Categoria: Psicologia Clínica

Eu Achava que a Estava a Ajudar Pedro Martins Psicoterapeuta

Eu achava que a estava a ajudar, mas…

Uma grande amiga minha perdeu o pai há uns tempos. Encontrei-a sentada sozinha num banco, junto ao nosso local de trabalho, sem se mexer, apenas a olhar para o horizonte.

Ela estava devastada. Eu queria ajudar mas não sabia o que lhe dizer. É tão fácil dizer a coisa errada a alguém que está vulnerável e em sofrimento.

Então, comecei a falar sobre como cresci sem pai. Disse-lhe que o meu pai se tinha afogado num submarino quando eu tinha apenas 9 meses de idade e que me custava muito a sua perda, mesmo que eu nunca o tivesse conhecido.

Eu só queria que ela percebesse que não estava sozinha, que eu tinha passado por algo parecido e que podia entender como ela se sentia.

Mas depois de ter relatado essa história, a minha amiga olhou para mim e disse: “Ok, Celeste, ganhaste. Tu nunca tiveste um pai e eu pelo menos consegui passar 30 anos com o meu. Foi pior para ti. Eu acho que não deveria estar tão chateada com a morte do meu pai.”

Fiquei atordoada e mortificada. A minha reacção imediata foi defender-me. “Não, não, não”, disse, “não é isso que estou a dizer. Eu só quis dizer que sei como tu te sentes.”

E ela respondeu: “Não, Celeste, tu não sabes. Tu não tens ideia de como eu me sinto.”

Ela afastou-se e eu fiquei ali impotente vendo-a a ir embora e a sentir-me me como uma idiota. Eu tinha falhado totalmente à minha amiga.

Eu queria consolá-la e, em vez disso, a fiz sentir pior. Naquele momento, eu ainda sentia que ela me tinha entendido mal.

Pensei que ela estava num estado muito frágil e me tinha atacado injustamente quando eu estava apenas a tentar ajudar.

 

Daquele dia em diante, comecei a perceber com que frequência respondia a histórias de perda e sofrimento com histórias das minhas próprias experiências.

 

Mas a verdade é que ela não me entendeu mal. Ela entendeu o que estava a acontecer, talvez melhor do que eu.

Quando ela começou a compartilhar os seus sentimentos senti-me desconfortável.

Eu não sabia o que dizer, então passei para um assunto com o qual estava confortável: eu mesma.

Eu posso ter tentando empatizar, pelo menos a um nível consciente, mas o que realmente fiz foi desviar o foco da sua angústia e voltar a atenção para mim.

Ela queria falar comigo sobre o seu pai, contar-me sobre o tipo de homem que ele era, para que eu pudesse apreciar plenamente a magnitude da sua perda.

Em vez disso, pedi a ela que parasse por um momento e ouvisse minha história sobre a morte trágica do meu pai.

Daquele dia em diante, comecei a perceber com que frequência respondia a histórias de perda e sofrimento com histórias das minhas próprias experiências.

Quando uma colega de trabalho foi demitida, eu contei-lhe o quanto eu me esforcei para encontrar um emprego depois de ter sido despedida anos antes.

Mas quando comecei a prestar mais atenção à forma como as pessoas reagiam às minhas tentativas de empatizar, percebi que o efeito de compartilhar as minhas experiências nunca foi aquele que eu pretendia.

 

Ela não precisava de conselhos ou das minhas histórias. Ela só precisava que eu a ouvisse.

 

O que todas essas pessoas precisavam era que eu as ouvisse e reconhecesse o que elas estavam a sofrer. Em vez disso, forcei-os a ouvirem-me.

Hoje em dia, tento estar mais consciente do meu instinto de compartilhar histórias e falar de mim mesma.

Tento fazer perguntas que incentivem a outra pessoa a continuar e fiz um esforço consciente para ouvir mais e falar menos.

Recentemente tive uma longa conversa com uma amiga minha que estava a passar por um divórcio. Passamos quase 40 minutos ao telefone e eu mal disse uma palavra.

No final do telefonema, ela disse: “Obrigada pelo teu conselho. Realmente ajudaste-me a resolver algumas coisas.”

A verdade é que realmente não lhe dei nenhum conselho; a maior parte do que eu disse foi uma versão de “Isso não parece nada fácil. Sinto muito que isso esteja a acontecer contigo.”

Ela não precisava de conselhos ou das minhas histórias. Ela só precisava que eu a ouvisse.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

A partir de: The Mistake I Made With My Grieving Friend – Celeste Headlee

A importância de beijar. Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo

A Importância de Beijar

Um dos aspectos surpreendentes dos relacionamentos é a quantidade de segurança que precisamos para acreditar que somos activamente desejados.

Não é menos surpreendente, a forma como facilmente esquecemos este facto embaraçoso, tanto sobre nós mesmos como sobres as outras pessoas.

A narrativa dominante sobre amor diz-nos que a insegurança, no que diz respeito a ser desejado, atinge o seu auge no início do namoro, quando estamos profundamente conscientes das inúmeras razões pelas quais o nosso parceiro pode não estar interessado em levar as coisas adiante.

No entanto, uma vez que o relacionamento começou, que existe um lar, eventualmente filhos e um padrão estabelecido de vida, assumimos que o medo de não ser desejado desapareceu.

Longe disso. O medo de não ser desejado continua todos os dias. Podem sempre surgir novas ameaças ao amor.

Só porque fomos amados ontem, nada garante que seremos queridos hoje.

 

Para tentar acalmar as inseguranças devemos instituir um ritual: um beijo de manhã e outro à noite.

 

Mais perniciosamente, se nos deixarmos infectar pelo medo, podemos adoptar uma posição defensiva onde, porque assumimos que não somos desejados, começamos a comportar-nos com uma certa indiferença, o que encoraja o parceiro a agir da mesma forma.

