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Ghosting – O Novo Mundo das Relações

O vocábulo ghosting foi eleito pelo dicionário britânico Collins como uma das palavras do ano de 2015. Derivada do inglês ghost (fantasma), o termo tem sido usado para designar uma forma de terminar relacionamentos (inclusive, quando, aparentemente, tudo está bem) na era digital em que a pessoa desaparece, tal qual um fantasma, e deixa de responder às mensagens dos aplicativos e redes sociais, eximindo-se de dar qualquer explicação.

O ghosting está intimamente ligado à forma superficial como a maioria das relações on-line é construída. Não é, portanto, de estranhar que a maneira como certos relacionamentos terminam esteja em linha com a forma como começam.

O facto de tudo se passar muito rapidamente, impede o aprofundamento. Sem tempo para as pessoas se conhecerem melhor (essência das relações), os relacionamentos não se consolidam.

Numa altura que o vídeo e a fotografia estão tão presentes no nosso dia-a-dia é natural que a imagem tenha um peso muito grande. O “match” que por vezes está na base de alguns relacionamentos deu-se através de uma “imagem” que editei de mim próprio e que atraiu o outro. Se eu mostrar a minha “imagem” não editada a atracção acaba? Posso mostrar quem realmente sou? Receando as respostas, o aprofundamento fica comprometido, e sem isso é espectável que as relações durem pouco. Começar / Terminar acaba por ser apenas mais um aspecto dentro deste modelo de relacionamentos.

 

A Conexão é muito mais frágil que o Vínculo

Actualmente estamos todos conectados uns com os outros mas o número de vínculos é cada vez menor. O vínculo é um tipo de ligação mais profunda. A conexão pode ser vista como estar em “contacto com”, e a vinculação como uma união. A união-relação pressupõe a criação de uma quantidade de vias que me ligam ao outro e nas quais circulam os afectos.

Nós precisamos das relações para nos conhecermos e para nos alimentarmos afectivamente. Os relacionamentos são uma espécie de espelho que nos devolve a imagem do que somos mas, tendo em conta que são também um alimento, do que poderemos vir a ser. Se não se aprofundam as relações, perpetua-se a fragilidade – nas pessoas e nos relacionamentos.

Os outros são um espelho onde nos vemos, mas essencialmente, onde nos conhecemos e reconhecemos. Se o espelho que me valida não tem uma presença continuada (porque se afasta ou eu me afasto dele) não consigo avançar, porque a cada 10 segundos paro para perguntar: “Espelho meu, espelho meu, há alguém mais bonito que eu?”.

 

“Saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou.”

O desaparecer sem deixar rasto não é novo. O mítico episódio “foi comprar cigarros e não voltou” perdeu o glamour cinematográfico e caminha para uma banalidade assustadora. Actualmente 50% dos homens e das mulheres referem terem sido alvo de ghosting, e um número aproximado praticou.

 

O que leva a fazer Ghosting?

Entre as principais razões podemos encontrar:

– Imaturidade emocional: “Eu não compreendia exactamente o que sentia, então, em vez de tentar falar, eu ghosting (desapareci).”

– Evitar o confronto.

– Nos casos em que se desenvolveu uma empatia é mais difícil terminar.

Quanto mais isto acontece, mais as pessoas ficam insensíveis a isso, e a probabilidade de que o reproduzam aumenta.

 

Como se sente alguém que foi ghosted?

– A impossibilidade de encerrar pode ser considerada “enlouquecedora” (no sentido de não poder ser pensada; de não ter uma lógica).

– Pode ser uma experiência traumática (que leve a fugir de novas relações)

– Aquele que é deixado sofre ainda mais devido à indiferença. Pior do que ser deixado é perceber que o companheiro nem sequer achou que valesse a pena “terminar”.

– Paralisado e impotente. O ghosting não dá nenhuma pista para reagir. A pessoa fica sem conseguir lidar com a situação porque não sabe o que verdadeiramente se passou.

– O ghosting é uma forma de crueldade emocional porque a possibilidade de reagir é restringida. Não me sendo dada a possibilidade de fazer perguntas, de arranjar elementos que me ajudem a construir uma narrativa para o sucedido, eu posso ficar enredado numa quantidade de “porquês” (que podem conduzir a uma culpabilização). Perante esta situação eu fico impedido de processar emocionalmente a experiência de rejeição e de perda.

– A ausência do outro impede-me de expressar, de exteriorizar em direcção a ele o que estou a sentir. Impede-me de gritar, de partir pratos, de protestar, enfim, ser ouvido (a existir; sou ouvido logo existo). Este processo de nos “defendermos do ataque” desferido por aquele que nos rejeita é fundamental para a preservação da auto-estima. Numa situação de ghosting é provável que em vez de pôr em causa a relação eu próprio me coloque em causa.

 

A vida continua

Embora trabalhos recentes mostrem que uma percentagem dos sujeitos acha o ghosting aceitável em algumas circunstâncias (relações curtas), a maioria considera que se trata de uma atitude inaceitável.

Para algumas pessoas o ghosting pode ser uma experiência devastadora. Apesar disso, as pessoas mais maduras e equilibradas emocionalmente conseguem com maior rapidez encontrar uma saída para esta situação. A capacidade de rever os acontecimentos, de compreender e aceitar o papel que desempenhámos no relacionamento, permite, não só sair da situação mais rapidamente como desenvolver um faro para reconhecer situações semelhantes.

 

O Ghosting é muito frequente?

Nos trabalhos de Freedman et al. recentemente publicados no Journal of Social and Personal Relationships, 25% dos participantes referem que foram alvo de ghosting, e 20% indicaram que o praticaram aos companheiros.

Sem surpresa, a maioria dos sujeitos referiram que o ghosting é uma forma inaceitável de terminar uma relação. No entanto, quanto mais curta a relação mais aceitável.

 

Quem está mais susceptível ao Ghosting?

Entre os vários factores que podem influenciar o ghosting, Freedman et al. analisaram as crenças acerca dos relacionamentos.

As pessoas que acreditam no destino – “Se um relacionamento está destinado a resultar, ele irá resultar, e se não estiver, ele falhará”-, são mais propensas a olhar para o ghosting como aceitável.

Por outro, as pessoas que acreditam no crescimento das relações, que consideram que os bons relacionamentos exigem trabalho, e que o sucesso de um relacionamento depende do esforço do casal, consideram o ghosting inaceitável.

É provável que aqueles que têm uma vinculação insegura e personalidades narcísicas  possam recorrer mais ao ghosting como forma de terminar um relacionamento.

 

Culpados e inocentes

Não temos números que nos digam que o ghosting acontece mais agora, mas é razoável assumir que na era digital, e tendo em conta novos contextos de relacionamentos (on-line dating), a probabilidade de algumas pessoas, simplesmente desaparecerem, seja maior.

Não entrando em comparações entre aquele que pratica e aquele que foi sujeito ao ghosting, ambos podem ser vistos como vítimas desta nova era onde reina o individualismo e as pessoas são vistas como objectos descartáveis.

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