Categoria: <span>Relacionamentos</span>

psicoterapia tinder

A Síndrome de Tinderela

Ter vários pretendentes com quem se conversa nas redes sociais e não concretizar nada com nenhum, não é azar mas parte do Síndrome de Tinderela (o nome desta síndrome tem origem na aplicação Tinder).

Através do Tinder muitas pessoas conseguiram ter mais encontros amorosos num mês do que ao longo de toda a vida. A parte negativa desta forma simples, acessível e imediata de fazer “match” com alguém é precisamente a facilidade com que ambas as partes encontram o “par perfeito” através de um perfil de características adornadas e fotografias retocadas.

Flertar com um ou vários homens ao mesmo tempo através das redes sociais não garante o início de um relacionamento bem-sucedido. Pelo contrário, o uso constante destas ferramentas digitais está associado ao medo que uma mulher tem de se dar a conhecer e conhecer uma pessoa de maneira real, de experimentar sentimentos mais profundos e de se comprometer.

A síndrome Tinderela levanta um paradoxo interessante, mas muito preocupante. As aplicações e – em geral – a tecnologia sugerem facilitar a nossa vida, no entanto, ao invés de as apps como o Tinder servirem como plataforma facilitadora para ampliar o círculo social e começar a conhecer pessoas reais, estas estão a tornar-se causa de maior afastamento e solidão.

Não estou certo que exista a síndrome Tinderela, como não estou certo que todas as pessoas que utilizam este género de aplicações se enquadrem no quadro descrito. Para muitas pode ser uma alavanca importante para dar início a uma relação que se pode ir aprofundando. Uma ferramenta importante para enfrentar a timidez. Mas para grande parte das pessoas não passa de um jogo de bate-e-foge, onde quase todos perdem, mesmo quando vencem.

padrão relacional

Padrão Relacional das Escolhas Afectivas

Em relação à compulsão à repetição, Freud referiu que se trata de uma forma de não pensarmos, de não recordarmos as experiências dolorosas.

Muitas das “escolhas afectivas” que fazemos permitem repetir as nossas relações traumáticas sem termos que lidar os seus aspectos traumáticos. Na repetição há uma negação dos aspectos negativos.

Não deve, portanto, considerar-se uma coincidência, a “escolha” de parceiros diferentes para “relações idênticas”.

Logo, os aspectos negativos da relação anterior reaparecem nas novas relações.

Normalmente, esta compulsão à repetição não é consciente e, portanto, é necessário que seja explorada num cenário psicoterapêutico. Se assim não for, ao invés de compreender o fenómeno, repete-se a necessidade de escapar ao contacto com a experiência dolorosa.

Somente a elaboração da experiência passada permite, verdadeiramente, alterar o padrão relacional.

psicoterapeuta

O Terror de Ser Amado

É muito claro que todos queremos amor – mas estranhamente, uma das coisas mais difíceis de fazer é não empurrá-lo quando verdadeiramente retribuem os nossos sentimentos.

Pode ser muito difícil não sentir que aqueles que nos oferecem amor estão equivocados, são frágeis ou carentes.

Que de alguma forma têm qualquer coisa de errado.

Ficamos um pouco enjoados com a proximidade e desejo de nos abraçarem e acarinharem; com as palavras ternas e pela capacidade de encontrar pequenas coisas em nós que os fascina.

Pode ser mais fácil quando não se é correspondido.

Quando a nossa principal preocupação era o enorme medo de que não reparassem em nós.

Era mesmo bastante mais fácil (embora não o disséssemos aos nossos amigos) quando estávamos numa relação muito tempestuosa com uma pessoa que nunca se comprometeu connosco, que nos desprezou e que parecia estar permanentemente noutro lugar.

Mas agora que finalmente não existem dúvidas e é muito claro que eles gostam de nós, as coisas complicam-se.

O amor pode ser difícil de receber quando não achamos que somos capazes de suscitar o amor do outro.