Duas pessoas que são, no fundo, muito bem-dispostas uma com a outra podem entrar num ciclo de negação de que precisam do outro, porque assumem cautelosa e preventivamente que a outra pessoa não as quer mais.

Para tentar acalmar esses medos e ciclos de indiferença, devemos instituir um ritual, aparentemente pequeno, mas de facto crucial nas nossas vidas: um beijo de manhã e outro à noite.

Todas as manhãs, antes de sair, não importa o quanto estamos com pressa, devemos dar um ao outro um beijo nos lábios, por pelo menos sete segundos, o que é – na realidade – um tempo muito estranhamente longo.

Inclinem-se sobre o companheiro, não pensem nas muitas coisas que têm que fazer nas próximas horas. Simplesmente concentrem-se na sensação da boca dele na sua, sinta o nariz contra a pele dele.

Não parem abruptamente no final: continuem a olhar um para o outro por mais alguns momentos e sorriam. O mesmo deve ser repetido todas as noites aquando do regresso a casa.

 

Somos criaturas sensuais; precisamos do contacto físico.

 

Quando beijamos, estamos a entrar num canal fundamental de conexão emocional. O contacto físico íntimo afecta-nos de uma forma que é distinta e, em muitos aspectos, superior a palavras.

Somos criaturas sensuais pelo menos no mesmo grau em que somos racionais: um sorriso ou uma carícia pode, portanto, tranquilizar-nos muito mais profundamente do que um eloquente “amo-te muito”.

Em bebés, fomos serenados pelo toque muito antes de podermos entender a linguagem, e, portanto, continuamos a precisar de contacto físico para acreditar, verdadeiramente acreditar, que temos um lugar na vida da outra pessoa.

Normalmente, um beijo surge de um sentimento de ternura: primeiro temos uma emoção e depois a sua expressão.

Mas há outra forma das nossas mentes poderem trabalhar; uma maneira na qual um sentimento surge a seguir a uma acção.

 

Quando beijamos, estamos a entrar num canal fundamental de conexão emocional.

 

O beijo da manhã e da noite deve vir primeiro, independentemente de haver ou não uma emoção de ternura.

Então, é quase certo, se continuarmos com o beijo, a emoção surgirá (é muito difícil beijar e não sentir nada).

O beijo da manhã e da noite deve ser um ritual.

Uma característica básica dos rituais é que os fazemos, quer tenhamos vontade de praticá-los ou não.

O beijo deve acontecer mesmo que você tenha tido um desaguisado com o parceiro e estiver ressentido, ou se estiver com pressa para uma reunião importante. Melhores sentimentos se seguirão.

Quando saímos de casa a caminho do trabalho, em vez de questionarmos se nos esquecemos das chaves ou do carregador do telemóvel, devemos sempre perguntar se fizemos uma coisa muito mais importante e amorosa: se trocamos um beijo de sete segundos.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de Alain de Botton

Sobre o Bullying

A palavra “bullying” foi importada do inglês. Refere-se a alguém que usa a força ou o poder para ferir ou intimidar o outro, agindo como um “Bull/Touro”.

À primeira vista, poderíamos ser levados a pensar que se trata apenas da exacerbação de algo que, com as suas nuances, sempre existiu.

No entanto, a certeza de que culturalmente assistimos a uma mudança na família como instituição e nos modos de subjectivação da infância, faz com que tenhamos de pensar a questão de forma mais profunda.

O bullying ocorre habitualmente num contexto que favorece o seu silenciamento, e no qual a vítima, devido à culpa, é levada a acreditar que por alguma razão que ainda não conhece, algo em si é mau o suficiente para merecer tal castigo.

Numa fase em que a psique ainda está em desenvolvimento a influência da culpa não permite que as crianças entendam que aquilo que estão a sofrer tem a ver com uma causa que as ultrapassa.

Este é talvez um dos aspectos mais dolorosos deste tipo de sofrimento – que compartilha aspectos de outras formas de violência exercidas sobre as crianças como o abuso sexual e a violência parental.

Desta forma, a criança fica confusa em relação ao lugar que ocupa perante o outro.

A busca de amor coloca as crianças numa situação de extrema fragilidade, e desta forma numa posição de sujeição ao outro.

Esta profunda desprotecção ocorre, então, numa completa ignorância de que a sociedade é quem deve garantir-lhes os cuidados.

 

No bullying, devido à culpaa vítima, é levada a acreditar que por alguma razão que ainda não conhece, algo em si é mau o suficiente para merecer tal castigo.

 

A “criança imperador” do nosso tempo tem direitos que antes não tinha e é acusada de se exceder no seu exercício.

De qualquer forma, não tem interiorizado quais são os direitos que nunca deveriam ser violados.

Segundo Freud, as questões relacionadas com a construção da moralidade contribuem para o desenvolvimento da cultura, uma vez que o sentimento de culpa promove a inibição dos impulsos primários, que, geralmente consistem em obter prazer, mesmo à custa do outro.

No entanto, os aspectos ligados, essencialmente, à elaboração das condições para se viver em sociedade sem nos andarmos a matar uns aos outros, não fazem parte do código genético humano e, como tal, dependem da criação de certas condições específicas de produção, numa fábrica humana altamente complexa e mutável chamada “família”.

A psicanálise diz-nos que depois de um período claramente definido de subjectividade, que ocorreria entre os 0 e 5/6 anos, surgem, se nada tiver falhado, o que Freud chamou de “diques morais”.

Os “diques morais” referem-se, precisamente, ao aparecimento na criança do pudor, da moralidade, da vergonha e do asco, bem como o desaparecimento concomitante da crueldade.

Mas esse avanço, que claramente dota a criança de credenciais válidas para o vínculo social nem sempre ocorre.

 

A busca de amor coloca as crianças numa situação de extrema fragilidade, e desta forma numa posição de sujeição ao outro.

 

O bullying pode ser visto como uma penetração na subjectividade do outro sem reconhecer limites.

