a perturbação da ansiedade generalizada, ansiedade social, fobia específica, transtornos obsessivos, stress pós-traumático.

A ameaça que a pessoa experimenta em cada um destes padrões é um pouco diferente.

Quando uma pessoa experimenta ansiedade social severa, por exemplo, teme que as outras pessoas a julguem ou excluam. Esse medo pode evoluir e ter vida própria, levando a outras possibilidades assustadoras:

“E se ninguém gostar de mim?”; “E se os meus amigos apenas fingem que gostam de mim?”; “E se eu não conseguir encontrar um parceiro? ”; “ E se eu ficar sozinha para sempre? ”

A perturbação de Stress Pós-Traumático (PTSD) e a perturbação Obsessivo-Compulsiva também tendem a apresentar uma ansiedade significativa.

A PTSD é uma perturbação que ocorre após uma pessoa viver uma experiência traumática, como um assalto ou um acidente de carro.

A ansiedade na PTSD, geralmente, tem a ver com a sensação de ameaça e perigo para a vida ou o bem-estar da pessoa.

Muitas vezes a pessoa pode ter medo de coisas que sentia como seguras: caminhar na rua, (no caso de um assalto); conduzir (no caso de um acidente de automóvel).

A ansiedade disfuncional também pode surgir associada a outros tipos de problemas de saúde mental, como a depressão.

Embora na depressão a dificuldade principal da pessoa possa passar por sentir-se em baixo e triste, ela pode ficar preocupada e muito mais ansiosa do que costumava ficar em relação a várias questões.

A Ansiedade disfuncional sobrestima o perigo

Basicamente, a ansiedade disfuncional, é a ansiedade que gera certo tipo de pensamentos (preocupações excessivas, receios de rejeição, expectativas de fracasso), de sentimentos (nervosismo, angústia) e de estados físicos (tensão, dores abdominais, dificuldade de concentração) que não são proporcionais à ameaça real.

Quando vamos a uma festa para conhecer novas pessoas, por exemplo, corremos o risco de que algumas das pessoas que nos são apresentadas não gostem de nós.

No entanto, a ansiedade vai focar-se apenas nisso e irá ignorar outras possibilidades: que há pessoas na festa que podem sentir-se neutras em relação a nós ou achar que somos interessantes, engraçados, etc.

A ansiedade disfuncional amplia as coisas a um ponto que se assemelham a uma catástrofe.

Se conhecer uma pessoa na festa e ela não simpatizar consigo por um motivo qualquer, é pouco provável que tenha um impacto significativo na sua saúde, objectivos, trabalho ou relacionamentos.

Contudo, a ansiedade disfuncional tece uma teia de pensamentos em que um evento trivial parece conduzir a todos os tipos de tragédias no futuro: não ter amigos, ficar sozinho para sempre, etc..

Simplificando, a ansiedade disfuncional sobrestima o perigo e subestima os nossos recursos internos e externos.

É fundamental compreender o que estamos a sentir para tomar decisões informadas sobre o que realmente fazer em relação aos vários tipos de ansiedade.

Se, por exemplo, estamos a lidar com a ansiedade útil e funcional, mas a confundimos com a ansiedade disfuncional podemos seguir o caminho perigoso de tentar eliminar algo que é de facto valioso e útil.

Em resumo, a ansiedade disfuncional:

Geralmente, a ansiedade não é proporcional à situação, contexto ou evento, e é, frequentemente, excessiva e avassaladora.

Muitas vezes leva a evitar pessoas, lugares ou situações que são temidas. Prejudica os nossos objectivos e acções.

Nunca se está verdadeiramente tranquilo: a ansiedade não desaparece, somente diminui por um curto período de tempo.

Como podemos saber que tipo de ansiedade estamos a sentir?

Antes de mais, é preciso dizer que as pessoas podem experimentar os vários tipos de ansiedade – às vezes, até no mesmo dia!

É importante ter presente que os vários tipos de ansiedade não são mutuamente exclusivos.

Alguém com ansiedade social poder ter um pavor existencial, ou um ataque de pânico depois de receber más notícias sobre o trabalho. Também pode ter uma preocupação perfeitamente funcional em relação a uma cirurgia que é necessário agendar.

A ansiedade disfuncional é mais rara, e a ansiedade funcional está presente no dia-a-dia da maioria das pessoas. A ansiedade existencial costuma aparecer sem convite.

Adaptado por Pedro Martins a partir de: “Understand Anxiety” – Alina Sotskova

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