Foi bom das primeiras vezes, claro, quando a memória da anterior ambiguidade ainda estava viva na mente, mas agora eles tornaram-se cada vez mais honestos, e disseram claramente que nos querem – e sentimo-nos, simplesmente, um pouco enfadados.

Estamos tentados a dizer que estávamos equivocados: que eles não são as pessoas admiráveis que pensávamos.

Mas a verdadeira questão não está no que fazer com eles.

Está num lugar completamente diferente: está em nós e na relação connosco mesmos.

O carinho deles parece suspeito, incompreensível e gera uma certa repulsa, porque, de alguma forma, não estamos acostumados. Não encaixa com a visão que temos de nós mesmos.

O amor pode ser difícil de receber quando não estamos particularmente convencidos de que somos capazes de suscitar o amor do outro.

Passamos o tempo à procura daqueles que nos podem fazer sofrer de maneiras que nos são familiares.

E torna-se natural supor que um amante atencioso está equivocado;

Não está a ver bem as coisas – e, talvez, então, nos comportemos de forma muito desagradável, para nos certificarmos que realmente percebem que não somos quem realmente pensaram que éramos, e, portanto, colocam fim à relação.

Ficamos magoados, mas de alguma forma, psicologicamente, mais tranquilos.

A esperança reside em contrariar as conclusões que tirámos das nossas histórias passadas, e que nos levam a sabotar as novas relações.

Mas temos que permitir considerar outras opções.

Talvez o carinho que estamos a receber não seja um sinal de que nosso amante está enganado ou que não tem outra opção.

Talvez seja um sinal de que viu algo em nós que, tragicamente, ainda não conseguimos ver e nunca nos permitimos acreditar, tendo em conta o passado: que merecemos o amor.

A esperança reside na nossa capacidade de confiar mais nos nossos amantes do que confiamos nos nossos impulsos auto-destrutivos.

Em interpretar o amor deles não como um sinal da sua ilusão ou fraqueza, mas como evidência de que somos capazes de despertar o amor do outro, e ao termos coragem de aceitá-lo, contrariar as conclusões que tirámos das nossas histórias passadas que nos levam a sabotar as novas relações.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins a partir de:
The Terrors of Being Loved – Alain de Botton

psicoterapeuta

A sensibilidade à rejeição é proporcional ao medo de ser rejeitado

Como humanos temos a necessidade de pertencer e manter vínculos estreitos com os outros. Qualquer coisa que ameace o vínculo pode activar o alarme psicológico, levando-nos a fazer o que pudermos para impedir a rejeição.

Para algumas pessoas, o sistema de alarme é hipersensível, reagindo a ameaças inexistentes e, nesse sentido, desencadear uma resposta exagerada. A sensibilidade à rejeição pode ter origem em experiências de rejeição por parte dos pais ou em relacionamentos anteriores.

Faz sentido que após experiências dolorosas de rejeição se fique mais vigilante e com receio de confiar em pessoas novas. O problema é que um alto grau de vigilância pode não ser necessário em novas relações com parceiros mais confiáveis. Nesses relacionamentos, em vez de proteger o Eu da rejeição, a hipersensibilidade pode ter o efeito contrário, aumentando a probabilidade de rejeição.

As pessoas sensíveis à rejeição são mais propensas a concluir que o comportamento do seu parceiro reflecte uma rejeição intencional, ao invés de considerar outras possibilidades, como por exemplo, uma semana de trabalho particularmente complicada.

Um estudo com estudantes universitários mostrou que os participantes que obtiveram valores mais altos na sensibilidade à rejeição apresentaram maior probabilidade de interpretar o comportamento hipotético dos seus parceiros como intencional, excluindo outras potenciais explicações.

Quando os parceiros assumem rapidamente que um comportamento levemente distante reflecte algo mais profundo e mais pessoal, como a falta de amor ou de compromisso, existe uma grande probabilidade de surgir um conflito e que ele possa rapidamente escalar. Noutro estudo verificou-se através de gravações que as pessoas sensíveis à rejeição eram mais propensas a usar tons de voz hostis, negar a responsabilidade num problema, gozar com o parceiro e expressar desgosto; comportamentos que tendem a ser destructivos.