Neste ponto, é interessante pensar em como certos significantes que circulam socialmente contribuem para construir sentidos compartilhados: “Red Bull dá-te asas”, diz o conhecido slogan de uma bebida energética que promete termos o corpo sempre disponível apesar da fadiga.

Desta forma, retorna aqui um significado que é culturalmente fortalecido e que faz referência a que debaixo de certas formas de ser e estar no mundo, essencialmente ligadas ao consumo e ao prazer sem limites, o outro não funciona como um limite diante dos nossos próprios impulsos, neste caso, ante os impulsos do bull-ying.

Este é apenas um dos aspectos ligado ao modo como se dispõe do outro em favor do próprio prazer e seria excessivo desenvolver aqui as condições da sua gestação.

No entanto, podemos dizer que os pilares da constituição subjectiva, denominados função materna e paterna e dos recursos psicológicos da família, estão na base da criança ser capaz de aceitar o diferente, suportar a alteridade, reconhecer que o desejo é inevitavelmente condicionado pelo outro.

 

Que tipo de autoridade é exercida pelas instituições se uma mãe pode bater na professora por esta ter criticado o comportamento do filho?

 

Entendemos, então, que o ser humano não só nasce sem poder andar ou alimentar-se sozinho, mas também necessitado de apoio para se desenvolver psiquicamente. A presença estável, sólida e afectuosa de pessoas que ocupam os papéis materno e paterno são fundamentais.

No bullying, a falha na construção da auto-estima, e do outro como alguém que se deve cuidar e respeitar é evidente tanto para a criança que agride como para o que é agredida.

O primado do impulsivo sem a mediação da palavra é então um efeito do enfraquecimento gradual da função de autoridade dos pais do nosso tempo.

Assistimos a uma versão social do pai desautorizado, que não se autoriza a si mesmo.

Além do mais, muitas vezes acaba por confundir a lei com a censura, e autoridade com autoritarismo.

Noutras palavras, a autoridade de um pai é constituída na medida em que o seu filho reconhece a sua palavra por admirar o seu conhecimento e não por temê-lo.

Dito isto, seria ingénuo considerar o problema do bullying isolado de outras manifestações que têm um significado semelhante.

Que tipo de autoridade é exercida pelas instituições se:

– Uma mãe pode bater na professora por esta ter criticado o comportamento do filho?

– Um dos pais puder bater noutra criança que anteriormente bateu no seu filho?

Tendo em mente, que o bullying não corresponde a um conflito localizado, mas sim a uma falha sistémica, a complexidade que este conflito envolve actualmente confronta-nos com a questão da responsabilidade que nos cabe como adultos.

Se as crianças são os touros, então, devemos evitar ir para a frente delas com uma capa vermelha.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de: Sobre el Bullying – Gerado Quiess

 

Por que eu sou tão anal? - Pedro Martins Psicoterapeuta

Por Que Eu Sou Tão Anal?

Por vezes as pessoas perguntam: “Por que o meu amigo, parceiro, pai, chefe é tão anal?”.

De onde vem o termo “anal” e o que significa?

Este termo tem origem em Freud, e tal como muitas das suas ideias permanece fortemente enraizada no nosso “inconsciente colectivo” sem termos a noção das suas origens psicanalíticas.

A teoria da “personalidade retentivo-anal” é uma delas.

Nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” Freud descreve as três fases do desenvolvimento psicossexual na primeira infância: oral (0 a 1 ano), anal (1 a 3 anos) e fálico (3 a 6 anos).

A fase anal coincide com o período do treino do bacio. Nesta fase as crianças apercebem-se pela primeira vez que podem controlar os esfíncteres, assim como a si mesmas e o ambiente.

Pela primeira vez, a criança sente que pode obedecer ou opor-se à vontade dos pais.

 

A fase anal coincide com o período do treino do bacio.

 

“Não” é uma palavra muito popular entre os 2-3 anos de idade.

Embora a personalidade retentivo-anal não esteja incluída no DSM – Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, tem alguns aspectos em comum com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo da Personalidade:

– Uma grande preocupação com limpeza que se expressa através de lavagens constantes das mãos, extrema ordem e necessidade de controlo.

Estes comportamentos têm como objectivo reduzir a ansiedade.

O que é a Analidade?

Geralmente, quando alguém pergunta: “Por que sou tão anal?”, refere-se à extrema necessidade de controlar as coisas ao seu redor através de uma enorme atenção aos pormenores.

Isto pode ser irritante para os que estão à sua volta, porque esse comportamento estende-se para além do que é considerado razoável, útil ou produtivo.

Francisco, um jovem advogado queixou-se de que a sua colega sénior tinha exigido que ele investigasse todas as teorias possíveis envolvidas num aspecto de um caso, mesmo as consideradas muito improváveis.

Isso obrigava-o a passar todo o fim-de-semana a pesquisar decisões que, na sua opinião, não tinham relação com o caso e eram uma completa perda de tempo.

Referindo-se à sua colega Francisco disse: “ela é tão anal”. Com isso, ele queria dizer que ele a sentia extremamente controladora e ansiosa.

Ao mesmo tempo, as próprias pessoas podem ficar frustradas com a necessidade de controlo e de ficarem excessivamente focadas em detalhes não essenciais, pois sentem-se incapazes de conter essa necessidade ou impulso.

 

O comportamento “anal” é uma tentativa de controlar a ansiedade.

 

Joana queria comprar um frigorífico novo. On-line pesquisou pelos melhores modelos. Encontrou um muito bem cotado dentro dos valores que estava disposta a gastar, mas com algumas apreciações negativas.

Passou vários dias a pesquisar os aspectos que tinham sido avaliados ​​negativamente, assim como a procurar outros modelos.

Todos os modelos com boas avaliações apresentavam algumas críticas.

Passado algum tempo, Joana percebeu que estava com medo de tomar uma decisão errada, mas a pesquisa em vez de ajudar a decidir ainda a deixou mais ansiosa.