As interacções negativas podem, por sua vez, reduzir a satisfação no relacionamento. Um terceiro estudo descobriu que as pessoas que apresentavam alta sensibilidade à rejeição tendiam a ser percebidas pelos seus parceiros como mais ciumentos (para os homens) ou mais hostis e menos disponíveis (para as mulheres), e essas percepções estavam relacionadas com a diminuição da satisfação no relacionamento.

A sensibilidade à rejeição pode alimentar um ciclo vicioso em que o trauma passado é repetido.

A interrupção destes ciclos passa por desconstruir a dinâmica internalizada rejeitado-e aquele que rejeita.

No entanto, do ponto de vista externo existem alguns aspectos que podem ajudar no sentido de adequar a resposta ao que se está a sentir. Perante um sinal de rejeição tendemos a concentrar-nos nas características da situação que confirmam as nossas expectativas, e o nosso primeiro instinto pode passar por atacar o parceiro. Mas se conseguirmos expandir o foco de atenção podemos pensar que um certo grau de conflito é uma parte normal da maioria dos relacionamentos; podemos considerar explicações alternativas que justifiquem a distância sentida ou colocarmo-nos no lugar do parceiro, em vez de imaginarmos o cenário mais catastrófico.

Traduzido e adaptado a partir de:
“How Rejection Sensitivity Derails Relationships”
Juliana Breines

psicólogo clínico

Boas razões para ficar num relacionamento mau

Tendo consciência de que o nosso relacionamento é insatisfatório, por que ficamos? A pesquisa em psicologia pode ajudar a explicar a nossa tendência para iniciar e manter relacionamentos com parceiros que não respondem às nossas necessidades.

Porque mantemos relacionamentos maus

1. Podemos estar satisfeitos com relacionamentos insatisfatórios

Em pesquisas recentes que exploram as decisões das mulheres sobre permanecer ou sair dos seus relacionamentos, o factor mais importante nas decisões das mulheres para permanecer na relação foi a satisfação no relacionamento (Edwards et al., 2011). Como podemos estar satisfeitos com relacionamentos insatisfatórios? Alguns indivíduos, especialmente aqueles que têm baixa auto-estima ou aqueles que se consideram menos atraentes, têm baixos “níveis de comparação” (Thibaut e Kelley, 1986; Luciano e Orth, 2017; Montoya, 2008). O nível de comparação pode ser entendido como um “padrão”: aquilo que se espera receber num relacionamento. Indivíduos com baixos níveis de comparação não esperam muitos benefícios dos seus relacionamentos, mas esperam muitas dificuldades. Se você tem um baixo nível de comparação, pode manter-se num relacionamento ruim porque está de acordo com as suas baixas expectativas. Os indivíduos com baixa auto-estima são mais propensos a envolverem-se em relacionamentos de menor duração e sofrem novas diminuições de auto-estima quando os seus relacionamentos terminam (Luciano e Orth, 2017). Da mesma forma, as mulheres que sofreram abusos em criança relatam mais satisfação nos relacionamentos de menor qualidade (Edwards et al., 2011).

2. Mudança nas Prioridades

Os mecanismos comuns que ajudam a manter os nossos relacionamentos são o “aprimoramento dos parceiros” e as “ilusões positivas”. Ambos os termos referem-se ao facto de que tendemos a ver os nossos companheiros de forma positiva, às vezes irrealisticamente (Morry et al., 2010; Conley et al., 2009). Nos casais gays e lésbicas, bem como nos casais heterossexuais, aqueles que vêem os seus parceiros mais positivamente também relatam mais satisfação no relacionamento (Conley et al., 2009). Como podemos ver nossos parceiros de forma positiva quando estamos em relacionamentos indesejáveis? A pesquisa mostra que valorizamos as características positivas que os nossos parceiros apresentam mais do que outras características (Fletcher et al., 2000). Por exemplo, se o seu parceiro é generoso, mas não introspectivo, você pode vir a valorizar mais a generosidade do que a introspecção ao longo do seu relacionamento. Quando os nossos parceiros revelam características negativas, podemos reduzir a importância dessas características e aumentar a importância dos traços positivos que possuem (Fletcher et al., 2000).