Em ambos os exemplos, o comportamento “anal” é uma tentativa de afastar a ansiedade criando a ilusão de ordem.

A ansiedade surge da sensação de caos iminente, e o comportamento “anal” é uma tentativa de controlar ou de se defender desse caos.

O que fazer com a analidade?

Francisco, por exemplo, pode sentir que a sua colega está a ser “anal”, mas ela vê o seu próprio comportamento como meticuloso – uma qualidade – e considera a resistência de Francisco como um indício de desleixo e preguiça.

No caso de Joana, ela própria está irritado com as suas tendências anais e gostaria de pura e simplesmente tomar uma decisão e seguir em frente com a vida. Ficaria feliz se alguém decidisse por ela.

 

Todas as pessoas podem, ocasionalmente ser “anais”.

 

Se você acha que costuma ser “anal”, aqui estão alguns aspectos sobre os quais deve reflectir:

– Está a acontecer alguma coisa na sua vida que o está a deixar ansioso? A sua “analidade” pode ser uma maneira de controlar essa ansiedade.

– Pergunte a alguém próximo de si se o seu comportamento parece excessivo ou fora de controlo.

– Tente delegar tarefas a outras pessoas e depois deixe que elas determinem a extensão da atenção aos detalhes.

– Considere quais são as consequências de um resultado que é suficientemente bom, mas não perfeito?

Todas as pessoas podem, ocasionalmente ser “anais”.

Quando você ou outra pessoa estiver a ser “anal”, lembre-se de que é uma indicação de que está com dificuldade em controlar a ansiedade.

O comportamento “anal” é uma tentativa de controlar essa ansiedade.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins a partir de:

Susan Kolod – “Why am I so anal?”

Podemos ser só amigos? Pedro Martins Psicoterapeuta

Não Podemos Ser Só Amigos?

Uma das coisas mais docemente amarga de ouvir; dita carinhosamente no final de uma longa e divertida noite, é a proposta de que devemos, afinal, permanecer “apenas bons amigos”.

Tomamos a proposta para uma amizade como sinónimo de uma ofensa, porque a nossa cultura romântica tem continuamente, e desde tenra idade, deixado uma coisa muito clara para nós:

O amor é o propósito da nossa existência; a amizade é o insignificante prémio de consolação.

Deveríamos reflectir um pouco sobre alguns aspectos relacionados com o amor:

– o comportamento, o nível de satisfação e o estado de espírito dos próprios amantes.

Se fôssemos julgar o amor, principalmente, pelos impactos, pela quantidade de lágrimas, pelas enormes frustrações, pela crueldade das ofensas que se desdobram em seu nome, não continuaríamos a avaliá-lo da mesma forma, e, poderíamos até confundi-lo com um transtorno mental.

 

A amizade é o insignificante prémio de consolação.

 

As cenas que tipicamente se desenrolam entre os amantes dificilmente seriam imagináveis ​​noutras relações.

Honramos aqueles que amamos com o nosso pior humor, com as acusações mais injustas e com os insultos mais malignos.

É para os nossos amantes que dirigimos a culpa por tudo o que deu errado nas nossas vidas.

Esperamos que eles saibam tudo o que queremos dizer sem nos preocuparmos em explicar.

É aos seus pequenos erros e mal-entendidos que respondemos com indignação e raiva.

E, em comparação, é na amizade, um estado supostamente inferior, cuja alusão no final de um encontro nos esmaga, que mostramos as nossas maiores e nobres virtudes.

Na amizade somos pacientes, encorajadores, tolerantes, divertidos e, acima de tudo, gentis.

Esperamos um pouco menos e, portanto, temos uma capacidade enorme de perdoar.

Não presumimos que seremos completamente compreendidos e, assim, aceitamos as falhas de uma forma mais leve e humana.

 

Paradoxalmente são os amigos que nos oferecem o verdadeiro caminho para os prazeres que o romantismo associa ao amor.

 

Não imaginamos que os nossos amigos devam admirar-nos sem reservas e apoiar-nos em qualquer coisa que façamos.

E, por isso, esforçamo-nos e comportamo-nos, agradando a nós mesmos e aos nossos amigos ao longo da vida.

Nós somos, na companhia de nossos amigos, os nossos melhores Eus.

Paradoxalmente é a amizade que nos oferece o verdadeiro caminho para os prazeres que o romantismo associa ao amor.

O facto de isto soar surpreendente é reflexo do quanto limitada a nossa visão quotidiana de amizade se tornou.

Mas a verdadeira amizade é algo mais profundo e digno de regozijo:

– É um espaço no qual duas pessoas podem ter uma noção das vulnerabilidades uma da outra;

– Apreciar as loucuras um do outro sem recriminação;

– Tranquilizar-se mutuamente quanto ao seu valor e acolher as tristezas e as tragédias da existência com delicadeza e carinho.

Colectiva e culturalmente, cometemos um grande erro que acaba por nos deixar mais solitários e mais decepcionados do que seria necessário.

Num mundo melhor, o nosso objectivo principal não deveria ser encontrar um amante especial que substitua todos os outros humanos, mas colocar a nossa inteligência e energia em descobrir e cultivar um círculo de amigos verdadeiros.

No final de uma noite, quem sabe diríamos, a prováveis futuros companheiros, com um sorriso envergonhado, que os convidámos para entrar – sabendo que isso seria uma rejeição dolorosa – ‘Sinto muito, não poderíamos ser apenas… amantes?

Ter noção das dificuldades dá confiança. Pedro Martins Psicoterapeuta

Ter Noção das Dificuldades dá Confiança

Uma das maiores fontes de desespero é a crença de que as coisas deveriam ter sido mais fáceis do que, na verdade, acabaram por ser.

Não desistimos somente porque as coisas são difíceis, mas porque não esperávamos que fossem assim.

O grande esforço implicado é interpretado como uma prova humilhadora de que não temos o talento necessário para concretizarmos os nossos desejos.

Tornamo-nos submissos e tímidos e acabamos por nos render, porque sentimos que uma luta tão grande só existe para nós.

Parece que para os outros é tudo mais fácil.

A capacidade de permanecer confiante depende, em grande medida, de se internalizar a narrativa correcta sobre as dificuldades que, provavelmente vamos encontrar.

E, no entanto, infelizmente, as narrativas que temos à mão são – por diversas razões – profundamente enganadoras.

Estamos cercados de histórias de sucesso que conspiram para fazer com que o êxito pareça mais fácil do que de facto é.

Portanto, acaba por involuntariamente destruir a nossa confiança diante dos nossos obstáculos.

 

Parece que para os outros é tudo mais fácil. Mas não é.

 

Algumas das explicações para o predomínio de narrativas optimistas são benignas.

Se disséssemos a uma criança o que lhe está reservado – momentos de solidão, relações instáveis, empregos insatisfatórios, etc., – ela poderia atemorizar-se e desistir.

Preferimos ler-lhe as aventuras do coelhinho “Miffy e os seus amigos”.

De outro ângulo, as razões para o silêncio em torno das dificuldades são um pouco mais egoístas:

– Procurar impressionar as pessoas.

O artista aclamado ou o empresário de sucesso esforça-se para disfarçar a energia implicada, e fazer com que seu trabalho pareça simples, natural e óbvio.

Sem sabermos detalhadamente o que implica desenvolver um projecto, não nos podemos posicionar correctamente em relação às nossas derrotas.

Como não sabemos o suficiente sobre o percurso espinhoso daqueles que admiramos, não perdoamos a forma trágica como correram as nossas primeiras tentativas.

Certas sociedades têm sido mais sábias do que as nossas em evidenciar a nobreza implicada nos esforços.

A confiança não é a crença de que não vamos encontrar obstáculos.

É o reconhecimento de que as dificuldades são uma parte inevitável de todos os projectos importantes.

É necessário que as pessoas saibam que a ansiedade, a dor e o desapontamento estão presentes nas vidas bem-sucedidas.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de Alain de Botton

Comprrender as coisas de forma racional versus emocional. Pedro Martins Psicólogo Clínico

Compreender as coisas de forma Racional vs. Emocional

É necessário distinguir entre saber algo sobre nós mesmos de forma racional e emocional

Conhecer a nossa própria mente é, na melhor das hipóteses, difícil.

É, até, extraordinariamente difícil compreender coisas básicas sobre nós e o que está por trás delas.

Coisas que condicionam as nossas vidas, e, das quais, esperamos um dia libertar-nos.

Em certos momentos é, verdadeiramente desanimador, concluir que saber uma coisa sobre nós, ter consciência dela, não é suficiente para que ela se altere.

Uma compreensão racional do passado, apesar de correcta, por si só não é suficiente para nos libertar.

Podemos, por exemplo, saber do ponto de vista racional de que somos tímidos junto de figuras de autoridade porque o nosso pai era uma figura fria e distante, e que não nos apoiava nem dava o amor que precisávamos.

Conseguir chegar até esta conclusão pode ser o trabalho demorado e, tendo chegado, poderíamos esperar que os nossos problemas com a timidez e a autoridade diminuíssem.

Mas, na nossa mente, infelizmente, as coisas não são assim tão simples.

Uma compreensão racional do passado, apesar de correcta, por si só não é suficiente para nos libertar.

Para isso, temos de olhar de forma aprofundada o que se passou connosco e o que suportámos.

Precisamos dar mais um passo e compreender as coisas do ponto de vista emocional.

Teremos que contactar com um conjunto de episódios do passado, nos quais os problemas com os nossos pais e as questões da autoridade se originaram.

Temos de permitir recordar certos momentos que devido à sua intensidade foram remetidos para longe na nossa memória.

É preciso encontrar, contactar e escutar emocionalmente partes nossas.

Não basta saber que tivemos um relacionamento difícil com o nosso pai, é preciso contactar com os sentimentos associados à situação.

Sabemos que pensar racionalmente é importante – mas, por si só, dentro do processo terapêutico, não é suficiente para resolver os nossos problemas psicológicos.

Há uma diferença fundamental entre reconhecer que éramos tímidos enquanto crianças e vivenciar o que era sentir-se intimidado, ignorado e com receio de ser rejeitado ou ridicularizado.

É diferente saber, de uma maneira abstracta, que a nossa mãe não esteve muito focada em nós quando éramos pequenos e re-conectarmos com o que sentíamos quando tentávamos partilhar algumas das nossas necessidades com ela e não conseguíamos.

A psicoterapia permite reviver certos sentimentos. Só quando estamos em contacto com os sentimentos é que podemos corrigi-los com a ajuda das nossas capacidades – agora mais maduras – e, assim, abordar os problemas reais na nossa vida actual.

É preciso encontrar, contactar e escutar partes nossas – talvez pela primeira vez – para que possam ser ao mesmo tempo tranquilizadas e revigoradas.

É com base neste tipo de conhecimento emocional arduamente conquistado, e não no seu tipo racional, que podemos encontrar uma forma de resolver os nossos problemas internos.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de “Knowing things intellectually vs. knowing them emotionally”

Dormir na Cama dos Pais Pedro Martins Psicoterapeuta

Dormir na Cama dos Pais

Muito se tem escrito sobre a vontade dos filhos irem dormir para a cama do casal e se os pais devem ou não permitir.

Mas fala-se menos sobre a vontade dos pais terem os filhos a dormir com eles, e, em alguns casos, a permanecer lá durante anos.

De uma maneira geral, aconselha-se que a criança durma sozinha a partir do quarto ou sexto mês de vida, no sentido de favorecer o desenvolvimento da sua autonomia.

Para que a criança possa desenvolver a “capacidade de estar só” – Winnicott -, é importante que os pais a coloquem a dormir sozinha.

O simples facto de a criança dormir sozinha faz com que a “capacidade de estar só” se desenvolva?