3. Alternativas de baixa qualidade

Se você está numa relação indesejável, pode considerar alternativas a essa relação, incluindo estar sozinho ou começar um relacionamento diferente (Thibaut e Kelley, 1986). Se perceber que uma alternativa pode ser preferível à sua situação actual, é mais provável que abandone o seu relacionamento, mas se entender que as alternativas são de menor qualidade, é mais provável que permaneça, apesar de tudo, num relacionamento insatisfatório. Pesquisas recentes mostram que afigurar alternativas ruins para o relacionamento aumenta a probabilidade de ficar com um parceiro indesejável, e que as mulheres com baixa auto-estima percebem menos alternativas desejáveis aos seus relacionamentos actuais (Edwards et al., 2011). Além disso, o divórcio é mais comum nos países onde as mulheres conseguem mais independência económica e em que a proporção de homens para mulheres é maior, sugerindo que as mulheres são mais propensas a divorciar-se se tiverem os meios económicos para viver de forma independente, bem como se existir uma abundância de outros possíveis parceiros (Barber, 2003).

4. Manipulação

Se o seu parceiro está ciente de que você deseja terminar o relacionamento, ele ou ela podem usar diferentes métodos de manipulação para forçá-lo a permanecer. A manipulação emocional, como o rebaixar, desprezar ou mesmo ameaças de violência contra futuros parceiros, podem ser usadas para conservar o relacionamento (Buss e Shackelford, 1997; Primos e Fugère, no prelo). Os homens com baixa auto-estima, bem como aqueles que se sentem menos atraentes que os seus parceiros, podem ser mais propensos a usar manipulações para evitar que seus parceiros terminem a relação (Buss e Shackelford, 1997; Holden et al., 2014). A angústia associada ao abuso emocional ou às implicações físicas da violência do parceiro são fortes impedimentos para aqueles que procuram terminar um relacionamento. Edwards et al. (2011) sugerem que as mulheres que estão psicologicamente angustiadas podem não sentir que têm a capacidade de deixar os seus parceiros.

5. Investimento

Outros obstáculos importantes para pôr fim a um relacionamento mau incluem os investimentos compartilhados com os companheiros (Adams, 1965). Como Copp et al. (2015) referem, investir muito tempo num relacionamento ou compartilhar investimentos, como uma casa ou filhos, torna os casais mais propensos a ficarem juntos. De acordo com Rego et al. (2016), quando já investimos muito tempo, esforço ou recursos num relacionamento, muitos de nós continuamos esse investimento mesmo quando pode não ser o melhor para nós; Temos tendência para continuar relacionamentos infelizes quando investimos neles. Os autores também explicam que, ao tomar decisões no que diz respeito ao relacionamento, muitas vezes dependemos mais de emoções do que de deliberações racionais. O que nos leva ao última razão, porque muitas vezes ficamos em relacionamentos ruins …

6. Amor

Os psicólogos distinguem entre três diferentes componentes: a componente cognitiva ou pensamentos, a componente afectiva ou sentimentos, e a componente comportamental ou acções (Kassin et al., 2011). Frequentemente, essas componentes não estão alinhadas umas com as outras. Por exemplo, no caso de um relacionamento ruim, os seus pensamentos podem ser negativos, dizendo que seu parceiro não é bom para você, mas os seus sentimentos ainda podem ser positivos. Podemos continuar a amar os nossos parceiros, embora reconheçamos conscientemente que estamos envolvidos em relacionamentos ruins. Também é possível que fortes sentimentos positivos e negativos em relação a um parceiro possam coexistir (Zayas e Shoda, 2015).