A resposta é não.

O desenvolvimento da autonomia está dependente das características do vínculo mãe-bebé. 

O desenvolvimento da “capacidade de estar só” está dependente do vínculo mãe-bebé. São as características deste vínculo que determinam se este processo será mais fácil ou mais difícil.

PAIS QUE DORMEM COM OS FILHOS

Nem sempre são os filhos a ir para a cama dos pais. Há casos em que acontece o contrário.

Devido aos medos que a criança manifesta na hora de adormecer muitos pais (a mãe ou o pai) dormem na cama dos filhos e por lá ficam.

Uns ficam umas horas, outros uns dias.

Mas temos também os pais que, aparentemente, trocaram de forma definitiva, a sua cama pela dos filhos.

O contrário também acontece, com os filhos a permanecer indefinidamente na cama dos pais.

Este funcionamento, de tão prolongado, adquire um carácter de normalidade.

Em ambos os casos a intimidade do casal está ameaçada ou, pelo menos, condicionada.

Muitas vezes, o nascimento de um filho é uma excelente justificação para os pais dormirem separados ou porem os filhos a dormir com eles, contornando, assim, os problemas pré-existentes no casal.

Ao mesmo tempo, o nascimento de um filho mexe, em certos casos, profundamente com a vida do casal:

O cansaço físico e emocional; a mãe que não aceita o seu corpo depois da gravidez, e por isso se afasta para não ter contacto íntimo com o parceiro; o pai que sente ciúmes do tempo que a mãe dedica ao filho; a diminuição do desejo sexual; etc.

Por vezes as mães sentem-se culpadas por continuarem a ser mulheres, depois da maternidade.

É como se o novo papel de mãe, para ser exercido plenamente implicasse recusar a sua feminilidade, e as coisas a ela associadas.

É muito importante que o pai não se afaste como homem e faça sentir à mãe que ela ainda é uma mulher desejada e com desejos.

Isto é importante para o casal como para o filho, na medida em que a mãe não busca somente na criança a gratificação afectiva.

 A presença dos filhos na cama dos pais é uma ameaça à intimidade do casal.

Existem casos em que as mães têm medo de que algo fatal possa acontecer com o bebé se não dormirem com ele.

Passam grande parte da noite acordadas a ouvir o batimento cardíaco do bebé e a respiração, para se assegurarem que continua vivo.

Normalmente, isto está associado a sentimentos de culpa.

Por vezes, a ansiedade, o medo e a angústia dos pais é apaziguada de forma mais cómoda colocando os filhos a dormir com eles na cama do casal.

Nos casos em que um filho passou por uma situação traumática, ou na elaboração de certas perdas, dormir com a criança durante um tempo pode ser importante para recuperar a confiança e, aos poucos, voltar para a sua cama.

FILHOS QUE DORMEM COM OS PAIS

Nos casos em que a cama é compartilhada, é habitual que a criança durma com os pais, sempre ou alternadamente até chegar aos dois ou três anos de vida e depois vá para o seu quarto, sem qualquer implicação emocional para a criança ou para os pais.

Portanto, no nosso caso, a questão não é dormir ou não dormir na cama do casal, mas saber o que leva os pais a fazerem-no.

Em abstracto podemos dizer que as coisas vão bem quando é a criança que quer dormir com os pais e não tanto, quando são os pais que precisam de dormir com os filhos.

Por que algumas pessoas têm tanta dificuldade de admitir os seus erros - Pedro Martins Psicoterapeuta

Por que algumas pessoas têm tanta dificuldade de admitir os seus erros?

Todos cometemos erros com alguma regularidade.

Alguns erros são pequenos, como: “Não, não é preciso pararmos no supermercado, há leite que chegue para o pequeno-almoço”.

Alguns maiores, como: “Não é preciso andarmos a correr; temos tempo de sobra para chegar ao aeroporto e fazermos o check-in tranquilamente”.

Outros com grandes implicações, como: “Eu sei que estava escuro e a chover, mas tenho certeza de que foi este homem que arrombou a casa do outro lado da rua”.

Ninguém gosta de estar errado. É uma experiência emocional desagradável.

A questão é:

Como respondemos quando descobrimos que estávamos errados?

Quando não havia leite suficiente para o pequeno-almoço; quando apanhámos trânsito e perdemos o voo, ou quando descobrimos que devido à nossa identificação um homem inocente foi preso.

Alguns de nós admitimos que estávamos errados e dizemos: “Oops, tu estavas certa. Deveríamos ter comprado leite”.

Alguns de nós insinuamos que estávamos errados, mas não o fazemos explicitamente ou de uma maneira que seja satisfatória para a outra pessoa: “Tínhamos muito tempo para chegar ao aeroporto a horas, o problema foi o trânsito estar invulgarmente caótico. Mas tudo bem, para a próxima saímos mais cedo.

Mas algumas pessoas recusam admitir que estão erradas, mesmo diante de evidências esmagadoras: “Eles libertaram-no devido aos testes de DNA e à confissão do responsável? Ridículo! Tenho a certeza que foi ele; eu vi que foi ele!”

O que é que psicologicamente torna impossível admitir os erros? O Ego

Os dois primeiros exemplos são, provavelmente, familiares para a maioria de nós, porque são respostas típicas aos nossos erros.

Aceitamos a responsabilidade total ou parcialmente (às vezes, muito, muito parcialmente), mas não contrariamos os factos.

Não alegamos que havia leite suficiente quando não havia, ou que não estávamos atrasados para ir para o aeroporto.

Mas o que leva as pessoas a reagir contra os factos; a não admitir que estavam erradas em qualquer circunstância?

O que é que psicologicamente torna impossível admitir que estavam erradas, mesmo quando é óbvio que estavam?

E porque é que sistematicamente não admitem que estavam erradas?

A resposta está relacionada com o seu ego.