Traduzido/adaptado por Pedro Martins
a partir de “The Good Reasons We Stay in Bad Relationships” – Madeleine A. Fugère

psicoterapeuta

Os três estados do Amor

O amor é o nosso valor mais elevado, o que todos desejamos e acreditamos, nos torna fundamentalmente humanos. No entanto, também é fonte de considerável ansiedade. Principalmente porque estamos preocupados em saber se amamos de forma correcta.

A sociedade é subtil e altamente prescritiva a este respeito. Isso sugere que, para sermos uma pessoa conforme, devemos estar disponíveis para o sexo e, além disso, devemos “amar” de uma maneira muito particular: devemos estar constantemente entusiasmados com a presença do nosso parceiro, devemos estar ansiosos por vê-lo depois de cada ausência, devemos querer mantê-lo nos nossos braços, beijar e ser beijados e – acima de tudo – desejar fazer sexo quase todos os dias. Por outras palavras, devemos seguir o roteiro do êxtase romântico ao longo das nossas vidas.

Isso é bonito em teoria mas extremamente punitivo na prática. Se quisermos definir este amor como estando de acordo com a normalidade, a maioria de nós terá que admitir (com considerável constrangimento) que não está muito por dentro do amor – e, portanto, não se encontra entre as pessoas saudáveis ou normais.

Criámos um culto do amor que contrasta radicalmente com a maioria das nossas verdadeiras experiências dos relacionamentos.

É aí que os antigos gregos nos podem ajudar. Eles cedo perceberam que existem muitos tipos de amor, cada um com as suas respectivas fases e virtudes.

Os gregos atribuíram aos poderosos sentimentos físicos que muitas vezes experimentamos no início de um relacionamento a palavra ‘eros’ (ἔρως). Eles sabiam que o amor não está necessariamente acabado quando essa intensidade sexual diminui, como quase sempre ocorre após um ano ou mais de relacionamento.

Os nossos sentimentos podem evoluir para outro tipo de amor que eles resumiram com a palavra “philia” ( φιλία ), normalmente traduzido como “amizade”, embora a palavra grega seja muito mais calorosa, mais leal e mais tocante; Podemos estar dispostos a morrer por ‘philia’. Aristóteles recomendou que superássemos o eros na juventude e, em seguida, alicerçar os nossos relacionamentos – especialmente os casamentos – numa filosofia de philia.

Os gregos tinham uma terceira palavra para o amor: “agape” ( ἀγάπη), que pode traduzida como um amor caridoso. É o que podemos sentir em relação a alguém que se comportou mal, ou que está triste devido às suas falhas de carácter – mas por quem ainda sentimos compaixão. É o que um Deus pode sentir pelo seu povo, ou o que o público pode sentir por uma personagem trágica numa peça de teatro. É o tipo de amor que experimentamos em relação à fraqueza de alguém. Isso lembra-nos que o amor não é apenas sobre a admiração pelas virtudes, é também sobre simpatia e generosidade em relação ao que é frágil e imperfeito em nós.

Tendo estas três palavras à mão – eros, philia e agape – ampliamos poderosamente a nossa compreensão do amor. Os gregos antigos eram sábios em dividir o amor nas suas partes constituintes.

Sob a sua tutela, podemos ver que provavelmente temos muito mais amor nas nossas vidas do que nosso vocabulário actual reconhece.

Traduzido e adaptado por Pedro Martins
a partir de Alain de Botton – Why We Need the Ancient Greek Vocabulary of Love

o problema da assimetria psicológica psicoterapia

O Problema da Assimetria Psicológica

Um dos factos mais básicos sobre a condição humana é que nos conhecemos por dentro, mas dos outros conhecemos apenas aquilo que eles escolhem ou são capazes de nos dizer, ou seja, um conjunto de dados muito limitado e editado.

Estamos continua e intimamente expostos às nossas próprias preocupações, esperanças, desejos e memórias – muitas das quais são extremamente intensas, estranhas ou tristes.

No entanto, quando se trata dos outros, estamos restritos a conhecê-los através do que revelam publicamente, do que podem ou querem revelar.

As dicas e pistas que nos deixam são vias muito imperfeitas para a realidade da existência de outra pessoa.

Em consequência desta assimetria psicológica pensamos em nós mesmos como muito mais peculiares, envergonhados e amedrontados do que as outras pessoas que conhecemos.

Os resultados da assimetria psicológica são a solidão e a timidez.

As nossas experiências sexuais, de ansiedade, raiva, inveja e de angústia parecem ser muito mais intensas e perturbadoras do que as de qualquer pessoa próxima.

Na verdade não somos, é claro, realmente tão estranhos: apenas sabemos muito mais sobre quem somos.

Os resultados da assimetria psicológica são a solidão e a timidez. Somos assaltados pela solidão porque não podemos imaginar que os outros anseiam e desejam, invejam e odeiam, suplicam e choram como nós.

Sentimos que somos empurrados para um mundo de estranhos, diferentes de todos aqueles com quem vivemos – e, em potência, fundamentalmente ofensivos para todos aqueles que possam conhecer-nos bem.

Parece que nos momentos sombrios, ninguém poderia conhecer-nos e ainda assim, gostar de nós.

Ficamos retraídos e facilmente intimidados por pessoas que assumimos não podem compartilhar as nossas vulnerabilidades, e que imaginamos serem totalmente incapazes de se relacionar com os pensamentos mesquinhos, grandiosos, perversos ou idealistas que passam nas nossas mentes.

Se alcançamos posições importantes sentimo-nos como impostores, acossados pela impressão de que as nossas peculiaridades separam-nos dos outros que ocuparam papéis comparáveis no passado.

O Amor dá-nos um sentido ocasional e profundamente precioso de segurança para revelar quem realmente somos a outra pessoa.

Nós crescemos de forma muito convencional, imitando o que vimos nas outras pessoas na falsa suposição de que isso é o que eles podem realmente ser interiormente.

As soluções para a assimetria psicológica encontram-se em dois lugares: Arte e Amor.

A arte fornece-nos retratos precisos da vida interior de estranhos e, com graça e charme, mostra-nos o quanto eles compartilham de problemas e esperanças que pensamos que poderíamos ser só nossas.

O Amor dá-nos um sentido ocasional e profundamente precioso de segurança para revelar quem realmente somos a outra pessoa e a oportunidade de aprender sobre a sua realidade a partir de uma posição de extrema proximidade.

Para superar os efeitos da assimetria psicológica, devemos constantemente confiar – especialmente na ausência de qualquer evidência – que os outros estão, provavelmente, muito mais próximos daquilo que somos (isto é, muito mais tímidos, mais assustados, mais preocupados e mais incompletos) do que aquilo que mostram ao mundo.

Felizmente, nenhum de nós é tão estranho, ou tão especial, quanto podemos supor ou temer.

Traduzido e adaptado por Pedro Martins a partir de:
“The Problem of Psychological Asymmetry” Alain de Botton

psicoterapia lisboa pedro martins

Porque é que você vai casar com a pessoa errada

É claro que estamos desesperados para evitar isso, mas não o faremos por muito boas razões:

1 – Nós não nos compreendemos bem
Somos todos loucos de maneiras muito particulares: neuróticos, desequilibrados, imaturos… Mas não sabemos bem porque somos assim e ninguém nos encoraja o suficiente para descobrirmos. Os nossos amigos querem ser simpáticos e estão mais virados para se divertirem connosco. Os nossos inimigos não se dão ao trabalho. Então, acabamos por ter um nível muito baixo de auto-conhecimento e não fazemos nenhuma ideia sobre quem possa ser compatível connosco.
A pergunta padrão de um primeiro encontro deveria ser: de que forma tu és louco? Mas é tão difícil saber…

2 – Nós não percebemos as outras pessoas
É difícil aceitar a loucura dos outros como aceitamos a nossa. No início eles mostram, naturalmente, o seu melhor. O ideal seria colocar todo o mundo a realizar uma bateria de testes psicológicos e a fazer 4 anos de terapia individual e de casal antes de tomar uma decisão. Em 2100 esta ideia vai soar a piada – vão perguntar porque a humanidade demorou tanto tempo para chegar aqui.