Algumas pessoas têm um ego tão frágil, uma auto-estima tão baixa, uma constituição psicológica tão fraca, que admitir que cometeram um erro ou que estavam erradas é insuportável para os seus egos.

Aceitar que estavam errados, lidar essa realidade, seria tão catastrófico psicologicamente, que a mente faz algo notável para evitar isso:

– Literalmente, distorce a percepção da realidade.

Dessa forma protegem o ego frágil, mudando os próprios factos na sua mente, para que não estejam errados ou sejam culpados.

Nesse sentido, fazem afirmações do tipo:

“Eu verifiquei e havia leite suficiente, alguém deve ter bebido”.

Quando lhes é dito que ninguém esteve em casa depois de saírem, logo, ninguém poderia ter bebido o leite, eles insistem:

“Alguém deve ter bebido, porque eu verifiquei e havia leite”.

As pessoas que repetidamente exibem esse tipo de comportamento são, por definição, psicologicamente muito frágeis.

A rigidez psicológica que apresentam não é um sinal de força, antes uma indicação de fraqueza.

Aliás, a rigidez psicológica, é, regra geral, sinal de fragilidade.

Estas pessoas não decidem manter-se firmes; são obrigadas a fazer isso para protegerem os seus egos frágeis.

Para admitir os nossos erros é necessária uma certa capacidade emocional.

Normalmente ficamos aborrecidos quando erramos, mas superamos isso.

Entre os que superam os erros, temos uns que o fazem com muita dificuldade: os perfeccionistas.

Mas quando as pessoas são constitucionalmente incapazes de admitir que erraram, quando não conseguem tolerar a ideia de que podem cometer erros, é porque têm um ego demasiado frágil para superar o sentimento de que falharam.

Daí terem que deformar a própria percepção da realidade e contestar factos óbvios no sentido de se defenderem de forma rígida contra a realidade.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins a partir de:

Why It’s So Hard for Some People to Admit They Were Wrong – Guy Winch

Compreender a Ansiedade Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico.

Compreender a Ansiedade (parte II)

ANSIEDADE EXISTENCIAL

E se a ansiedade não estiver ligada a nenhuma situação recente, mudança ou evento stressante?

E se de alguma forma a ansiedade surgir do nada? Na verdade, às vezes, a ansiedade pode surgir inesperadamente quando certas situações nos levam a reflectir sobre “o estado” da nossa vida.

Inevitavelmente, todas as pessoas terão que considerar a sua morte. É mais provável que isso aconteça após uma situação em que alguém se viu confrontado com a morte; aquando da perda de um ente querido ou, simplesmente, de olhar para o futuro.

No entanto, a ansiedade existencial também pode surgir em circunstâncias agradáveis.

Por vezes, o nervosismo pode surgir com a tomada de consciência de que nenhum momento dura para sempre, e até o momento mais feliz acabará.

Como seres humanos, apreciamos tanto esses momentos que “deixá-los ir” pode gerar ansiedade.

A ansiedade existencial também pode surgir em circunstâncias agradáveis.

Mesmo que não estejamos a reflectir sobre questões de vida/morte, a ansiedade existencial pode surgir quando pensamos sobre os nossos objectivos, valores, ou planeamos o futuro.

Queremos que as coisas que fazemos e desejamos na vida tenham um propósito e um significado.

Quando os empregos, hobbies, relacionamentos ou objectivos pessoais começam a perder o propósito, a angústia e o mal-estar podem aparecer.

Pode parecer estranho, mas além das coisas desagradáveis que ansiedade existencial nos faz sentir, também está a enviar-nos uma mensagem importante.

Imaginemos que o João seguiu o desejo do pai de que ele também fosse advogado.

O João não questionou essa decisão nem pensou se esse objectivo estava de acordo com os seus desejos e valores. Apenas o seguiu diligentemente, convencido de que era isso que queria.

No entanto, após vários anos a exercer, sente-se cada vez mais nervoso, preocupado com coisas insignificantes e incapaz de dormir à noite, não encontrando nenhuma razão concreta para as insónias.

O trabalho é pouco gratificante. Ele esperava que ao atingir o objectivo (ser advogado) se sentiria completo, mas sente-se mais vazio do que nunca.

Neste caso, os sentimentos de ansiedade existencial, embora dolorosos, podem ser uma ajuda, encaminhando-o na direcção da auto-reflexão:

Quais são os meus objectivos? Ser advogado encaixa naquilo que desejo? É verdadeiramente significativo para mim? Que acções ou papéis marcantes estão a faltar na minha vida?

A ansiedade existencial pode ser comparada a um simpático bichinho que vive na nossa consciência.

Às vezes é esse bichinho que (no pior momento possível!) nos vem lembrar que a vida pode ser mais do que um conjunto de tarefas rotineiras e mundanas, e que uma vida com propósito e com objectivos é muito importante.

Essencialmente, a ansiedade existencial:

Pode, ou não, ser desencadeada por uma situação ou por um evento stressante. É um sentimento que surge, para a maioria das pessoas, de vez em quando.

Não há necessariamente um problema óbvio ligado à ansiedade existencial. No entanto, isso pode ajudar-nos a reflectir sobre questões importantes:

Porque faço isto? Porque o meu trabalho é importante para mim? O que é verdadeiramente significativo para mim? O que eu valorizo? Que pessoa quero ser nos relacionamentos? Etc.

Compartilhar a ansiedade existencial com os outros pode fazer com que nos sintamos menos sozinhos e mais capacitados para fazer escolhas de acordo com as nossas convicções.

No entanto, a vida trará sempre novas questões sobre as quais reflectir.

Criar conexões significativas e fazer escolhas consistentes com os nossos valores, são algumas das coisas que podem ajudar a combater a ansiedade existencial.

Agora que falámos um pouco sobre exemplos em que a ansiedade pode ser desconfortável, mas ao mesmo tempo útil, vamos falar sobre o que acontece quando a ansiedade se torna tão intensa que começa a atrapalhar mais do que a ajudar.

Neste caso podemos designá-la de ANSIEDADE DISFUNCIONAL

Em última instância até a ansiedade disfuncional tem alguma utilidade. No entanto, é preciso considerar os custos/benefícios.

A ansiedade disfuncional pode impedir-nos de atingir os nossos objectivos com mais frequência do que nos ajuda a alcançá-los.

É como se fosse um alarme de incêndio que faz um barulho ensurdecedor e que não se desliga. Tanto faz que se tenha queimado uma torrada ou que a casa esteja a arder: os sensores estão desligados, por isso não consegue avaliar a dimensão do problema.

A Ansiedade disfuncional pode impedir-nos de atingir os nossos objectivos.

As ameaças e os perigos são sentidos em todos os lugares, mesmo nos lugares seguros.

Existem maneiras diferentes disso se manifestar. Temos, por exemplo, padrões específicos de ansiedade (disfuncional) que surgem repetidamente, como a perturbação da ansiedade generalizada, ansiedade social, fobia específica, transtornos obsessivos, stress pós-traumático.

A ameaça que a pessoa experimenta em cada um destes padrões é um pouco diferente.

Quando uma pessoa experimenta ansiedade social severa, por exemplo, teme que as outras pessoas a julguem ou excluam. Esse medo pode evoluir e ter vida própria, levando a outras possibilidades assustadoras:

“E se ninguém gostar de mim?”; “E se os meus amigos apenas fingem que gostam de mim?”; “E se eu não conseguir encontrar um parceiro? ”; “ E se eu ficar sozinha para sempre? ”

A perturbação de Stress Pós-Traumático (PTSD) e a perturbação Obsessivo-Compulsiva também tendem a apresentar uma ansiedade significativa.

A PTSD é uma perturbação que ocorre após uma pessoa viver uma experiência traumática, como um assalto ou um acidente de carro.

A ansiedade na PTSD, geralmente, tem a ver com a sensação de ameaça e perigo para a vida ou o bem-estar da pessoa.

Muitas vezes a pessoa pode ter medo de coisas que sentia como seguras: caminhar na rua, (no caso de um assalto); conduzir (no caso de um acidente de automóvel).

A ansiedade disfuncional também pode surgir associada a outros tipos de problemas de saúde mental, como a depressão.

Embora na depressão a dificuldade principal da pessoa possa passar por sentir-se em baixo e triste, ela pode ficar preocupada e muito mais ansiosa do que costumava ficar em relação a várias questões.

A Ansiedade disfuncional sobrestima o perigo

Basicamente, a ansiedade disfuncional, é a ansiedade que gera certo tipo de pensamentos (preocupações excessivas, receios de rejeição, expectativas de fracasso), de sentimentos (nervosismo, angústia) e de estados físicos (tensão, dores abdominais, dificuldade de concentração) que não são proporcionais à ameaça real.

Quando vamos a uma festa para conhecer novas pessoas, por exemplo, corremos o risco de que algumas das pessoas que nos são apresentadas não gostem de nós.

No entanto, a ansiedade vai focar-se apenas nisso e irá ignorar outras possibilidades: que há pessoas na festa que podem sentir-se neutras em relação a nós ou achar que somos interessantes, engraçados, etc.

A ansiedade disfuncional amplia as coisas a um ponto que se assemelham a uma catástrofe.

Se conhecer uma pessoa na festa e ela não simpatizar consigo por um motivo qualquer, é pouco provável que tenha um impacto significativo na sua saúde, objectivos, trabalho ou relacionamentos.

Contudo, a ansiedade disfuncional tece uma teia de pensamentos em que um evento trivial parece conduzir a todos os tipos de tragédias no futuro: não ter amigos, ficar sozinho para sempre, etc..

Simplificando, a ansiedade disfuncional sobrestima o perigo e subestima os nossos recursos internos e externos.

É fundamental compreender o que estamos a sentir para tomar decisões informadas sobre o que realmente fazer em relação aos vários tipos de ansiedade.

Se, por exemplo, estamos a lidar com a ansiedade útil e funcional, mas a confundimos com a ansiedade disfuncional podemos seguir o caminho perigoso de tentar eliminar algo que é de facto valioso e útil.

Em resumo, a ansiedade disfuncional:

Geralmente, a ansiedade não é proporcional à situação, contexto ou evento, e é, frequentemente, excessiva e avassaladora.

Muitas vezes leva a evitar pessoas, lugares ou situações que são temidas. Prejudica os nossos objectivos e acções.

Nunca se está verdadeiramente tranquilo: a ansiedade não desaparece, somente diminui por um curto período de tempo.

Como podemos saber que tipo de ansiedade estamos a sentir?

Antes de mais, é preciso dizer que as pessoas podem experimentar os vários tipos de ansiedade – às vezes, até no mesmo dia!

É importante ter presente que os vários tipos de ansiedade não são mutuamente exclusivos.

Alguém com ansiedade social poder ter um pavor existencial, ou um ataque de pânico depois de receber más notícias sobre o trabalho. Também pode ter uma preocupação perfeitamente funcional em relação a uma cirurgia que é necessário agendar.

A ansiedade disfuncional é mais rara, e a ansiedade funcional está presente no dia-a-dia da maioria das pessoas. A ansiedade existencial costuma aparecer sem convite.

Adaptado por Pedro Martins a partir de: “Understand Anxiety” – Alina Sotskova

Realismo Romântico - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

“Realismo Romântico”

“Realismo romântico” – Sete regras para evitar uma separação   Esperamos que o amor seja a fonte …

Porque as pessoas são más. Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Por que é que as pessoas são más?

Por que é que as pessoas são más? Maldade – origem e reprodução Algumas crianças não são muito simpáticas para …

Por que é tão difícil parar de consumir álcool e drogas Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Por que é tão difícil parar de consumir álcool e drogas?

Estar sobre o efeito de drogas pode permitir o aparecimento de partes de si que estão escondidas.   Os programas de …