3 – Não estamos acostumados a sermos felizes
Pensamos que queremos ser felizes, mas o que realmente queremos é aquilo a que estamos acostumados – e isso, no geral, inclui não ser feliz. Ao crescermos muitos de nós tivemos sentimentos sombrios e problemáticos: sentimo-nos controlados, humilhados ou abandonados. Em resumo: sofrimento. E agora, independentemente do que dizemos, na maioria das vezes, continuamos a procurar o conhecido. Isso explica porque rejeitamos os candidatos equilibrados, maduros, confiáveis e, de alguma forma, um pouco “chatos”, e porque nos inclinamos secretamente para aqueles que (inconscientemente sabemos) irão tropeçar nas coisas mais óbvias.

4 – Ser solteiro é péssimo
É preciso ter uma certa tranquilidade num sábado, para lidar com o reboliço da noite e a efervescência do desejo sexual para conseguir ser exigente. Não é por acaso que a maioria de nós fecha os olhos e arranja uma pessoa qualquer.

5 – O instinto tem mais prestígio do que deveria
O casamento era uma decisão racional. Tinha a ver com uma parcela de terra. Tudo era combinado entre as famílias. Era horrivelmente frio e calculista. Agora temos os “casamentos românticos”. É preciso que seja sobre aquilo que sentimos. Não se pode pensar demais. Se paramos para analisar a situação, imediatamente, deixa de ser romântico. Na verdade, a coisa mais romântica seria fazer um repentino pedido de casamento, depois de apenas algumas semanas de relação, numa capela em Las Vegas às 3 da manhã.

6 – Nós não frequentamos “Escolas do Amor”

Nós não temos nenhuma informação. Não temos aulas. Não falamos abertamente com pessoas casadas e evitamos os divorciados. Então avançamos sem saber porque é que os casamentos realmente fracassam – e achamos que é por causa da simples estupidez de todos aqueles casais com quem não temos nada em comum.

7 – Congelar a felicidade
Nós queremos que as coisas boas sejam permanentes… Aquele passeio de gôndola em Veneza com o sol a refletir na água; jantar maravilhosamente num pequeno restaurante, perdidos numa enorme paixão. Então, nós casamos para que esse sentimento dure para sempre. Mas depois tudo se esfuma e a única coisa que fica é o nosso parceiro, mas agora, parece outro.

8 – Você quer parar de pensar no amor
É tão doloroso! A tristeza, os encontros, os envolvimentos de uma noite… Como queremos terminar com tudo isso, acabamos por casar para parar de pensar constantemente no amor.

Estes são os motivos pelos quais você irá casar com a pessoa errada – se já não o fez.

Mas a culpa não é totalmente sua. Ninguém nos ensina. Então, é claro que nos estatelamos.

Nós, como espécie, eventualmente aprenderemos. Esta loucura inconsequente não pode continuar. Muitas pessoas vão magoar-se. Daqui a umas centenas de anos, pelo menos, encontraremos uma forma de resolver isto – com toda a certeza.

Traduzido e adaptado por Pedro Martins
a partir de Alain de Botton

Pensamento mágico. Pedro Martins Psicólogo clínico Psicoterapeuta

Pensamento Mágico

O termo pensamento mágico designa o pensamento que se apoia numa fantasia de omnipotência para criar uma realidade psíquica …

Identificação Projectiva. Pedro Martins - Psicólogo Clínico Psicoterapeuta

Identificação Projectiva

Em situações desconfortáveis com outra pessoa, por vezes é difícil saber de onde vem o desconforto, de nós ou do outro. …

Adoecer Mentalmente. Pedro Martins Psicólogo Clínico Psicoterapeuta

Adoecer Mentalmente

Adoecer Mentalmente: Durante bastante tempo podemos conseguir lidar suficientemente bem com as coisas. Conseguimos ir trabalhar …